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Condenem! Minha alma, Meu corpo For favor!
Condenem-me! Por viver ao contrário da vida, Estilo que criei, Gostar da alegria de pernas para o ar, Até ficar-mos azuis ou vermelhos. Fico alegre assim.
Condenem-me! Por usar as pessoas, A vitima em que me torno, Para sofrer e sofrerem. Relações impossíveis, Cálice da vida eterna.
Condenem-me! Por amar a lua, E me achar seu dono, Seu único filho As estrelas mãe.
Condenem-me! Pelo crime contra a morte, Suicídio falhado.
Condenem-me! Porque meu corpo é papel E preciso mais das letras Do que da carne.
Condenem-me! Tudo em que toco, Se transforma em letras, Sou um monstro insaciável.
Condenem-me! Para sentir as barras de aço Como gelo na face Aprisionado corpo.
Condenem-me! Por assim me sentir feliz mais infeliz Trabalho melhor.
Condenem-me! Minha forma são alfabetos dispostos Para me desfazer na literatura, Escoando-me pela ponta dos dedos.
Condenem-me! Só assim ficarei mais triste, Alegre por o ter conseguido Cheio de vida E pedir desculpas á morte Por ter falhado. Agora vou conseguir!
Nelson Aires
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Saciaram a sede com o mar, Alguém bebeu de sua água, Um gigante talvez. Agora o manto de areia Governa planamente.
Onda vem Desenrolando-se na areia, Onda vai Levando memórias, Alimento da sereia.
Fazendo espuma, Bolhas de sal, Cortinados de água, Lençóis engomados de areia.
Caminho junto á orla de espuma Pelas línguas de areia, Vejo as marcas do rebolar dos nossos corpos, Ficávamos tontos...
Uma onda invadia a areia E com a espuma Passávamos a mão No corpo um do outro, Esfregavas-me as costas Eu sorria... Esfregava teus pés, Tu rias-te ás gargalhadas.
Com as bolhas de sal, Completávamos o banho sensorial, Nosso divertimento, Olhar nosso reflexo Nas bolhas e ver o que não existia, Depois elas rebentavam...
Com o cortinado de água A correr pela fina areia, Me lembro da janela, Do quarto onde... Nunca estivemos...
No lençol de sílica Onde rebolávamos, Me lembro do cetim, Da cama, Do quarto onde... Nunca estivemos...
Das dunas Nos amávamos secretamente, Me lembro da... Almofada do teu ombro, Do teu corpo, No quarto onde... Nunca estivemos...
Dos cristais de areia Que víamos a brilhar, Me lembro do candeeiro Ao lado da cama... Que nunca o acendi E via teus olhos semicerrados Para conter o prazer O meu prazer Tinhas vergonha, És tão tola... No quarto onde... Nunca estivemos...
O pôr do sol Que nos tingia de vermelho, Me dizias: Agora sim, Nos teus braços morreria... Estou completa...
O pôr do sol Me lembrava O quadro Na parede do quarto Que nunca existiu...
A maré engordava Alimentava-se Da areia fina De nós De mim.
Grãos de areia molhada Me tornei Dispersos pelas marcas Em que estive contigo, Aqui, ali e acolá, Na praia Onde nunca estivemos...
Nelson Aires 24/03/00
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Cai... cai em gotas, Gotas mil faz a força Gota inofensiva Em mil aguaceiro. Cai... cai em força, Aguaceiro, a raiva do céu Água que bate no pó O levanta no ar, repousando-o Cai... cai livremente, O cheiro da terra molhada, A terra com sede Absorvendo sem deixar, Vestígios da cascata de gotas. Cai... cai, não te esgotes, E limpa o castanho Das flores, das plantas, Liberta o verde, a esperança Prisioneira do pó. Cai... cai além da nuvem, Liberta o arco-íris E nos colorir Neste dia cinzento. Cai... cai nas sete cores, Ponte entre a terra e o céu Cordão umbilical Da terra mãe E o pai céu. Cai... cai me levando, Em bote de água Pelos rios de terra. Cai... cai colar de gotas Em fio de ar Para presentear e vestir O pescoço do meu amar.
Nelson Aires 02/04/00
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Água que corre Ficando aprisionada Num lagar, Lavagem da alma.
Começo por despir Meu calçado, Por onde segui As suas vontades.
Dispo a lã De meu tronco, Onde te encostavas E adormecias inocentemente.
Dispo da ganga Das pernas, Onde nos estendíamos Ao comprido.
Dispo entre as pernas A folha de Adão Onde contém Restos de pudor.
Dispo meu cabelo Fios de seda castanha Onde teu nariz Tuas mãos, se perdiam.
Dispo-me de ti Nua alma me torno O vazio Para reconstruir.
A água sem culpa Vai lavar Os restos que mancham Minha pele.
Nelson Aires 26/03/00
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Peço-vos para...
Não chorarem o que canto Não sonharem Com as letras de meu encanto Analogias minhas.
Não escrevo para...
Vós, Ela, A vida. Escrevo para mim.
Não me roubem...
A intimidade dos lençóis brancos A vida preto no branco em negativo O sentido do amor sem sentido O seu perfume na tinta camuflado.
Deixem-se de...
Sentir como se fosse vosso, O que vivo, O que vivi. É meu, só meu.
Escrevo para...
Me digitalizar, A digitalizar, A ela, Á vida.
Escrevo ainda para...
Gravar meu presente em: Na água emoções, No ar tristezas, No fogo alegrias, Na terra amores passados.
Mais uma vez deixem-se de...
Analisar o papel Onde estou digitalizado. Eu é que tenho de entender, Não vocês.
Ainda insistem?...
Não me plagiem Para as vossas vidas. Que culpa tenho eu, Que vos falte algo?
Pela última vez...
Não escrevo para vós! Nem o quero, já são crescidos. Me imprimo em papel vegetal Para minha alma Usar como calquitos, Noutra vida, no outro lado, Quero exactamente o mesmo...
Nelson Aires 22/03/00
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Á noite te recolhes Embrulhas-te em leveza Na penumbra do meu olhar O sono da tua beleza. Acordas com a frescura pousada Das gotas de orvalho ressoado, Da humidade condensada Suspiros de nosso amor prateado. Lentamente com o meu olhar Te vais recompondo Desabrochando tua cor, impondo Meu olhar a brilhar. O teu corpo, o caule balança Sustento, enraizado No algodão de minha cama Se endireita, numa dança, Onde me deixas hipnotizado. Teus braços, as folhas Se abrem espreguiçando Abraçando, O ar que respiro, Que te alimenta Em meu retiro. Tua cabeça, essa flor Se ergue, me mostrando As pétalas do teu cabelo, A sombra do teu sossego, A almofada do teu olhar, O pólen néctar de teus lábios Adocicando meu acordar De todas as manhãs...
Nelson Aires 04/04/00
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Como num carreiro De formigas pretas, O cortejo do adeus Caminhava, mas mais lento.
A maioria, mulheres Negro a sua cor, Não o negro daquele dia, Mas o de todos os dias.
Homens também os haviam, Homens de três pernas, Vergados pelo peso do tempo, Os olhos buracos negros De dias como aquele sem nome, Serem já demasiados.
Era um cortejo sem Carro fúnebre Transporte da matéria. Na frente apenas Dois homens acabados de nascer, Empunhavam uma foto... Único sinal de sua existência.
Naquele cortejo O cangalheiro chorou, Pois não havia caixão, Apenas uma foto.
Olho com mais atenção.
Os homens que empunhavam a foto Eram de feições gémeas, Á foto chorada. Filhos órfãos... A mãe de rastos... Agarrada á foto...
No local do adeus, Inaugurando a materialização Do corpo entregue a alguém, As mulheres perdiam A água de sua vida, do seu olhar, Água em que lavavam a cara, Todos os dias antes do sol acordar...
Todas choravam, Não pela foto, Não pela esposa da foto, Mas sim por elas. Sabiam que... Aquele dia... Era um fruto amargo ainda desconhecido...
Como era a foto? Digo antes como era sua vida...
Seu rosto escavado pelo sol, Seus cabelos queimados pelo sal, Suas mãos calejadas Dos cortes da seda, Feridas sempre abertas, A água salgada sem piedade.
As redes, seu apanha pão, Água, a semente do seu alimento, Sal o tempero de sua vida, Saudade o seu passatempo, Solidão como companhia.
Casca de noz, Fazia lembrar um barco, Mas só fazia, Era um faz de conta, Com dois remos E uma vela, Remendada.
Olhava muito, Para a vela amarelada, Branca tinha sido. Sua alma metade Era quem remendava Os buracos dos temporais.
Ah! As sereias! Suas amantes, Dos dias? Das noites? Não sei!
Ele não media o tempo. A não ser quando estava No seu lar, castelos de areia, Bebendo o suor doce, Que sempre lhe perdia o gosto, Quando estava longe, E de vez para vez, Mais doce e aromático.
A sua perdição, O canto dos suspiros De sua amada, Alma gémea.
O sexo, Não aquele que conhecemos, O outro, É desse que falo. Era música para seus ouvidos. Gravada no seu coração, Ele a cantava, Quando antes, do suor quente esfriar, e a noite se deitar, já ele estava com as mãos nas redes e o corpo na casca de noz.
Ela a sua amada, De xaile negro E pele queimada, Pelo desespero, Ainda vai todas as madrugadas Cantar para o mar Esperando, Que o seu pescador, Lhe siga a voz do lamento, Para se deitarem na areia A água seus lençóis.
Nelson Aires 23/03/00
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Abatam as árvores! Com as laminas da tristeza, Trabalhem a madeira Nas histórias da vida.
Desbastem a montanha! Ferramentas? As recordações, Lápide se tornará.
Limpem o pó! De vossos chapéus pretos. Engomem os fatos, Com a água do vosso olhar.
Façam espelhos! Dos vossos sapatos. Quero brilho! Na ultima caminhada.
Subam a bandeira! Que existe em nós, Subam-na, A meia haste.
Deus é um abutre! Arrancou-nos mais um pedaço De nossas vidas.
A sua última caminhada Para a morada eterna Será na lua nova.
A noite irá vestir luto também
Nelson Aires
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Erro monstruoso foi... Erro! Eu disse "erro" E que tal erros É mais correcto. Erro grande foi.. Te julgar como Água... Queria-te, límpida, transparente Mal sabia eu teus segredos Teus desgostos ofuscados sempre Pela limpidez que te impus. Água para beber Saciando-me me beijavas Ingénuo sem o saber Pensei que não te esgotavas Tinha-te num cantil Onde não te renovavas. Água para me lavar Do desejo por ti Sem saber que te polui, Tu sem culpa do meu pecar. Água que usava apaixonadamente E te fechava num cantil Onde lentamente O lodo te crescia fútil Consumia-te sem piedade Eu sem o paladar Com o gosto da comodidade Nunca me apercebi ao te amar. Não te queria á luz do sol Com medo que evaporasses Egoísta fui no meu atol. Teu sol começou a ser O ódio que ia crescendo Ganhando raízes para permanecer No fundo do cantil escurecendo. Ódio que bebi E me engasguei Fora tarde que percebi E te libertei. Libertei-te... Jamais serás livre... Desculpa...
Nelson Aires 31/03/00
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Não Gosto! É verdade sinto isto por ti. Pois olha bem: Não gosto de estar sozinho sem ti. Não gosto quando vais embora de mim. Não gosto que estejas linda todos os dias e eu não te veja. Não gosto que rias sem eu me rir. Não gosto tomes banho sem mim. Não gosto limpes teu corpo sem a minha língua. Não gosto do teu olhar que põem loucos outros homens. Não gosto de nunca ter acordado a teu lado. NÃO gosto de nunca ter brigado contigo. Não gosto que tenhas medo de mim. Não gosto de saberes a resposta sem saber a pergunta. Não gosto de pensar em ti sem falar de ti. Não gosto que morras sem saber o que isto é. Não gosto das horas que passas ao telefone sem me veres. Não gosto que penses nas minhas primaveras. Não gosto da dor no meu peito quando não estou contigo. Não gosto do sentimento entre nós, merecemos mais. Não gosto de me constipar pois não sinto teu cheiro. Não gosto de acordar quando sonho contigo, tenho de tomar banho. Não gosto que estejas molhada sem teres minha mão por perto. Não gosto de ficar sóbrio, fico assim sem ti. Não gosto que fales quando te quero beijar. Não gosto que tenhamos de descansar após um beijo. Não gosto que me conheças. Não gosto de te conhecer. Não gosto do destino, eu e tu sem destino, isso sim. Não gosto de ainda não ter dito "és a melhor foda do mundo". Não gosto de comer, quero é que alimentes de mim. Não gosto quando fazes amor com o Ken, quero ser o Action Man, para te vires. Não gosto de dar flores, para provar meu amor, prefiro foder. Não gosto, não gosto, gosto não, não gosto, gosto não. Não, não gosto. Perdi-lhe o sentido, não gosto de lhe ter perdido o sentido.
Nelson Aires 01/02/00
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Semeio alfabetos Fertilizando-os com o papel, Regando-os com as memórias Na estufa do meu pensamento. A semente do alfabeto se enraíza na areia e se enlaça num afecto de sentimento que tacteia. Com a luz do teu olhar A raiz tímida o chão lavra Mutando-se ao som da tua voz, E com o calor de teus lábios Nascem as primeiras palavras. Da folha uma palavra, De uma flor um verso Se uma floreira um poema Que te perfuma, confesso...
Nelson Aires 03/04/00
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Vivas noites escuras Vento forte cantava Relâmpagos formosuras Chuva que destoava
Zeus nos céus em festa Lançando fogo de artifício Lembranças de terror infesta Nós como suplício
Na terra lado sentido, A velhinha sozinha Sem forças seu ouvido Para suportar o que se avizinha
Os cães com uivos Relembra á lua Lobos com pelos ruivos Á solta pela rua
Os amantes que se amam Com o fogo do desejo A chuva os espreitam Por entre um beijo
A mãe que não dorme Vagueia pelos corredores A filha que não chega A mãe cheia de horrores
O bébé que chora Grito sufocado O trovão frio ignora As lágrimas do desesperado
A criança com o horror Se enfia no seio dos pais Não sentido o pudor, O suor de sua raiz
Eu...
Procuro nos lençóis Fragmentos de amarrotado Tocando para não sentir Meu amor derrotado.
Nelson Aires 21/03/2000
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