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Caminhada

Condenado

Cortinas de Água

Erros

Gotas

Não Gosto

Para te viver

Peas

Pedido

Trovões e Relâmpagos

Uma Flor

Xailes Pretos

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Os Poetas do Canal

 

CONDENADO

 

Condenem!

Minha alma,

Meu corpo

For favor!

 

Condenem-me!

Por viver ao contrário da vida,

Estilo que criei,

Gostar da alegria de pernas para o ar,

Até ficar-mos azuis ou vermelhos.

Fico alegre assim.

 

Condenem-me!

Por usar as pessoas,

A vitima em que me torno,

Para sofrer e sofrerem.

Relações impossíveis,

Cálice da vida eterna.

 

Condenem-me!

Por amar a lua,

E me achar seu dono,

Seu único filho

As estrelas mãe.

 

Condenem-me!

Pelo crime contra a morte,

Suicídio falhado.

 

Condenem-me!

Porque meu corpo é papel

E preciso mais das letras

Do que da carne.

 

Condenem-me!

Tudo em que toco,

Se transforma em letras,

Sou um monstro insaciável.

 

Condenem-me!

Para sentir as barras de aço

Como gelo na face

Aprisionado corpo.

 

Condenem-me!

Por assim me sentir

feliz mais infeliz

Trabalho melhor.

 

Condenem-me!

Minha forma são alfabetos dispostos

Para me desfazer na literatura,

Escoando-me pela ponta dos dedos.

 

Condenem-me!

Só assim ficarei mais triste,

Alegre por o ter conseguido

Cheio de vida

E pedir desculpas á morte

Por ter falhado.

Agora vou conseguir!

 

 

Nelson Aires

 

 

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CORTINAS DE ÁGUA

 

 

Saciaram a sede com o mar,

Alguém bebeu de sua água,

Um gigante talvez.

Agora o manto de areia

Governa planamente.

 

Onda vem

Desenrolando-se na areia,

Onda vai

Levando memórias,

Alimento da sereia.

 

Fazendo espuma,

Bolhas de sal,

Cortinados de água,

Lençóis engomados de areia.

 

Caminho junto á orla de espuma

Pelas línguas de areia,

Vejo as marcas do rebolar dos nossos corpos,

Ficávamos tontos...

 

Uma onda invadia a areia

E com a espuma

Passávamos a mão

No corpo um do outro,

Esfregavas-me as costas

Eu sorria...

Esfregava teus pés,

Tu rias-te ás gargalhadas.

 

Com as bolhas de sal,

Completávamos o banho sensorial,

Nosso divertimento,

Olhar nosso reflexo

Nas bolhas e ver o que não existia,

Depois elas rebentavam...

 

Com o cortinado de água

A correr pela fina areia,

Me lembro da janela,

Do quarto onde...

Nunca estivemos...

 

No lençol de sílica

Onde rebolávamos,

Me lembro do cetim,

Da cama,

Do quarto onde...

Nunca estivemos...

 

Das dunas

Nos amávamos secretamente,

Me lembro da...

Almofada do teu ombro,

Do teu corpo,

No quarto onde...

Nunca estivemos...

 

Dos cristais de areia

Que víamos a brilhar,

Me lembro do candeeiro

Ao lado da cama...

Que nunca o acendi

E via teus olhos semicerrados

Para conter o prazer

O meu prazer

Tinhas vergonha,

És tão tola...

No quarto onde...

Nunca estivemos...

 

O pôr do sol

Que nos tingia de vermelho,

Me dizias:

Agora sim,

Nos teus braços morreria...

Estou completa...

 

O pôr do sol

Me lembrava

O quadro

Na parede do quarto

Que nunca existiu...

 

A maré engordava

Alimentava-se

Da areia fina

De nós

De mim.

 

Grãos de areia molhada

Me tornei

Dispersos pelas marcas

Em que estive contigo,

Aqui, ali e acolá,

Na praia

Onde nunca estivemos...

 

 

Nelson Aires 24/03/00

 

 

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GOTAS

 

 

Cai... cai em gotas,

Gotas mil faz a força

Gota inofensiva

Em mil aguaceiro.

Cai... cai em força,

Aguaceiro, a raiva do céu

Água que bate no pó

O levanta no ar, repousando-o

Cai... cai livremente,

O cheiro da terra molhada,

A terra com sede

Absorvendo sem deixar,

Vestígios da cascata de gotas.

Cai... cai, não te esgotes,

E limpa o castanho

Das flores, das plantas,

Liberta o verde, a esperança

Prisioneira do pó.

Cai... cai além da nuvem,

Liberta o arco-íris

E nos colorir

Neste dia cinzento.

Cai... cai nas sete cores,

Ponte entre a terra e o céu

Cordão umbilical

Da terra mãe

E o pai céu.

Cai... cai me levando,

Em bote de água

Pelos rios de terra.

Cai... cai colar de gotas

Em fio de ar

Para presentear e vestir

O pescoço do meu amar.

 

 

Nelson Aires 02/04/00

 

 

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PEAS

 

 

Água que corre

Ficando aprisionada

Num lagar,

Lavagem da alma.

 

Começo por despir

Meu calçado,

Por onde segui

As suas vontades.

 

Dispo a lã

De meu tronco,

Onde te encostavas

E adormecias inocentemente.

 

Dispo da ganga

Das pernas,

Onde nos estendíamos

Ao comprido.

 

Dispo entre as pernas

A folha de Adão

Onde contém

Restos de pudor.

 

Dispo meu cabelo

Fios de seda castanha

Onde teu nariz

Tuas mãos, se perdiam.

 

Dispo-me de ti

Nua alma me torno

O vazio

Para reconstruir.

 

A água sem culpa

Vai lavar

Os restos que mancham

Minha pele.

 

 

 

Nelson Aires 26/03/00

 

 

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PEDIDO

 

 

Peço-vos para...

 

Não chorarem o que canto

Não sonharem

Com as letras de meu encanto

Analogias minhas.

 

Não escrevo para...

 

Vós,

Ela,

A vida.

Escrevo para mim.

 

Não me roubem...

 

A intimidade dos lençóis brancos

A vida preto no branco em negativo

O sentido do amor sem sentido

O seu perfume na tinta camuflado.

 

Deixem-se de...

 

Sentir como se fosse vosso,

O que vivo,

O que vivi.

É meu, só meu.

 

Escrevo para...

 

Me digitalizar,

A digitalizar,

A ela,

Á vida.

 

Escrevo ainda para...

 

Gravar meu presente em:

Na água emoções,

No ar tristezas,

No fogo alegrias,

Na terra amores passados.

 

Mais uma vez deixem-se de...

 

Analisar o papel

Onde estou digitalizado.

Eu é que tenho de entender,

Não vocês.

 

Ainda insistem?...

 

Não me plagiem

Para as vossas vidas.

Que culpa tenho eu,

Que vos falte algo?

 

Pela última vez...

 

Não escrevo para vós!

Nem o quero, já são crescidos.

Me imprimo em papel vegetal

Para minha alma

Usar como calquitos,

Noutra vida, no outro lado,

Quero exactamente o mesmo...

 

Nelson Aires 22/03/00

 

 

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UMA FLOR

 

 

Á noite te recolhes

Embrulhas-te em leveza

Na penumbra do meu olhar

O sono da tua beleza.

Acordas com a frescura pousada

Das gotas de orvalho ressoado,

Da humidade condensada

Suspiros de nosso amor prateado.

Lentamente com o meu olhar

Te vais recompondo

Desabrochando tua cor, impondo

Meu olhar a brilhar.

O teu corpo, o caule balança

Sustento, enraizado

No algodão de minha cama

Se endireita, numa dança,

Onde me deixas hipnotizado.

Teus braços, as folhas

Se abrem espreguiçando

Abraçando,

O ar que respiro,

Que te alimenta

Em meu retiro.

Tua cabeça, essa flor

Se ergue, me mostrando

As pétalas do teu cabelo,

A sombra do teu sossego,

A almofada do teu olhar,

O pólen néctar de teus lábios

Adocicando meu acordar

De todas as manhãs...

 

 

Nelson Aires 04/04/00

 

 

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XAILES PRETOS

 

 

Como num carreiro

De formigas pretas,

O cortejo do adeus

Caminhava, mas mais lento.

 

A maioria, mulheres

Negro a sua cor,

Não o negro daquele dia,

Mas o de todos os dias.

 

Homens também os haviam,

Homens de três pernas,

Vergados pelo peso do tempo,

Os olhos buracos negros

De dias como aquele sem nome,

Serem já demasiados.

 

Era um cortejo sem

Carro fúnebre

Transporte da matéria.

Na frente apenas

Dois homens acabados de nascer,

Empunhavam uma foto...

Único sinal de sua existência.

 

Naquele cortejo

O cangalheiro chorou,

Pois não havia caixão,

Apenas uma foto.

 

Olho com mais atenção.

 

Os homens que empunhavam a foto

Eram de feições gémeas,

Á foto chorada.

Filhos órfãos...

A mãe de rastos...

Agarrada á foto...

 

No local do adeus,

Inaugurando a materialização

Do corpo entregue a alguém,

As mulheres perdiam

A água de sua vida, do seu olhar,

Água em que lavavam a cara,

Todos os dias antes do sol acordar...

 

Todas choravam,

Não pela foto,

Não pela esposa da foto,

Mas sim por elas.

Sabiam que...

Aquele dia...

Era um fruto amargo

ainda desconhecido...

 

Como era a foto?

Digo antes como era sua vida...

 

Seu rosto escavado pelo sol,

Seus cabelos queimados pelo sal,

Suas mãos calejadas

Dos cortes da seda,

Feridas sempre abertas,

A água salgada sem piedade.

 

As redes, seu apanha pão,

Água, a semente do seu alimento,

Sal o tempero de sua vida,

Saudade o seu passatempo,

Solidão como companhia.

 

Casca de noz,

Fazia lembrar um barco,

Mas só fazia,

Era um faz de conta,

Com dois remos

E uma vela,

Remendada.

 

Olhava muito,

Para a vela amarelada,

Branca tinha sido.

Sua alma metade

Era quem remendava

Os buracos dos temporais.

 

Ah! As sereias!

Suas amantes,

Dos dias?

Das noites?

Não sei!

 

Ele não media o tempo.

A não ser quando estava

No seu lar, castelos de areia,

Bebendo o suor doce,

Que sempre lhe perdia o gosto,

Quando estava longe,

E de vez para vez,

Mais doce e aromático.

 

A sua perdição,

O canto dos suspiros

De sua amada,

Alma gémea.

 

O sexo,

Não aquele que conhecemos,

O outro,

É desse que falo.

Era música

para seus ouvidos.

Gravada no seu coração,

Ele a cantava,

Quando antes,

do suor quente esfriar,

e a noite se deitar,

já ele estava com

as mãos nas redes

e o corpo na casca de noz.

 

Ela a sua amada,

De xaile negro

E pele queimada,

Pelo desespero,

Ainda vai todas as madrugadas

Cantar para o mar

Esperando,

Que o seu pescador,

Lhe siga a voz do lamento,

Para se deitarem na areia

A água seus lençóis.

 

 

Nelson Aires 23/03/00

 

 

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CAMINHADA

 

 

Abatam as árvores!

Com as laminas da tristeza,

Trabalhem a madeira

Nas histórias da vida.

 

Desbastem a montanha!

Ferramentas?

As recordações,

Lápide se tornará.

 

Limpem o pó!

De vossos chapéus pretos.

Engomem os fatos,

Com a água do vosso olhar.

 

Façam espelhos!

Dos vossos sapatos.

Quero brilho!

Na ultima caminhada.

 

Subam a bandeira!

Que existe em nós,

Subam-na,

A meia haste.

 

Deus é um abutre!

Arrancou-nos mais um pedaço

De nossas vidas.

 

A sua última caminhada

Para a morada eterna

Será na lua nova.

 

A noite irá vestir luto também

 

Nelson Aires

 

 

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ERROS

 

 

Erro monstruoso foi...

Erro! Eu disse "erro"

E que tal erros

É mais correcto.

Erro grande foi..

Te julgar como Água...

Queria-te, límpida, transparente

Mal sabia eu teus segredos

Teus desgostos ofuscados sempre

Pela limpidez que te impus.

Água para beber

Saciando-me me beijavas

Ingénuo sem o saber

Pensei que não te esgotavas

Tinha-te num cantil

Onde não te renovavas.

Água para me lavar

Do desejo por ti

Sem saber que te polui,

Tu sem culpa do meu pecar.

Água que usava apaixonadamente

E te fechava num cantil

Onde lentamente

O lodo te crescia fútil

Consumia-te sem piedade

Eu sem o paladar

Com o gosto da comodidade

Nunca me apercebi ao te amar.

Não te queria á luz do sol

Com medo que evaporasses

Egoísta fui no meu atol.

Teu sol começou a ser

O ódio que ia crescendo

Ganhando raízes para permanecer

No fundo do cantil escurecendo.

Ódio que bebi

E me engasguei

Fora tarde que percebi

E te libertei.

Libertei-te...

Jamais serás livre...

Desculpa...

 

Nelson Aires 31/03/00

 

 

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NÃO GOSTO

 

 

Não Gosto!

É verdade sinto isto por ti.

Pois olha bem:

Não gosto de estar sozinho sem ti.

Não gosto quando vais embora de mim.

Não gosto que estejas linda todos os dias e eu não te veja.

Não gosto que rias sem eu me rir.

Não gosto tomes banho sem mim.

Não gosto limpes teu corpo sem a minha língua.

Não gosto do teu olhar que põem loucos outros homens.

Não gosto de nunca ter acordado a teu lado.

NÃO gosto de nunca ter brigado contigo.

Não gosto que tenhas medo de mim.

Não gosto de saberes a resposta sem saber a pergunta.

Não gosto de pensar em ti sem falar de ti.

Não gosto que morras sem saber o que isto é.

Não gosto das horas que passas ao telefone sem me veres.

Não gosto que penses nas minhas primaveras.

Não gosto da dor no meu peito quando não estou contigo.

Não gosto do sentimento entre nós, merecemos mais.

Não gosto de me constipar pois não sinto teu cheiro.

Não gosto de acordar quando sonho contigo, tenho de tomar banho.

Não gosto que estejas molhada sem teres minha mão por perto.

Não gosto de ficar sóbrio, fico assim sem ti.

Não gosto que fales quando te quero beijar.

Não gosto que tenhamos de descansar após um beijo.

Não gosto que me conheças.

Não gosto de te conhecer.

Não gosto do destino, eu e tu sem destino, isso sim.

Não gosto de ainda não ter dito "és a melhor foda do mundo".

Não gosto de comer, quero é que alimentes de mim.

Não gosto quando fazes amor com o Ken, quero ser o Action Man, para te vires.

Não gosto de dar flores, para provar meu amor, prefiro foder.

Não gosto, não gosto, gosto não, não gosto, gosto não.

Não, não gosto.

Perdi-lhe o sentido, não gosto de lhe ter perdido o sentido.

 

 

Nelson Aires 01/02/00

 

 

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PARA TE VIVER

 

 

Semeio alfabetos

Fertilizando-os com o papel,

Regando-os com as memórias

Na estufa do meu pensamento.

A semente do alfabeto

se enraíza na areia

e se enlaça num afecto

de sentimento que tacteia.

Com a luz do teu olhar

A raiz tímida o chão lavra

Mutando-se ao som da tua voz,

E com o calor de teus lábios

Nascem as primeiras palavras.

Da folha uma palavra,

De uma flor um verso

Se uma floreira um poema

Que te perfuma, confesso...

 

 

Nelson Aires 03/04/00

 

 

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TROVÕES E RELÂMPAGOS

 

 

Vivas noites escuras

Vento forte cantava

Relâmpagos formosuras

Chuva que destoava

 

Zeus nos céus em festa

Lançando fogo de artifício

Lembranças de terror infesta

Nós como suplício

 

Na terra lado sentido,

A velhinha sozinha

Sem forças seu ouvido

Para suportar o que se avizinha

 

Os cães com uivos

Relembra á lua

Lobos com pelos ruivos

Á solta pela rua

 

Os amantes que se amam

Com o fogo do desejo

A chuva os espreitam

Por entre um beijo

 

A mãe que não dorme

Vagueia pelos corredores

A filha que não chega

A mãe cheia de horrores

 

O bébé que chora

Grito sufocado

O trovão frio ignora

As lágrimas do desesperado

 

A criança com o horror

Se enfia no seio dos pais

Não sentido o pudor,

O suor de sua raiz

 

Eu...

 

Procuro nos lençóis

Fragmentos de amarrotado

Tocando para não sentir

Meu amor derrotado.

 

 

Nelson Aires 21/03/2000

 

 

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