direcção de fotografia Rui Poças

 

Hora da Morte

de José Nascimento

 

«Os Crimes que faltam
por Vasco Câmara, in suplemento Y, Público, 11/01/2002

Depois do telefilme de Rita Nunes, "Contas do Morto" (RTP 2, domingo passado), a série "Crimes Portugueses", co-produção RTP/Madragoa Filmes, prossegue com "451 Forte", realizado por João Mário Grilo (co-autor, com Paulo Filipe Monteiro, dos argumentos de todos os filmes da série), e "A Hora da Morte", dirigido por José Nascimento. São dois óptimos filmes, bastante diferentes entre si por via das diferentes opções (ou diferentes "leituras") tomadas pêlos realizadores perante os argumentos à sua disposição. Mais frio, distanciado e cínico o de João Mário Grilo; mais caloroso, imediato e melodramático o de José Nascimento. Diferenças que não têm apenas a ver com o tratamento formal, mas também, e se calhar sobretudo, com o "acompanhamento" da narrativa. (...)

Para um país-estufa convoca-nos "A Hora da Morte" de José Nascimento. O tempo é o início da década de 70, anos marcelistas de apodrecimento do Estado Novo. Há um jovem da Covilhã (Alexandre Pinto) que chega a Lisboa com uma carta de recomendação para o Juiz Moreira (Rui Morrison), para que este se encarregue de lhe encontrar emprego e o consiga libertar de uma indesejada ida para a guerra no Ultramar. Este é o mote narrativo para um filme que tem tanto de observação social de uma "época" - impecável de subtileza a descrição daquela Lisboa - como de belíssimo ensaio melodramático.

No centro de tudo está a relação que se estabelece entre o juiz e o rapaz (que se chama Júlio, como o sapateiro de Rui Gomes nos "Verdes Anos" de Paulo Rocha), mas dentro desse centro autonomiza-se, e de que maneira, a personagem do juiz. Muito por força desse fantástico actor de cinema que Rui Morrison continua a revelar-se - a personagem do juiz, carregada de zonas de sombra, é "puxada" por Morrison até aos limites suportáveis da indefinição, sem que alguma vez o mínimo tique facial, o mínimo gesto, a mínima inflexão da voz, venha trazer qualquer espécie de luz que afaste as sombras.

É claro que a grande dúvida do filme se prende com a sua suposta homossexualidade (que ele obviamente oculta, por todos os motivos, caso ela exista mesmo), que o põe à mercê da chantagem de um dos envolvidos no processo que tem entre mãos (discreta notação sobre a corrupção e apodrecimento do regime político). Mas essa indefinição transporta-se para todo o "background" da personagem: a contradição entre as suas ideias políticas (crítico do abandono das colónias) e os seus actos (ajudar jovens a fugir à guerra), entre os meios sociais em que se move (da alta sociedade com "pedigree" a festas "clandestinas"), as contradições dentro da família (a filha"proto-hippy"), etc. O juiz Moreira é uma grande personagem de cinema, e é difícil imaginá-la a sê-lo desta maneira com outro actor que não Morrison. A não ser que se fosse ressuscitar um daqueles actores americanos "impassíveis" dos forties e dos fifties.

Mas voltemos ao melodrama. Mesmo que nunca se clarifiquem as reais intenções ou desejos do juiz - a sequência em que ensina Júlio a dançar não é verdadeiramente conclusiva - "A Hora da Morte" desenrola-se como uma história de amor impossível. É essa a direcção que José Nascimento lhe imprime, o que explica que o filme só vacile um pouco quando se dedica à história de amor "possível" - o namoro entre Júlio e a filha do juiz. Com uma aposta claramente narrativa - de toda a série é o filme onde o investimento dramatúrgico é mais intenso - "A Hora da Morte" (morte que é também a do regime) é um filme onde a parábola política e a reflexão social coexistem de modo admirável com o prazer de contar uma história. E é um final em grande para esta série de telefilmes.»

 

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