direcção de fotografia Rui Poças

 

Conversas com Glicínia de Jorge Silva Melo

 

Textos de Imprensa e Outros

nota: Por respeito à autoria dos textos, esta vem sempre referenciada no final dos mesmos

 

 

Maior do que a realidade

Senta-se numa "chaise-longue", de costas para a janela, para os telhados de Lisboa, para o Tejo, de frente para a parede onde está o seu retrato, pintado por Sá Nogueira: um rosto com linhas rectas, boca grande, corpo ligeiramente inclinado, caído.

"Tão frágil e tão suave, muito doce" - diz Jorge Silva Melo de Glicínia Quarttin tal como a actriz foi vista por Sá Nogueira.

Sá Nogueira é "o antagonista" de Silva Melo, o "rival" com quem o encenador/cineasta dialoga em "Conversas com Glicínia", filme-documento que realizou para a actriz que no dia 20 faz 80 anos. E onde esta mulher com nome de flor conversa com o espectador (é exibido na segunda-feira, às 18h, na Culturgest e no dia 5 na Cinemateca Portuguesa, às 21h30; deverá depois sair em DVD).

A tela também esteve sempre presente durante a rodagem, mas desta vez quem estava de frente para ela era Silva Melo, enquanto Glicínia contava histórias - da sua vida, do século. "Não sabia para onde olhar, se para a Glicínia se para o retrato dela!", diz o realizador.

Foi também um retrato de Glicínia, 40 anos depois de Sá Nogueira o ter pintado, que Silva Melo quis fazer com estas conversas - gosta de apanhar a pessoa em movimento, não tanto pelo momento que fica mas para ficar com o esboço. Aliás, durante os 55 minutos do filme só se dá pela presença do realizador num único momento e através da sua voz: "Sá Nogueira fez este retrato seu que eu gosto tanto. Quando é que foi?" Ficamos a saber que Glicínia reconhece o seu corpo, mas em relação à cara tem dificuldade. "Tem aquele ar assim um bocado caído [e inclina-se, enquanto ri] que eu tenho...", diz.

Não se reconhece na cara mas Silva Melo sim: "A maneira como ela olhou para mim quando a conheci... era aquela cara." E aquela cara é a atenção: "É uma mulher muito atenta, que não está direita", descreve Silva Melo ao Y. "O corpo doce, redondinho. Encontrou uma maneira confortável de estar com ela, para dentro, mas atenta".

indomável

A intimidade atravessa estas conversas entre duas pessoas que se conhecem há anos e passa para o espectador - Silva Melo apaga-se atrás da câmara, Glicínia dirige-se espontaneamente a um "tu" invisível que interpela, o espectador.

Silva Melo precisa que a actriz lhe foi apresentada no dia 21 de Fevereiro de 1968, às três da tarde, em casa de Artur Ramos. "Fui a casa dele, tinha 19 anos, estávamos a fazer um ciclo de cinema no Monumental. A Glicínia estava a fazer os primeiros ensaios de 'Dias Felizes', voltou-se para mim e perguntou: 'Então os estudantes parece que andam agitados'. Nessa tarde havia uma manifestação em frente à embaixada americana contra a guerra do Vietname. E eu fui preso. Ela viu um miúdo entrar e quis logo saber o que os estudantes estavam a fazer. Essa curiosidade faz viver a Glicínia."

Glicínia Quartin conta que se lembra de ver na Faculdade de Letras "Anfitrião", pelo grupo onde estavam Silva Melo e Luis Miguel Cintra, que em 1973 fundariam a Cornucópia. "Reconheci a qualidade no espectáculo, despertou-me o desejo de estar ali. Não estavam presos à estética realista e isso agradou-me muito, eram pessoas que tinham coisas para dizer."

Embora pareça que "Conversas com Glicínia" decorreu de um só fôlego, o documento foi rodado em seis dias, em estúdio, depois de o realizador ter deitado para o lixo uma primeira versão (o trabalho começou há um ano, envolveu ainda 12 horas de entrevista que sairá publicada na revista dos Artistas Unidos). "Percebi que a Glicínia - já devia saber! - é indomável. Peço que fale de um assunto e ela fala de outro, tem sempre qualquer coisa extra a dizer."

Em casa, Glicínia comenta a rir: "O que ele quer dizer é que eu sou uma tagarela! Mas ele também me sabe puxar pela língua..."

do lado certo

Propositadamente, essa deambulação manteve-se nas "Conversas...", onde Silva Melo quis que passassem os "ecos que a História vai tendo na própria Glicínia". Fala da literatura que se lia nesse tempo (Vitor Hugo, Dumas, Zola contados pela mãe, pedagoga), da prisão do pai, o jornalista Pinto Quartin, quando tinha quatro anos, fala do bairro da Graça onde vivia e criava miúdos imaginários com quem brincar no quarto (tinha dois irmãos, ambos com nomes inspirados na natureza, Orquídea e Hélio), do mapa em casa onde se marcava o avanço e recuo das forças militares na II Guerra Mundial, da Escola Oficina nº1, que frequentou, projecto inédito onde se misturavam rapazes e raparigas e se aprendia teatro, do Liceu Maria Amália onde se instalou "o horror do sexo oposto".

Filha de pai anarco-sindicalista e de mãe pedagoga e feminista, licenciada em Ciências Biológicas - chegou a ser investigadora antes de escolher o teatro -, Glicínia conta que "esteve sempre num meio ligado à política, ao social, à cultura, à curiosidade de descoberta do interesse do homem como criador" e "isso foi sendo absorvido".

"A Glicínia é muita activa e esteve do lado certo em todas as coisas e no início das coisas: com os anarquistas quando nasceu [o pai era anarco-sindicalista], com o MUD juvenil contra Salazar na Faculdade de Ciências, com os cine-clubes, com os teatros experimentais [nos finais dos anos 50, com Carlos Avilez, Tomás Ribas, Henrique Viana, Paulo Renato, Pedro Bom, Claude-Henri Frèches], com a dramaturgia que nascia à volta de Luiz Francisco Rebello e Jaime Salazar Sampaio, com os primeiros grupos de teatro independentes [fundou Os Bonecreiros e a Cornucópia], no segundo Beckett ["Dias Felizes"] a ser feito em Portugal, no primeiro filme do Cinema Novo ["Dom Roberto", de Ernesto de Sousa]..."

Um percurso marcado pela liberdade, pela "confluência de géneros", pelo lado aventureiro de alguém que, aos 48 anos, no auge da carreira, decidiu entrar na Cornucópia (onde permanece até hoje; é a sua casa) para ser dirigida por jovens 20 anos mais novos. Esse auge da carreira foi a interpretação de "As Criadas", de Genet (espectáculo que Silva Melo viu 12 vezes) depois de a actriz ter movido montanhas para encontrar o encenador espanhol, Vitor Garcia. "Esse lado aventureiro era um lado que gostava de herdar e que gostava de dar - também fiz estas conversas para os meus actores. Estas conversas - quase tudo o que ela diz já a ouvi contar - era uma coisa que gostava muito que o Miguel Borges, o João Meireles [actores dos Artistas Unidos]....ouvissem."

Em Glicínia insinuam-se duas características determinantes, diz o realizador: a educação anarquista e a sensualidade.

e corpo do pecado

Glicínia diz, aliás, no filme que o teatro lhe despertou o instinto da sedução - e isso levou-a ao conhecimento do corpo. "A sedução era palavra tabu na esquerda portuguesa dos anos 40, 50 e 60", lembra Silva Melo. "Havia um puritanismo na esquerda que fazia com que o corpo sensual da Glicínia fosse pecado. Lembro-me da maneira como os espectadores de esquerda viam a famosa combinação que a Glicínia usava em 'A Casa de Bernarda Alba', de Federico García Lorca [em 1966], encenação de Carlos Avilez, que foi muito criticada e discutida. Uma das coisas importantes do anarquismo da Glicínia foi essa sensação de que o ser humano é um corpo e que a ligação com os outros é uma ligação de sensualidade, de sedução, de sensação. E nunca esconder isso. Também foi surpreendente que uma mulher de esquerda fosse fazer um papel tão frívolo como 'A Maluqinha de Arroios' [de André Brun, encenado por Avilez, em 1966]. É esse prazer da frivolidade, da brincadeira que ela foi sempre exigindo de si e dos outros. Com imensa seriedade porque ao mesmo tempo que fazia de saltos e boquilha 'A Maluqinha de Arroios' estava a levar fugitivos políticos para a fronteira. Isto está por contar: a mulher de esquerda em Portugal é sempre uma freira ligada ao partido."

A educação anarquista, o prazer da brincadeira, o ter estudado na Escola Oficina nº 1 criaram essa "espécie de raiva por si próprio, o individualismo de cabeça levantada."

Ainda na "chaise-longue", Glicínia Quartin refere que a sua geração "tinha vergonha de ter corpo" e o riso das senhoras era censurado. Desde miúda que se divertia a dançar e a cantar e desde miúda que o divertimento faz parte da sua vida. A forma como olha para a sedução, diz, não é com malícia: é uma forma de chegar ao outro, "abrir o outro para receber".

"Há muita coisa que fazemos que tem que ser como um jogo. Mas eu não era provocadora. Há pessoas que escapam às regras sociais sem ter que empunhar a bandeira da libertação. Sou o que sou pelo caldo de cultura em que vivi".

Aos 80 anos, a actriz a quem "irrita a escravidão à idade", confessa: "Já não imagino o meu corpo. Perde-se a memória das modificações do corpo." Mantém o olhar optimista, o prazer da brincadeira e recusa assumir o papel de quem já viu tudo. Ela, que não gosta de Strindberg porque é demasiado pessimista, nota que no repertório contemporâneo dos Artistas Unidos dominam os textos negativos "como se a vida não tivesse saída". São "mais pessimistas do que a vida é. Isso inquieta-me, se calhar aquilo é a realidade, eu é que não consigo ver e tenho de ir lá abrir a janela..."

Conta Silva Melo que Glicínia tinha medo que "Conversas..." "ficasse uma coisa pomposa e saudosista". Farta-se de rir, diverte-se com o que conta e esse riso contagia o filme. Faz parte de um olhar sobre si própria que recusa o heroísmo, diz Silva Melo, e a própria confirma, dizendo que não se considera uma pessoa excepcional. Não levar nada demasiado a sério: é este tom que atravessa as histórias sobre uma perseguição política quando estava no MUD ou a forma como interpreta as personagens, diz Jorge Silva Melo.

"Ela não suporta a exibição de sentimentos de maneira despudorada. Tem a ver com aquele lado de sedução e de pudor: quando conta a sua história não é uma história heróica, é uma história de uma sobrevivente, de uma pessoa que sobreviveu e foi vivendo com coragem e determinação."

É a história de uma mulher que tinha um rosto que não correspondia aos padrões de beleza da altura - "pensava que não era cara que se apresentasse", conta no filme - mas olhou para Katharine Hepburn e Joan Crawford e aprendeu a habituar-se a ele.

Há um "sorriso chaplinesco na sua boca grande e nos seus olhos brilhantes", conclui Silva Melo. Em Glicínia "há sempre qualquer coisa de mais expressivo do que a realidade".

Joana Gorjão Henriques

in jornal "Público" em 17 de Dezembro de 2004

 

 

 

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