direcção de fotografia Rui Poças
Charm
de Julião Sarmento
notas de Maria Teresa Cruz sobre "Charm" (em hipertexto)
Por toda a parte se pode confirmar
um encontro fundamental da cultura moderna:o encontro entre a
imagem e o corpo. Na fotografia, na televisão, no cinema, no
video, os corpos desmultiplicam-se em imagens e convivem assim
quotidianamente, domesticamente, intimamente e universalmente
com a população do planeta. Não é estranho, pois, que os próprios
corpos vivam cada vez mais imaginariamente a sua história, a
sua identidade e as suas relações, como se fossem eles mesmos
animados por essa vida imaginária das imagens do corpo. A
imagem, outrora pensada como alma roubada aos corpos, retorna
agora a esses corpos como catálogo de figuras, inspirando as
suas formas de aparência e de expressão, os seus movimentos,
as suas inclinações e afecções.
Estas imagens, que os primeiros modernos começaram por pensar
como desdobramentos insólitos, como fantasmas que vagueavam
estranhamente desencontrados dos corpos, parecem ter
reencontrado, assim, uma via de retorno a eles, participando
intimanente da sua vida e dos seus sonhos. Se se desligassem
hoje, repentinamente, as máquinas contemporâneas de produção
de imagens, muitos corpos ficariam talvez desalentados, como se
tivessem sido abandonados pela própria alma, ou por aquilo que
anima os seus movimentos e alimenta as suas paixões. O excesso
de imagens, repete-nos desde há muito a crítica da cultura de
massas, faz vítimas crescentes de geração para geração, (vítimas
culturais e ideológicas, ileteracia, deformação das consciências,
senão mesmo quase "mortes cerebrais"), mas não é
menos certo que uma dieta forçada ou um súbito "black-out"
de imagens não fizesse os pacientes morrerem da cura, antes
mesmo de revelarem quaisquer melhoras. O que significa que a
vida parece revelar, hoje, um quase mistério de
consustancialidade com a imagem.
A imagem ganhou, a partir da fotografia, uma intimidade quase
absoluta com o corpo. A captura a que os corpos estão votados,
depois dela, parece não conhecer limites: toda a superfíce,
mas também as entranhas, todas as partes e todo o sexo, todas
as poses, todos os gestos, e até os fluídos e o sangue. O
corpo é certamente um dos objectos mais intensamente
escrutinados pela imagem moderna. A "mise à nu"
do corpo pela imagem poderá também dizer-se "par ses célibataires
même", expoliados, de algum modo, desse corpo que
julgavam próprio e que representava um lugar de absoluta
individualidade, intimidade e abrigo. A despossessão do corpo
pela imagem e o retorno ao corpo desta imagem a ele arrancada,
para de novo o animar, estimular e fazê-lo mover-se, compõe o
essencial da kinesis ou do cinematismo moderno, que é
pois bem mais do que o mero cinema, como suspeitou Deleuze. Esta
kinesis permanece, como dizia Aristóteles, a
"actualização de uma potencialidade" (não se sabe
bem se exterior se interior aos corpos) que já recebeu o nome
de psique. Este corpo infinitamente despossuído
e possuído pela imagem, compõe um ciclo maior da vida
moderna, que experimentamos quotidianamente, em serões
simultaneamente vampíricos e alimentícios, quando, por
exemplo, ligamos a televisão.
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filmografiasobre a fotografia de alguns filmes