direcção de fotografia Rui Poças

 

André Valente de Catarina Ruivo

 

 

 

Textos de Imprensa e Outros

nota: Por respeito à autoria dos textos, esta vem sempre referenciada no final dos mesmos

 

Filme português tem estreia inesperada em França

A primeira longa-metragem de Catarina Ruivo vai estrear em França este mês com uma das distribuições mais alargadas de sempre de um filme falado em português, disse o produtor Paulo Branco. "O filme já tem garantidas 55 cidades e vilas em França."

Com estreia marcada para 26 de Janeiro, "André Valente" começa com 25 salas de cinema e assegura na semana seguinte a distribuição de mais dez cópias. Há mais pedidos para as semanas seguintes, mas o produtor está à espera dos números de bilheteira para decidir se faz mais cópias ou roda as que entretanto possam sair de cartaz.

O filme vai estrear no circuito independente e o número de salas, mesmo assim, está longe das grandes estreias francesas. O último Téchiné, "Les Temps qui Changent" (também produzido por Branco), estreou com 300 cópias. Os grandes filmes americanos podem atingir as 700 cópias.

Com um orçamento mínimo (650 mil euros), "André Valente" fez em Portugal apenas 2592 espectadores, tendo estreado em seis cinemas e circulado depois por outras oito.

O entusiasmo francês com esta primeira obra, em termos de exibição, é só ultrapassado, na experiência de Branco, por dois filmes de Manoel de Oliveira, o decano do cinema português e mundial. "Vou para Casa" e "A Carta" estrearam com cópias na ordem das várias dezenas - o primeiro com cerca de 60 -, tendo depois o aluguer chegado às muitas centenas. Ambos, porém, tinham actores franceses e eram falados em francês. Os filmes de João César Monteiro, com muito público em França, nunca estrearam com tantas cópias. Parecido, só a estreia de "Vale Abraão", de Oliveira. "É uma estreia fantástica para um filme independente europeu."

Para o produtor, a boa recepção crítica do filme, durante o Festival de Cinema de Locarno, Suíça, em Agosto, terá sido a razão mais directa do entusiasmo. Paulo Branco reconhece que este êxito é "um bocadinho excepcional" e difícil de explicar porque há outros filmes que tiveram boas críticas mas não provocaram esta procura.

"É sempre difícil para um produtor perceber as razões, mas em França há uma crítica muito cinéfila que adora o filme", diz Paulo Branco, acrescentando que o filme de Catarina Ruivo faz "uma abordagem simples e tocante" do tema da infância.

O filme tem como protagonista André, interpretado por Leonardo Viveiros, uma criança de oito anos cujo pai acaba de sair de casa. Mas essa é apenas uma das perdas que André tem de gerir, porque há outras provas, à imagem do herói da banda desenhada Princípe Valente, por onde passa o título do filme. O filme tem também como actores, entre outros, Rita Durão (a mãe) e Dmitry Bogomolov (o amigo adulto imigrante).

Na história do cinema

Durante o festival suíço, a crítica francesa descobriu e elogiou o filme, do "Le Monde" ao "Libération", passando pela revista "Les Inrockuptibles", ou mesmo pela norte-americana "Variety".

O "Le Monde" escreveu que o filme era um dos poucos que se distinguia na competição internacional: um "lindíssimo filme"; a figura de André Valente "deveria ficar na história do cinema". O "Libération" falou em realizadora "emergente" e de um filme em que "nada corresponde aos cânones habituais da realização". A revista "Les Inrockuptibles" falou também da revelação de uma jovem realizadora, enquanto a "Variety" diz que "o trabalho anterior de montagem da estreante Catarina Ruivo evidencia-se no ritmo cuidado do filme, que sugere a forma lenta como passa o tempo para um miúdo de oito anos".

Paulo Branco explica que escolheu o circuito independente, tendo recusado, para já, os pedidos da cadeia de multiplexes UGC, porque quer assegurar que o filme fica mais tempo em exibição. "O circuito independente é mais adaptado à estreia do filme. Vou estrear em Paris com cinco salas, podia fazê-lo com nove ou dez... Assim, asseguro que o filme ficará em cartaz bastante tempo, pelo menos quatro semanas."

Isabel Salema

jornal "Público", 6 de Janeiro de 2004

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«FESTIVAL DE LOCARNO - A 57º EDIÇÃO DO FESTIVAL SUÍÇO REVELOU UMA PROGRAMAÇÃO SUFOCANTE E CONFORMISTA, EXCEPÇÃO DE DOIS FILMES, ‘ANDRÉ VALENTE’ E ‘LE PONT DES ARTS’.»
Nada de parecido este ano em Locarno, onde apenas dois filmes se distinguiram entre os cinquenta que compõem estas duas selecções.
O primeiro, André Valente (em competição), consagra admiravelmente a passagem de Catarina Ruivo à longa-metragem, uma realizadora portuguesa de 33 anos. Produzido por Paulo Branco, este filme conta uma história de educação de uma justeza e de uma intensidade emocional singular. Um miúdo de oito anos tem de aprender a viver e a crescer na ausência brutal de um pai que acaba de deixar o lar conjugal.
Longe de redimir a perda inicial, os personagens que o rapaz encontra – uma amiguinha, o novo amante da mãe, um patinador russo que tem contas a ajustar com a máfia – são igualmente figuras que reiteram a experiência do abandono.
Melancólico e desarmónico, este lindíssimo filme não se contenta apenas com o desgosto; sugere simplesmente, com uma doçura por vezes pontuada de humor, que o Homem se constrói na prova da ausência, e que a graça da vida consiste justamente no construir neste inexorável desencanto. Leonardo Viveiros, que interpreta André Valente, compõe a figura de um miúdo que deveria ficar na história do cinema. (...)


Jacques Mandelbaum, Le Monde, 15 de Agosto 2004

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Numa 57a edição muito débil, é preciso procurar nas margens para encontrar algumas pérolas raras: uma descoberta portuguesa, alguns belos ensaios em vídeo e um esplendor assinado por Eugène Green

(...) Em competição, e portanto ignorada por um júri snob topo de gama (entre os quais Olivier Assayas, Yu Lik-wai e Udo Kier), ANDRÉ VALENTE revelou uma jovem cineasta portuguesa, Catarina Ruivo, capaz de evitar com a elegância duma ginasta toda a comoção e os bons sentimentos que o seu argumento poderiam conter. André tem oito anos, um pai ausente e uma mãe numa linha de flutuação instável. Tentado, em primeiro lugar, a encontrar  junto de um emigrante russo patinador o amparo idóneo para se apoiar, vai transformar a própria ausência destes substitutos na possibilidade de se inscrever no mundo. Desempenhado por uma criança actor capaz de tudo, André Valente alia a propensão para a pura contemplação e os sentidos apurados da montagem. Primeiro filme, primeiro prémio de montagem. (...)

Bertrand Loutte, LES INROCKUPTIBLES, 25-31 de Agosto 2004

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“Uma breve e comovente história um desempenho cheio de alma do jovem protagonista Leonardo Viveiros.”

Dan Fainaru, SCREEN INTERNATIONAL, 20 de Agosto 2004

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O mundo provavelmente não precisa de mais um  filme sentimental sobre uma criança que tenta sobreviver  à ausência dos pais. Mas ANDRÉ VALENTE, o drama Português de baixo orçamento, consegue usar um “tecido” já gasto e transformá-lo em algo bastante elegante sem muitas costuras. O trabalho anterior de montagem da estreante Catarina Ruivo evidencia-se no ritmo cuidado do filme, que sugere a forma lenta como passa o tempo para um miúdo de oito anos como o protagonista que dá o nome ao filme (encarnado de forma brilhante por Leonardo Viveiros). (...)

De facto, o filme sabe a melancolia de Europa de Leste e na sua claustrofóbica intimidade não se assemelha em nada à expansividade antiquada dos compatriotas da realizadora como Manoel de Oliveira e o falecido João César Monteiro. (...)

Leslie Felperin, VARIETY, 23-29 de Agosto 2004

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VALENTE CATARINA

O primeiro filme de Catarina Ruivo, André Valente, no Festival de Locarno (em Portugal estreará, distribuído pela Atalanta, a 16 de Setembro), onde a nossa colaboradora, e também actriz, o viu - considerando-o o melhor do certame. E aqui diz porquê

O primeiro dia do Festival de Locarno foi um dia de chuva. No entusiasmo geral de expectativa dos dez dias que se iam seguir, dizia-se que a chuva, tal como nos casamentos, era bom sinal. Infelizmente, por vezes, os sinais são de interpretação bem menos sinuosa - a chuva era mesmo sinal de infortúnio. A maioria dos filmes em competição que aqui se puderam ver foram decepcionantes: ténues cópias de outros que conhecemos de cor, com a desvantagem de virem a seguir; maus filmes americanos porque europeus; maus filmes europeus porque pretensiosos, acreditando que com duas piruetas da câmara ou do discurso se entontece o público.

Ou pior ainda, filmes sem cinema, de puro entretenimento – porque não, não acho que se deva ter nada contra o entretenimento, mas não se pode chamar a uma volta na montanha russa cinema. O ambiente geral, no final desses dez dias, foi de desilusão, poder-se-ia acreditar que o estado de saúde do cinema é grave.

Houve, no entanto, momentos durante os quais se pode acreditar que há ainda esperança. Um desses momentos raros foi a apresentação de André Valente, de Catarina Ruivo, o único filme português em competição.

A história passa-se numa dessas periferias que as sociedades modernas engendram, periferia como um não-lugar - porque indefinido e porque igual a tantos outros lugares - cinzento, solitário, vazio.

Em momento algum, no entanto, essa miséria visual e humana é filmada de forma ostensiva, arvorando um discurso social declarado. Catarina Ruivo prefere a via da denúncia silenciosa, subjacente às paisagens desencarnadas, à vida que adivinhamos que os seus personagens levam. Evitando a facilidade da demonstração, não revelando com exactidão o dia-a-dia dos seus personagens, o seu filme enfrenta o que mais difícil há de mostrar em imagens: os sentimentos. Difíceis de filmar não só porque são da ordem do impalpável, mas igualmente porque mostrar um sentimento não é interessante a menos de saber torná-lo pertinente, roçá-lo no momento justo, filmá-lo com a devida implicação, à devida distância. Catarina Ruivo demonstra uma maestria elegante na superação desse desafio permanente.

André Valente trata o fazer e o desfazer das relações humanas, de amor ou de amizade, quer vistas através do olhar de uma criança, quer através do olhar de uma adulta. Trata a dificuldade da separação, a aprendizagem da gestão dos sentimentos dolorosos de partida eminente ou efectiva daqueles que no rodeiam, a aceitação do constante desmoronar do estado de fixidez das relações humanas que queremos acreditar viver,

mas que nunca é real. Rita Durão interpreta, com verdadeira dedicação e tremor, uma mãe abandonada que vive com o seu filho, André Valente, jovem criança, belissimamente interpretada por Leonardo Viveiros. Catarina Ruivo ousa, ao dirigir dos seus actores, apelar para emoções primárias, sem mot d'esprit intelectual que nos acene com a educação ocidental, tão distante e avara de lágrimas e de gargalhadas. O filme

explora o encontro entre dois seres: o confronto esboçado a três é rejeitado ou desfeito; o mundo colectivo é violento, agressivo, desordenado, em suma, inóspito. Onde estes personagens afinal se encontram, onde evoluem, é na relação a dois. É o encanto secreto desses encontros, quase sempre confrontos, que Catarina Ruivo filma com um olhar justo e determinado, sem piscar de olhos para o público, desenhando um filme de um rigor obstinado e despretensioso. Os seus planos são de uma grande sobriedade e eficácia: Catarina Ruivo domina a capacidade de sugestão – uma das imagens magníficas do filme, é a mão na caixa de chocolates, promessa íntima celada por um presente, entrevista apenas, mais significante que qualquer palavra erudita.

Sem ser uma divagação, é um filme corajosamente inacabado, que nos abandona com um sorriso, que retribuímos. Parafraseando o cineasta Jean-Claude Biette, este é «o cinema que resta fazer, o cinema filmado.»
 
Leonor Baldaque, JORNAL DE LETRAS, 1-14 de Setembro 2004
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 Pequeno Adulto

Boa estreia, a de Catarina Ruivo: a sua primeira longa-metragem é um filme sóbrio e rigoroso, capaz de construir um olhar sobre a infância que a devolve como idade complexa e assombrada.

A figura de fundo é a ausência (no caso, a do pai), e é perante esse quadro "assimétrico", onde a família deixa de ser um invólucro caloroso para se tornar na lembrança da sua inexistência, que "André Valente" se desenvolve. André Valente é também o nome do protagonista (um notável achado de "casting" chamado Leonardo Viveiros), e se não é completamente verdade que o filme veja o mundo (apenas) a partir dos seus olhos, não é completamente mentira que o filme mostra a maneira como os seus olhos tentam reconstruir um mundo (o "seu" mundo) súbita e irremediavelmente abalado.

Uma das coisas que mais contribuem para o acerto de "André Valente" é o facto de, sem deixar de tratar o protagonista como a criança que ele obviamente é, não deixar por isso de o filmar como o pequeno "adulto" que ele sente a responsabilidade de ser. Desaparecido o pai, resta ele como homem da casa - na sua relação com a mãe (Rita Durão) perpassa a ambuiguidade dos estatutos (quem toma conta de quem?), sendo certo que para o miúdo a responsabilidade está muito mais do lado dele. A sequência do suicídio frustrado da mãe é só a confirmação - para ele - desse seu estatuto protector.

A mesma sensação prevalece na sua relação com o imigrante russo (Dimitry Bogomolov) com quem trava amizade. Começa por ser quase a retribuição de uma dívida de gratidão (foi o russo quem o ajudou na noite em que a mãe se tentou suicidar), mas passa a ser também um relacionamento "entre pares" até se impôr, a dada altura, como uma escolha semi-consciente de substituto do pai.

Catarina Ruivo filma a sua história num registo naturalista e algo austero, avesso a contemplações. Há sempre qualquer coisa de bastante cerrado no olhar da câmara, sejam os interiores dos apartamentos onde maioritariamente se desenrola a narrativa, sejam os cenários urbanos um pouco cinzentos e desolados (imediações da Calçada de Carriche e Lumiar). Há como que um espaço "marcado" e circular, bem expresso num "travelling", muito comprido mas muito fechado sobre os rostos dos actores, que mostra a caminhada de André e de uma amiga a caminho da escola. Essa presença carregada da "realidade", física, geográfica, rima a realidade desarmónica da vida familiar de André, e a fuga faz-se para "dentro", provavelmente para dentro da infância: os brinquedos, sim, mas sobretudo os patins de gelo que servirão para aproximar as personagens do miudo e do russo.

Com um tom enxuto que concilia bem a gravidade e o pragmatismo, é uma primeira obra suficientemente madura para que se fique atento ao futuro de Catarina Ruivo.  

Luis Miguel Oliveira

Jornal "Público", 14 de Setembro de 2004

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Superar dores de crescimento e abrir clareiras na cinza dos dias

 

Catarina Ruivo, 33 anos, uma curta-metragem, montagens e argumentos no currículo, faz estreia auspiciosa na longa com André Valente. O filme tem hoje estreia mundial no Festival de Locarno, na competição internacional, distinção «gratificante» para a realizadora, ultimamente ocupada a escrever, com prazo, um argumento para Seixas Santos (A Monte) e indisponível para entrevistas, razão pela qual só comunicámos por e-mail.

André Valente acompanha o quotidiano da personagem titular, um miúdo de oito anos (Leonardo Viveiros, escolhido num casting), abandonado pelo pai (Pedro Lacerda) - que sai de casa sem explicações e não dá sinal de vida durante quase todo o filme, deixando-o sozinho com a mãe (Rita Durão), forçada assim, como tantas outras, a tentar ocupar lugares materno e paterno, a par de obrigações profissionais; desgastada pela descompensação amorosa e pelo stress, a que, num dado momento, quase sucumbe.

Catarina Ruivo, que não é mãe nem assume André como personagem autobiográfica, considera, sim, que «a infância permite-nos descolar de nós próprios», «abordar medos e angústias também presentes na nossa vida adulta». Não sendo, decerto, casual a citação preferencial que nos faz de filmes que são outras tantas histórias de crescimento (Os Filhos da Noite de Nicholas Ray, O Tesouro do Barba Azul de Fritz Lang e Aos Nossoa Amores de Maurice Pialat), no seu, a realizadora vai revelando, com olhar atento e sensível, pedaços de pequenas vidas vividas em surdina, incidindo nas dores de crescimento de André e na sua capacidade de superá-las (honrando a valentia do nome), a abrir pequenas clareiras no cinzento dos dias.

Isso numa cidade que continua a ganhar terreno ao campo na sua fronteira, com gigantescos prédios-gaiolas, que é Lisboa mas podia ser outra, cujos habitantes estão longe de fruir a liberdade dos pombos - esvoaçantes em espaço aberto, ao contrário do vizinho imigrante de André, o patinador Nicolai (Dmitry Bogomolov, actor russo residente em Portugal, que entra no novo filme de João Canijo), com o rodopio restrito a espaços fechados.

No elenco seguro de André Valente, há ainda Ricardo Aibéo (além de rodado no cinema, assíduo no Teatro da Cornucópia, como Rita Durão e Pedro Lacerda), Carla Chambel (Comuna) e Lavínia Moreira (Karnart), denotando o gosto de Catarina Ruivo pelo teatro, aonde vai «com alguma frequência».

 

 Elisabete França, Diário de Notícias, 8 de Agosto 2004

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Entrevista com Rita Durão   

«Fazer este filme foi uma experiência muito forte» 

Quem é a sua personagem no filme?  

É mãe do protagonista, André Valente [Leonardo Viveiros], e os dois, de maneiras diferentes, ficam abalados pela saída inesperada do pai de casa. É como se se encontrassem para além da relação de mãe e filho: a criança é muito corajosa e a mãe, por vezes, menos corajosa e protectora, sobretudo pelo abalo que deu à vida familiar o abandono do pai. 

Um abalo maior pela solidão deles, numa casa aonde não vão amigos nem família, só o colega com quem a Mãe esboça uma relação que corre mal?   Aquele universo familiar é muito visto pelo lado da solidão e das provas que as personagens têm de passar, mais comoventes com uma criança de oito anos a passar por situações que a deixam cada vez mais só e a tentar superá-las à sua maneira, rebelde, pura e inocente. 

Acha o André muito corajoso. E a Mãe, embora às vezes esmoreça, não é?   Sim, o que acho mesmo mais interessante é que, por vezes, ambos parecem não ter idade: nem sempre a Mãe reage como uma mãe, nem o filho como filho, nas atitudes mais confiantes como na fragilização e na procura de protecção. 

Conforme as provas que a vida exige?  

Sim, independentemente da idade e do «estatuto» de filho ou de mãe. 

À Mãe, como a tantas outras, é exigido que seja mãe e pai e profissional. Para a mulher, fica o vazio, nem afectos nem sexo... Como procurou traduzir isso?  

Antes de filmar e durante as filmagens, conversei sempre com a Catarina [Ruivo], porque o facto de não ser mãe e desempenhar aquele papel me deixava vulnerável, ainda por cima mãe duma criança estruturada, que já não é um bebé. 

E pelo lado da experiência que tem, o que deu à construção da personagem?  

Terei dado alguma coisa, mas o processo foi muito partilhado e sereno. 

Na sequência que culmina em tentativa de suicídio, por exemplo, todo o movimento e a expressividade foram muito trabalhados com a realizadora?   Falámos muito, mas a cena não foi propriamente ensaiada. Também conversei bastante com o director de fotografia [Rui Poças], sobre limites do movimento. A Catarina conseguiu foi a privacidade essencial para aquele plano, delicado. Toda a equipa deu enorme apoio à concentração, só estavam no local as pessoas mesmo necessárias. 

Apesar da equipa à volta, criar uma personagem, no cinema, não é mais solitário do que no teatro, onde há um processo colectivo desde a leitura à mesa, continuado em prolongados ensaios de palco? Como sente essa diferença?  

Já me fez mais confusão. No teatro, durante os ensaios, pode-se sempre ir analisando e reanalisando, modificando, experimentando, apurando, com oportunidade de errar e de descobrir outras coisas. O cinema tem um tempo completamente diferente e essa diferença era como um abismo, mas já não me assusta: pode-se voltar atrás e repetir. 

Que diferença entre contracenar, no cinema, com desconhecidos ou com colegas habituais no palco, como Duarte Guimarães em Capitães de Abril, agora o Pedro Lacerda e o Ricardo Aibéo?  

Existe uma cumplicidade mais cimentada, mas também gosto do tipo de cumplicidade que adquiri com o Leonardo [Viveiros], de uma maneira diferente, até pela diferença de idades. Assisti ao casting e foi engraçado, ele mostrou logo uma cumplicidade muito grande comigo, embora de tipo diferente. 

Vai em dez anos de teatro, cinco de cinema. A experiência teatral ajuda a construir um trabalho na rarefacção do cinema, da rodagem plano a plano, com interrupções constantes e, tanta vez, em desordem cronológica?   Sim. E ensina a ter uma certa paciência, útil no trabalho do cinema.

Mas também há cenas de teatro que podem beneficiar da experiência do cinema, que devem ser mais delicadas, menos expressivas. A maior diferença é a de, no palco, se estar perante uma plateia de gente.  

Qual das duas artes lhe exige mais?  

Acho que nunca vou conseguir responder a isso. Apesar das diferenças de tempos, de modos de produção e de funcionamento dos colectivos, depende tanto dos momentos! 

Já experimentou a televisão?  

Fiz experiências pequeninas: dois, três dias. Não dão para comparar.  Surpreendia-a trazer o prémio de interpretação de Locarno? Pensa nisso?   Desconhecia até essa possibilidade. Nem tive oportunidade de ver o filme, como aconteceu com Quaresma [de José Álvaro Morais], que só vi quando cheguei a Cannes. 

Que balanço final faz da experiência em André Valente?

Foi muito forte. Gostei muito, especialmente, de trabalhar com a Catarina, gostei muito da presença dela no plateau e da relação estabelecida com os actores. 

Que vai fazer depois das férias?  

Vou ensaiar, na Cornucópia, a Esopaida de António José da Silva.

 

Elisabete França, Diário de Notícias, 8 de Agosto 2004

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CATARINA RUIVO EM ENTREVISTA

 

COMO FOI O TEU PERCURSO ATÉ CHEGARES AGORA À PRIMEIRA LONGA METRAGEM? DA PRIMEIRA CURTA À PRIMEIRA LONGA?

Quando acabei o curso de montagem na Escola Superior de Teatro e Cinema em Lisboa tive o privilégio de ter sido convidada pelo Alberto Seixas Santos, que tinha sido meu professor, para montar a sua longa-metragem “Mal”. A partir daí continuei a trabalhar com antigos professores como o Joaquim Sapinho e o Vítor Gonçalves. Com este último aprendi muito sobre estruturas narrativas. Este argumento começou a ser escrito, em grande parte, devido à pressão exercida pelo Alberto Seixas Santos e o Vítor Gonçalves. Aliás, o Alberto Seixas Santos também me deu um importante apoio durante a fase de preparação do filme.

COMO SURGIU A HISTÓRIA DA FAMÍLIA VALENTE?

APRENDER A VIVER SOZINHOS É DAS MAIORES DIFICULDADES QUE ENFRENTAMOS... PORQUÊ QUE DECIDISTE COLOCAR UMA CRIANÇA DE OITO ANOS NESTE CENTRO?

Este história foi surgindo aos bocadinhos, comecei por querer escrever sobre uma criança por a infância ser para mim um tempo ainda muito presente em termos de memória, mas em relação ao qual existe já a distância necessária para o poder filmar.

Penso que há uma tendência para idealizarmos a infância como um tempo sem preocupações ou grande sofrimento, quando na realidade é uma altura onde todos os dias enfrentamos grandes provas e onde coisas que mais tarde apreendemos a relativizar tomam proporções assustadoras. E isto se tivermos a sorte de nascer numa família relativamente organizada e integrada socialmente. Penso que é preciso muito coragem para crescermos e foi sobre isso que quis falar.

O QUE TE SEDUZIA NO UNIVERSO DA INFÂNCIA? E NESTE ANDRÉ QUE CONSTRUÍSTE?

AS ADVERSIDADES DO MUNDO ADULTO CONTAMINAM ESTA FÁBULA SOBRE A INFÂNCIA E ACABAM POR FUNCIONAR COMO CATALISADORES, CONCORDAS?

As adversidades do mundo adulto são as adversidades que André enfrenta, pois as crianças não têm uma vida separada dos pais, os problemas dos pais são inevitavelmente os seus problemas. As adversidades, mais do que catalizadores, são as provas pelas quais o herói, como nas fábulas, tem que passar para vencer.

O nome que André inventa para si (André Valente) surge da história do Príncipe Valente e de um acontecimento da minha infância. Quando eu tinha quatro anos parti o queixo e, como não chorei enquanto me cosiam, a enfermeira chamou-me Catarina Valente. No filme, André descobre também que se quiser pode ser corajoso, pode ser André Valente.

O QUE TE LEVOU A CRIAR A PERSONAGEM DO NICOLAI?

Criei a personagem do imigrante russo (Nicolai), porque queria alguém que estivesse numa situação de fragilidade para a relação entre ele e André ser mais igualitária e assim mais rica, pois, consoante as situações, Nicolai vai desempenhar diferentes papéis na vida de André.

Além disso queria uma pessoa que mostrasse a André que mesmo num quotidiano difícil podemos inventar a felicidade e queria que essa ajuda viesse de alguém improvável. Acho que é isso o que mais me interessa e

comove nas pessoas: a forma como no meio da rotina, das dívidas, dos problemas, conseguem criar oásis de felicidade, ter prazer e alegria nas pequenas coisas.

COMO DECORREU A RODAGEM?

Tive muito sorte na escolha da equipa, tinha pessoas já com muita experiência, por exemplo, o Rui Poças (Director de Fotografia), o Vasco Pimentel (Director de Som), o Paulo Belém (Assistente de Realização), José Manuel Rodrigues (Chefe Electricista). O ambiente de rodagem foi muito caloroso, e sinto uma enorme gratidão para com toda a equipa.

 O cinema é um trabalho de grupo, onde cada elemento da equipa é determinante para o resultado final e onde as pessoas estão constantemente a oferecer-nos coisas que tornam o filme melhor. Penso que parte do trabalho de um realizador é saber ouvir.

O que tenho mais saudades da rodagem são aqueles momentos únicos em que os actores nos surpreendem, improvisando falas e gestos que eu jamais conseguiria escrever tão bem e de forma tão justa. Nesses momentos eu pensava no privilégio que era estar ali.

QUAIS SÃO OS TEUS PROJECTOS PARA O FUTURO?

Fazer filmes.

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O Menino Actor
Estreia esta semana André Valente, o primeiro filme de uma jovem realizadora: Catarina Ruivo. Trata-se de um mergulho assumido no sempre misterioso mundo da infância. E o rosto dessa experiência é Leonardo Viveiros, um menino frágil e expressivo descoberto numa escola primária. Aos nove anos, o cinema chega até uma criança capaz de tudo. E o que faz neste filme não é para brincadeiras...

EXPERIÊNCIAS

O cinema chegou por um acaso até ao Leonardo, aluno da Escola 109, da Ameixoeira, Lisboa. Aconteceu quando, durante uma aula, lhe perguntaram se queria aparecer num filme. Ele quis. Passados alguns castings e a desistência de outra criança entretanto escolhida, o papel era dele. De repente, todo o peso da responsabilidade de, durante dois meses, se transformar no André, uma criança de subúrbio que reinventa uma noção de felicidade para combater uma realidade vivida sem o pai e uma existência solitária. André Valente é mais um filme português que coloca uma criança no centro dramático. Da audição que mais tarde lhe deu o papel principal, ele lembra-se de ter ouvido a realizadora dizer "que eu era bom. O que foi que fiz no casting? Bem... fui com a minha irmã de quatro anos e fingi estar a fazer teatro. A minha irmã tinha febre e tive de levá-la para o hospital. Essa era a cena. Penso que correu bem". Depois, quando as filmagens começaram, o peso da responsabilidade transformou Leonardo num pequeno adulto. Já com os seus cabelos loiros pintados de escuro, lembra-se de estar um pouco, apenas um pouco, nervoso nos primeiros dias das filmagens. E durante esse longo período a escola verdadeira ficou para trás. "Passei para o quinto ano à rasca... Não foi muito bom ter faltado tanto... Por outro lado, sinto que cresci. Gostei muito de fazer o filme. Toda a equipa foi muito boa para mim", refere, adiantando que adorou contracenar com os actores "de verdade". "Os actores eram todos muito simpáticos. Dei-me muito com eles. Penso que nunca me portei mal nem nunca chorei. Não sou nada choramingas. Levei tudo muito a sério." Mas este filme não foi a sua única experiência de representação. Há um tempo fez de Rei Mago numa peça escolar para o Natal.

CRENÇAS

Com o filme pronto, Leonardo admite ter gostado do resultado final. Aliás, diz mesmo ter gostado muito: "Não estava à espera. Quando estava a filmar não tinha a noção de como as coisas iriam ficar. É estranho! Para mim aquilo era apenas estar a filmar... Nunca imaginava o resultado." E será que o André do filme tem alguma coisa a ver com o Leonardo? A mãe ri-se e ele afirma logo que não. Deve ser verdade, pois o lado irrequieto da personagem de cinema não acompanha a pose calma do Leonardo. No geral, a ideia principal com que ficou do mundo do cinema é que é preciso uma grande dose de coragem para ser actor.

FUTURO

"Gostava de fazer outro filme. Se me chamarem..." O recado está dado por Leonardo, que no preciso momento em que estrear o filme em Portugal estará a iniciar uma nova vida no Brasil, o seu país de origem (mas por já viver cá praticamente toda a sua vida não fala com sotaque). E será no Brasil que a mãe continuará a tentar levar o Leonardo a castings. Uma nova vida, logo agora que o filme chega a Portugal. E fica no ar um desejo: "Agora gostava de fazer um filme brasileiro, para depois poder dizer que já fiz um filme brasileiro e um português." Se não for actor quando for grande, Leonardo admite que o seu futuro possa passar pelo futebol, apesar de o pai já lhe ter dito que gostava de o ver médico. Pelo que pôde ver de Catarina Ruivo, a ideia de ser realizador não o seduz: "Ser realizador não é para mim..."

MAIS-VALIA

Leonardo Viveiros resulta bem em André Valente porque não faz esforço. Limita-se a ser um miúdo igual a tantos outros, capaz de uma naturalidade sempre contida, sempre muito verdadeira. A câmara de Catarina Ruivo nunca cai na tentação de o tornar especial, apenas segue uma energia infantil que é talvez o segredo desta história. Curiosamente, o cinema deu-lhe uma dimensão maior. Quando o vemos ao vivo parece bastante mais novo do que o André. E o que ele reconhece neste momento é que aprendeu muito: "A lição que aprendi é que tenho de ser responsável", afirma. A própria mãe ficou espantada com a forma como ele decorava os diálogos na hora. O mais complicado, confessa, era não olhar para a câmara.

BOA LÍNGUA
Figo e Ronaldinho
"São os jogadores de que mais gosto. Aprecio a maneira de fintar do português e ele marca muitos golos! Quanto ao jogador ao Barcelona, creio que e também um grande jogador. Agrada-me a maneira como ele centra a bola e acredito que seja simpático..."
MÁ LÍNGUA
Filmes de terror
"Não gosto desse género de filmes. Tudo o que tenha pancadaria, facadas, sangue e essas coisas não gosto. Às vezes, isso mete medo... Prefiro antes os filmes que me façam rir."

Rui Pedro Tendinha, Notícias Magazine, 12 de Setembro de 2004

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Entrevista com Rita Durão

Quem é a sua personagem no filme?  

É mãe do protagonista, André Valente [Leonardo Viveiros], e os dois, de maneiras diferentes, ficam abalados pela saída inesperada do pai de casa. É como se se encontrassem para além da relação de mãe e filho: a criança é muito corajosa e a mãe, por vezes, menos corajosa e protectora, sobretudo pelo abalo que deu à vida familiar o abandono do pai. 

Um abalo maior pela solidão deles, numa casa aonde não vão amigos nem família, só o colega com quem a Mãe esboça uma relação que corre mal? 

Aquele universo familiar é muito visto pelo lado da solidão e das provas que as personagens têm de passar, mais comoventes com uma criança de oito anos a passar por situações que a deixam cada vez mais só e a tentar superá-las à sua maneira, rebelde, pura e inocente. 

Acha o André muito corajoso. E a Mãe, embora às vezes esmoreça, não é?  

Sim, o que acho mesmo mais interessante é que, por vezes, ambos parecem não ter idade: nem sempre a Mãe reage como uma mãe, nem o filho como filho, nas atitudes mais confiantes como na fragilização e na procura de protecção. 

Conforme as provas que a vida exige?  

Sim, independentemente da idade e do «estatuto» de filho ou de mãe. 

À Mãe, como a tantas outras, é exigido que seja mãe e pai e profissional. Para a mulher, fica o vazio, nem afectos nem sexo... Como procurou traduzir isso?  

Antes de filmar e durante as filmagens, conversei sempre com a Catarina [Ruivo], porque o facto de não ser mãe e desempenhar aquele papel me deixava vulnerável, ainda por cima mãe duma criança estruturada, que já não é um bebé. 

E pelo lado da experiência que tem, o que deu à construção da personagem?  

Terei dado alguma coisa, mas o processo foi muito partilhado e sereno. 

Na sequência que culmina em tentativa de suicídio, por exemplo, todo o movimento e a expressividade foram muito trabalhados com a realizadora?  

Falámos muito, mas a cena não foi propriamente ensaiada. Também conversei bastante com o director de fotografia [Rui Poças], sobre limites do movimento. A Catarina conseguiu foi a privacidade essencial para aquele plano, delicado. Toda a equipa deu enorme apoio à concentração, só estavam no local as pessoas mesmo necessárias. 

Apesar da equipa à volta, criar uma personagem, no cinema, não é mais solitário do que no teatro, onde há um processo colectivo desde a leitura à mesa, continuado em prolongados ensaios de palco? Como sente essa diferença?  

Já me fez mais confusão. No teatro, durante os ensaios, pode-se sempre ir analisando e reanalisando, modificando, experimentando, apurando, com oportunidade de errar e de descobrir outras coisas. O cinema tem um tempo completamente diferente e essa diferença era como um abismo, mas já não me assusta: pode-se voltar atrás e repetir. 

Que diferença entre contracenar, no cinema, com desconhecidos ou com colegas habituais no palco, como Duarte Guimarães em Capitães de Abril, agora o Pedro Lacerda e o Ricardo Aibéo?  

Existe uma cumplicidade mais cimentada, mas também gosto do tipo de cumplicidade que adquiri com o Leonardo [Viveiros], de uma maneira diferente, até pela diferença de idades. Assisti ao casting e foi engraçado, ele mostrou logo uma cumplicidade muito grande comigo, embora de tipo diferente. 

Vai em dez anos de teatro, cinco de cinema. A experiência teatral ajuda a construir um trabalho na rarefacção do cinema, da rodagem plano a plano, com interrupções constantes e, tanta vez, em desordem cronológica?  

Sim. E ensina a ter uma certa paciência, útil no trabalho do cinema. Mas também há cenas de teatro que podem beneficiar da experiência do cinema, que devem ser mais delicadas, menos expressivas. A maior diferença é a de, no palco, se estar perante uma plateia de gente.  

Qual das duas artes lhe exige mais?  

Acho que nunca vou conseguir responder a isso. Apesar das diferenças de tempos, de modos de produção e de funcionamento dos colectivos, depende tanto dos momentos! 

Já experimentou a televisão?  

Fiz experiências pequeninas: dois, três dias. Não dão para comparar. 

Surpreendia-a trazer o prémio de interpretação de Locarno? Pensa nisso?  

Desconhecia até essa possibilidade. Nem tive oportunidade de ver o filme, como aconteceu com Quaresma [de José Álvaro Morais], que só vi quando cheguei a Cannes. 

Que balanço final faz da experiência em André Valente?

Foi muito forte. Gostei muito, especialmente, de trabalhar com a Catarina, gostei muito da presença dela no plateau e da relação estabelecida com os actores. 

Que vai fazer depois das férias?  

Vou ensaiar, na Cornucópia, a Esopaida de António José da Silva.

Elisabete França, Diário de Notícias, 8 de Agosto 2004

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Blogs

"A Bomba"

21 Set 2004

 

André Valente

Depois de André Valente (2004), é rigorosamente proibido voltar a dizer mal do cinema português! O filme de Catarina Ruivo, que conta a história encantadora de um menino forçado a crescer e a assumir o papel de homem da casa, é um pequeno prodígio de inteligência, sensibilidade e sentimento – sem que isso signifique qualquer concessão ao sentimentalismo gratuito ou à lamechice. André Valente conta ainda com a participação da linda Carla Chambel, que também interpretou o papel de Adriana no nosso O Porteiro.

posted by Flávio

Comments:

O cinema português não é tão mau quanto dizem; simplesmente a maior parte dos filmes têm pouca adesão dos portugueses porque eles os preferem aos filmes americanos que são mais apelativos, e têm uma potênte máquina publicitária ao seu dispor. Ainda não vi o filme a que te referes por isso não posso comentar, mas o cinema português está a evoluir, disso não tenho dúvidas...

posted by Chinelo de trazer por casa

 

Obrigado pelo comentário! Acho que você colocou o dedo na ferida: um dos maiores problemas do cinema português é não a falta de qualidade, mas sim a falta de visibilidade dos nossos filmes. Enquanto que o cinema americano tem uma máquina publicitária infernal ao seu serviço, as estreias portuguesas passam quase completamente despercebidas junto do grande público. Este André Valente foi, infelizmente, um bom exemplo dessa falta de publicidade. A solução? Talvez legislar no sentido de obrigar as televisões a publicitarem nos seus horários nobres as estreias nacionais.

posted by Flávio

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"Babugem"

14 Set.2004

Eu não sou o teu pai

Lamento não perfilhar o filme André Valente da Catarina Ruivo, minha ex-colega da Escola de Cinema. É que alguns filmes parecem pedir-nos de modo mais explícito que os adoptemos. E esta obra da Catarina é assim, um poema à infância e ao espaço suburbano que procura espectadores disponíveis para as suas discretas fulgurâncias.  André Valente é como que feito de versos sacudidos, colagem de momentos mais e menos íntimos que decorre também do trabalho de montadora da Catarina Ruivo que se prolonga para além desta sua estreia na realização.
Mas gostei de Rita Durão e fui sensível sobretudo à relação ensaiada por André (Leonardo Viveiros) e pelo imigrante russo (Dimitry Bogomolov): o plano dos dois no chuveiro do pavilhão desportivo é o melhor momento do filme. O resto é um fazer poesia com a vida do subúrbio que se não me implicou mais é porque talvez resulte de um olhar encantado sobre uma realidade que necessitará(?) de se impregnar na pele antes de a podermos passar a película.
Dar alma às imagens é o mais difícil. Dar consistência dramática a um objecto deliberadamente fragmentário, impressionista, também. Será isto o que nos mantém ligados a qualquer filme que queira ir além da proposta de entretenimento. O esforço de Catarina está lá, embora André Valente seja para mim uma intermitência de vida(s) numa intermitência de arte. 

posted by RGross

 

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"Resistente Existencial"

Setembro de 2004

Estamos perante aquele que será, até à data, o mais interessante filme português do ano. É uma narrativa que cruza diversos temas urbanos e bem inerentes à actualidade nacional: a decadência dos espaços citadinos, as famílias em erosão, o crescimento desacompanhado das crianças, a questão da imigração, e o papel na mulher no meio de tudo isto. O fio condutor de todos estes temas é o pequeno André, que vive com uma mãe perdida na vida. O pai abandonou-os. No meio da tristeza envolvente, a tenacidade de André parece manter o seu mundo à tona.   

"André Valente" é um filme com alguns desequilíbrios. O actor-criança é verdadeiramente um achado e suporta todo o filme com a sua naturalidade e forte presença no ecrã. Porém, a mesma solidez não é partilhada pelas restantes personagens, nomeadamente a mãe, também muito presente. A fotografia de Rui Poças é bastante boa e Catarina Ruivo demonstra vitalidade na condução das cenas. O filme contém cenas de grande impacto emocional e outras bastante cómicas. Contudo, nem sempre há uma verdadeira pertinência do que nos é mostrado. Algumas cenas parecem existir apenas para a criança brilhar. Apesar disso, creio que eu e as três pessoas que viram esta sessão no Alvaláxia (estou fascinado com este complexo de cinemas!) não deram o seu tempo por perdido. "André Valente" é um bom filme.

"André Valente", de Catarina Ruivo - *** estrelitas (bom)

posted by Nuno

 

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"Universos Desfeitos"

18 de Setembro de 2004

Geralmente, embirro com filmes que tenham crianças nos papéis principais. Sobretudo porque aparecem quase sempre ou como patetinhas sentimentais ou como endiabrados imbecis. Raramente aprecem como são, isto é, como crianças. Não deve ser fácil a um adulto, reconheço, representar a personalidade de uma criança. A melhor forma, desconfio, será lembrarmo-nos do que sentíamos e como sentíamos na infância. Não sei. Confesso que é a primeira vez que penso no assunto. Se bem me lembro, uma das coisas que mais odiava quando era criança era que me tratassem como se eu não contasse, como se eu não sentisse, como se eu não pensasse, como se eu não tivesse vontade. Em suma, como se eu fosse uma criança, no sentido em que a maioria dos adultos vê as crianças. Com o tempo tenho aprendido a olhar para as crianças como iguais. Esforço-me por não as olhar com demasiada complacência e pouca consideração. As crianças, creio, são bem mais perspicazes do que nos parecem a maioria das vezes. Serve o longo intróito para dar conta de um belo olhar cinematográfico, português, de uma realizadora estreante no formato mais longo, de um belo olhar cinematográfico, dizia, sobre uma criança. Um olhar, também, sobre um dos mais recorrentes temas da poesia universal: a infância. É mais um, de muito poucos, com os quais não embirrei. Precisamente porque olha a infância com, permitam-me dizê-lo, profunda sabedoria. André Valente, título de filme e nome da personagem central, é um menino que tem de aprender a viver com a ausência e o abandono desde muito cedo. A ausência do pai, o abandono dos seus melhores amigos, a quase perda da mãe. É um menino que, como outros meninos, tem a sua fragilidade de menino. Mas é também um menino que, como outros meninos, tem uma enorme capacidade de se adaptar às circunstâncias, contornando os obstáculos diversos que lhe vão aparecendo pela frente. André Valente carece de amor e atenção, da tal atenção que há pouco mencionava. Os seus triunfos, as suas vitórias, são os momentos em que essa dimensão dos afectos é conseguida. Não é um menino muito diferente de outros meninos. Amua, ri, chora, luta, brinca, fere, quando os sentimentos lhe mandam que o faça. O que há de diferente em André Valente é o essencial, é a forma como sente, no seu íntimo, o prazer e o desprazer que o mundo à sua volta lhe provoca. Tudo isso é mostrado com beleza e pertinência no filme de Catarina Ruivo (n. 1971). Sem que o André se transforme por uma vez que seja num pateta ou numa figurinha insuportável sem ponta por onde se lhe pegue. Diga-se, também, da extraordinária presença do pequeno actor Leonardo Viveiros, que em muito contribui para a grandeza do filme. Faz tudo tão bem feito que devia servir de exemplo para muitos “grandes actores”. André Valente é uma lufada de ar fresco no periclitante panorama do cinema português. Mas com filmes destes, a esperança não pode morrer.

Publicado por Juraan Vink

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