direcção de fotografia Rui Poças

 

Adriana

dossier de imprensa

 

 "  (...)

E depois desse filme ainda fotografaste a “Adriana” da Margarida Gil...

Sim. Outro filme, outra abordagem. A “Adriana” é um filme de um percurso de um personagem que só pode existir no cinema ou na literatura. A coincidência com a realidade, se existe, só pode ser casual, já que o filme o que faz é transportar-nos para outras esferas. Não é a “Alice no País das Maravilhas” nem um perverso “Feiticeiro de Oz” (embora para mim tenha algo deles). Passa-se simultaneamente neste mundo e nos seus locais concretos e num espaço inventado, às vezes arquetipal (com referentes que se localizam no mundo real). Os ambientes e os locais onde decorre a acção vivem numa certa dissonância com a realidade, como se fossem decores naqueles livros recortados que se abrem e transformam as duas dimensões numa ilusão de tridimensionalidade num efeito cénico assumido. Fotográficamente, o filme corre no fio dessa navalha que não é exactamente uma representação da realidade e está longe de ser o fantástico. Depois o recorte fino de comédia pedia ora (uma falsa) contenção ora exacerbação na fotografia, obedecendo ao percurso e aos percalços da Adriana.

Nesse filme andaste a filmar em zonas muito diferentes do país...

A história começa e acaba numa ilha inominada que nos levou aos Açores, onde filmamos em S. Miguel e no Pico. Filmamos também em Lisboa, Guimarães, Esposende e Póvoa do Varzim. O percurso da Adriana não é só pessoal, como geográfico. Essa diversidade de locais está bem patente no filme e corresponde a uma passagem por ambientes muito diferentes, não só fisicos como sociais. Nesse sentido tentei com a fotografia acompanhar (e ajudar a) essa evolução e dar-lhe um “crescendo”, de acordo com o argumento.

Como assim?

Pensando em termos fotográficos, considero que existe em qualquer filme, a par da linha narrativa (como contas a história com a camara, se é dia, se é noite, etc), uma linha dramatúrgica, mais ligada aos ambientes que vais criar e à sua evolução ao longo do filme, por exemplo. Enquanto director de fotografia tomas opções que estejam de acordo com as cenas por si, mas não podes perder de vista o todo do filme. O teu trabalho não é apenas o mero somatório de cenas fotografadas com um determinado ponto de vista ou objectivo, mas a forma como é conduzida a fotografia ao longo do filme de acordo com o que se quer contar, mostrar ou demonstrar. É um trabalho que exige um certo envolvimento na criação de um filme, alguma preparação antes da rodagem, e obviamente um esforço de adaptação ao que tens à disposição no momento de rodagem.

Tentas fazer isso em todos os filmes?

Claro. É uma das grandes contribuições criativas de um df num filme. Senão mesmo A grande contribuição. No sentido inverso daquelas pequeninas coisas que às vezes ninguém dá por elas mas estão lá e fariam uma diferença se não estivessem.

Queres dar um exemplo?   (...)"

 

excerto de entrevista in revista "Imagem" nº6, 2004                                                                ver entrevista integral

 

 

 

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"Numa ilha imaginária nos Açores, uma comunidade fecha-se em torno de Edmundo, um aristocrata rural, que acabou de perder a mulher, na sequência do nascimento da sua filha. Atravessado pelo desgosto, Edmundo declara o luto e proíbe qualquer forma de contacto sexual entre os habitantes. É neste ambiente que Adriana, a filha de Edmundo, cresce, ela que é uma das últimas crianças a nascer nesta ilha. Anos mais tarde, quando a desertificação da ilha se agudiza, Edmundo é levado a tomar uma decisão drástica: enviar a sua filha para Lisboa, para que ela “possa constituir família por métodos naturais”. E é assim que, para Adriana, começa a saga na grande cidade. Assaltada por uma elegante mulher logo à saída do aeroporto, Adriana não só fica sem os seus pertences, como perde também a identidade. Perdida na grande cidade, será ajudada por Estela e pelo seu filho Saturnino, um travesti, que a levará através de uma Lisboa misteriosa e surpreendente.

ADRIANA é a quarta longa-metragem de Margarida Gil, uma obra que se distingue pelo apuro dos diálogos escritos a meias com Maria Velho da Costa, mas também pela deslumbrante fotografia de Rui Poças e as interpretações de Ana Moreira e Isabel Ruth, entre outros."

in Catálogo do 2º IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente, 2005

 

 

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