Van
Gogh
O ESTILO DE VAN GOGH
1. Marchand de arte
O interesse de Van Gogh pela pintura começa quando ele
consegue seu primeiro emprego na casa Goupil, como marchante de arte. É neste
momento que ele entra em contato com as criações pictóricas dos artistas mais
reconhecidos. Sua admiração por pintores como Rembrandt, Millet ou pelas
estampas japonesas nasce nesse momento. Mas ele demora alguns anos ainda para se
dedicar à pintura. Primeiro seu emprego e mais tarde a sua repentina vocação
religiosa lhe impedem descobrir seus dotes artísticos. Para penetrar no estilo
e na personalidade do pintor é necessário reproduzir alguns dos fragmentos de
Cartas a Théo. Este livro, no qual se recopilam os escritos que Van Gogh envia
a seu irmão, é um documento imprescindível para o estudo deste artista.
Trabalhando para a Casa Goupil ele tem a oportunidade de residir nas principais
capitais européias. Sua estadia em Londres e em Paris lhe permitirá conhecer
os quadros dos grandes gênios da pintura. Vincent, ademais, é um estudioso
nato de tudo aquilo que lhe interessa. A análise exaustiva das obras de arte,
da literatura ou da teologia são alguns exemplos da capacidade intelectural
deste polifacético pintor.
Observando os primeiros quadros naturalistas de Van Gogh, é possível se falar
de um realismo social com fortes deformações expressionistas. A influência de
Millet se faz sentir ao longo de sua obra. As cenas de trabalho ou suas
representações da humanidade faminta e cansada lhe servem para se esmerar
neste realismo. "Sim, o quadro de Millet, O Ângelus do Anoitecer, 'é
algo', é magnífico, é poesia." Deste pintor, o que mais lhe surpreende
é sua forma de representar os personagens trabalhando. As figuras que aparecem
em seus quadros encarnan o camponês, o agricultor. Esta faceta é especialmente
chamativa para um pintor que vai dedicar, uma parte importante de sua vida, a
ajudar as classes trabalhadoras. Como complemento de Millet, os livros de Zola são
uma fonte de primeira mão na descrição da sociedade de sua época.
Com Rembrandt ele não só comparte seu fervor religioso, como também os mesmos
materiais. Enegrece o bisel à maneira chinesa e empequenece seus personagens
para despi-los de qualquer pretensão maneirista. Durante estes anos, o pintor
se dedica a recortar e a colar num álbum fotofrafias e reproduções dos
quadros que mais lhe fascinam.
A influência oriental lhe atinge quando os mercados da estampa japonesa são
abertos ao Ocidente. Estando em Paris, ele descobre esta lâminas, tão
refinadas em seu esquematismo, graças à obra de autores como Hiroshigue ou
Hokusai.Van Gogh extrai de seus modelos um estranho orientalismo. Como exemplo,
o retrato de "Père" Tanguy, a quem ele desenha com marcados traços
achinesados e ao fundo as xilografias nipônicas, que Vincent expõe na loja
daquele, em Paris. Em A Ponte sob a Chuva, os traços que definem os pequenos
personagens que aparecem e as cores planas indicam elementos próprios da arte
oriental. Na cópia das estampas japonesas, o pintor imprime seu próprio
estilo. Alarga as margens, escreve lendas com signos nipônicos que ele nem
sequer entende. Van Gogh não se limita a reproduzir o que observa, intui também
uma idéia da realidade pictórica e assimila elementos de outros autores e
outros estilos.
Em Londres, suas visitas aos museus lhe permitem descobrir Constable, Reynolds e
Turner. Desde a cidade britânica, em 1873, ele descreve assim suas impressões:
"A arte inglesa não me atraia ao princípio, é preciso se acostumar a
ela. Há, no entanto, aqui, pintores hábeis: entre eles, Millais, que fez
Hugonte, Ofélia, etc..."
Sua estadia em Inglaterra não se prolonga muito tempo e na primavera de 1875
ele se transfere para Paris. Na capital francesa ele conhece a produção de
pintores pelos quais mostra grande interesse. Visita uma exposição na qual ele
tem a oportunidade de contemplar os quadros de Corot, autor a quem ele continua
estudando o resto de sua vida. Nas horas que ele dedica ao Louvre fica
entusiasmado com as obras de Rembrandt e Ruisdael.
2. O pintor das Missões
A obsessão religiosa e o misticismo do pintor levam-no
a abandonar seu trabalho na Casa Goupil, ao mesmo tempo que ele inicia o estudo
de latim e grego, a fim de ser admitido na Faculdade de Teologia Protestante de
Amsterdã. Seus esforços não se vêem recompensados. Após uma breve preparação
num centro de Bruxelas, ele solicita uma vaga de predicador na região belga de
Borinage. É na cidade de Wasmes onde Van Gogh, como missioneiro evangelista,
ajuda os mineiros, durante 1879. Neste lugar, o pintor contempla a natureza com
um olhar diferente do resto dos mortais. Quando observa uma árvore ele estuda
com detalhe sua textura, sua inclinação e sua densidade. Ele é capaz de
transformar o cotidiano em protagonista de seus quadros. Assim descreve Théo a
sensação que experimenta nesta fria e escura região: "Você deve saber
que não há quadros em Borinage, onde, em geral, ninguém sabe nada sobre o que
é um quadro. Mas isso não impede que a região tenha características muito
pitorescas. Tudo fala, isto é, tudo está cheio de caráter. Estes últimos
dias, os dias sombrios que antecedem o Natal, nevou. Tudo recordava os quadros
medievais de Breughel, o camponês, e de tantos outros que lograram expressar,
de uma maneira tão impressionante, o efeito característico do vermelho e do
verde, do preto e do branco. O que se vê aqui me faz pensar sempre na obra, por
exemplo de Thijs Maris, de Alberto Durero. Há aqui caminhos profundos, cobertos
de sarças e de velhas árvores torcidas com raízes fantásticas que parecem
muito com esse caminho de uma água-forte de Durero: O Cavalheiro e a
Morte."
A natureza é um ponto de referência para o pintor, mas a partir de uma ótica
diferente. Neste caso, ele inverte a máxima e recorda as palavras de Oscar
Wilde, ao afirmar que "a natureza imita a arte." A pequena cidade de
Wasmes limita cada vez mais o artista. A literatura é, neste momento, uma via
de escape para ele. Um de seus autores preferidos é Shakespeare, que ele
considera misterioso chegando até a comparar suas palavras com "um pincel
trêmulo de febre e de emoção."
Daumier é outro dos pintores que mais lhe entusiasmam. De sua obra destaca a
humanidade com que aborda alguns temas, junto com a força e a expressividade de
seus desenhos.
3. Millet e os mineiros
O fervor com que Vincent se entrega ao doentes e a austeridade com que ele vive, levam-no a cair doente e a entrar em discordância com seus superiores. Em 1880, ele regressa a Etten e inicia seus primeiros esboços, tinha 27 anos. Estas obras estão inspiradas na vida dos mineiros. Influenciado pelos quadros de Mille, A Hora da Jornada e O Semeador, ele esboça grandes desenhos.Van Gogh sente necessidade de estudar a fundo os desenhos de Breton, Brion ou de Boughton. Para ele a faceta humana tem um interesse fora do normal, inclusive ele pensa que os carvoeiros e os tecedores são homens com algo especial que ele gostaria de pintar algum dia. As normas mais básicas do desenho, as leis das proporções, o domínio das luzes e das sombras chegam a ser uma obsessão que perturbam o pintor, razão pela qual ele começa a realizar esboços de anatomia do corpo humano e também de animais. A medida que ele vai se aperfeiçoando no ofício, tudo adquire interesse para Vincent: paisagens, instrumentos da lavoura e uma extensa galeria de personagens. Ele repete as mesmas cenas muitas vezes a diferentes horas do dia. Num fragmento, extraido de Cartas a Théo, ele disse algo realmente bonito sobre a natureza, que ajuda a compreender o conceito dinâmico que ele tinha desta: "A natureza começa sempre fazendo resistência ao desenhista, mas aquele que assume sua tarefa realmente a sério não se deixa dominar por esta resistência, ao contrário, esta se torna um excitante e, no fim das contas, a natureza e o desenhista sincero entram num acordo. Mas a natureza é intangível, A questão sempre será dominá-la, captá-la, e isso só poderá ser feito por alguém que tenha mão firme. E depois de se ter enfrentado e lutado algum tempo contra a natureza, esta termina por ceder e se entrega docilmente."
4. Tosco e Austero
Um ano mais tarde, Vincent continua desenhando e começa
a pintar com aquarelas. Suas primeiras obras se caracterizam pela sobriedade com
a qual ele interpreta a classe trabaladora e o esquematismo de suas paisagens.
Os quadros conservam tonalidades escuras e sombrias. Nestes anos ele ainda não
pinta nenhum auto-retrato, só desenha os gestos e atidudes das figuras que ele
considera mais interessantes. Os estudos que ele faz de um velho chorando e de
um camponês sentado numa cadeira diante do fogo são um exemplo disso.
Aconselhado por seu primo Mauve, também pintor, ele trabalha a carvão, ainda
que se desespera ao encontrar grandes dificuldades para se desenvolver nesta técnica.
Mauve anima-o para que pinte uma natureza-morta, na qual os alimentos se
misturem com uns velhos sapatos. Este é o primeiro quadro a óleo deVan Gogh.
As cores escuras, que dominam na cena, só se vêem apaziguadas pelos matizes
amarelos de um repolho.
No mês de março de 1883, seu tio Cornelis encomenda-lhe doze paisagens de Haia,
a pena de cana de bambu. Este e outros alicientes incentivam Vincent no seu
trabalho. Para desenhar ele utiliza um lápis de carpinteiro e carvão.
"Com o carvão molhado em água se pode fazer coisas notáveis, pude ver na
casa de Waissenbruch, o azeite serve de fixador e o negro fica mais cálido e
mais profundo."
O autor continua obsessionado com a figura humana. Espera com impaciência que
passe o frio para poder trabalhar com modelos. A estes não lhes exige poses
acadêmicas. Sua intenção é refletir o movimento do trabalhador, do camponês
ou da costureira, à maneira de Millet.
Os matizes e os tons incentivam-no. Após o estudo das cores primárias e
complementárias ele compreende que as possibilidades de diferentes tonalidades
são infinitas. A medida que se familiariza com a pintura, descobre as
possibilidades que lhe oferecem as cores para expressar sensações e estados de
ânimo. "Só se trata de uma questão de cor e de tom, do matiz da gama de
cores do céu, no princípio, uma bruma lilás na qual o sol vermelho esta meio
coberto por um matiz violeta escuro com uma faixa resplandecente; perto do sol,
reflexos de vermelhão, mas mais acima uma franja amarela que se torna vermelha
e azulada por cima: o chamado cerulean blue, e depois aqui e ali, nuvenzinhas e
pontos cinzentos que captan os reflexos do sol. O solo está escuro como se
estivesse forrado de verde-cinza-moreno, mas cheio de matizes e de
"formigamentos". E neste solo colorido brilha a água do arroio.
"Uma fila de chorões-salgueiro, o caminho que rodeia sua casa e um campo
de batatas, são alguns dos estudos que prepara nesta época. Nestes anos, a técnica
que ele emprega se caracteriza pelo uso de muita quantidade de tinta. Ele aplica
as cores com o tubo diretamente sobre a tela, para modelá-los depois com o
pincel.
As aquarelas e os pincéis continuam sendo os materais que acompanham o pintor
na busca de novas formas. Desenhar grupos de pessoas, o problema da luz e a
perspectiva são problemas que preocupam o holandês constantemente. Quando ele
emprega aquarelas descobre que é preciso trabalhar com rapidez. Como afirma
Whisther: "É verdade, eu fiz esta obra em duas horas, mas trabalhei anos
para poder fazê-la em duas horas."
Em 1883 se sente enfermo e pede ajuda a Théo. Vincent se muda para Drenth, em
setembro desse mesmo ano. Lá o pintor recupera a confiança em si mesmo e torna
a sentir vontade de pintar ao ficar maravilhado com a paisagem e as pessoas do
lugar.Van Gogh se questiona constantemente sobre sua capacidade e seu valor como
pintor.
Dois meses mais tarde se transfere para Nuenen, onde permanece até 1885. Nesta
localidade, ele estuda as criações de Manet. Vincent envia a seu irmão esboços
de todos os trabalhos que realiza. Théo se torna seu principal crítico, embora
o artista nem sempre aceite estes conselhos com humildade. Por outra parte, Théo
mantem Van Gogh informado sobre os pintores que mais sobressaem nesse momento e
sobre as últimas tendências artísticas, como o Impressionismo. O pintor ainda
não conhece este movimento e por isso mantém uma atitude prudente a respeito.
5. As Cores da miséria
A cor e o domínio do desenho continuam sendo sua meta
de aperfeicionamento, junto com as obras de seus antecessores. De Millet ele
adota a atitude dos personagens que representa em suas telas. De Rembrandt, a
cor e a composição: "Diante da obra de Rembrandt A Lição de
Anatomia,... A verdade é que ainda continuo enfeitiçado. Recorda as cores da
carne: são cor de terra; sobretudo os pés." De autores como Frans Hal, o
Veronês, Rubens, Delacroix ou Velasquez destaca sua capacidade para aplicar as
cores.
Em novembro de 1885 parte para Amberes. Nesta cidade, ele satisfaz o desejo de
conhecer em profundidade os quadros de Rubens, a teatralidade e a maginitude de
suas obras. Os tons, a luz e o movimento com os quais este pintor impregna seus
quadros são os elementos que mais atraem Van Gogh. Durante sua estadia em
Amberes ele ingressa na Academia de Belas Artes. Lá ele comprova que sua técnica
é correta, mas logo entra em conflito com as doutrinas clássicas dos
professores. Seu posterior traslado a Paris implicaria uma transformação
radical no seu estilo.
6. Uma nova concepção Artistica
O avanço da ciência e as transformações sociais se
vêem refletidos imediatamente no âmbito das artes. A ruptura com a tradição
é radical. Os artistas deste momento se questionam sobre "como devem
pintar" e sobre a função social de suas obras. Adotam posturas inovadores
e surge uma nova concepção, segundo a qual a arte é concebida como uma
investigação aberta que dá respostas a todo tipo de questões. Na segunda
metade do século XIX, uma série de indícios levam a pensar que se está
gestando uma nova orientação na pintura européia. Os tons claros, uma execução
mais solta e a tendência a utilizar a natureza como fundo arquitetônico, são
algumas das transformações mais significativas.
A paixão pelos exteriores, junto com uma nova valorização do espaço e
composições diferentes, opõem-se às normas tradicionais. Os impressionistas
investigam novos temas frente à teatralidade das composições clássicas.
Paisagens rurais ou urbanas, interiores, festas e todo tipo de personagens
despertam o interesse destes pintores. A qualidade da luz e uma tonalidade
luminosa de cores constitui outro fundamento desta tendência, o que se
complementa com uma técnica solta e leve, na qual se misturam pinceladas
vigorosas e curtas com abundante pasta pictórica. O objetivo principal do
pintor é conseguir um efeito imediato e que a obra se converta num objeto autônomo.
Todas estas circunstâncias têm como conseqüência uma renovação do conceito
figurativo. O grande mérito do Impressionismo foi ter situado o artista em
contato direto com a realidade, liberando-o do academicismo, a favor de uma
explosão do colorido.
A postura do espectador, diante destas transformações, já não é passiva,
agora ele faz parte do quadro e da técnica. Assim, a tela aparece como algo
inacabado, como uma impressão imediata da realidade. A pessoa que admira a obra
deve reconstrui-la mentalmente.
Edouard Manet é o precursor deste movimento. Suas obras oscilam entre o
Realismo e o Impressionismo. Com O Banho (Le dejeneur sur l'herbe), exposta no
Salão dos Rechaçados, ele faz grande sucesso. Grandes manchas de cor, o forte
contraste entre diversos tons e a pincelada solta, definem este quadro. Dentro
desta corrente, Claude Monet é um dos pintores que mais caminho percorrem, ao
viver, desde sua fundação até a sua decadência. O trabalho de Renoir é também
significativo. Sua contribuição mais importante é o movimento da figura
humana e a cor. A formação acadêmica de Degas é um fator presente em suas
criações. Os interiores e a luz artificial que rodeiam suas bailarinas são um
sinal de sua educação pictórica. O movimento dos personagens dentro do
enquadramento espacial é importante em suas obras.
Vinte anos depois da gestação do Impressionismo se produzem sintomas de cansaço
e se anunciam novas correntes. No meio deste panorama, surge o Neoimpressionismo
que se interessa pelos problemas óticos como a luz e a cor, criando-se um
ambiente propício para a introdução de novos valores estéticos. O
Neoimpressionismo cumpre um papel contraditório na história da arte. Sua meta
é chegar a uma arte construida. A partir desta premissa são abertos caminhos
para as correntes abstratas e científicas do século XX. Os artistas seguem
seus objetivos pessoais. Toulouse-Lautrec acentua a idéia de relacionar a arte
e a comunicação com seus cartazes. As cores planas e arbitrárias de Paul
Gauguin reconstroem o conceito da natureza. As composições de Cèzanne são o
resultado da simplificação e síntese da realidade. Finalmente, dentro desta
nova tendência,Van Gogh inaugura uma nova relação entre o espectador e o
mundo exterior tem do como mediador seus quadros.
EVOLUÇÃO ARTISTICA
1. A cidade das luzes
Van Gogh comunica-lhe a Théo, numa carta, sua intenção de realizar uma viagem a Paris. Sua solidão se torna cada dia mais insuportável. Em março de 1886, ele chega à cidade das luzes. Lá instala seu ateliê na Rue Lepic e realiza freqüentes visitas ao Louvre para estudar a obra dos pintores que admira.Van Gogh descobre a luminosidade que caracteriza as obras impressionistas. Para ele os quadros de Delacroix, Monticelli e dos artista japoneses passam a ser matéria de estudo e seus autores, mestres a imitar. Nesta época, Vincent conhece Toulouse-Lautrec, Emile Bernard, Gauguin, Seurat, Signac, Pissarro e Cèzanne, entre outros. Além disso, entra em contato com Père Tanguy, um vendedor de material de pintura com quem ele mantém uma sincera amizade. Com Loutrec e Gauguin comparte sua paixão pela arte. O holandês logo que conhece Gauguin, fica assombrado com a circunspecção e a serenidade que ele transmite, e chega até a confessar-lhe a admiração que sente por suas criações.
2. O ateliê de luz
A palheta do pintor se afasta daquelas tonalidades
escuras que predominavam em suas primeiras obras e se enche dessa luminosidade
que tantas vezes ele tratou de arrancar da natureza. Enquanto isso, em Paris,
respiram-se as últimas tendências artísticas. Ao mesmo tempo, tem lugar a
oitava e última exposição dos impressionistas, ao mesmo tempo que os
representantes desta corrente triunfam com uma mostra que se celebra em Nova
York.
Vincent não desiste e continua estudando detalhadamente tudo que tem que ver
com a técnica. Prova novos procedimentos que lhe recomendam seus colegas de ofício.
Acude às margens do Sena para buscar novos temas que pintar; alguns de seus
quadros o ratificam. Apesar de viver rodeado de outros pintores e de
compartilhar com eles suas impressões, na sua obra não se percebe influências
de outros autores. Ainda que ele assimile elementos que lhe resultam
gratificantes para o seu estilo pessoal.
Durante sua estadia na capital francesa, Tanguy decora sua loja com algumas
telas do holandês, a fim de vendê-las. Por outro lado, o pintor trata de
organizar uma exposição, mas não tem sucesso nesta tentativa. Este e outros
fracassos terminam por afetar profundamente o seu caráter. Sua aventura em
Paris finaliza em seguida, e ele empreende uma nova viagem. As razões que o
levam a adotar esta repentina decisão são diversas. A idéia de viver a custa
de seu irmão não o entusiasma. A rivalidade entre pintores, a indiferença com
que lhe recebem e o alvoroço da cidade grande são as razões que o levam a
viajar para o sul. Cada dia que passa seu trabalho se torna mais intenso e sua
saúde, mais precária. Seu desejo de chegar a um lugar no qual o brilho do sol
impregne as cores luminosas da natureza conducem-no ao sul da França.
Toulouse-Lautrec tem muito que ver com esta decisão já que foi ele que lhe
aconselhou ir para a Povença, onde ele disfrutaria das cores desta região, os
campos de trigo, das oliveiras...
Após pensar muito sobre isso, Vincent comunica-lhe a Théo seu desejo: "E
depois me retirarei a qualquer parte do sul, para não ver tantos pintores que
me causam asco como homens."
3. No "Midi" Francês
Vincent Van Gogh chega a Arles em 1888. Lá ele
descobre o sol do "midi" francês. Gente simples, flores e paisagens vão
ocupar um lugar destacado nas suas telas. Mas além das formas plásticas, o
pintor busca a entidade do ser. Todas estas preocupações ficam refletidas na
sua obra, junto ao estudo metódico do desenho.
As hortas floridas enchem-lhe de felicidade e ele pinta sem descanso. Sua exaltação
cresce a medida que passam os dias e sua pintura é um culto ao sol, à luz e à
natureza. Na busca do seu próprio eu, Van Gogh encontra o gosto pelo detalhe
expressivo, pelo Expressionismo. Este estilo se alimenta da aparência da
realidade e da expressão de seu conteudo. O detalhe fica em segundo plano, e o
que prevalece é uma realidade deformada. Através de um pedido que realiza é
possível conhecer as cores que ele emprega: branco-prata, branco-zinco,
verde-veronês, amarelo-crômio, limão, vermelhão, laca-gerânio, carmim,
azul-da-Prússia, cor-de-laranja e verde-esmeralda.Van Gogh começa a pensar na
possibilidde de fazer retratos e observa as pessoas da cidade às quais ele
considera muito pitorescas: "Vi aqui figuras certamente tão belas como as
de Goya e Velásquez. Elas sabem dar um toque rosa num vestido preto, ou bem
confeccionar uma roupa branca, amarela, rosa ou um verde e rosa ou azul e
amarelo, onde não há nada que modificar do ponto de vista estético." A
influência das estampas orientais se materializam em suas obras mais
importantes. Ele extrai traços nipônicos da paisagem provençal. Uma mostra
disso são os elementos orientais que ele mimetiza em quadros como A Ponte sob a
Chuva ou no Retrato do "Père" Tanguy.
No anos de vida que lhe restam, o pintor vive às custas do dinheiro que lhe
manda regularmente seu irmão. Em troca, envia-lhe quadros e estudos de diversos
tipos a fim de que os coloque no mercado. Não se deve esquecer que Théo é
antes de tudo, marchante de arte e como tal está em permanente contato com possíveis
compradores.
A personalidade de Van Gogh é mutante e às vezes enfermiça. Ora artravessa
momentos críticos, ora eufóricos. Estes altos e baixos repercutem no seu
trabalho. Em Paris seus estilo havia adquirido um acentuado caráter
expressionista. Este elemento é intensificado cada vez mais em suas pinturas,
tratando sempre de exagerar o essencial e deixar num segundo plano as partes de
menor importância. Vergéis, trigais e outros lugares do povoado ocupam grande
parte dos ensaios e estudos que ele realiza nesta época. Sua obsessão por
melhorar seu trabalho obriga-o a repetir os esboços várias vezes. Estes
estudos ajudam-no a cultivar o gênero do retrato. O carteiro Roulin posará
para o pintor. Este personagem não só é um dos escassos amigos que ele chega
a ter em Arles, como também uma das poucas pessoas que aceita posar como
modelo. Também pertencem a esta época seus primeiros estudos do interior da
taverna que ele freqüenta e estudos sobre flores do estilo de Monticelli.Van
Gogh tem dúvidas em relação a sua capacidade para desenhar como este pintor,
a quem, por outra parte, tanto admira. A insegurança é uma constante da sua
personalidade, o que lhe conduz a uma incessante tarefa de investigação. Ainda
que seu afã por trabalhar não decaia, sua saúde é delicada.
4. O sol - um disco amarelo
O olhar especial do holandês conserva a habilidade de
transformar uma paisagem num quadro de Corot, ou de encontrar no lugar menos
esperado os cinzas com os quais Velásquez impregnava suas telas. Mas o que mais
lhe apaixona é o sol da Provença: "Um sol,uma luz, que por falta de outra
coisa melhor não posso chamar mais que amarelo, amarelo de enxofre pálido, limão
pálido, ouro. Que belo é o amarelo! Esta cor, que para o pintor tem um
significado especial, dota de vida a maioria de suas obras. Espirais e grandes
discos amarelos servem-lhe para modelar o sol da Carmague.
A meados de agosto de 1888, ele começa a pintar Os Girassóis e prepara três
esboços sobre este motivo. No primeiro, desenha grandes flores numa jarra verde
sobre um fundo claro. Três flores, uma em semente e outra desfolhada, e um botão
sobre fundo azul-real ocupam o segundo estudo. Finalmente, um terceiro desenho
no qual aparecem doze flores e botões numa jarra amarela. Para Vincent este é
o melhor dos três. Seu empenho não esmorece e ele realiza um quarto quadro de
girassóis. Desta vez quatorze flores sobressaem sobre um fundo amarelo. Deste
tema ele chega a realizar mais de dez mostras.
O retrato é outro gênero de vital importância para o holandês, já que lhe
permite desenvolver profundamente seu ofício.Van Gogh concebe o retrato como
uma forma de buscar a verdade e de expresá-la através de seus quadros.
"Eu gostaria de dizer alguma coisa que fosse consolador como uma música.
Eu gostaria de pintar os homens ou as mulheres com um não sei quê de eterno,
do qual, em outro tempo, a auréola era símbolo, e que nós buscávamos pelo
seu brilho cintilante, pela vibração de nossos coloridos." No entanto, os
escassos recursos econômicos dos quais ele dispõe não lhe permitem pagar
modelos.
O pensamento do pintor enfrenta o estudo da cor como um elemento capaz de
expressar estados de ânimo, sensações ou sentimentos. Os tons, as harmonias,
as cores complementárias e um sem fim de matizes ocupam a mente de Van Gogh. Na
busca de novas tinturas ele descobre as cores da noite e realiza Café Noturno.
"Tratei de expressar com o vermelho e o verde as terríveis paixões
humanas. A sala é vermelho-sangue e amarelo-limão com um resplendor alaranjado
e verde. Há por todas as partes um confronto e um contraste entre os verdes e
os vermelhos mais diferentes (...) O vermelho-sangue e o verde-amarelado do
billar, por exemplo, contrastam com o leve verde suave Luis XV do balcão, onde
há um ramo rosáceo. A roupa branca do patrão, que está tomando conta, num
canto, perto do forno, torna-se amarelo-limão, verde-pálido, luminosa..."
O prodigioso pintor manifesta em numerosas ocasiões sua insatisfação por
quadros como O Semeador ou Café Noturno, dos quais ele opina que são "atrozmente
feios e maus". Mas quando muda de humor considera-os os estudos mais sérios
que já realizou na sua vida. Sua inestabilidade emocional é a causa destas
contradições. Sua capacidade de trabalho é inesgotável: ele realiza uma média
de três quadros por semana; assim se explica como, em só dez anos, sua produção
artística tenha alcançado quase os mil quadros.
A falta de modelos redunda num certo atraso em seus progressos, por isso ele
compra um espelho para poder trabalhar sobre o seu rosto com todos os detalhes.
Os auto-retratos são uma prova de sua evolução artística e espiritual.
Embora, a medida que o tempo passe, ele vá clariando os tons, os traços do
rosto adquirem maior intensidade e seu olhar transmite grande inquietação. Um
dos quadros mais impressionantes, dentro deste gênero, é aquele no qual ele
aparece com a orelha tapada após tê-la cortado. A realização dos
auto-retratos atinge maior soltura com o passar dos anos.
O momento do dia que mais lhe atrai é a noite. Na escuridão, a natureza
adquire um matiz e uns tons diferentes, que o artista expressa com um vigor
surpreendente. Vincent passeia pelas ruas de Arles com um chapéu rodeado de
velas, para poder anotar as impressões que provocará a escuridão, nas suas
telas.
Neste período ele inicia o primeiro ensaio de O Quarto de Arles. A composição,
as cores e a harmonia são uma parte essencial para oferecer uma sensação de
repouso e descanso. Pelo menos esta é a intenção que o autor busca com a
execução deste quadro, onde nada é casual mas sim é resultado de uma
profunda reflexão.
5. Gauguin mestre de Van Gogh
A solidão e a escassez de recursos inquietam o pintor,
por isso ele propõe a Gauguin que se transfira a Arles. Quando comenta a Théo
sua intenção, escreve-lhe:" Se Gauguin quisesse se unir a nós, creio que
teríamos dado um passo adiante. Isto nos definiria claramente como exploradores
do sul, sem que ninguém pudesse replicar-nos."
Gauguin, após seus insistentes convites, decide se instalar na Provença em
outubro de 1888. Para pagar a hospitalidade do holandês envia a Théo um quadro
todos os meses. Sua chegada impõe um novo rumo à vida de Vincent. Não só faz
com que ele reorganize seus hábitos de vida, como também leva-o a decidir que
os dois juntos podem preparar suas telas e o seus bastidores. O trabalho e as
discussões sobre pintura definem o encontro entre os dois pintores, mas em
pouco tempo prevalecem os enfrentamentos. "Gauguin e eu falamos muito sobre
Delacroix, Rembrandt, etc... A discussão é de uma eletricidade excessiva;
acabamos, às vezes, com a cabeça fatigada como uma bateria elétrica depois da
descarga."
As diferenças cada vez são mais evidentes. Mas o temor à solidão lhe impede
aceitar a partida de Gauguin. O mesmo dia que escreve a Théo intimida a Gauguin
com uma navalha. A mesma arma que lhe serve para cortar a sua orelha isquerda.
Este fato obriga-o a ingressar no hospital.
Quinze anos depois, Gauguin recorda aqueles dias num artigo: "Quando
cheguei a Arles, Vincent estava em plena escola neoimpressionista e andava
totalmente perdido, o que lhe fazia sofrer, não porque esta escola, como todas
as demais, fosse má, mas sim porque não casava bem com sua natureza, tão
pouco paciente e independente. Com todos esses amarelos sobre violetas, todo
esse trabalho desordenado, por certo, ele só conseguia harmonias suaves,
incompletas e monótonas." Neste escrito, Gauguin insiste em considerar que
seus ensinamentos foram um fator decisivo na curta vida deVan Gogh. Desde esta
perspectiva, destaca-se a capacidade de aprendizagem do holandês que não tinha
nenhum "temor ao próximo nem era pertinaz diante de outras idéias
diferentes das suas." Ainda que os intercâmbios em matéria de pintura
sejam mútuos, enquanto permanecem sob o mesmo teto, em nenhum deles se percebe
influências do outro.
6. Os quadros da loucura
Durante o tempo em que está no hospital nunca deixa de pintar, especialmente nos momentos de lucidez. Seus quadros, cheios de cores, estão dominados por uma pincelada ondulante e frenética. Nestes dias ele sente especial predileção por reproduzir quadros de outros autores como A Ressurreição de Lázaro e O Bom Samaritano, segundo Delacroix. No dia 7 de fevereiro ele regressa à Casa Amarela em Arles, mas logo volta a sofrer alucinações e tornam a interná-lo. A esta época pertencem obras como o Retrato do Doutor Rei, O Pátio do Hospital de Arles, a janela do seu quarto ou O Campo de Amapolas. Nos momentos críticos ele fica obsessionado pelo trabalho e sua insegurança na arte de pintar se torna uma constante. "Tenho, infelizmente, um ofício que não conheço suficientemente a ponto de não poder expressar-me tão bem como eu desejaria." Esta afirmação é decisiva para se compreender suas preocupações e encontrar a raiz de sua genialidade. A falta de prepotência e de confiança em seu trabalho converteram-no num autêntico analista da pintura. Depois de passar uma longa temporada em Arles ele pede a Théo que lhe ingresse no hospital de Saint-Remy. O autor aceita sua loucura como uma enfermidade como outra qualquer. Em maio, instala-se em sua nova residência. Lá ele dispõe de dois quartos, num ele pinta e no outro ele dorme. Assim que ele chega, prepara seus pincéis para começar a pintar sem descanso. Sua primeira obra: Os Lírios. Este tema ele descobre no jardim do manicômio.
7. A Essência da Arte
Em sua evoluão artística Van Gogh se questiona sobre
a essência da arte. Esa idéia recorda-lhe a arte egípcia. Aqui está a
resposta: segundo Van Gogh, os artista daquele país tinham a capacidade de se
expressar em suas obras tudo aquilo que se pudesse sugerir, mas que implicasse
grande dificuldade na hora de plasmá-lo. Através de sábias curvas e perfeitas
proporções podiam representar a serenidade, a bondade e a majestuosidade dos
faraós. O segredo, portanto, estava na concordância entre o quê e o como da
obra. Deste modo, a entidade desta permanece no tempo. Para Van Gogh a busca da
verdade continua sendo uma meta para dotar seus quadros de permanência .
Em novembro, Octave Maus, secretário dos XX, propõe ao pintor que exponha
alguns de seus quadros no oitavo Salão, que se organizaria em Bruxelas. O
pintor aceita que suas obras sejam contempladas nesta exposição, junto com as
de Cèzanne, Forain, Lautrec, Renoir e Sisley. Esta e a publicação de um
artigo no Mercure de France sobre sua obra serão as únicas notícias agradáveis
desta época. O artigo elogia o trabalho do holandês: "Este artista
robusto e verdadeiro, que tem tanta raça, com suas mãos brutais de gigante, o
nervosismo de uma mulher histérica, a alma iluminada, tão original e tão
marginal no meio de nossa lastimosa arte de hoje, gozará algum dia do
reconhecimento, dos lisonjeios arrependidos da fama? Talvez. " A única
venda que ele faz na vida, realiza-a neste momento. Anne Boch paga quatrocentos
francos por A Videira Vermelha.
8 . Cena de uma morte anunciada
A solidão do pintor se faz cada vez mais dura e ele já
não aguenta mais tempo no hospício de Saint-Remy. Sua transferência para
Auvers-sur-Oise é imediata. Lá ele espera o Doutor Gachet, a quem ele retrata
num de seus quadros mais bonitos. Nele fica patente a confiança e a estreita
relação que ele mantém com este médico, que esteve a seu lado até os últimos
dias. Testemunho de sua amizade é o magnífico retrato que deixa do Doutor
Gachet, no qual a melancolia se une à expressividade de seu rosto. As Casas em
Cordeville, o castelo e os campos de Auvers, são motivos que ele transfere para
seus quadros durante este período.
A última tela de Van Gogh é um trigal agitado pelo vento, sobre o qual voam pássaros
negros. A casualidade ou o destino fazem com que esta tela anuncie um triste
presságio. No dia 27 de julho se dá um tiro que lhe provoca a morte. Emile
Bernard, o "Père" Tamguy, Pissarro, Lauzet, Audries Bonger e o Doutor
Gachet acompanham Théo no enterro. Meio ano mais tarde morre seu irmão Théo.
A obra de Van Gogh, que pasas às mãos da cunhada, é valorizada em dois mil
florins. Muitas pessoas aconselham à viúva de Théo que a destrua, mas ela
continua com o projeto de seu marido de organizar uma exposição com os
melhores quadros do pintor holandês. Em pouco tempo, sua obra começa a ocupar
as salas de exposições. Um século depois seus quadros se cotizam como os mais
caros do mercado da arte
RECONHECIMENTO AO PINTOR
1. Vocação Tardia
Hoje em dia a obra de Van Gogh é inconfundível. A
violência na aplicação da cor e a pincelada sinuosa são alguns dos traços
que identificam suas criações. As telas são como um espelho que refletem seu
estado de ânimo. Dentro do espaço pictórico tudo está integrado, sem que
nenhum elemento fique fora do conjunto. Sua paixão pelos impressionistas leva-o
a Arles, onde ele recolhe a luz do sul da França que tanto lhe entusiasma.
Libera-se de suas depressões através da pintura. O motivo a representar se
converte em seu drama interior. Auto-retratos, paisagens e figuras adquirem um
caráter expressionista, no qual os pequenos detalhes ficam relegados a um
segundo plano.
Em poucas palavras estes são os elementos mais notáveis que definem a obra do
pintor, no entanto, estas peculiaridades não englobam a totalidade de suas criações.
2. A pose do trabalhador
As obras da etapa holandesa têm pouco em comum con
suas obras mais conhecidas. Quando se inicia na arte da pintura, seus primeiros
desenhos evocam a vida dos mineiros e das clases trabalhadoras. A influência de
Millet é decisiva. A vida do povo constitui a temática mais repetida nos seus
estudos. O desenho sóbrio e tosco marca as primeiras criações deste autor.
"Fiz o rascunho de um desenho que representa uns mineiros indo para a mina,
de manhã, na neve, por um caminho cercado por uma sebe de espinhos, sombras que
passam vagamente discerníveis no crepúsculo. Ao fundo se confundem com o céu,
as grandes construções das minas de carvão." Utiliza o lápis para
desenhar paisagens esquemáticas e austeras.
Desde o primeiro momento Vincent não confia no ensino das academias. Ele pensa
que pode trabalhar com um artista e a seu lado aprender as leis da proporção,
a perspectiva e a iluminação. Para ele não tem nenhum interesse trabalhar
sobre gesso confeccionando estatuinhas clássicas, que os centros de ensino propõem
para conhecer a anatomia humana.
Por intermédio de Théo, ele aprende os conceitos básicos com Van Rappard, um
pintor rico que lhe ensina a perspectiva e lhe empresta lâminas de anatomia.
Quando este vai-se embora, o holandês começa a estudar o Tratado de Aquarela
de Cassagne. A partir deste momento ele emprega a pena, além do lápis. Seu
esforço por conhecer os segredos da pintura leva-o a desenhar durante jornadas
inteiras. Em poucos meses sua evolução é evidente. "Fiz muitos rascunhos
de aradores, de semeadores, de homens e mulheres. Trabalho muito, por agora, com
carvãozinho; também tentei a sépia e a têmpera." Seu primo Mauve será
outro dos mestres que guiarão os primeiros passos do pintor. "Sou um
trabalhador à maneira de Millet. O seus modelos não adotam poses acadêmicas.
A postura do camponês que ara a terra ou da costureira que remenda a roupa são
as atitudes que exige o pintor." Os conselhos de Mauve com o tempo se
tornam discussões.Van Gogh se nega a pintar um corpo de mulher de estilo clássico,
com o qual a ruptura entre os dois é iminente. No ano de 1883, ele realiza sua
primeira litografia: Sorrow.
As cenas que incluem personagens do povo se convertem numa obsessão para o
pintor. No primeiro estudo de Os Comedores de Batatas,Van Gogh esboça em
grandes linhas suas pretensões. A influência de Rembrandt e Hals levam-no a
desenhar um interior escuro rico em matizes. Neste quadro, que é sua primeira
obra importante, ele evoca o trabalho dos camponeses que comem aquilo que semeam.
3. As cores da provença
A austeridade e sobriedade dos trabalhos iniciais do
pintor sofrem uma transformação radical quando ele chega a Paris. A obra dos
impressionistas surte efeito na palheta de Van Gogh. Neste momento ele adota a
luminosidade que os representantes deste movimento empregam em seus quadros. Uma
das obras mais representativas que pertencem à etapa parisiense é o Retrato de
"Père" Tanguy. Na tela, a figura simétrica do vendedor contrasta com
o fundo composto por xilografias japonesas. O conjunto acusa a falta de
perspectiva e profundidade. Na cidade das luzes, ele acolhe com entusiasmo a
nova teoria e a nova técnica, pensando em todas as possibilidades que ofrece
este movimento. No entanto, esta tendência não termina de satisfazer suas
metas. Sua intenção é criar uma forma de arte com a qual possa expressar o
susbstancial. "Meu grande desejo é aprender a fazer deformações ou
inexatitudes ou mutações do verdadeiro; meu desejo é que saiam, se for necessário,
até mentiras, mas mentiras que sejam mais verdadeiras que a verdade
literal."
O Semeador é um dos seus estudos mais importantes, neste se aprecia
perfeitamente a diferença entre seus primeiros quadros de camponeses e os que
ele realiza posteriormente na Carmargue, ainda que a influência de Millet
permance presente. Em junho de 1888, pinta Zuavo Sentado, o primeiro retrato
depois do de "Père" Tanguy. A peculiaridade deste quadro, que
representa um soldado de infantaria argelino, radica em que ele cria uma ilusão
ótica frente a falta de relevo. As cores que cobrem o vestido do personagem
contrastam com a tonalidade pastosa do fundo. O Carteiro Roulin, Eugênio Boch e
A Arlesiana, retrato de Madamme Ginoux, são alguns dos escassos personagens que
o pintor reflete nas suas telas, durante sua estadia em Arles. Em seus retratos
ele quer encarnar, segundo suas próprias palavras, "a eternidade, o que em
outro tempo simbolizava a auréola dos santos e que nós tratamos de representar
com a luminosidade das cores." A insegurança de Vincent leva-o a repetir
diferentes estudos de cada retrato, Do carteiro Roulin ele realiza seis telas.
Os traços mais característicos dos personagens que Van Gogh pinta nesta época
se concentram no rosto, um dos poucos aspectos que o pintor trata de plasmar com
rigor. Com a postura, a vestimenta, o emprego da cor e a composição, o pintor
pretende conseguir um efeito decorativo. O resultado final de suas obras está
diretamente relacionado com o fato de que estes retratos não tenham sido feitos
por encomenda e, sendo assim, a liberdade de criação é absoluta.
Quando pinta a óleo A Arlesiana, ele faz esta descrição: "Tenho
finalmente uma arlesiana; uma figura esboçada em uma hora; fundo limão pálido,
a cara cinza, o vestido preto, preto, preto, de azul-da-Prússia completamente
cru. Apoia-se sobre uma mesa verde e está sentada numa poltrona de madeira
laranja..."
O último retrato que ele pinta é o do Doutor Gachet. A serenidade de seu rosto
expressa a bondade deste personagem, que, por outro lado, era conhecido como
grande admirador dos impressionistas.
4. Vicent descreve van gogh
O auto-retrato é um dos gêneros mais importantes para
conhecer a evolução artística do pintor. Vincent não começa a recriar sua
imagem na tela até passados uns anos de seus primeiros estudos no campo do
desenho. Seus auto-retratos mais precoces datam do ano 1885. Com um lápis preto
ele se desenha a si mesmo sobre papel, de perfil e com um boné na cabeça. Os
retratos que pertencem à primeira época estão pintados com cores e tons
neutros. Na maior parte deles se retrata com um cachimbo na boca e de perfil, em
outros alude a seu trabalho, com a palheta em uma das mãos diante do cavalete.
Com uma pincelada cada vez mais solta e livre ele assume uma expressão severa e
triste.
Só depois de uma breve estadia em Paris e residindo já em Arles, é que ele
clareia as tonalidades. Ao falar das cores é importante tornar a insistir no
signifacado real que têm para o pintor. Ele entende a gama cromática como uma
forma de representar uma atitude. "Expressar o pensamento de um rosto, pelo
resplendor de um tom claro sobre um fundo escuro." Com o passar do tempo,
cada vez ele emprega tons mais claros, ainda que seus traços ganhem em
expressividade e seu olhar transmita maior desassossego.
Numa carta que ele envia a Théo, descreve para ele o trabalho empregado na
realização de um de seus auto-retratos: "Acabo de pintar meu retrato, que
tem o mesmo colorido cinzento, e a não ser que o tivesse feito a cores, como o
fiz não transmite mais que uma idéia um pouco semelhante. Justamente como
tinha me custado um trabalho terrível para encontrar a combinação de tons
cinzentos e rosa-cinza, não gostei da sua realização em preto. Por acaso
Germinie Lacerteux seria Germinie Lacerteux sem a cor? É claro que não. Como
eu gostaria de ter pintato retratos de nossa família!"
Enquanto Vincent mora em Arles, a falta de dinheiro impede-lhe pagar modelos,
por isso o número de auto-retratos que ele realiza nesta época é
impressionante. Para realizar um estudo exaustivo de seu rosto ele compra um bom
espelho, ao considerar que é imprescindível para um bom pintor a análise da
face humana.
Um dado curioso é que Van Gogh posa para vários contemporâneos seus. Lucien
Pisarro, John Russel e Gauguin são alguns dos artista que imortalizarão sua
imagem. O holandês quando contemplou o quadro que Gauguin fez dele, pintanto os
girassóis, afirmou: "Sim, sou eu, mas após ter enloquecido..."
Os auto-retratos de Van Gogh são uma fonte de primeira mão sobre sua formação
pictórica e sobre suas preocupações pessoais. Nos últimos anos de sua vida a
decadência e a doença estão presentes nos seus quadros. Como mostra, não há
mais que contemplar a tela na qual ele aparece de orelha cortada. É impactante
o expressionismo que se desprende dos seus retratos finais, onde a amargura é
desenhada com pinceladas inquietantes e frenéticas.
5. Um lugar muito pitoresco
Van Rappard, com quem Vincent continua mantendo correspondência, lhe aconselha que faça grandes cenas. A beleza das dunas da praia e da paisagem holandesa animam o pintor a se propor este novo desafio. A composição vai ser um dos aspectos que mais lhe preocuparão ao dar este passo. Como no resto dos gêneros, distinguem-se duas etapas no estudo de seu trabalho. O esquematismo e a tosquedade de seus primeiros ensaios se transformam em colorido e expressão, quando ele chega a França. Dentro desta etapa parisiense um dos seus descobrimentos mais importantes são as teorias de Delacroix relativas à cor. O pintor holandês aprende a aplicação do contraste complementar, que se produz ao confrontar uma das três cores básicas -vermelho, amarelo ou azul- com a misturra formada pelas duas restantes. Outro gênero que Vincent aborda é a cópia de estampas japonesas. Durante sua estadia em Paris, ele realiza várias imitações, inspiradas em quadros de Hiroshigue. O holandês imprime seu próprio estilo a estes quadros e os adapta a sua linguagm pictórica. Ao aplicar a cor, a textura fica pastosa em vez de lisa e o formato aparece mais alargado com caracteres japoneses o que Van Gogh seguramente desconhece.
6. A cor da noite
Van Gogh descobre na Provença as cores da noite. Ele
passeia altas horas da madrugada, com um chapéu rodeado de velas para captar os
tons e matizes da escuridão. "O céu estrelado pintado na noite sob uma
luz de gás. O céu azul-verde; a água é azul-real, os terrenos cor-de-malva.
A cidade é azul e violeta; a luz de gás é amarela e os reflexos são como
ouro vermelho e descem até o bronze verde. No campo azul e verde do céu, a
Ursa Maior tem um resplendor verde e rosa, cuja discreta palidez contrasta com o
ouro do rude gás. Duas figurinhas coloridas de namorados em primeiro
plano."Se pintar ao ar livre é uma inovação do século XIX, pintar de
noite e na rua será uma iniciativa pessoal de Vincent. Com esta técnica ele se
situa no lado oposto dos imporessionistas. O holandês pratica a pintura noturna
até seus últimos dias. Sua produção dentro desta modalidade culmina com A
Noite Estrelada. Os dias que faz mal tempo ele pinta utilizando o recurso da memória.
O resultado final é muito mais artístico que a cópia direta sobre modelos.
Para compreender a composição daqueles quadros que evocam paisagens e
interiores, é preciso recordar o conceito que Van Gogh Goh tem da natureza.
Trata-se de um ser vivo que estabelece uma relação ativa com o pintor. A
aplicação da cor é fundamental. Os tons são convertidos em sentimentos. A
colocação ou a forma dos objetos também não são questões arbitrárias.
Tudo está meditado. Quando Van Gogh realiza um quadro, seu objetivo não se
limita a plasmar uma imagem na tela, ele vai mais além e invoca os sentidos. Um
exemplo disso é a descrição que ele realiza de um estudo de O Quarto de Arles.
"A cor deve predominar aqui, dando com sua simplificação um estilo maior
às coisas, chegando a sugerir o repouso ou o sono geral. Finalmente, diante do
quadro se deve descansar a cabeça ou mais exatamente a imaginação. As paredes
são de um violeta pálido. O piso é vermelho quadriculado. A madeira da cama e
das cadeiras são de um amarelo de manteiga fresca; o lençol e as almofadas,
verde limão muito claro. A colcha, vermelha escarlate. A janela, verde. O
lavabo, alaranjado; a pia, azul. As portas, lilazes. A forma quadrada dos móveis
deve insistir na expressão de repouso inquebrantável. Os retratos na parede,
um espelho, uma garrafa e algumas roupas. "Nesta obra os elementos que
aparecem não estão ali por casualidade. São o resultado de um profundo
estudo. Partindo de um conceito inicial -o repouso- o pintor se encarrega de que
tudo fique integrado e em perfeita harmonia. No entanto, a sensação que sente
o espectador diante desta tela costuma ser paradoxicamente a contrária à
buscada pelo pintor.
7. Metáfora das paixões
As cores deixam de ser um simples elemento da composição
para se converterem numa metáfora das paixões humanas. A esperança ou a solidão
são sentimentos que se traduzem em vermelhos, verdes, amarelos ou azuis,
dependendo do momento. Pela mesma época ele esboça um cristo azul e um anjo
amarelo, num quadro e em outros representa A Noite Estrelada e Os Campos
Lavrados. Na opinião de Van Gogh, estas duas telas são mais serenas que as
outras, e por isso parecem mais agradáveis à vista. Muitas vezes ele emprega símbolos
com o fim de representar um desejo ou uma idéia. "Expressar a esperança
por alguma estrela. O ardor de um ser pela radiação do sol poente."
A pincelada deixa de ser impressionista, apertada e miúda, para ser substituida
por um toque longo, ondulante e circular. "Tento encontrar uma técnica
cada vez mais simples, que, talvez, já não seja impressionista", escreve
ele.
O Expressionismo dos seus quadros, que pertencem a seus últimos dias, canaliza
a amargura e a dor. A contemplação destes transmite uma sensação de
desassossego que recorda a loucura do pintor. Sua última tela, na qual os
corvos negros voam sobre um trigal, é presságio de seu fatal destino. Os críticos
coincidem em que se trata de uma de suas melhores obras.
Durante os dez anos nos quais ele desenvolve sua atividade pictórica, o louco
de cabelo ruivo consegue uma produção superior aos oitocentos quadros. Para
compreender e reconhecer a obra deste artista é preciso entender a relação
que existe entre sua personalidade e suas criações.
8. Estilo Próprio
No final do século XIX, um manifesto destaca os
aspectos mais importantes de um novo movimento, o Simbolismo. O que se pretende
é encontrar a satisfação no sentimento que produzem os objetos através dos
meios que oferece a arte, isto é, não se trata de expressar a imagem mas sim
seu caráter. Van Gogh estabelece relação com esta corrente, ao buscar a essência
do que representa. Quando ele pinta Os Girassóis, as flores estão realizadas
com grande precisão, no entanto a colocação caótica das folhas e, em geral,
a força que emana do quadro dota esta composição de um significado mais
profundo.
Outro elemento peculiar que define os simbolistas é que eles enquadram os
objetos dentro de um contorno para realçá-los e dar-lhes indepenência na
composição e assim convertê-los em símbolos. Um exemplo é o retrato A
Arlesiana. Neste quadro, o encosto da cadeira, a silhueta da mulher e a superfície
da mesa estão perfeitamente delimitadas para imprimir vida e relevo à composição.
Em dezembro de 1888, coincidindo com a estadia de Gauguin em Arles,Van Gogh
pinta dois quadros com um acentuado caráter simbolista, A Cadeira de Gauguin e
a sua. As duas estão vazias e são uma metáfora da personalidade de cada
autor. Sobre a cadeira deVan Gogh, de madeira e mais simples, encontra-se um
cachimbo e um saquinho de tabaco. Os tons claros desta tela expressam a
luminosidade e a claridade do dia. A cadeira de Gauguin é mais elegante e com
braços. Uns livros e uma vela, que se situam em cima desta, simbolizam a
cultura e a sabedoria deste pintor. Os tons verde e vermelho do quadro recordam
a violência e a paixão do Café Noturno.
Não se pode afirmar que Van Gogh fosse um dos representantes mais destacados
deste movimento, porque isto não seria certo. Simplesmente relacionam-no pela
proximidade no tempo e na temática de algumas de suas telas. A personalidade
carismática e a ambição por adquirir uma boa educação através dos livros
fazem deste pintor uma das personalidades mais interessantes da época. Seu
particular estilo lhe permite se introduzir no Impressionismo, no Expressionismo
e inclusive no Simbolismo, como já ficou exposto. Mas sempre sob umas normas de
estilo muito pessoais. Todos estes fatores convertem-no numa espécie única a
imitar e lhe fazem merecedor da admiração de muitos artista posteriores.
9. Os primitivos do séc 20
Van Gogh e Gauguin, junto com Toulouse Lautrec, buscam
a salvação nos primitivos, reivindicam a arte negra e a estampa japonesa. Com
sua volta rechaçam a pintura plana dos últimos quatro séculos de arte
ocidental.
Quando, no Salão do Outono de 1905, apresenta-se o movimento Fauve, entra em
crise o prestígio do academicismo. Vários autores desconhecidos são
congregados numa sala independente: Derain, Matisse, Rouault, Vlamick, Manguin,
Puy e Valtat. A interpretação de suas obras é livre. O colorido é brilhante
e se funde numa alegre provocação. O sentido último desta nova tendência é
a liberação completa do temperamento e do instinto. A origem do Fauvismo se
situa por volta de 1890, naqueles anos em que Gauguin e Van Gogh fugindo do
Impressionismo, tentavam expresasr toda sua paixão com obras intensamente
coloridas. A paixão do pintor holandês continua esta mesma linha e conduz a
exageros idênticos e parecidas liberdades.
Matisse entra em contato com a obra de Van Gogh em 1896. Numa viagem a Bretanha,
Rusell mostra-lhe os quadros do pintor holandês. Mais tarde, numa entrevista
que Tériade realiza a Matisse em 1929, o artista assinala a influência de Van
Gogh em sua vida. Neste fragmento, ele fala previamente do Neoimpressionismo:
" O fauvismo acabou com a tirania do Pontilhismo. Neste momento de minha
vida aparece também a influência de Gauguin e de Van Gogh. As idéias daquela
época eram: construção por meio de superfícies coloridas. Busca de
intensidade na cor, sem reparar em nada na matéria... A luz não é suprimida,
mas se encontra expressa pela harmonia das superfícies intensamente
coloridas." Matisse, ademais, compartilha com Van Gogh uma concepção da
pintura muito mais profunda. A harmonia se torna uma prioridade. Para Matisse
tudo deve estar integrado no conjunto a fim de chegar aos sentidos. "Numa
natureza-morta, copiar os objetos não representa nenhuma dificuldade; mas,
ademais, é preciso refletir as emoções que despertam em cada um de nós: a
emoção que sugere o conjunto, a correlação dos objetos, o caráter específico
de cada objeto -modificado por sua relação com os outros- e tudo isto
misturado como a trama de um tecido." As palavras de Matisse recordam as
intenções de Vincent quando pintava O Quarto de Arles, no qual ele pretendia
infundir uma sensação de repouso. A cor também não é casual. A obra de
Henri Matisse é o resultado de um laborioso e complexo estudo. Algumas das
passagens, em que ele explica sua técnica, sua concepção da natureza e as
formas, parecem estar diretamente relacionadas com as reflexões de Van Gogh
sobre a natureza.
Maurice de Valminck é a personalidade mais desbordante e anárquica do grupo
fauve. As pinceladas curtas e vibrantes de seus quadros manifestam sua grande
admiração por Van Gogh. A pintura se converte para ele numa forma de liberação
da violência de suas próprias emoções. O artista se enfrenta à natureza
para dar-lhe vida. Quando no mês de março de 1901, ele visita uma
retrospectiva de Van Gogh na galeria Bernheim-Jeune, diz a Matisse; " Eu
gosto de Van Gogh mais do que do meu pai." Merenda no Campo, 1905, ou
Remolcador em Chatou, 1906, são algumas mostras da influência do louco de
cabelo ruivo neste fauvista.
10. Precurssor do expressionismo
O holandês abre os caminhos do Expressionismo, uma
corrente que situa o homem no centro de seus interesses. Estes mesmos
sentimentos presidem as preocupações dos artistas: James Ensor e Edvard Munch.
Os dois pintores se alimentam. dos problemas sociais. Os desenhos que Ensor
realiza, entre 1879 e 1880, coincidem com os que pertencem à etapa holandesa de
Van Gogh. Pescadores, lavadeiras e mineiros são algumas das clases socias que
configuram a temática deste autor.
Munch, como Vincent, tem uma personalidade independente que reflete uma atitude
mais autônoma em relação ao resto das tendências artísticas. Este pintor
assimila determinadas sugestões do holandês, de Gauguin e de Toulouse-Lautrec.
Pode-se afirmar que os pais diretos do Expressionismo são Van Gogh, Ensor,
Munch e Gauguin. A maior influência sobre os expressionistas alemães, por
outra parte, foi exercida pelos artistas franceses, entre eles Vincent.
Os primeiros sintomas desta corrente, como movimento, deixa-se sentir no início
do século XX, depois da I Guerra Mundial. Os artista alemães e de outros países
europeus estão afundados no desespero. Sua amargura expressada nas telas se
transforma na chave desta tendência. O grupo "Die Brücke" (A Ponte)
é uma verdadeira organização de artistas com um programa escrito.
Constitui-se em Dresde, em 1905, ao redor da figura central de Ernst Ludwig
Kirchener (1880-1938). Kirchner, um estudante de arquitetura de 25 anos,
sente-se atraído pela pintura, pela arte africana e oriental e, em concreto,
por Van Gogh. O programa que preconizam os chefes deste movimento esta associado
à devoção que eles têm pelo holandês. Rechaçam a arte de seu tempo, a
favor de um romantismo artesanal. No fim de 1907, o alemão Nolde, que já não
pertence a este grupo, confessa sua admiração pelos pintores de finais do XIX.
Para ele Gauguin, Van Gogh e Munch são três personagens essenciais em sua
formação.
Oskar Kokoschka, pintor da terceira geração de expressionistas, quando vê por
primeira vez as obras de Van Gogh começa a pintar em Viena uma série de
retratos nos quais reflete o seu desequilíbrio emocional e intelectual.
11. O mestre dos coloristas
A influência de Van Gogh também é reconhecida na
obra de Paul Klee. Na exposição de Munique ele contempla os quadros de Van
Gogh e Cèzanne. Em seguida compreende que o que eles ensinam é excepcional. Um
dos aspectos que mais lhe chama a atenção é o livre jogo de linealismo e a
expressividade de suas obras.
Picasso, o malaguenho, se identifica com a vida e a obra de Van Gogh quando
afirma:." Começando com Van Gogh, por muito grande que ele tenha sido, o
certo é que todos, de certa forma, somos autodidatas... quase poderíamos dizer
pintores primitivos." Por outra parte ele considera que Vincent é um dos
coloristas mais importantes. Para Picasso Van Gogh é o primeiro em descobrir a
chave de uma tensão cheia de cor. Neste sentido, ele recorda suas próprias
palavras: "Estou criando um amarelo." O espanhol faz referência aos
campos de trigo: "não se pode dizer que fosse um verdadeiro amarelo-cádmio.
Mas uma vez introduzida na cabeça do pintor a idéia de chegar a uma determinação
arbitrária de cor ele emprega uma que não consta dentro da escala natural mas
muito mais além dela, então, ele escolhe, para o resto de sua composição,
cores e relações que se livrem da camisa de força da natureza. Esa é a forma
pela qual ele se exime dessa natureza e alcança sua liberdade, conseguindo que
seja intereessante tudo quanto faça."
A ansiedade e a agitação interior do autor holandês se transforma numa espécie
de lente que deforma a realidade: "Em vez de tentar reproduzir exatamente o
que tenho ante meus olhos, me sirvo das cores arbitrariamente para expressar-me
de modo mais intenso." O uso violento e desordenado dos tons é uma das
chaves do subjetivismo moderno. Para Van Gogh a cor tem valor de metáfora.
12. Especuladores da arte
Na última carta que Van Gogh escreve a Théo
expressa-lhe suas dúvidas quanto ao trabalho dos marchantes de arte. A estes últimos
lhes define como marchantes de homens, ao se dar conta do valor que adquirem os
quadros dos artistas mortos. Parece que com suas últimas palavras ele previa o
que aconteceria com sua própria produção artística.
Pouco tempo depois da morte de Van Gogh são organizadas várias exposições de
seus quadros e seus desenhos. Sua vida atormentada e sua trágica morte servem
de detonante para que os críticos se interessem por suas criações. Em 1937,
os nazistas classificam como decadentes as obras do holandês e elas são
excluidas da Neue Pinakotheke de Munique. Dez anos mais tarde, por ocasião de
uma retrospectiva de Van Gogh no Museu L'Orangerie de Paris, Georges D'Espagnat
escreve: "Van Gogh está de moda, moda frenética, a ponto de que nos últimos
dias os visitantes se aglomeravam em quatro filas diante dos seus quadros,
enquanto uma fila tão comprida como a que vemos nos cinemas se extendia à
entrada do museu. E em todos os lugares elegantes, nas salas de chá luxuosas ou
simplesmente burguesas, as pessoas do mundo mais elegante lança exclamações,
cheias de admiração por este pintor que todo mundo se congratula de ter
descoberto."
Quando se cumpre cem anos de seu nascimento seu centenário é celebrado com
grande expectativa nos Países Baixos. Especialistas do mundo inteiro se reunem
durante vários dias em Haia para comentar a obra do pintor. Na mesma cidade é
realizada uma exposição de 280 quadros seus, no Museu Nacional de Kröller-Müller.
Em Zundert, é colocada uma placa comemorativa na casa em que ele nasceu e em
Paris outra, no número 54 da Rue Lepic, onde ele viveu durante uns meses.
Estende-se cada vez mais o reconhecimento deste pintor, não só no âmbito pictórico
mas também em outros campos. Os produtores de cinema levaram à sétima arte
mais de uma vez, a peculiar personalidade deste homem. O Louco de Cabelo Ruivo (Lust
for life), é um dos filmes que se fizeram sobre este tema.
No mundo dos leilões de arte, os quadros de Van Gogh chegaram a preços
desorbitantes. Um dado curioso é a afição dos japoneses pelas telas deste
pintor, o que os converte nos principais compradores e inversores de sua obra.
Os girassóis, Os Lírios ou o Retrato do Doutor Gachet estão entre as pinturas
mais caras da história da arte. Longe de toda esta especulação mercantilista,
seu autor morreu na miséria mais absoluta