Humberto Mariotti
Ao longo da história, nós, seres
humanos, temos buscado maneiras de entender o mundo em que vivemos e lidar com
ele. Essas tentativas têm produzido uma série de visões, de teorias que pomos
em prática em relação a nós mesmos, aos que nos são próximos, às
sociedades em que vivemos e à natureza. As maneiras de avaliar se essa ou
aquela visão de mundo é “boa” ou “má”, “certa” ou “errada”, vêm
aos poucos se modificando.
Nos últimos tempos, cada vez mais se adota em relação
a essas teorias o seguinte critério: não se trata de saber se um conjunto de
idéias está certo ou errado do ponto de vista teórico. O que importa é
conhecer quais são os valores em que ele se baseia e quais os resultados de
suas aplicações ao cotidiano. Em outras palavras, que conseqüências éticas
emergem de sua prática.
Hoje, e cada vez mais, cresce o número de pessoas que estão atentas aos
resultados não apenas quantitativos, mas aos que se referem às relações
qualitativas entre as instituições, as organizações e os grupos humanos.
Trata-se de avaliar as práticas sociais, desde o âmbito macro-estrutural das
interações entre as instituições até o plano microfísico dos intercâmbios
entre grupos humanos locais.
Dessa maneira,
torna-se necessário examinar os ideários não apenas como modelos teóricos
absolutos, válidos para todos. É indispensável investigar também o modo pelo
qual eles foram produzidos — qual a maneira de pensar que os gerou e as conseqüências
éticas de tudo isso. É dentro desse espírito que examinarei aqui a
competitividade e suas relações com a violência estrutural. São dois fenômenos
atualíssimos e, como se verá, bem mais interligados do que parece à primeira
vista.
Neste texto,
seguindo a orientação do meu livro
As paixões do ego:
complexidade, política e solidariedade, defino a competitividade como uma radicalização
da competição, o que a torna predatória e portanto desvantajosa para todos os
envolvidos. A ela fomos levados por circunstâncias culturais, que não podem
ser entendidas de modo adequado pelo modelo mental predominante em nossas
sociedades. É preciso, pois, buscar outro meios de compreensão.
Para que isso
possa ser feito com um mínimo de eficácia, é necessário um instrumento
epistemológico que englobe duas características principais: a) clareza; b) verificabilidade
nos fenômenos do
dia-a-dia. Esse modelo não só existe, como vem sendo aplicado com proveito e eficácia nos últimos anos. Trata-se do pensamento complexo, proposto por
Edgar Morin1. Para entendê-lo e aprender a usá-lo, é necessária a
introdução que se segue.
Uma
vida dividida
Como
se sabe, o ser humano se caracteriza por dois modos básicos de vida: um orgânico,
animal, e outro cultural. Neste último, ele elabora um conjunto de práticas e
realizações a que se deu o nome de técnicas. Em nosso duplo âmbito de existência,
exercemos de um lado a vida fisiológica do corpo, que implica a ingestão, a
digestão, a excreção, o acasalamento e a reprodução.
A essas atividades
somamos as culturais — as realizações da ciência e da técnica. Ao seu
conjunto pode-se chamar de vida mecânica. A par dessa dimensão, sabemos que a
vida humana inclui sentimentos, emoções e um âmbito espiritual. A esse outro
domínio pode-se dar o nome de vida não-mecânica.
Esses dois modos básicos de existir se entrelaçam e se alimentam mutuamente de
modo constante, de maneira que podemos dizer que são complementares. Assim, de
um lado estão as necessidades mecânicas, que derivam de termos um corpo
concreto, que vive em interação com um mundo natural também concreto. De
outra parte, nossa existência inclui dimensões intangíveis, como os já
mencionados sentimentos, emoções e a espiritualidade.
Se considerados
em separado, esses modos de existir se revelam necessários mas não
suficientes. Isso significa que as práticas da vida mecânica são indispensáveis,
mas não bastantes em relação à totalidade do nosso existir. O mesmo vale
para a dimensão não-mecânica do processo vital. A condição humana exige que
elas interajam o tempo todo, em complementaridade e sinergia.
Desde o
nascimento, nosso cérebro é programado para lidar com esses dois modos. Para
as necessidades da vida mecânica, ele opera com a lógica da causalidade
simples — o pensamento linear. Trata-se do modelo mental do
"ou/ou", do sim/não. É um
modo operativo que não admite meio-termo:
ou
amigo ou inimigo;
ou
bem ou mal; ou certo
ou
errado. Como é óbvio, trata-se de um sistema adequado à concretude e às
contingências da corporeidade. É, por natureza e necessidade, uma lógica de
exclusão.
No outro pólo,
como mostra a experiência, a vida com freqüência nos põe diante de
determinadas circunstâncias nas quais o raciocínio do
sim/não,
do "ou/ou", não é satisfatório. É o
caso das situações em que nos vemos às voltas com sentimentos e emoções,
muitos dos quais contraditórios. Nesses momentos torna-se necessário pensar
em termos mais amplos, em termos de “talvez” e de “e se?”. Torna-se preciso lidar com valores e com a aleatoriedade. Chamamos esse padrão
mental de pensamento sistêmico. É, por natureza e necessidade, um modelo de
inclusão.
Ao nascermos,
esses dois modos convivem numa relação circular, recorrente: o linear
influencia o sistêmico, que retroage sobre ele e assim por diante. No entanto,
à medida que crescemos a educação e a cultura nos tornam seres
divididos. Acostumamo-nos a raciocinar desta maneira: há situações nas quais
se deve usar o modelo mental linear: são as relativas à vida mecânica. E
há circunstâncias em que é necessário pensar de modo sistêmico: são as da
existência não-mecânica.
Achamos que
essa separação resolve tudo e acomoda as coisas, e na verdade ela não
deixa de ser útil para fins didáticos. Mas não nos limitamos a esse uso:
conforme o caso, “desativamos” um sistema de pensamento e “ativamos” o
outro. Ao reduzir tudo às partes isoladas, praticamos o reducionismo
cartesiano. Ao insistir em ver tudo em termos de totalidade, pomos em prática o
chamado sistemismo reducionista. Em ambos os casos não percebemos que estamos,
no fim das contas, usando o modelo linear:
ou
pensamos de modo linear ou pensamos
de forma sistêmica. Dessa maneira, mesmo quando utilizamos o pensamento sistêmico o
fazemos com exclusão do linear e vice-versa.
Acontece, porém,
que no mundo natural as coisas funcionam de maneira simultânea, e não mudarão só
por causa de nossas teorias. Ao não permitir que os modelos mentais linear e
sistêmico se complementem, construímos a base de boa parte de nossos
problemas. Apesar de sabermos que a vida mecânica e a não-mecânica
são inseparáveis e sempre interagem (a vida é uma só: não somos máquinas
que podem ser ligadas e desligadas à vontade), continuamos a viver como se ela
fosse um processo de ou inclusão/
ou
exclusão.
O modo como o
pensamento sistêmico é utilizado por algumas consultorias empresariais
é um bom exemplo disso. Trata-se de uma distorção que surge todas as vezes em
que esse modelo é aplicado sem levar em conta a idéia de complexidade.
Como se sabe, a metodologia de uso desse modo de pensar foi formalizada em
termos de padrões — os chamados arquétipos do pensamento sistêmico —, que
têm se mostrado eficazes para resolver alguns problemas específicos.
Contudo,
talvez contra os propósitos de seus idealizadores, os arquétipos vêm
sendo utilizados de forma esquemática demais, o que tem levado a
conclusões que tendem a reduzir os fenômenos ao âmbito da totalidade.
Esse modo de
utilização parte da suposição de que um sistema é apenas um composto de
partes interdependentes e que a soma delas é sempre superior ao todo. Todavia,
a experiência mostra que esse nem sempre é o caso, porque o todo e as partes
interagem de forma contínua, e portanto não são mutuamente redutíveis de modo
fixo. As abordagens que ignoram essa condição revelam desconhecimento dos três
princípios fundamentais do pensamento complexo2, que são indispensáveis
para evitar o sistemismo reducionista e suas conseqüências enganosas, das
quais a principal é a confusão entre complexidade e complicação.
Tal equívoco
se deve ao afã de reduzir tudo ao operacional: no lugar de uma
complexidade a ser entendida e vivida, põe-se uma complicação a ser
simplificada. Nessas circunstâncias, o pensamento sistêmico acaba sendo usado
para produzir resultados lineares. Não fosse isso bastante, ele tem sido
apresentado como “vantagem competitiva” — o que vem ocorrendo com uma freqüência
muito maior do que se imagina. Em suma: em muitos casos, os arquétipos são
comercializados como “ferramentas de mudança” mecânico-produtivistas.
Isto é, são utilizados de modo necessário, mas não suficiente.
Isso mostra
como o ânimo para a competição predatória está bem mais arraigado do que
imaginamos. Por que agimos assim? Se nossos neurônios estão
programados para a interação harmoniosa e simultânea, entre os modos linear e
sistêmico de pensar — que nos permite adaptar-nos às situações
do processo vital —, por que nos dividimos em dois sistemas de pensamento e,
pior ainda, por que fazemos com que um exclua o outro?
O
natural e o cultural
Apesar
de a natureza nos ter preparado para utilizar esses dois
modelos mentais, ao separá-los nossa cultura estabeleceu entre eles uma competição.
Como resultado, o modelo linear passou a predominar de tal maneira que
quase excluiu o pensamento sistêmico daquilo que chamamos de “vida prática”. Em nosso
cotidiano eminentemente quantitativo, o modelo sistêmico foi relegado a um
plano secundário. Preferimos um padrão que exclui a um que inclui, quando
deveríamos seguir a natureza e aceitar a circularidade entre um e o outro.
Esse fenômeno em si já é uma violência. De fato, ele constitui o fundamento de
todas as manifestações violentas que permeiam as nossas sociedades, e está
presente em quase todos os nossos relacionamentos com o mundo.
As maneiras
como essa situação foi criada ao longo e nossa evolução são expostas em
detalhe por Gebser3, Kamenetzky4, Mariotti5 e
Maturana & Verden-Zöller6, entre vários outros. Em suma,
vivemos em uma cultura cujos processos mentais são formatados
pelo pensamento linear. Dessa forma — como é característico dos fenômenos
culturais —, esse modo de pensar é visto como a única maneira possível de
lidar com o mundo, e por isso as conclusões dele derivadas são tidas como
verdades incontestáveis.
Se a formatação
linear de nossa mente é um processo cultural e não natural, as práticas daí
derivadas são também culturais. Podem portanto ser modificadas, desde que haja
mudança de cultura. É claro que isso se aplica à competitividade, como veremos
adiante. Mas trata-se de uma alteração nada fácil, porque essa formatação,
como mostraram Gimbutas7 e Eisler8, entre outros, deriva de
um processo estabelecido há milênios. Não é apenas, como muitos acreditam, o
resultado de um “paradigma” que surgiu com o pensamento de Newton,
desenvolveu-se com Descartes e consolidou-se com o cientificismo do século 19.
De todo
modo, vivemos em uma cultura na qual predominam os valores gerados pela exclusão
do modelo mental dominante: ou eu
ou
o outro; ou venço ou sou vencido;
ou elimino ou sou eliminado. Eis a essência
da competitividade. Ela é um valor produzido pelos nossos condicionamentos, e desse modo é justificável (e justificada) por esses mesmos
condicionamentos.
A
competitividade é uma expressão do embate entre os valores humanos mecânicos
e os não-mecânicos, cujo desfecho foi o predomínio dos primeiros. É uma das
faces da dissociação que nossa cultura promoveu entre a razão e os
sentimentos. Segundo o projeto da modernidade, a principal manifestação da idéia
de progresso — a prosperidade material — deveria ser acompanhada de uma
evolução da inteligência, por meio da qual as conseqüências do darwinismo
social pudessem ser ao menos atenuadas. Se era inevitável a exclusão —
pensava-se —, que pelo menos os vencedores possam fazer alguma coisa pelos
vencidos.
Nos últimos tempos,
ao que tudo indica, aumenta a consciência da importância dessa posição
— mas nem tanto. A noção de competitividade, que hoje orienta muitas das
nossas políticas públicas e práticas sociais continua baseada em filosofias
como a de Thomas Hobbes, entre outros. Pressupõem que a maldade é intrínseca
e dominante no ser humano.
Sabemos
que economistas clássicos, como David Ricardo e os da escola de Manchester,
transportaram a idéia da hostilidade básica entre os homens para a área
econômica: o
progresso humano baseia-se na competição sem tréguas.
Depois deles, essa mesma orientação foi transplantada para a biologia. Nessa linha de
pensamento, há quem sustente que, ao estimular a competitividade, o capitalismo
nada mais faz do que seguir a natureza
humana.
Tais pontos
de vista permeiam a nossa cultura e vêm sendo repetidos ao longo do
tempo. Para muitos, esse fato torna quase impossível acreditar-se em
qualquer tipo de mudança. É como se apenas pudéssemos pensar em modificações,
mas nunca praticá-las: será sempre assim porque sempre foi assim. Nessa ordem
de idéias, a noção de competitividade continua muito ligada ao
darwinismo social e à questão da presença do mal no coração do homem.
Três
modos de pensar
Por ser
orientada por um modelo mental excludente, é claro que a competitividade tende
a excluir. Acostumados que estamos a esse modo de pensar, e habituados a levá-lo
à prática, não percebemos que cedo ou tarde ele produzirá
a nossa própria exclusão. Ainda assim, é preciso deixar claro que não se
trata de adotar em relação à competitividade uma atitude maniqueísta e
condenatória. É importante aprender a pensá-la de outras maneiras, a fim de
poder avaliar se suas conseqüências éticas (ou seja, seus resultados práticos)
são as que na verdade desejamos para construir uma vida melhor.
Estamos, pois,
diante da seguinte situação:
a)
é inócuo analisar a competitividade apenas do ponto de vista linear,
porque foi esse modelo mental que a criou e ainda a alimenta;
b) examinar a competitividade só do ponto de vista sistêmico (o que inclui
vê-la do ângulo dos sentimentos e emoções) é também uma postura
improdutiva. No limite, ela levará a conclusões emocionais e
por isso mesmo tendentes a moralismos, pieguices e condenações sem
fundamentos;
c) é preciso, pois, investigá-la
de uma perspectiva não
reducionista — o pensamento complexo.
A complexidade
não é um conceito teórico. Ela corresponde à
multiplicidade e à contínua interação da infinidade de
sistemas e fenômenos que compõem o mundo natural. Os sistemas complexos estão
dentro de nós e a recíproca é verdadeira. Assim, é preciso conhecê-los. Como
já vimos, o pensamento complexo é um modelo desenvolvido por Edgar
Morin para lidar com a complexidade. Para explicá-lo, costumo utilizar um
exemplo. Imaginemos um indivíduo em uma praia. Se lhe perguntarmos se a
Terra é plana ou redonda, ele responderá que é plana: “Basta ver
a areia sob os nossos pés e observar o oceano”, dirá.
São dados diretos, que podem ser quantificados: de
onde esse observador está até o mar a distância é de, digamos, 50 metros; da
costa do Brasil à cidade do Cabo, na África do Sul, são tantos mil quilômetros;
e assim por diante. Eis o ponto de vista linear. Baseia-se na relação imediata
entre causa e efeito. É esse modo de pensar que faz com que o indivíduo do
nosso exemplo imagine que, se está separado do mar por 50 metros, e da África
por tantos mil quilômetros, ele não faz parte desses ambientes.
Se
lhe mostrarmos uma fotografia da Terra tirada da Lua, ou de um satélite
artificial em órbita terrestre, e repetirmos a pergunta, ele dirá que a Terra
é redonda. Intuirá também que ela não só é redonda como
faz parte de um sistema. Terá então mais facilidade para compreender que na
realidade não está separado desse sistema, como parecia quando estava na
praia. E agora, com toda probabilidade, verá a si próprio como parte dele. A
esse segundo modo de raciocinar chamamos de pensamento sistêmico.
A complexidade do mundo só pode ser bem
entendida por um sistema de pensamento aberto, abrangente e flexível como o
complexo. Ele configura uma visão que aceita e procura entender as mudanças
constantes do real e não pretende negar a contradição, a multiplicidade, a
aleatoriedade e a incerteza, e sim conviver com elas. Em suma, é um modo de
pensar que inclui, que aglutina. Mas que ao mesmo tempo não perde de vista que essa aglutinação é um processo dinâmico, no qual o todo não
pode ser reduzido às partes nem vice-versa.
Competição predatória, exclusão e violência
Eis
a palavra-chave: inclusão. Para seres gregários como nós, ser incluído não
é apenas um evento fortuito da vida: é uma necessidade fundamental. Um ser
humano isolado é algo inconcebível. Mesmo quando um indivíduo se
separa dos demais e vai viver como ermitão, ele só existe como ente isolado
em relação à comunidade de que decidiu se afastar. É ela que confirma o seu
isolamento. Necessitamos do outro para que ele confirme a nossa existência. Só
somos humanos quando existencialmente confirmados.
O outro precisa ser respeitado porque é o outro, não por ser
rico, erudito, porque é um grande técnico ou tem poder político e
econômico. Respeitá-lo significa reconhecer em primeiro lugar a sua
legitimidade como ser humano. Os demais atributos podem ser importantes, mas vêm
depois. Desrespeitar essa premissa é uma violência.
Martin
Heidegger9 escreveu que uma das características primordiais do ser
humano existente — o Dasein
— é que por existir no mundo precisa preocupar-se com ele, cuidar dele. A
esse cuidado o filósofo chamou de
Sorge.
Preocupar-se com o todo, zelar por ele, é uma forma de
saber-se participante, ligado e responsável. A violência fundamental,
portanto, é aquela que retira do Dasein
a noção de pertencer à totalidade. Foi esse caminho que nossa
cultura escolheu, ao privilegiar as partes, estimular a fragmentação e achar
que o mundo é um objeto de uso do qual não participamos.
A
competição sempre existiu e sempre existirá. É fácil lembrar exemplos históricos,
e mesmo situações tiradas do mundo natural, que mostram que as espécies
competem entre si. Mas a competitividade é diferente: corresponde à alienação
do Dasein, fenômeno que nos levou à
competição predatória, que não visa apenas a sobrevivência, mas sobreviver
com eliminação do competidor. Sob
essa ótica não basta vencer: a vitória tem mais sabor quando inclui a destruição
do outro. Nos últimos tempos, a prevalência da competitividade se acentuou por
meio da combinação de múltiplos fatores10 que transformaram a competição
em ideologia.
O
pensamento linear sustenta que as causas são imediatamente anteriores aos
efeitos ou estão muito próximas deles, e que essas relações ocorrem sempre
no mesmo contexto de espaço e tempo. Embora haja autores que estudem as relações
entre a complexidade, o pensamento sistêmico e a economia, não há dúvida de
o pensamento linear é o utilizado pela grande maioria para lidar com os
processos econômicos. Mas é preciso não esquecer que ele subestima, ou
mesmo ignora, as dimensões não-mecânicas da existência humana. Em
conseqüência, muitas vezes cria cenários nos quais o ser humano é dividido,
utilizado e por fim excluído.
Trata-se, enfim, de uma super-simplificação da
condição humana, que pretende resolver problemas complexos por meio de um
instrumento simplificador. É por meio desse ideário (hoje, convém repetir,
convertido em ideologia) que nos propomos a buscar uma boa qualidade de vida.
Entretanto, a observação mostra o que na realidade ocorre: essa qualidade, além
de ser acessível a poucos, passo a passo se transforma no subproduto
de um processo muito mais amplo — que começa pela negação do humano e acaba
na exclusão social, na violência e na morte.
O mais trágico dessa violência é que ela atinge
a todos. É o que mostra a experiência do cotidiano. Se de um lado a massa
excluída cresce, do outro, em muitas cidades, aumenta o número
de pessoas que se entrincheiram atrás de grades, cercas, muros, que se confina
no universo dos condomínios fechados, dos
shopping
centers, etc. É a massa dos que querem sair com tranqüilidade e não podem.
Como sabemos, em muitos países os assaltos, os
seqüestros, as invasões de terras e outras ocorrências restringem cada
vez mais o bem-estar que só a liberdade e a tranqüilidade podem trazer. É
muito difícil entender considerações como estas por meio do raciocínio
linear. A experiência cotidiana acabará por nos levar a essa compreensão —
mas isso demandará muito tempo e terá um custo muito alto. Esse
fato é grave, porque enquanto não houver uma percepção mais ampla da situação
não se pode pensar em soluções eficazes. É certo que algum grau de
entendimento já existe. Mas ele é superficial e, no mais das vezes, mantém-se num
plano apenas local.
De todo modo, as pessoas pressentem que as soluções
não podem ser tão limitadas, embora o tema seja em geral discutido como se
esse pressentimento não existisse. Para tanto contribui muito a nossa
linguagem, que, por ser fruto de uma cultura unidimensionalmente formatada, não
consegue exprimir de modo satisfatório situações sistêmicas e complexas.
Cedo ou tarde, teremos de reconhecer que é indispensável utilizar um modelo
mental que nos permita perceber que os valores materiais (os da vida mecânica),
aliados aos não-materiais (os da vida não-mecânica), compõem um quadro de
referência mais justo para definir o que é qualidade de vida.
Por
enquanto, porém, a superficialidade faz com que as questões humanas
sejam super-simplificadas, o que na prática se traduz por uma abordagem imediatista do viver. Por essa ótica fica difícil entender, por exemplo, que a
perda progressiva das liberdades civis atinge também os que têm emprego, bens
e dinheiro. Afinal, não poder sair à rua sem medo de ser assaltado, seqüestrado,
assediado, etc., é uma forma de perda de liberdade. Trata-se de um efeito não
contíguo às causas — e por isso de difícil compreensão por nossa mente
condicionada.
Agora fica mais fácil entender que o fundamento
da violência estrutural não é a competição — e nem mesmo a
competitividade como tal —, mas sim a formatação da mente de nossa cultura
pelo modelo mental linear. Em nossa cultura imediatista e de visão estreita,
imaginamos que do pensamento passamos à ação e desta aos resultados, isto é,
às conseqüências. Não percebemos que para que surja o pensamento é
necessária a existência de uma estrutura capaz de produzi-lo. É ela que está formatada pelo modelo linear, que opera do seguinte modo:
Estrutura (linearmente formatada) -> Pensamento Linear -> Ação
-> Conseqüências.
1. Pensamento Linear: Estrutura (linearmente formatada) -> Pensamento linear -> Competitividade -> Violência estrutural.
2.
Pensamento Sistêmico: ... Estrutura
(linearmente formatada) ->
Pensamento linear
->
Competitividade ->
Violência estrutural -> Estrutura (linearmente formatada) ->
...
É essa retroação, essa autocrítica circular, que falta à nossa
cultura. Até pouco tempo não tínhamos instrumentos de
conhecimento que nos permitissem tal abordagem. Mesmo nos dias atuais esse
instrumental ainda não está disponível para a grande maioria das pessoas,
embora em vários países, inclusive no Brasil, haja centros empenhados em estudá-lo
e utilizá-lo.
Em suma: a violência estrutural alimenta a si própria, porque o
modelo mental linear predominante em nossa cultura não retroage sobre si mesmo,
não se auto-investiga. Por isso, enquanto se esgrimem argumentos “lógicos”
(lineares, em sua maioria) e se trocam acusações (também baseadas nessa noção
limitada de causa e efeito), nossa situação se agrava a olhos vistos.
Neste ponto, pode-se perceber com clareza que não se trata de ver a
competitividade de maneira moralista e quixotesca. É preciso examinar o modelo mental que a constituiu e
questioná-lo, na busca de novas formas de abordar a questão e seus múltiplos
desdobramentos. Já não há dúvidas de que isso pode ser feito na prática.
Os
exemplos são muitos. Alguns deles estão descritos
por Mario Kamenetzky11, que estudou as modificações
da consciência coletiva em relação a transformações econômicas, políticas
e sociais. Merecem especial menção suas experiências com modificações de
consciência coletiva em Sri Lanka, país no qual testemunhou mudanças em direção
à cooperação em comunidades nas quais predominava não apenas a
competitividade, mas a violência aberta.
A
indispensabilidade do outro
A noção
invariável do outro como adversário, como inimigo a exterminar, é uma das
marcas da competitividade de nossa cultura. Por meio dela vivemos
no cotidiano essa paranóia. Trata-se de uma visão de mundo que exclui a
possibilidade de que o outro possa ser superado pela competência, mas
preservado para se tornar capaz de aprender a vencer, isto é, aprender a
ser competente. O ideal da competitividade, pelo contrário, é vencer de tal
modo que o vitorioso seja sempre o primeiro e o único — como se pudéssemos
existir sem os outros.
No mundo
natural não há competitividade, e sim competência — a competição que não
implica sempre a eliminação do outro. Como observa Maturana, quando
dois animais estão diante do mesmo alimento e apenas um come, ele o faz porque
naquele momento foi o mais competente para tanto.
Mas isso não quer dizer que
aquele que não comeu seja daí por diante impedido de se
alimentar e morra de fome.
Entretanto,
quando as circunstâncias envolvem a cultura da competitividade, o ser humano
que venceu não se satisfaz por ter vencido. Sente-se inseguro da continuidade
da sua competência, e por isso precisa ter certeza de que aquele que foi
derrotado deixe de ser para ele uma ameaça. Precisa, portanto, eliminá-lo.
Ainda assim, esse fenômeno não se deve à dimensão cultural em si: ocorre de
modo mais visível em uma cultura como a nossa, que não sabe como lidar com a
totalidade.
Educação
e mudança
Como é fácil
perceber, quando usamos o pensamento complexo para analisar a
competitividade surgem constatações nem sempre agradáveis, mas nem por isso
menos instrutivas. A primeira delas, como vimos, diz respeito à violência
estrutural. Pelo prisma do pensamento linear, a competitividade é
apresentada como algo útil, necessário, algo que deve ser estimulado. O mesmo
exame, feito por meio do modelo mental complexo, mostra como ela está
ligada a uma série de distorções que hoje, no mundo inteiro, vêm gerando
duas sérias conseqüências: a exclusão social e a disseminação do medo.
Nenhuma delas
pode ser compreendida nem trabalhada de modo eficaz sem que
reformulemos nossa atitude habitual para com o outro, que hoje, como já
sabemos, é em larga escala excludente. Passar a incluí-lo, em vez de vê-lo de
modo quase invariável como um concorrente a excluir, equivale a trocar a
competitividade pela competência.
É preciso entender que não se trata de
afastar uma coisa para substituí-la por outra, como se faz quando se usa o
modelo mental linear.
A competência não exclui a competitividade: ao contrário,
ela a inclui e ultrapassa. Ao fazer isso, procura corrigir-lhe as
impropriedades e a transforma em fator de busca de uma qualidade de vida mais
consistente com a realidade da existência humana, e não apenas com as exigências
de um mercado conduzido por um modelo mental unidimensional.
O diferencial
que faz com que surja a competência (a competitividade não vista como
competição predatória) é a educação. Não se trata, porém, do
modelo hoje predominante em nossas escolas, na maioria das
quais o que na realidade se faz é adestrar as pessoas para a competitividade, e não
prepará-las para a competência. O modelo que buscamos é
baseado no pensamento complexo. É uma educação que qualifica,
habilita, reintegra — enfim, que recupera o que havia sido excluído, tanto no
campo dos saberes quanto no das interações humanas.
Trata-se,
em suma, de uma estratégia primária: se produzimos um determinado bem, é necessário cuidar para não deixar os compradores sem capacidade de
adquiri-lo. Ou seja, é preciso não excluí-los. É tão simples assim. No
entanto, é o contrário disso que faz a cultura da
competitividade, não apenas em relação a indivíduos mas em relação a países
inteiros. E o discurso econômico ortodoxo, por mais erudito que seja, não
consegue esconder esse fato.
Por
outro lado, a competência faz com que a competitividade deixe de ser algo
predatório. Competência não
significa que não deva existir concorrência. Significa apenas que não é
indispensável que haja predatoriedade, situação na qual no fim das contas não
há vencedores, embora a princípio não pareça assim. Ser competente não
quer dizer evitar o êxito nem deixar de buscar um lugar vantajoso no mundo dos
negócios. Tudo isso faz parte das práticas da vida mecânica e é, portanto,
necessário.
Nos
últimos tempos, muito se tem escrito a respeito de como pôr todas essas idéias
em prática. É da maior importância que essa literatura seja divulgada entre
os homens de empresa, porque hoje é no universo das corporações que esse
esforço educacional tem melhores condições de se desenvolver.
Os trabalhos
pioneiros de Willis Harman12 e colaboradores são exemplos que
merecem destaque. Esses textos, bem como as práticas que deles emergiram e emergirão,
revelam modos de compreender a
totalidade e, portanto, de lidar com a violência estrutural. Outra área em
desenvolvimento nos últimos tempos — e aqui se destacam as aplicações
ao universo das empresas — é o trabalho com os grupos de diálogo13-17.
Todas essas
abordagens fazem parte do grande esforço para a realização do que Edgar Morin chama
de reforma do sistema de pensamento dominante em nossa cultura.
Aqui a educação, a responsabilidade social e a ética ocupam lugar de
destaque. A este respeito, convém lembrar mais alguns itens de uma
bibliografia hoje em franco crescimento18-24.
Referências
1.
Edgar Morin, La
complexité humaine, Paris, Flammarion, 1994.
2. Humberto
Mariotti, Reducionismo, “holismo” e
pensamentos sistêmico e complexo:
suas
conseqüências na vida cotidiana,
www.geocities.com/pluriversu
3.
Jean Gebser,
The ever-present origin, Athens, Ohio, Ohio University Press, 1985.
4. Mario
Kamenetzky, The invisible player: consciousness as the soul of economic,
social,
and political life, Rochester, Vermont, Park Street Press, 1999.
5.
Humberto Mariotti,
As paixões do
ego: complexidade, política e solidariedade, São Paulo, Palas Athena,
2000.
6. Humberto
Maturana e Gerda Verden-Zöller, Amor y
juego: fundamentos olvidados de
lo
humano, Santiago, Editorial Instituto de Terapia Cognitiva, 1997.
7.
Marija Gimbutas,
The early civilization of Europe. Los Angeles, University of
California Press, 1980.
8.
Riane Eisler,
O cálice e a espada:
nossa história, nosso futuro, Rio de Janeiro, Imago, 1989.
9.
Martin Heidegger,
Being and time, Nova York, Harper & Row, 1962.
10. Humberto Mariotti, op.
cit., p. 104 e segs.
11. Mário
Kamenetzky, op. cit., p. 239 e segs.
12.
Willis Harman, Why a World Business
Academy?, Burlingame, Califórnia, World Business Academy, 1990.
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© Humberto Mariotti, 2000.
* Capítulo do livro O dragão e a borboleta:
sustentabilidade e responsabildade social nos negócios. São Paulo: Axis
Mundi/AMCE, 2000, pp. 265-282.
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