REDUCIONISMO,
"HOLISMO" E PENSAMENTOS SISTÊMICO E COMPLEXO
Suas conseqüências na vida cotidiana) *
Humberto Mariotti **
As considerações que se seguem não
pretendem condenar o reducionismo, o "holismo" e o pensamento sistêmico e
exaltar o pensamento complexo. É claro que ao escrever sobre o tema faço uma opção e
tento torná-la persuasiva mas isso não implica inflexibilidade, e sim o desejo de
mostrar algumas das conseqüências práticas desses modos de pensar e fazer um convite à
reflexão. Ao exercer as próprias escolhas em função de suas considerações (em
especial se elas levarem a ações), o leitor estará contribuindo para o entendimento do
assunto, cuja importância em nosso dia-a-dia é evidente.
Para evitar confusões, é importante
esclarecer o sentido em que os quatro termos mencionados no título são entendidos neste
artigo, que aliás é o mesmo que consta na maior parte da literatura sobre o assunto.
Chamo de reducionismo ao ponto de vista clássico, consolidado por Descartes, que divide o
todo em partes e as estuda em separado. Por "holismo" compreendo o ponto de
vista oposto, que se opõe à abordagem cartesiana e estuda o todo sem dividi-lo, ou seja,
examina-o de modo sistêmico. O pensamento sistêmico é uma concepção
"holística", apresentada em 1940 por Ludwig von Bertalanffy. Por pensamento complexo entendo a proposta de Edgar Morin, que veremos com
detalhes a seguir.
Ainda a respeito dessas expressões,
existem variações de terminologia que em certos casos podem levar a equívocos. Por
exemplo, a complexidade dos sistemas naturais é abordada por Edgar Morin de um modo
diferente do que se observa em instituições como o Instituto Santa Fé, nos EUA. Nos
trabalhos de Humberto Maturana, fica claro que aquilo que o autor chama de
"sistêmico" corresponde ao que Morin chama de "complexo". Essa
diversidade é compreensível. Mas, até que se chegue a uma terminologia unificada
se é que algum dia isso ocorrerá , é preciso que estejamos atentos a essa
diversidade. No que se refere à complexidade, ela traduz diferenças de abordagem e
metodologia, mas não necessariamente implica discordâncias ou incongruências.
Morin sustenta que estamos ofuscados pela
noção reducionista de partes isoladas e separadas do todo. Com efeito, a mente da nossa
cultura está condicionada a pensar assim. É o que chamo de formatação
pelo pensamento linear. No entanto acrescenta Morin , quando entramos em
contato com a idéia de sistema, esse ofuscamento reducionista (que só vê as partes)
pode ceder lugar a um deslumbramento "holístico", que só vê o todo. Saltamos
de um pólo ao outro.
O ponto de vista de Morin o
pensamento complexo constitui outra forma de abordar a totalidade. De um modo
geral, sua proposta é a complementaridade e a transacionalidade entre as concepções
linear (reducionista) e "holística" (sistêmica). Nas palavras de Morin, seu
propósito "não é dissolver o ser, a existência e a vida no sistema, mas
compreender o ser, a existência e a vida com a ajuda também do sistema". O
pensamento complexo baseia-se em dois princípios (o da emergência e o da imposição),
aos quais, utilizando os próprios termos do autor, acrescento um terceiro (o princípio
da complexidade do todo).
O princípio da
emergência diz que o todo é superior à soma das partes. É o que mostra o
fenômeno das propriedades emergentes. Um exemplo são as ligas metálicas, que têm
propriedades que não existiam em cada em um de seus componentes isolados. Outro exemplo
é o que ocorre quando um grupo se reúne para discutir um determinado assunto ou
problema. Do diálogo que se estabelece costumam surgir idéias novas, que antes não
haviam ocorrido aos participantes.
O princípio da
imposição diz que o todo é inferior à soma de suas partes. Isso significa
que as qualidades ou propriedades das partes, quando consideradas em separado, diluem-se
no sistema. Tornam-se assim latentes, virtualizadas. É o que ocorre, por exemplo, em um
coral. Por maiores que sejam as potencialidades da voz de um ou de vários de seus
participantes, eles têm de restringi-las ao que a totalidade exige. Para Morin esse
aspecto é pouco reconhecido, mas é tão evidente quanto o fenômeno da emergência.
O fato de determinadas propriedades ou
qualidades das partes serem tornadas virtuais em benefício do todo caracteriza uma
repressão, restrição ou inibição deste sobre aquelas. Esse fenômeno ocorre em toda
relação organizacional. Em outros termos, para que o todo possa existir como todo é
preciso que ele se imponha às partes, que assim ficam impedidas de exercer algumas (ou
muitas) de suas qualidades e potencialidades. A partir daí elas se tornam virtualizadas,
entram em latência. Essa imposição do todo sobre as partes é uma característica
básica dos sistemas.
Outra característica dos sistemas é a
hierarquia. Esse termo não deve ser tomado aqui em seu sentido coloquial de
autoritarismo, mas sim para indicar que um dado sistema é sempre um sub-sistema de um
sistema maior e é composto por sistemas menores. Além disso, a depender do grau menor ou
maior em que suas potencialidades são inibidas pelo todo, as partes constituintes de um
sistema resultam mais ou menos especializadas sempre em benefício da totalidade.
Como lembra Morin, cada célula de um organismo inclui a informação genética da
totalidade orgânica. Mas a maior parte dessa informação está virtualizada. Só são
utilizados os potenciais que interessam ao sistema. Nesse sentido, o todo é inferior à
soma de suas partes.
O princípio da
complexidade dos sistemas diz que o todo é ao mesmo tempo maior e menor que a
soma de suas partes. Os sistemas são dinâmicos, transacionam sempre com o meio.
Além disso, a relação entre os comportamentos observados nos dois princípios
anteriores não é seqüencial e sim circular, e por isso em um dado momento não se pode
determinar qual deles predomina.
Virtualização e repressão
A noção de que o todo reprime o
potencial das partes tem amplas conseqüências. Um exemplo é o que ocorreu com o
movimento do Potencial Humano, iniciativa psicológica e psicoterapêutica que floresceu
nos EUA na década de 60. Sem se dar conta disso, seus componentes aplicaram ao pé da
letra o princípio da imposição e tiraram a seguinte conclusão: se as partes (no caso,
as pessoas) têm um potencial reprimido/virtualizado, é preciso realizá-lo.
À primeira vista, esse raciocínio parece
óbvio e impecável. No entanto, como se tratava de um movimento sistêmico, o Potencial
Humano incorreu nos dois equívocos básicos da teoria dos sistemas, apontados por Morin
em outro contexto. O primeiro foi questionar o reducionismo propondo o
"holismo": buscando superar o reducionismo, a teoria dos sistemas acabou
substituindo a redução às partes pela redução ao todo. O segundo engano foi ignorar a
desordem e os antagonismos que existem em todo sistema.
O pensamento sistêmico leva em conta
apenas a harmonia, a síntese funcional contida no todo. Mas não considera que essa
síntese se faz às custas de repressões e antagonismos. Um sistema não é apenas
harmonia. A harmonia sistêmica repousa sobre a conflituosidade e a desarmonia, que
também fazem parte do sistema e nele permanecem latentes. Bertalanffy chegou a reconhecer
que um sistema se constrói à custa dos antagonismos entre as suas partes, mas não se
deteve nesse particular. Centrou-se na idéia de totalidade. Um sistema não é harmônico
nem desarmônico: é as duas coisas ao mesmo tempo é complexo. É por isso que
Morin sustenta que o sistema é o conceito básico da complexidade. Não pode ser reduzido
a unidades elementares, nem a conceitos simplificadores nem a leis gerais. Por outro lado,
não se pode reduzir tudo a ele.
Mas foi o que fizeram certos setores do
movimento do Potencial Humano. A idéia de libertar o reprimido
(realizar o potencial humano) é sistêmica e por isso limitada, porque ignora a
complexidade dos fenômenos naturais. É claro que os potenciais devem ser realizados
tanto quanto possível. Mas é também claro que num sistema cada circuito de crescimento
é sempre contrabalançado por um circuito de equilíbrio, que tende a limitá-lo em sua
progressão. Por isso, se os potenciais devem ser realizados há um preço a pagar: se as
partes pertencem a um todo, a realização de suas latências só pode
seguir até o ponto em que não as faça destoar desse todo. Uma parte que cresce sem
limites, que se destaca em excesso em relação ao todo pode acabar prejudicando-o. O
crescimento incontrolável de um tumor maligno é um exemplo disso.
O outro extremo corresponde à entrega
excessiva das partes ao todo em "religação dionisíaca". Como foi dito há
pouco, alguns setores do movimento do Potencial Humano incorreram nesse excesso. O
resultado foi a lamentável carnavalização de várias de suas terapias
em especial as corporais, como a neo-reichiana , fenômeno que atraiu e fez
proliferar um grande número de charlatães. Como todos sabem, tais exageros prejudicaram
muito essa abordagem terapêutica. Nesse exemplo, como em inúmeros
outros, a liberação exagerada e indiscriminada das repressões levou à alienação.
Por outro lado, nem sempre a repressão do
todo sobre as partes é boa para ambos. O exemplo da antiga União Soviética é
bem ilustrativo: revela que se a repressão com a virtualização de
potenciais que acarreta for excessiva, a totalidade acaba se transformando em
totalitarismo, o que cedo ou tarde acabará destruindo o sistema. Foi o que mostraram os
fatos históricos.
Dessa maneira, a alienação pode surgir
por excesso de individualismo ou por escassez de individualidade caso do
"holismo" em sua vertente mística. De um lado, situam-se os homens
práticos" e muito dependentes do ego. Do outro, as pessoas
"iluminadas" e "sem ego". Neste ponto é preciso lembrar
que, como observam vários autores, transcender o ego não significa anulá-lo, mas
ultrapassar sua insegurança e fragilidade. Sem esquecer, porém, que ele é
indispensável à vida cotidiana.
Organização e
anti-organização (cultura
e contracultura)
Morin sustenta que toda relação
organizacional (todo sistema), inclui e produz antagonismos e, ao mesmo tempo,
complementaridade. Quer dizer, o sistema não é apenas partes nem apenas todo: é uma
inter-relação complementar. Como já vimos, os modos patentes de expressão de um
determinado sistema tornam latentes os antagonismos a essa expressão. Se esses
antagonismos fossem deixados sem repressão acabariam para usar as palavras de
Morin tornando-se anti-organizacionais, e portanto ameaçadores à própria
existência do sistema. É o que acontece, por exemplo, no caso do terrorismo e de grupos
de pressão que apelam para a violência.
Para Morin, todo sistema tem uma face
diurna, que é aglutinadora e organizacional, e um lado escuro, noturno, que lhe faz
oposição. A unidade complexa do sistema estabelece esse antagonismo e ao mesmo tempo o
reprime. Em termos institucionais, é o que acontece com as culturas patente e latente dos
grupos, instituições e organizações. A cultura patente representa o visível, o
explícito, o modo como a cultura quer ser vista, a sua persona. Em uma empresa,
por exemplo, ela corresponde às instalações físicas, ao mobiliário, ao modo como as
pessoas se trajam e falam e assim por diante. A cultura latente abriga a aleatoriedade, a
incerteza, a conflituosidade, a criatividade reprimida. Mas também oculta o potencial
para que a criatividade desabroche.
Em termos de sistema, a força que exerce
essa repressão é chamada de feedback negativo. Retomemos o exemplo clássico da
geladeira. Sua temperatura interna é programada para manter-se em cerca de quatro graus
centígrados. Quando ela sobe acima desse nível, o calor faz com que o termostato dispare
e o motor volta a funcionar, fazendo com seja recuperado o patamar térmico programado.
Nesse exemplo, o potencial para temperaturas mais altas só pode ir até quatro graus.
Acima desse ponto, o feedback negativo deflagra o termostato. Seu papel é manter a
variação (a realização do potencial) dentro do pré-estabelecido. A partir daí ele
tende a reprimi-lo mas é essa repressão que mantém o funcionamento do sistema.
Em relação à sociedade, Freud já havia dito, em seu famoso ensaio O Futuro de uma
Ilusão, que a civilização se baseia na renúncia aos desejos pulsionais ou, em
outras palavras, que não há civilização sem repressão aos instintos das pessoas.
No entender de Morin, o antagonismo
organizacional/anti-organizacional constitui o próprio cerne das sociedades humanas, nas
quais complementaridades e antagonismos oscilam sem cessar entre atualizações
(realizações de potencial) e virtualizações (repressões de potencial). Em condições
ideais, a cultura predominante (a cultura patente em determinados momentos históricos) e
a contracultura (a cultura latente nesses mesmos momentos) deveriam estar em uma
circularidade tal que mantivesse a conflituosidade em níveis menos traumáticos. Ou seja,
a sociedade deveria saber como lidar melhor com a desordem e a incerteza.
Mas a experiência mostra que não é isso
que vem acontecendo ao longo da história. O que se observa é que, a intervalos, as
culturas são superadas por contraculturas que lhes tomam o lugar e passam de
imediato a proceder do modo que tanto condenavam em suas antecessoras a
começar pela violência. Essa pendularidade jamais será superada enquanto perdurar a
formatação de nossa cultura pelo pensamento linear, que aliás transparece na pendularidade ou reducionismo ou "holismo". Ambos prometem certezas. Ambos
evitam lidar com a incerteza.
A busca das certezas
O ser humano anseia por certezas. Todos
queremos ir para o "céu", seja o céu mecânico da ciência, seja o céu
místico da totalidade. Daí o grande sucesso de público dos ideários que prometem
tranqüilidade. É também por isso que o "holismo", tanto quanto o reducionismo
(de que, nesse sentido, é uma variante), são escolhas que no limite podem levar à
alienação.
Tudo isso é óbvio e compreensível. Ao
longo de nossas vidas, fazemos tudo o que podemos para diminuir as variáveis e aumentar o
que chamamos de constantes. No entanto, precisamos entender que há um limite para a
aquisição de certezas. Insistir em ultrapassá-lo acaba nos transformando em pessoas
mecânicas, frias e quantificadoras, por um lado, e em pessoas para quem a realidade
concreta é apenas um detalhe incômodo, por outro.
Em qualquer dos casos, o básico de nossas
vidas não muda: a aleatoriedade, a conflituosidade, a certeza da finitude. Essas
variáveis se originam dos chamados "dados da existência": o medo da liberdade,
o medo da morte, o isolamento existencial e a sensação de que a vida não tem sentido.
Para lidar com esses dados, ser reducionista ou ser "holístico" podem ser
atitudes necessárias mas não suficientes. É preciso aprender a trabalhá-los em
sua complexidade.
Outro exemplo de frustração na busca de
certezas é a maneira como o pensamento sistêmico vem sendo apresentado às empresas de
todo o mundo. Trata-se de uma distorção que surge todas as vezes em que ele é entendido
e aplicado sem levar em conta a idéia de complexidade.
Como se sabe, a metodologia do uso desse
modo de pensar foi formalizada em termos de padrões, os chamados arquétipos do
pensamento sistêmico. Tais arquétipos têm se mostrado úteis para a solução de alguns
problemas. Não há dúvidas quanto a isso. Contudo, talvez contrariando os propósitos de
seus criadores, eles vêm sendo utilizados de uma forma que incorre no equívoco já
mencionado, discutido e exemplificado neste artigo: a redução dos fenômenos à
totalidade o chamado sistemismo reducionista ou simplificador. Imagina-se que um
sistema é apenas um conjunto de partes interdependentes e que a soma delas é superior ao
todo.
Quando há referências à complexidade sistêmica, percebe-se que os
autores a confundem com complicação. Esse engano se deve ao afã de simplificar, de
reduzir tudo ao operacional. No lugar de uma complexidade a ser entendida e
trabalhada, põe-se uma complicação a ser simplificada.
Nessas circunstâncias, o pensamento
sistêmico acaba sendo utilizado para produzir resultados lineares. E o que se dá quando,
além da unidimensionalização já apontada, ele é apresentado como "vantagem
competitiva" o que vem ocorrendo com uma freqüência muito maior do que se
imagina. Em suma: em muitos casos, os arquétipos vêm sendo comercializados como
"ferramentas de mudança" mecânico-produtivistas. Ou seja, vêm sendo
utilizados de modo necessário, mas não suficiente. O desfecho de tudo isso é
previsível: a transformação do método em modismo, a banalização e, por fim, o
esvaziamento. Eis mais um dos infinitos aspectos da formatação da mente de nossa cultura
pelo pensamento linear.
Já vimos que podemos transformar-nos em
pessoas frias e "matemáticas" ou distantes e "metafísicas", mas nem
por isso nossa insegurança existencial básica desaparece. Em muitos casos, pode até
aumentar. Essa constatação pode nos levar a grandes frustrações. É preciso
compreender essa e outras limitações e integrá-las às nossas vidas, para que não
acabemos projetando-as nos outros e lançando sobre eles a culpa de não termos
conseguido eliminá-las.
Tal circunstância pode conduzir-nos (e
com efeito nos tem conduzido: é só conferir o curso dos acontecimentos) a duas posturas
principais. A primeira é desprezar nossos semelhantes ao ponto de querer reinar sobre
eles, de exercer sobre eles os nossos poderes de "iluminados". Uma das propostas
das pessoas que se supõem "iluminadas" é esta: não mostrar seus
poderes a não ser em caso de necessidade, e fazê-lo sempre com o propósito de ajudar
aos outros. Trata-se, é claro, de seguir o princípio de reservar o saber para garantir o
poder. Manter o mistério confere poder. Essa é a estratégia básica dos esoterismos
inclusive o científico.
Num outro registro, essa atitude gera o
assistencialismo e o paternalismo típicos das oligarquias políticas. O mecanismo de
fundo é o mesmo: fingir ajudar para melhor controlar. Como mostra o curso dos
acontecimentos, o desprezo pelo outro acaba fazendo com que ele seja excluído da
sociedade. É o que vem sendo feito com os "subdesenvolvidos", com os
"não-competitivos", com os "lentos" em geral. É por meio dessas
atitudes e de outras similares que a vontade de ir para o céu pode
levar-nos (ainda em vida) para o inferno.
Resistência à formatação
Se as conseqüências da alienação são
práticas, como acabamos de ver, não podemos lidar com elas nem reduzindo-as à
concretude nem tornando-as metafísicas. Como se sabe, as dificuldades para a reforma do
pensamento linear, hoje predominante em nossa cultura, são imensas. A maior delas
pode ser devida à nossa incapacidade de entendê-la e pô-la em prática. Jung dizia que
nada nos garante que nosso cérebro já tenha atingido o desenvolvimento total de que é
capaz. Morin diz o mesmo, e de maneira mais incisiva: para ele, ainda estamos na
pré-história do desenvolvimento de nossa consciência/inteligência.
Minha idéia de formatação da mente de
nossa cultura pelo pensamento linear (que, em boa parte, corresponde ao que Morin chama de
imprinting) pode levar a outros raciocínios. Como se sabe, há pessoas que
resistem ao imprinting. Não são necessariamente gênios: muitos homens
e mulheres comuns têm essa característica, sem ao menos se darem conta disso. A reunião
dessas pessoas em redes de conversação tem contribuído para formar bases de
resistência que, ao que parece, estão se ampliando em direção á formação de uma
massa crítica, que pode vir a produzir mudanças coletivas de comportamento.
Ao longo da história, essas redes têm
sido reprimidas. Tentou-se, por muitos meios, isolá-las em um grande cordão sanitário
de vigilância ou patrulhamento cognitivo, e as coisas não são diferentes no momento
atual. Não sem um certo exagero, alguns têm localizado focos dessa vigilância na
universidade (ou ao menos em certos setores dela), na chamada comunidade científica, no
mundo das empresas, na imprensa, na política enfim, em todas a instituições que
sustentam e são sustentadas pela economia formal que, como sabemos, é
orientada pelo pensamento linear.
Nos últimos tempos, textos de articulistas
políticos e econômicos vêm utilizando expressões como "risco sistêmico" e
semelhantes. É pouco provável que tenham noção suficiente de pensamento sistêmico e
da riqueza de implicações que ele comporta. O inverso também pode ser verdadeiro. Mas o
fato é que essa expressão, antes ausente do discurso dessas pessoas, vem aos
poucos sendo empregada. Isso sugere que elas devem ser informadas o mais possível sobre
as possibilidades do horizonte que estão divisando.
Um dos domínios sociais mais favoráveis
às redes de conversação que podem ajudar a formar a massa crítica em favor do
pensamento complexo, é o chamado Terceiro Setor do processo produtivo. Este compreende as
áreas da sociedade em que se fazem trabalhos comunitários e nas quais predomina a
economia dita "social", que comporta, por exemplo, serviços voluntários e
formas de remuneração não-financeira. Ao lado dele há o primeiro setor (o governo) e o
segundo (o universo das empresas), regidos pela economia de mercado e portanto pelo
pensamento linear. Mesmo que se levem em conta todas as dificuldades, equívocos, más
interpretações e outros problemas, é no Terceiro Setor que mais se vêm observando
conversações diferentes das habituais.
Esse exemplo mostra por que a resistência
ao imprinting precisa ser exercida no plano prático, imanente, isto é, na lida com
as atividades do cotidiano, inclusive a área política. A vida
de Gandhi é um eloqüente testemunho disso e também uma pungente demonstração
das dificuldades que esse projeto implica. De todo modo, quando falo em
"imanente" quero dizer que de uma certa maneira os deuses estão também entre
nós: fazem parte de nossa individualidade e emergem de nossos contatos com nossos
semelhantes. É o mesmo que sugerir que o sagrado está também na natureza, como dizia Gregory Bateson, e não apenas em alturas às quais só podemos chegar por meio da
"iluminação".
Pontos de alavancagem
Sabemos que nos sistemas há pontos que se
mobilizados podem provocar mudanças significativas. Muitas dessas modificações podem
ocorrer em curtos espaços de tempo, outras podem ser até mesmo instantâneas. São os
pontos em que as potencialidades das partes estão virtualizadas, reprimidas os
chamados pontos de alavancagem. Situam-se nas partes ocultas do sistemas, na sua
"cultura latente". É importante aprender a localizá-los, se quisermos saber
mais sobre o universo dos sistemas e como lidar com ele. Mas também é indispensável ter
em mente que não basta identificá-los. Eles são apenas uma porta de entrada à
aprendizagem da complexidade do mundo natural.
Essa aprendizagem evita que imaginemos que
as soluções que nos parecem óbvias são sempre as mais apropriadas. Permite que
saibamos até onde podemos ir sem traumatizar sem necessidade os sistemas, o que é
em especial importante quando lidamos com a natureza. Como diz Morin, o todo inclui a
organização (que por sua vez inclui os antagonismos), e só funciona como todo se as
partes funcionarem como partes. Noções como essa nos fazem concluir que agredir os
sistemas pode corresponder a agredir a nós mesmos.
Todas essas idéias são de compreensão
muito difícil em uma cultura formatada pelo pensamento linear. Mas essa constatação
não nos deve levar ao desânimo, porque a experiência vem aos poucos mostrando que o
número de pessoas resistentes ao imprinting é maior do que a princípio parecia. O
importante é proporcionar a elas um nível de informação que lhes permita escolher os
instrumentos epistemológicos com os quais desejam lidar com a realidade.
Dessa maneira, é fundamental não
entender a totalidade como "solução final", isto é, como uma meta alcançar,
algo em cuja direção se deve progredir. Pensar assim seria adotar uma idéia de
progresso tão equivocada quanto a do Iluminismo que via no reducionismo essa mesma
solução. A reflexão, apoiada pela experiência do dia-a-dia, mostra que a totalidade
não pode ser matematicamente certa, porque inclui a incerteza. Nem pode ser de
todo
organizada, pois comporta a desordem.
O ponto de vista exclusivo da totalidade
é, paradoxalmente, parcial. Um domínio humano onde só existisse a verdade seria, por
isso mesmo, inverídico. É por esse motivo que Theodor Adorno diz que "a totalidade
é a não-verdade". E é por essa mesma razão que Morin diz que a verdade do todo
está nas partes ou passa por elas. Talvez seja essa a principal diferença entre
totalidade e totalitarismo.
Referências
ADORNO, Theodor W. Negative dialectics.
Nova York: Continuum, 1973.
BERTALANFFY, Ludwig von. General systems theory. Nova York: Georges Braziller,
1968.
FREUD, Sigmund. El porvenir de una ilusión. Em Obras completas. Madrid:
Editorial Biblioteca Nueva, 1948, vol. 1.
GANDHI, Mohandas K. Autobiografia: minha vida e minhas experiências com a verdade.
São Paulo: Palas Athena, 1999.
MARIOTTI, Humberto. Organizações de aprendizagem: educação continuada e a empresa
do futuro. São Paulo: Atlas, 1995.
MARIOTTI, Humberto. "Autopoiesis, culture, and society". Oikos (Itália)
www:oikos.org/maten.htm, 1999.
MATURANA, Humberto, VERDEN-ZÖLLER, Gerda. Amor y juego: fundamentos olvidados
de lo humano. Santiago (Chile): Instituto de Terapia Cognitiva, 1997.
MORIN, Edgar. La méthode. 1. La nature de la nature. Paris: Seuil, 1977.
PETRAGLIA, Izabel C. "Olhar sobre o olhar que olha": complexidade, holística
e educação. Tese de doutoramento apresentada à Faculdade de Educação da
Universidade de São Paulo, 1998.
YALOM, Irvin D. The theory and practice of existential psychoterapy. Nova York:
Basic Books, 1975.
© Humberto Mariotti, 2005
* Capítulo do livro Edgar Morin: religando fronteiras. Passo Fundo, RS:
Universidade de Passo Fundo/Editora Universitária, 2005, pp. 115-128.
**HUMBERTO MARIOTTI.
Consultor em desenvolvimento pessoal e organizacional. Professor e Coordenador
do Centro de Desenvolvimento de Lideranças da Business School São Paulo.
Coordenador do Núcleo de Estudos de Gestão da Complexidade da Business School
São Paulo.
E-mail
– [email protected]