COMPLEXIDADE E PENSAMENTO COMPLEXO: BREVE INTRODUÇÃO E DESAFIOS ACTUAIS *
Humberto Mariotti **
Resumo
A complexidade corresponde à multiplicidade, ao
entrelaçamento e à interacção contínua da infinidade de sistemas e de fenómenos
que compõem o mundo, as sociedades humanas, a pessoa humana e todos os seres
vivos. Não é possível reduzir a complexidade a explicações simplistas, a regras
rígidas, a fórmulas simplificadoras ou a esquemas fechados. Ela só pode ser
entendida e trabalhada por um sistema de pensamento aberto, abrangente e
flexível - o pensamento complexo. O modelo mental linear e a lógica do «ou/ou»,
que praticamente excluem a complementaridade e a diversidade, podem coexistir
com um modelo mental integrador e a lógica inclusiva do «e/e». Ambos são
necessários e úteis consoante as situações e os problemas com que nos deparamos.
No caso da medicina e das intervenções em saúde, as questões da percepção,
da objectividade, da subjectividade, dos modelos de causalidade, da explicação
de efeitos, da compreensão da conduta humana, da relação médico-paciente, entre
outros, podem beneficiar dos novos modos, conceitos e instrumentos práticos da
complexidade e de mudanças nos nossos modos de perceber o mundo, de pensar e,
consequentemente, de interactuar com ele.
Palavras-chave: complexidade; pensamento complexo; teoria dos sistemas
complexos adaptativos.
Abstract
«Complexity and complex thinking: a brief
introduction and current challenges».
Complexity is linked to multiple, interlacing, webbing and continuing
interactions between the infinite number of systems within our world, human
societies, persons, and all living things. Complexity cannot be reduced to
over-simplified explanations, rigid rules, simplifying formulas or closed
constructs. An open, comprehensive and flexible way of thinking is needed -
complex thinking. The linear mental model and the «either/or»
disjunctive logic, that almost exclude complementarities and diversity, can,
nevertheless, be combined with an integrative mental model, as well as with an «and/and»
inclusive logic. Both are necessary and useful models, taking into account the
nature and characeristics of the problems and circumstances to be approached. In
the case of medicine and health care, the issues of perception, objectivity,
causality models, explanation of effects, understanding of human behaviour, the
doctor-patient relationship, and many others, may be explored using the new
conceps and some of the new practical instruments from the complex adaptive
systems theory. They also may help us to change our ways of looking at our world,
thinking about it, and, consequently, acting upon it.
Keywords: complexity; complex thinking; complex adaptive systems theory.
Comecemos com uma breve introdução ao tema
complexidade e pensamento complexo. A complexidade não é um conceito teórico e
sim um facto. Corresponde à multiplicidade, ao entrelaçamento e à contínua
interação da infinidade de sistemas e fenómenos que compõem o mundo natural e as
sociedades humanas. Os sistemas complexos estão dentro de nós e a recíproca é
verdadeira.
É preciso, pois, que procuremos entendê-los, porque por mais que tentemos não
conseguiremos reduzir a complexidade a explicações simplistas, regras rígidas,
fórmulas simplificadoras ou esquemas fechados. Ela só pode ser entendida e
trabalhada por um sistema de pensamento aberto, abrangente e flexível — o
pensamento complexo. Trata-se de uma teoria (que hoje já dispõe de um conjunto
de instrumentos práticos) que aceita e procura compreender as muitas faces e as
mudanças constantes do real e não pretende negar a multiplicidade, a
aleatoriedade e a incerteza.
Em nossa cultura, existe um modo hegemónico de pensar que
determina as práticas no dia-a-dia, tanto no plano individual quanto no social.
Esse modelo é o pensamento linear-cartesiano, que, como se sabe, foi muito
influenciado por um aspecto importante do pensamento de Aristóteles: a lógica do
terceiro excluído.
Essa lógica levou à idéia de que se B vem depois de A com alguma
frequência, B é sempre o efeito e A é sempre a causa (causalidade simples). Na
prática, essa posição gerou a crença errônea de que entre causas e efeitos
existe sempre uma contigüidade ou uma proximidade muito estreita. Essa concepção
é responsável pelo imediatismo, que dificulta e muitas vezes impede a
compreensão de fenómenos complexos como os de natureza bio-psico-social.
Por esse modelo, A só pode ser igual a A. Tudo o que não se ajustar a essa
dinâmica fica excluído. É a lógica do "ou/ou", que praticamente exclui a
complementaridade e a diversidade. Desde os gregos, esse modelo mental vem
servindo de base para os nossos sistemas educacionais e, consequentemente, para
as nossas práticas quotidianas. Também desde essa época ele é questionado. Platão,
por exemplo, escreveu: “Separar cada coisa de todas as demais é a maneira mais
radical de reduzir a nada todo o raciocínio. Pois o raciocínio e a conversa
nasceram em nós pela combinação das formas entre si". (Sofista, 259e).
O modelo mental linear é necessário para lidar com os problemas mecânicos
(abordáveis pelas ciências ditas exatas e pela tecnologia). Mas não é suficiente
para resolver problemas humanos em que participem emoções e sentimentos (a
dimensão psico-social). Por exemplo, o raciocínio linear aumenta a produtividade
industrial por meio da automação, mas não consegue resolver o problema do
desemprego e da exclusão social por ela gerados, porque essas são questões
não-lineares. O mundo financeiro é apenas mecânico, mas o universo da economia é
mecânico e humano.
O pensamento complexo baseia-se na obra de vários autores, cujos
trabalhos vêm tendo aplicação à educação, biologia, sociologia, antropologia
social, medicina, aos negócios/administração e ao desenvolvimento sustentado.
As considerações que se seguem representam uma tentativa de mostrar como as
chamadas ciências da complexidade e o pensamento complexo têm contribuído para
as interacções entre as pessoas e destas com a sociedade e o meio ambiente. Como
não poderia deixar de ser, a medicina e as acções de saúde desempenham um papel
da maior relevância nessas interacções.
Dada a amplitude do assunto, escolhemos para este texto falar sobre uma
de suas muitas facetas. Falemos, por exemplo, sobre algumas descobertas recentes
da ciência cognitiva e suas aplicações, em especial a questão da percepção.
Do ponto de vista ortodoxo, o mundo exterior ao observador é considerado
«objectivo». Tudo o que nele existe é antecipadamente dado, isto é, prévio ao
observador. Nessa ordem de idéias, o mundo é visto como um objecto do qual o
sujeito (observador) está separado. Esse modelo mental constitui a base do
empirismo, que afirma que a realidade é única e por isso mesmo deve ser
percebida da mesma forma por todos os homens. A mente é o espelho da natureza e,
por isso, percebemos o mundo exactamente como ele é.
Nossa percepção é, portanto, uma representação mental do que está fora de nós. É
o que se denomina de representacionismo. Em conseqüência disso, ao relatar a
alguém o modo como percebemos o mundo,
«transmitimos» o resultado de nossas
percepções
«objectivas». Numa aula, por exemplo, o professor
«transmite» seus
conhecimentos aos alunos. É o chamado instrucionismo. Sob esse ponto de vista
metodológico não há aprendizado, há instrução.
Repitamos: o representacionismo é a suposição de que nossa percepção resulta em
representações mentais dos objectos percebidos. Nessa linha de raciocínio, o mundo
deve ser visto do mesmo modo por todas as pessoas. Cada observador deve ser
capaz de descrevê-lo da mesma forma, e quem não tiver essa capacidade está “com
problemas” e deve ser convertido à visão
«correcta», isto é, ao modo de ver
predominante.
Foi o que se fez, por exemplo, na China de Mao Tse Tung, onde os dissidentes
ideológicos eram confinados e redoutrinados. Esse processo acabou por se
estender – e de maneira violenta – a todo o país, por meio da conhecida
Revolução Cultural. Nesse caso, o mundo
«objectivo» a ser percebido era o que
estava descrito no
«Livro vermelho dos
pensamentos
de Mao». Na antiga União
Soviética, os dissidentes do Partido Comunista eram enviados a campos de
concentração ou internados em instituições psiquiátricas. Esses exemplos são
apenas uma pequena amostra dos milhares disponíveis nos registos históricos.
Constituem mais um capítulo da volumosa e triste história das ideologias e dos
fundamentalismos.
Apesar de a experiência quotidiana nos mostrar a cada passo que a
percepção não ocorre assim, a teoria representacionista – hoje sob crescente
questionamento – continua a ser amplamente adoptada. Em seu nome, as sociedades
em que vivemos a todo instante nos pedem que sejamos
«directos» e
«objectivos». No
entanto, recentes descobertas da ciência cognitiva e da neurociência já
revelaram que o mundo externo é percebido de acordo com a estrutura cognitiva do
observador. Percebemos o mundo segundo o modo como essa estrutura está preparada
para percebê-lo, e não
«exactamente» como ele é, ou seja, não
«objectivamente».
Já tratei com detalhes desse particular em outros textos
e não o farei de novo aqui.1,2 De todo modo, convém lembrar alguns pontos.
1. Como acabamos de ver, cada observador percebe o mundo externo de acordo com
sua estrutura cognitiva, isto é, do modo como ele está preparado para
percebê-lo.
2. Por outro lado, o mundo externo também percebe
o observador – e fá-lo segundo sua própria estrutura, ou seja, da maneira como
está preparado para percebê-lo. Por exemplo, quando caminhamos por uma praia ao
longo desse passeio percebemos de modo pessoal os diversos detalhes do caminho e
da paisagem.
Apreciamos ou não determinados aspectos da trajectória ou do ambiente. Assim,
gostamos mais da areia fofa ou da areia endurecida deixada pela maré vazante;
apreciamos mais ou menos a presença de algas sobre a areia; preferimos caminhar
sobre o solo mais seco ou molhar os pés à medida que avançamos; e assim por
diante.
Terminada a caminhada, se olharmos para trás veremos que ao longo de nossa
trajectória deixámos no mundo externo – na praia – as marcas da nossa passagem.
São as nossas pegadas na areia e, além disso, o modo como elas estão impressas:
mais ou menos profundamente, de acordo com o nosso peso; mais ou menos em linha
recta, segundo o nosso modo de andar ou as paradas que eventualmente fizémos;
mais ou menos regulares e distantes umas das outras, segundo o comprimento de
nossas pernas e a velocidade com que andamos ou corremos.
Todos esses sinais constituem os registos, as evidências de como a estrutura do
mundo externo “percebeu” nossa interação com ele. O mundo percebeu e registou a
nossa passagem da maneira como pôde fazê-lo.
Mais ainda, ao longo desse nosso passeio na praia, também fomos
percebidos por muitos olhos e ouvidos: os de outras pessoas que, de perto ou de
longe, notadas ou não, testemunharam a nossa caminhada. E também por muitos
outros olhos, ouvidos e outras formas e percepção de aves e outros seres vivos
que, durante o nosso passeio, interagiram connosco. Pouco importa que não os
tenhamos notado: mesmo assim, as interacções aconteceram em sua multiplicidade e
complexidade.
3. Pode-se concluir, portanto, que a percepção e as acções dela decorrentes não
são fenómenos de direcção única, do tipo sujeito ->
objecto, observador ->
observado. Ou, no caso da medicina, que as acções de saúde não são
«objectivas» e
unidirecionais, do tipo médico
->
paciente. Ao contrário, elas são uma via de mão dupla: sujeito
D
objecto, observador
D
observado, médico
D
paciente. O sujeito/observador percebe o objecto/observado à sua maneira, e
também é percebido pelo objecto/observado à maneira peculiar deste.
Em suma, não existe percepção somente subjectiva, nem percepção apenas objectiva.
A percepção resulta de uma troca, de um intercâmbio entre o percebedor e o
percebido. Mas cada um percebe o outro a seu modo: segundo a maneira como está
estruturado para tanto.
Por conseguinte, se houver mudança de estrutura haverá também mudança de modos
de perceber e, consequentemente de agir. Este é um ponto fundamental e será
retomado adiante.
O fenómeno da percepção é o mesmo, mas seus agentes são múltiplos. Esse facto tem
grande importância prática em todas as acções humanas, inclusive, é claro, na
medicina e na educação. Por exemplo, quando um professor dá uma aula, aquilo que
ele comunica a seus alunos é percebido e entendido de modo diverso de aluno para
aluno. São percepções semelhantes mas são diferentes, individuais. Os
especialistas em comunicação já notaram esse fenómeno há muito tempo. Isso os
levou a concluir que o resultado final da comunicação não é exactamente o que é
emitido pelo comunicador, mas sim o que é individualmente recebido pelos
receptores de sua mensagem.
É o que estabelece o teorema de Shannon:
«Uma mensagem
enviada por meio de um canal qualquer sofre interferências no decurso da
transmissão, de modo que à sua chegada parte das informações que ela continha é
perdida».
Vemos, portanto, que qualquer comunicação ou mensagem está sujeita a
«ruídos»,
erros, interferências imprevistas, e tudo isso pode alterar ou deturpar seu
conteúdo original.
Em um livro magistral que todo médico deveria ler
–
«O caráter oculto da saúde» –, o filósofo Hans-Georg Gadamer observa:
«O
diálogo promove a humanização da relação entre uma diferença fundamental, a que
há entre o médico e o paciente. Tais relações desiguais pertencem às mais
difíceis tarefas entre os seres humanos. O pai e o filho. A mãe e a filha. O
professor, o jurista, o pastor. Resumindo: o profissional. Mas isso é algo que
qualquer um de nós conhece bem, o quanto é difícil entendermo-nos!».3
Uma consciência cada vez mais ampla dessa dificuldade é indispensável a qualquer
relação interpessoal – e a relação médico-paciente está entre as mais
importantes. Para superar esse e outros obstáculos,
precisamos aprender a pôr em prática um dos fundamentos do pensamento complexo:
a unidade na multiplicidade (unitas multiplex). Segundo esse princípio, os seres
humanos são todos iguais (compartilham a condição humana), mas ao mesmo tempo
são todos diferentes (são indivíduos, têm origens diferentes, actividades
diferentes, visões de mundo diversas).
Sabemos que a experiência de estar doente não é vivida da mesma maneira por
todas as pessoas. A atitude de cada um de nós em relação à doença varia na razão
directa da complexidade da condição humana, suas contingências e muitas outras
variáveis. A nacionalidade, a etnia, o status económico e social e as crenças
religiosas são apenas alguns exemplos dessas variáveis. Assim como deixamos
nossas pegadas na areia, a praia também deixa em nós as suas marcas. A
influência da paisagem e de seus detalhes sobre o nosso estado de espírito e
condições de saúde durante o passeio estão entre elas. De modo análogo, as
doenças – as próprias ou as dos outros – também deixam suas marcas em todos nós,
médicos ou não.
Por tudo isso, uma profunda reflexão sobre as relações da medicina não apenas
com a saúde ou a doença, mas também com a totalidade e a complexidade da
condição humana deveria fazer parte da educação médica. Em todos os sentidos,
todas as escolas médicas e todos os países.
Seria possível chegar a isso em nossa era mecanicista e objectivista? Para tentar
responder a essa pergunta, retomemos uma frase escrita linhas atrás. Ela
sugere-nos uma resposta: se conseguirmos fazer mudanças suficientes
em nossa estrutura cognitiva, haverá modificações em nossos modos de perceber e,
consequentemente em nossos modos de agir. Por tais modificações devemos entender
mudanças de modelos mentais, de modos de pensar. Trata-se, evidentemente, de uma
tarefa de imensas proporções – mas nem por isso ela deve nos deixar desanimados.
Essa é a proposta-chave do pensamento complexo.
Referências
1. MARIOTTI, Humberto. Autopoiesis, culture, and society. Disponível em http://www.oikos.org/mariotti.htm
2. _____. Pensamento complexo: suas aplicações à liderança, à aprendizagem e ao desenvolvimento sustentado. São Paulo: Atlas, 2007.
3. GADAMER, Hans-Georg. O caráter oculto da saúde.
Petrópolis: Vozes, 2006.
© Humberto Mariotti 2007
* Publicado na Revista Portuguesa de Clínica Geral
(Rev Port Clin Geral) 23: 727-731, 2007.
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