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Logo no segundo
parágrafo da Nota Prévia a este livro, Edgar Morin explica o que é um
holograma e o faz com a clareza habitual. Sua explicação faz lembrar uma
frase de Ortega y Gasset: “Eu sou uma parte de
tudo o que encontrei”. Morin acrescenta que embora não seja
possível isolar o seu pai, Vidal Nahoum, de seus familiares, orientou para
ele, Vidal, o foco da narrativa neste livro.
Entretanto, como se viu ao longo de todo o texto, a escolha do foco em
nenhum momento deixou de lado a visão do conjunto. Estar atento ao focal
sem perder de vista o global e vice-versa: eis a essência do modo de
pensar que Morin desenvolveu para procurar entender a complexidade do
mundo e da vida, ao qual deu o nome de pensamento complexo. Procurar
entender o todo sem perder de vista as partes que o constituem e,
inversamente, ao lidar com as partes não perder de vista o fato de que
elas compõem o todo.
Não é fácil definir de
modo breve o que seja o pensamento complexo, mas sua natureza se torna
clara quando se fala de seus princípios básicos. Foi o que comecei a fazer
ao mencionar a metáfora do holograma e prosseguirei nas linhas que se
seguem.
Este posfácio visa a
mostrar, ainda que de modo breve, como as origens de Morin influenciaram a
gênese e o desenvolvimento de seu pensamento. Tenho plena consciência de
que o espaço disponível não me permitirá ir muito longe, nem é esse o meu
objetivo agora. O que pretendo é, dentro do possível, mostrar como Morin
pensa e atua hoje, homenageá-lo e ser-lhe grato por tê-lo conhecido e por
ter tido o privilégio de aprender e continuar aprendendo com ele.
A diáspora dos judeus da
Espanha – os sefarditas – fez com que eles seguissem em direção à Holanda
(onde nasceu outro sefardita ilustre, Baruch de Espinosa), à Provença, à
África do Norte e ao Oriente, até o Império Otomano. No primeiro século de
nossa era, encontraram-se em Salonica três tradições religiosas e
correntes de pensamento: a grega, a judaica e a cristã. Dessa convergência
surgiu e se desenvolveu aquilo que se pode considerar o cerne da cultura
européia.
Em Salonica, as sementes
do pensamento complexo já estavam esboçadas no shabbetaísmo. Eis um resumo
da história, conforme contada por Morin: com a chegada de um místico de
Esmirna, Shabbetai Zevi, em meados do século XVII, termina a longa espera
dos judeus salonicenses pelo Messias. Shabbetai pregava nada menos do que
a redenção universal por meio de uma visão ampliada (“mística e complexa”,
na expressão moriniana) da relação entre o Bem e o Mal: “Um senso de
complementaridade entre ascese e devassidão, como entre os cátaros, e uma
compaixão fascinada pela ignomínia, como a encontrada em Dostoiévski”. Ou
seja, a coexistência e a interação de opostos ao mesmo tempo antagônicos e
complementares.
Mas Shabbetai acabou por se converter subitamente ao Islã, depois foi
proibido de pregar nas mesquitas, morreu no exílio e o shabbetaísmo ficou
reduzido a uma seita. O princípio geral, porém, permaneceu. É o que nota
Morin, ao dizer que aquilo que restou do shabbetaísmo reproduziu, de
maneira fechada, a dupla identidade aberta aos marranos. A seu ver, a
própria decadência da cultura sefardita iria, séculos depois, servir de
base a um dos principais conceitos de seu pensamento: a idéia de que a
ordem abriga em seu seio o caos e vice-versa. Para ele, “integração é também
desintegração. É ganho e perda simultaneamente”. Mais uma vez, estamos
diante da coexistência de opostos ao mesmo tempo antagônicos e
complementares, ou seja, da possibilidade de conviver com paradoxos.
Ainda nessa linha de
pensamento, Morin acrescenta que os sefarditas que foram para Salonica e lá
se estabeleceram eram ao mesmo tempo judeus e espanhóis. Formara-se uma
identidade dupla e complexa: embora sendo judeus in pectore, eles
há muito haviam deixado de praticar os rituais de sua fé. Porém, sem se
dar conta disso abrigavam em seu íntimo a mensagem de São Paulo, que
pregava a primazia da fé sobre a lei.
Se ao ler a história de
Vidal compreendem-se ao mesmo tempo as bases, a gênese e o desenvolvimento
das linhas mestras do pensamento complexo, também se entende por que Morin,
dentre bem poucos pensadores, estava naturalmente capacitado a criar e
desenvolver essa metodologia de investigação da multiplicidade de facetas
do mundo. Outros chegaram aos mesmos resultados por vias diferentes (a
termodinâmica, a teoria do caos e a matemática dos fractais, por exemplo),
e essa validação cruzada nada mais é do que a própria essência do método
científico.
Ligar, juntar, perceber
as conexões e aprender que elas são o lugar de produção do novo, do antes
inexistente ou só existente de modo potencial em cada parte separada; a
necessidade de reunir, de recompor a família dispersada pelas guerras,
pelos imprevistos de épocas turbulentas, em especial no começo do século
XX. Tudo isso fez parte da história do povo judeu em geral, e da família
de Vidal Nahoum em particular. E, com certeza, influenciou o pensamento do
jovem Edgar, até mais profundamente do que ele possa se ter dado conta.
Com um pouco de reflexão
as coisas se tornam mais claras: os que disputam o poder e causam as
guerras precisam reduzir tudo ao simplismo do raciocínio binário:
amigo/inimigo, a favor/contra, nós/eles. É imperioso dividir, separar,
dispersar, e isso não se faz sem sofrimento. Não existem diásporas sem
traumas, sem o desprezo pela coesão, tolerância, hospitalidade,
acolhimento. Morin sempre soube de tudo isso, e esse saber se consolidou
na elaboração do modo de pensar que o colocaria entre os grandes
intelectuais da atualidade em todo o mundo. Mas, como todo grande
pensador, ele também sabe que suas idéias dificilmente serão compreendidas
e, menos ainda, postas em prática a curto e médio prazo, exceto em
contextos relativamente restritos.
Mesmo ao escolher uma
técnica narrativa em que fala de si mesmo na terceira pessoa, em momento
algum ele deixa de ser um observador participante, visceralmente envolvido
nos fenômenos que observa. É ao mesmo tempo contador e personagem da
história, está circularmente dentro e fora do processo. Ao longo deste
livro, os exemplos dessa postura são freqüentes. Um deles é
particularmente ilustrativo. Já no fim da vida, Vidal ainda sonhava em
reunir os familiares que as circunstâncias haviam dispersado. Os ainda
vivos deveriam se manter em conexão; quando não pela proximidade física,
poderiam fazê-lo por meio da comunicação constante: telegramas, cartas,
telefonemas, enfim, todos os meios disponíveis.
Quanto aos já mortos, ele imaginou reunir todos num mesmo cemitério. Foi o
que disse numa carta: “... pretendo me informar se é possível trazer para
Paris os restos do querido Bouki, para que ele repouse no cemitério
Paris-Bagneux, onde repousam Mathilde e toda a minha família”.
Não foi diferente com
Edgar. Com as constantes movimentações, mudanças de casa, de rua, de
cidade, de país e os riscos que correu, em especial como participante da
Resistência à ocupação da França pelo exército alemão, durante a Segunda
Guerra Mundial, ele aprendeu a conviver com a incerteza, o risco, a
aleatoriedade, a imprevisibilidade.
Tais circunstâncias não o deixaram esquecer-se da necessidade de buscar
incessantemente referenciais, apoios, conexões. Também fizeram com que ele
percebesse como são frágeis e caprichosos cada projeto, ato, gesto,
decisão e ação humanos. Essas percepções o levariam, bem mais tarde, a
desenvolver o conceito de “ecologia da ação”, que assim se pode resumir:
toda ação, uma vez iniciada cai num meio ambiente, no qual interage com
outras ações, contra-ações, enraizamentos e desenraizamentos,
potencializações e despotencializações, paralelismos e confrontos. Até que
num dado momento seus resultados se tornam imprevisíveis e podem,
inclusive, voltar-se contra o seu autor. São situações complexas, que não
podem ser compreendidas por modos de pensar simplistas e esquemáticos.
Ao entrar na Resistência, Edgar Nahoum adotou o codinome de Edgar Morin.
Segundo ele próprio, a assunção dessa dupla identidade, meio aberta meio
fechada, meio pública meio clandestina, foi uma extensão laica do
marranismo e do shabbetaísmo de Salonica. Mais um exemplo de como e quando
foram percebidos e gestados os principais conceitos do pensamento
complexo.
Por isso tudo, antes mesmo de entrar em contato com a cibernética e com a
teoria dos sistemas, ele já intuíra o conceito de circularidade ou
feedback, cuja origem pode ser rastreada ao dia-a-dia de sua
convivência com Vidal: “Instituiu-se progressivamente uma relação rotativa
de paternidade e de filialidade entre um e outro. E assim estabeleceu-se
um círculo rotativo, no qual pai e filho permutavam seus papéis
continuamente, cada qual transformando-se em pai-filho e filho-pai do
outro. O elo inusitado que se estabeleceu em 1921 durou 63 anos, o cordão
umbilical de um ao outro tornou-se um círculo umbilical para um e
outro...”
Não há, portanto, dúvida de que a história de Vidal, sua família e sua
gente foi contada por Edgar segundo a ótica do pensamento complexo, teoria
que ele já havia desenvolvido em grau apreciável na época em que este
livro foi escrito. E não poderia tê-lo feito de outra maneira, pois herdou
a ancestral tendência sefardita para rejuntar, reunir, recompor o que
havia sido separado. Nesse processo, convém repetir, ele revela como
nasceu sua concepção de um modo de pensar que retroage constantemente
sobre si mesmo, auto-examina-se e se autoquestiona; um pensamento para o
qual nem sempre os opostos são inconciliáveis – condição bem mais
freqüente do que se imagina, pois surge a cada passo na prática cotidiana.
É o que observa Edgar, referindo-se a Vidal: “Não foi nômade nem
sedentário, porém sedentarizado e nomadizável”.
Com o passar do tempo, o pensamento complexo acabou por assumir de vez sua
vocação natural e inevitável: procurar reunir saberes separados,
estabelecer pontes entre as ciências ditas “humanas” e as ciências
chamadas “exatas” (como se ao humano fosse proibido o exato e ao exato
fosse vedado o humano) e entre as diversas disciplinas de uma dada
ciência. Ou, posto de um modo mais amplo, buscar a reaproximação das
culturas separadas – a científica e a literária – e desenvolver uma ética
que proporcione sustentação ao processo.
Eis o que ocupa o Morin de hoje: a religação dos saberes, a difícil tarefa
de aglutinar as disciplinas separadas, os conhecimentos dispersos – mas
fazer isso de tal modo que eles não percam sua individualidade, autonomia
e fertilidade. Essa é a tarefa que mantém em constante movimento o
filho-pai de Vidal que, na bela frase de Luís Mir, fez do mundo a sua
aldeia e de Paris partiu para o planeta: Bruxelas, Málaga, Madri, Nova
York, La Jolla, Londres, Roma, Milão, Nápoles, Lisboa, Viseu, Buenos
Aires, Rio de Janeiro, São Paulo e tantas outras cidades.
E o que faz ele nesses
lugares todos? O mesmo que aprendeu com Vidal – só que agora, além de
reunir pessoas reúne também conhecimentos e disciplinas. Nesse nomadismo
multiplica-se em livros, artigos e ensaios; desdobra-se em congressos,
seminários, conferências, cursos e atividades semelhantes, nas quais
exerce, incansável, a função por ele mesmo bem-humoradamente (outra
característica de Vidal) denominada de “contrabandista de saberes”.
Muitos outros seguem-lhe
o exemplo.
Eu próprio sou uma dessas pessoas. Ao longo dos últimos vinte anos, além
das leituras e comunicações a distância, tenho-o encontrado e reencontrado
pelo mundo afora – no Brasil, em Portugal, na França – ao sabor de minhas
andanças, durante as quais procuro fazer a minha parte na busca de, como
ele costuma dizer, se não a melhor das sociedades, pelo menos uma
sociedade melhor.
© Humberto Mariotti, 2006
* Posfácio ao livro de Edgar Morin Um ponto no holograma: a história
de Vidal, meu pai. São Paulo: A Girafa Editora, 2006, pp. 433-438.
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HUMBERTO MARIOTTI. Professor e Coordenador
do Centro de Desenvolvimento de Lideranças da Business School São Paulo.
Consultor em desenvolvimento pessoal e
organizacional. Conferencista nacional e internacional.
Coordenador do Núcleo de Estudos de Gestão da Complexidade da Business School
São Paulo.
E-mail: [email protected]
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