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 INCERTEZA,  INSTABILIDADE  E VIOLÊNCIA

(Obstáculos políticos a uma cultura de paz?)

 

Humberto Mariotti *

 

 Para começar, retomemos uma noção bem conhecida: o homem é um ser desejante — um ser que deseja acima de tudo viver. Desde sempre, as múltiplas possibilidades de realização desse desejo nos têm levado a buscar respostas para pelo menos três questões que, como se sabe, podem entrelaçar-se de muitas maneiras: de onde viemos? (cosmologia); quem somos? (antropologia); para onde vamos? (escatologia).

São as três grandes vertentes de onde vêm os sistemas filosóficos e seus desdobramentos. Hoje, mais do que nunca, buscar respostas para elas inclui examinar os temas que dão título a este ensaio. Por sua vez, essa investigação cedo ou tarde nos levará a considerações de ordem política e econômica. É o que veremos a seguir.


Ao contrário do que muitos têm como certo, a instabilidade não é o oposto da estabilidade, assim como a incerteza não é o inverso da certeza. Do mesmo modo, a paz não é o oposto da guerra nem a saúde o contrário da doença. Esses são apenas alguns exemplos de uma infinidade de condições que são ao mesmo tempo antagônicas e complementares: cada uma delas está contida na que lhe é oposta e lá reside em estado latente, isto é, como possibilidades que podem se tornar manifestas a qualquer momento.


Essa realidade não é fácil de aceitar por mentes como as nossas, tão condicionadas por uma lógica que nos leva a lidar com o mundo em termos binários: ou bem ou mal; ou estabilidade ou instabilidade; ou certeza ou incerteza; ou verdadeiro ou falso; ou comigo ou contra mim; e equivalentes. Esse modelo é excludente, maniqueísta, e não deixa espaço para a tolerância, a aceitação, a negociação e o respeito à diversidade. Na maioria dos casos, é por causa dele que temos dificuldade de lidar com a instabilidade e a incerteza.

Uma das manifestações mais evidentes da dominância dessa lógica (dominância da qual a maioria das pessoas nem sequer tem consciência) pode ser vista em dois períodos históricos. O primeiro é a Modernidade que, segundo muitos admitem, começou no século 18 e terminou por volta do fim da década de 1960. A partir de então, e sempre segundo esse consenso, começa a Pós-modernidade.

Em termos gerais, a Modernidade se caracterizou por uma visão de mundo quantitativa, pragmática e racionalista: a razão deve predominar sobre os instintos, os sentimentos e as emoções. E o faz de modo muito intenso, o que resultou no chamado mal-estar da civilização, descrito em 1930 por Freud num ensaio hoje clássico.
1 Nesse texto, o criador da psicanálise sustenta que o progresso tem um preço elevado: a repressão dos instintos e o surgimento do sentimento de culpa.

Para que haja civilização é preciso que haja repressão. A proposta central da psicanálise é controlar o Id  — o substrato instintivo da psique. Em outro ensaio clássico, Freud sustenta que o objetivo do método psicanalítico é fortalecer o Ego: “Os esforços terapêuticos da psicanálise elegeram um ponto de ataque”. (...) “Onde era o Id, deve ser o Ego. É um trabalho de civilização, como a drenagem do Zuiderzee”.2  (O Zuiderzee era uma enseada na Holanda, da qual fazia parte o lago Ijsselmeer, em cujas margens fica Amsterdã).


Submeter o instintual/natural ao cultural/civilizatório, portanto: ou natureza ou cultura. É o que Freud propunha num ensaio anterior (de 1927), "O futuro de uma ilusão", no qual sustenta que nossa cultura “compreende todo o saber e o poder conquistados pelos homens para conseguir dominar as forças da Natureza e extrair os bens naturais com que satisfazer as necessidades humanas”.
3 Cartesianismo e Iluminismo em estado puro, como se vê. Com essa linha de pensamento, Freud punha em prática a divisa iluminista, proposta por Kant: Sapere aude! (ousa utilizar-te de tua razão!).

Hoje, na chamada Pós-modernidade, observa-se a tendência contrária. Embora o culto ao Ego persista e até mesmo tenha se acentuado, em vários outros domínios do comportamento humano saltamos para o pólo oposto. Assistimos a iniciativas de des-repressão. Eis alguns exemplos: a maior aceitação de minorias como os homossexuais; a denúncia e, em vários países, a atenuação do racismo e do machismo; as modificações na instituição casamento; e assim por diante. Trata-se de liberar — ou reprimir menos — os instintos, as emoções, os sentimentos, a intuição.

No entanto, em que pesem os avanços representados por essas mudanças, no geral não escapamos da pendularidade de sempre. Se antes se reprimia demais os instintos, agora se reprime demais a racionalidade, o que acabou gerando um novo mal-estar. Se antes vivíamos o mal-estar da Modernidade, agora experimentamos — na expressão de Zygmunt Bauman — o mal-estar da Pós-modernidade.4 Ele se origina do fato de que agora temos de lidar num grau talvez sem precedentes com a instabilidade, a incerteza, a aleatoriedade e a imprevisibilidade. 

Alguns exemplos bastam para ilustrar esse ponto: a volatilidade dos mercados; a insegurança nos empregos; a pulverização da guerra, com a proliferação dos conflitos localizados; o esvaziamento do Estado de bem-estar social; a explosão do terrorismo e da violência; e assim por diante.

No século 19, Nietzsche decretou a morte de Deus. Na década de 1960, o estruturalismo anunciou a morte do homem. Agora, na Pós-modernidade, fala-se da morte das certezas e da estabilidade. Como sempre, a linearidade se repete: sai uma coisa, entra outra; ou uma coisa ou o seu contrário.  

A incerteza e a instabilidade
sempre existiram, mas nem por isso foram tão percebidas como nos tempos atuais. O mais importante a notar é que agora temos de lidar com elas sem meias medidas ou eufemismos. Vale dizer, lidar de modo direto e sem disfarces com as características mais íntimas, mais viscerais, da condição humana.
Ou seja: viver os sentimentos e as emoções, por tão longo tempo postos em segundo plano.

Já no século 6 a. C., Heráclito de Éfeso dizia que tudo marcha na direção do seu contrário. Era uma forma de explicar que todo excesso cedo ou tarde produz uma crise e, em conseqüência dela, salta-se para a polaridade contrária.
É esse o caso: nossa adoração da tecnociência já começa a dar sinais de que é preciso buscar e recuperar o humano não matematizado, não mecanizado. Ao contrário da maioria dos efeitos colaterais das dosagens excessivas seja do que for, esse é salutar. Só é de lamentar que tenha de ser dessa maneira: ou a tecnociência ou o humano. Mas assim continuará, até que o dia em que compreendermos (se isso acontecer) que ambos os lados são necessários, e por isso mesmo deveriam complementar-se, e não excluir-se mutuamente.

Enquanto tal não acontece, aumentam em todos nós a angústia e a perplexidade — resultados de mais essa mudança pendular: ou Modernidade ou Pós-modernidade. Elas acabaram abrindo os olhos de um certo número de pessoas para o mal-estar que é conviver (como sempre, aliás) com as conseqüências de nossa incapacidade de pensar e agir de outro modo que não fragmentando, excluindo e separando tudo — o que acabou por fragmentar, excluir e separar a nós próprios.

Mário de Andrade dizia que temos uma consciência lógica e uma consciência poética. Henri Bergson sustentava que não existe desordem, mas sim duas espécies de ordem, a geométrica e a viva. Acrescento que a geométrica exclui a desordem, mas a viva a incorpora e com ela convive.


A predominância da mentalidade binária — o modelo “ou/ou” — gerou nossa dificuldade fundamental de entender idéias como essas. Dificultou-nos também a compreensão de que a instabilidade e a incerteza são inerentes à condição humana, e também a percepção de que quanto mais as negamos mais elas se revelam atuantes e inevitáveis. Tentar suprimi-las de maneira artificial resultou num mundo em que as incertezas e a instabilidade assumiram um significado obscuro e ameaçador, quando na verdade são apenas companheiras de viagem, inerentes ao processo da vida.

A busca incessante da estabilidade e de certezas que na realidade não existem — nem nunca existiram — é uma das características mais visíveis da chamada “ortodoxia neoclássica” ou “sabedoria convencional”. Esses são dois dos vários nomes com que hoje se designam os esforços do chamado senso comum, em sua tentativa de negar a realidade. Tudo isso serve para edulcorar estratégias cujos resultados mais evidentes têm sido a desconfiança, o medo e a paranóia. 


Nossa principal dificuldade de compreender a instabilidade e a imprevisibilidade vem da crença num universo matematizado, pleno de pseudocertezas e estabilidades que jamais existiram — o que só tende a tornar-nos mais inseguros. O fenômeno é bem conhecido. As pessoas se deixam enganar e condicionar porque assim a vida lhes parece mais fácil, as decisões parecem mais rápidas. Sobretudo, não é necessário refletir, pensar, fazer escolhas. Estas são deixadas a cargo de outros, de instâncias “superiores” que as apresentam já tomadas, já prontas para o consumo.

Mas essa espécie de comodidade custa caro. O resultado de sua "compra" é enganoso e se manifesta pelo estreitamento e obscurecimento do horizonte mental dos "compradores". Criou-se um universo de indivíduos e sociedades imediatistas, autocomplacentes, ávidos e egoístas. Ou, como se costuma dizer, sociedades cujas marcas fundamentais são a superficialidade da mente e a auto-indulgência do corpo. Corpos e mentes pesados, inseguros e dependentes sob a aparência de auto-confiança; e também resistentes ao novo, à diversidade, ao não-padronizado.

Hoje, um os nomes mais comuns para esse reacionarismo é “aversão ao risco” —  eufemismo utilizado para esconder um sentimento que, no fundo, é de aversão à vida. A conhecida frase de Guimarães Rosa “viver é perigoso”, refere-se à nossa necessidade de aceitar a incerteza e a aleatoriedade naturais do processo vital. Não se aplica ao atual imperativo de fortificar casas, blindar automóveis e viver atrás de grades e muros, com medo dos resultados das tensões sociais por nós mesmos criadas.

Dessa “aversão ao risco” faz parte a estranheza que desperta, na maioria das pessoas, o questionamento da lógica binária por meio de sua denúncia e análise. Assusta-as não apenas o questionamento de seu hábito de pensar de modo superficial e padronizado, mas também a exposição das conseqüências práticas dessa forma de raciocinar. Tudo isso provoca reações de resistência, análogas às que proteínas estranhas causam nos sistemas imunológicos.

Surgem então mecanismos de defesa bem conhecidos. Um deles é a cobrança a quem fala ou escreve: “Você só mostra problemas, não dá soluções”. Essa atitude é própria de quem imagina que todos os problemas são simples e, portanto, devem ter soluções simplistas e vindas de fora já prontas — as conhecidas “receitas”. Não se compreende que a análise crítica não pretende ser incômoda pelo prazer de sê-lo. Não se consegue entender que seu propósito é buscar parceiras e parceiros de reflexão, num esforço para mostrar que dificuldades coletivas devem ser enfrentadas por meio do debate e da produção de idéias novas. 

E
ssa é a nossa situação atual. O excesso de flexibilidade do mundo pós-moderno tem sido apresentado como uma alternativa ao excesso de rigidez da Modernidade. O resultado é que a vida que tanto nos esforçamos para tornar estável acabou (como sempre faz) nos mostrando que as coisas não são bem assim. A vida sempre incluiu um inevitável (e necessário) grau de instabilidade. Portanto, o problema não está na instabilidade em si, mas nas conseqüências de sua negação e ocultação.


Segundo nossa percepção predominante, na Modernidade havia certezas e estabilidade — o chamado safe heaven. Agora há certezas de menos e instabilidade demais. Entretanto, é preciso entender que em um e no outro caso trata-se de percepções apenas culturais. Pois no mundo natural nada é demasiado: não há excessos, seja de rigidez ou estabilidade, seja de flexibilidade ou instabilidade. Há apenas a justa medida e a auto-regulação que nos capacitam, na condição de seres vivos, a existir no meio ambiente interagindo com ele.


A natureza não obedece a pendularidades, move-se em ciclos. No mundo natural não há saltos bruscos do tipo “ou/ou”. Entre os opostos (dia/noite, quente/frio, etc.) há todo um espectro de gradações, nuanças, estados intermediários, entretons, passagens. As mudanças pendulares são apenas o resultado de nossa percepção condicionada.

Nosso condicionamento pela lógica binária em muitos casos impede que percebamos que fazemos parte do mundo natural. Para nós, é difícil entender que a interação com o mundo modela desde a morfologia do fenótipo dos seres vivos até o modo de funcionamento de seus organismos. E que, portanto, a ação destrutiva que exercemos sobre a natureza acaba se voltando contra nós mesmos.

Na esteira do Iluminismo (depois na do positivismo e, mais tarde, na do freudismo, com seu reforço do Ego), muitos passaram a acreditar que a missão fundamental do homem dito civilizado é lutar contra a natureza, conquistá-la e dominá-la. Nessa linha de idéias, não somos seres que vivem na Terra: somos uma espécie de exército colonial de ocupação. Entre nós, há muitos anos, ficou famoso um slogan reducionista: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. É claro que não aconteceu nem uma coisa nem outra.

Na opinião de vários observadores — entre eles Richard Sennett5 —, a situação que mais gerou grande flexibilidade e, como resultado, aumento da incerteza e da instabilidade, foi a opressão das exigências do capitalismo globalizado. Este, observa Sennett, corrói nossa capacidade ética e portanto o nosso caráter. É claro que aqui esse autor se refere, entre outras coisas, à adoção da competição predatória e agressiva como valor positivo.  

Nos dias atuais, porém, aos poucos se desfaz a ilusão da economia auto-regulada, que imitaria a dinâmica do mundo natural. Aliás, tal engodo só poderia ter sido aceito, como foi, por mentes como as nossas, formatadas por esse condicionamento que chamamos de "razão ocidental". A própria "lei" da oferta e da procura, que costuma ser oferecida como um argumento em favor da auto-regulação da economia, é uma "lei" natural da qual se apropriou a teoria econômica. A suposta "mão invisível", que sempre corrigiria distorções do "mercado", acabou mostrando que além de ser bem visível está armada: seu nome verdadeiro é mão militar.6 

Nunca foi novidade
que perceber, entender, tomar consciência e explicar, diminuem a incerteza e com ela a ansiedade. Por isso, a ciência e a tecnologia como meios de conhecimento e explicação de mundo são da maior importância. Contudo, a mentalidade tecnocientífica pôs em segundo plano o conhecimento representado pelas humanidades, o que nos levou a uma visão de mundo unidimensional, fragmentada e portanto simplista.

A fragmentação dos saberes (a superespecialização é um exemplo) é uma conhecida manifestação de nosso condicionamento pelo modelo mental binário ou pensamento linear. É claro que não se trata aqui de querer contestar o valor e os benefícios da tecnociência: o que se pretende é mostrar que sua hegemonia nos tornou incompetentes para lidar com os sentimentos, as emoções e a intuição. Tal incompetência nos levou a fazer de conta que essas dimensões do humano não existem. E as conseqüências desse empreendimento, tão ingênuo quanto autodestrutivo, estão aí, à vista de todos. 

O modelo mental linear tem entre as suas características a superficialidade e o imediatismo. Mas é impossível simplificar a complexidade biológica e social, por mais que tenhamos ilusões a esse respeito.  As tentativas de criar, por meio da cultura tecnocientífica, um clima artificial de exatidão, imediatismo e certezas são o resultado de uma das orientações centrais da Modernidade, a chamada "idéia de progresso", em cujas bases estão o racionalismo e o modelo mental binário. Esse ânimo super-simplificador faz com que nos sintamos prisioneiros da teia da complexidade da natureza e da de nossas sociedades, quando na verdade somos fios dessas malhas, não vítimas dela.


Em sua busca de objetivos polarizados e unidimensionais, a lógica binária fragmenta os indivíduos e as sociedades, o que dificulta a visão do conjunto e o hábito de pensar além do curto e médio prazos. Tal circunstância faz aumentar a instabilidade e a incerteza, em vez de diminui-las.

O universo da Modernidade, com suas promessas de progresso infinito e certezas inabaláveis, fez com que desaprendêssemos a lidar com a incerteza e a instabilidade. Caímos na ingenuidade de acreditar que elas são circunstanciais e controláveis. Tornamo-nos, assim, cada vez mais despreparados para lidar com as mudanças sociais, políticas e econômicas por nós mesmos produzidas.

A passagem para a Pós-modernidade fez com que nos víssemos diante de circunstâncias das quais não mais podíamos fugir por meio da racionalização. Isso nos mostrou que os ideais de estabilidade, controle, mensurabilidade e previsibilidade eram em boa parte ilusões.
Ainda assim, muitos ainda não perceberam que muitas das promessas do Iluminismo não foram cumpridas. Como Nietzsche previu, o século 20 foi um tempo de guerra. Albert Camus foi mais fundo, quando escreveu que o século 17 foi o das matemáticas; o 18, o das ciências físicas; o 19, o da biologia; e o século 20, o do medo.

E agora, no século 21, o medo continua, alimentado e realimentado por nossa teimosia em achar que tudo pode ser pensado e resolvido pelo modelo mental binário. Dia após dia, imersos em nosso reacionarismo, continuamos incapazes de entender uma realidade que julgamos que pode ser sempre mantida estável, exata e controlável. Que futuro terá essa ilusão?

A crença de que a instabilidade é sempre o oposto da estabilidade diminui muito nossas possibilidades de perceber a tensão criativa que existe na interação de ambas. Se não compreendermos essa dinâmica recursiva, a redução a níveis toleráveis da instabilidade percebida não poderá ser alcançada, ou só o será depois de muito tempo e sofrimentos.

O grande problema é que estamos condicionados a ver tudo em termos de partes isoladas e incomunicáveis. Em palestras e seminários, costumo propor um exercício simples, baseado numa idéia de Jorge Luís Borges7 (que por sua vez se inspirou numa frase de Berkeley), que a utilizou para ilustrar a relação entre o leitor e o livro. Mostro um esquema que retrata, de um lado, uma pessoa de perfil com destaque para a boca. Do outro lado, diante da boca, há o desenho de uma maçã. E pergunto: onde está o gosto da maçã, na fruta ou na boca de quem a come?

As pessoas logo se dividem: umas acham que o gosto está na boca e outras que ele está na maçã. É quase sempre assim: ou num pólo ou no outro. Outras hipóteses são também propostas, mas quase todas elas em termos da polarização “ou/ou”. Com menor freqüência há quem perceba o óbvio, isto é, que a maçã por si só não pode ter gosto algum e que o mesmo ocorre com a boca.

Por fim, muitos se surpreendem com a revelação de que o gosto não está na maçã nem na boca: ele surge da relação entre uma e outra, isto é, trata-se de uma propriedade emergente. Esse é um exercício simples, mas sua aparente simplicidade revela a profundidade do nosso condicionamento, de nossa propensão a lidar com partes isoladas e a pensar pouco ou nunca nas relações entre elas.


Daí a nossa pequena ou quase nenhuma habilidade para pensar e agir em termos de interações, relacionamentos. Inabilidade de entender que da tensão criativa entre os opostos surgem propriedades novas que existem em cada um deles em estado latente. 


O predomínio da lógica binária e fragmentadora em nossa cultura, e sua aceitação quase unânime como “razão de poder”, faz com que tenhamos tanta dificuldade de lidar com a incerteza e a instabilidade. É por isso que a Pós-modernidade — com sua cultura do volátil, do instável, do imprevisível — só aumentou o mal-estar das pessoas e instituições.

A redução de quase tudo à dimensão econômica, e a subseqüente redução do econômico ao financeiro, tem produzido resultados não raro desastrosos. A percepção da instabilidade, aliada à necessidade de aprender a conviver com ela, trouxe de volta a consciência de  um velho problema: quanto mais relegamos ao segundo plano as humanidades (a filosofia, as artes, a literatura), mais necessitamos delas para que nos ajudem a compreender por que fazemos isso e o que perdemos com essa atitude.

A necessidade de aprender a conviver com a instabilidade e a incerteza reforça as três grandes indagações antes mencionadas, das quais desde sempre a filosofia tem se ocupado: de onde viemos, quem somos e para onde vamos.

É claro que jamais teremos respostas definitivas para elas — pelo menos não encontraremos respostas “exatas”, tão ao gosto da cultura tecnocientífica. Aprender a situá-las, porém, já é um avanço, e a necessidade de que isso seja feito de modo mais claro torna-se cada vez maior. No entanto, nosso condicionamento para o simplismo não permite a muitos de nós sequer perceber como e por que essa clareza é tão importante. Essa maioria não entende — e provavelmente jamais entenderá — por que razão é importante pensar também fora dos referenciais utilitaristas e mecanicistas habituais. E assim, sem uma compreensão que leve a atitudes capazes de ao menos atenuar a instabilidade e a incerteza, estas continuarão a nos parecer cada vez mais assustadoras.

Sem uma postura de respeito à diversidade, jamais poderemos compreender por que razão é preciso buscar a religação dos saberes. Ou seja, por que é necessário estabelecer comunicações eficazes entre as áreas tecnocientífica e humanística do conhecimento. Acontece, porém, que  nos consideramos "pessoas práticas" e estamos convencidos de que propostas como essa não passam de "teorias" e "utopias". Nossa “praticidade” , e com ela a tendência a negar a incerteza e a instabilidade, criaram uma cultura em que a violência, o estresse e o medo têm uma presença bem maior do que poderiam ter — o que, convenhamos, não é nada prático.

O não cumprimento de muitas das promessas da idéia de progresso da Modernidade nos deixou atônitos, porque enfim começamos a notar que o progresso não é o oposto da regressão e do atraso: ele os contém e neles está contido. A incerteza e a instabilidade dos tempos atuais já não nos permitem julgar a árvore por seus frutos. Agora é preciso pensar de um modo mais amplo: perceber e compreender estruturas, processos, conexões, inter-relações.


Mas como conseguir isso com as limitações de nossa lógica binária? Infelizmente, a inclusão da diversidade, da aleatoriedade e da incerteza como variáveis de raciocínio (o que é essencial para a compreensão e gestão da complexidade) é algo não muito comum em nossos dias. Existem pessoas dotadas para tanto — entre elas, vários líderes políticos importantes —, mas seu número ainda é bem menor do que o desejável. Falarei a esse respeito em outro ensaio. Por enquanto, convém abordar a relação entre o desejo e a necessidade e suas conseqüências sociais, econômicas e políticas.

Examinemos as relações entre a incerteza, a instabilidade e as necessidades humanas. Aristóteles sustentava que é da essência do desejo jamais poder ser satisfeito. Hoje, dizemos que os humanos são seres desejantes. Não nos esqueçamos de que o desejo inclui o outro, mesmo que não percebamos isso. O psicanalista inglês W. Fairbairn
8 já havia notado que a finalidade do desejo não é o prazer, mas sim a relação com o outro. Em outro texto9, digo o mesmo de outra forma: não buscamos a convivência pelo  prazer, é ele que nos leva a procurá-la.

Atrelar sempre nossos desejos às nossas necessidades acaba pervertendo a idéia da natural insaciabilidade do desejo que, como vimos, corresponde ao próprio impulso de viver. É por isso que igualar o desejo às necessidades — em especial às materiais — transforma-as em cupidez predatória. Expliquemos. Desejar é querer. Aqui não há objeto: trata-se do querer em estado puro, do querer viver. Necessitar é precisar. Aqui há objeto: precisar é precisar de alguma coisa, em geral de algo material.

Mesmo sendo insaciável o desejo é sempre legítimo, pois sua legitimidade nasce do direito à existência. As necessidades também são legítimas, mas não de modo irrestrito: sua legitimidade vai até o ponto em que asseguram o direito de viver de cada um. Quando se tornam insaciáveis, elas cedo ou tarde acabam restringindo os direitos dos outros. 

Pode-se dizer o mesmo à maneira de Martin Heidegger: o desejo é ontológico, relativo ao Ser (como categoria filosófica). A necessidade é ôntica, relativa ao ente (aos seres existentes). Como todos sabem, muitas vezes queremos (sentimos necessidade) daquilo de que não precisamos. Na realidade, em termos materiais precisamos de muito menos coisas do que imaginamos, mas para entender isso é preciso desatrelar o desejo das necessidades. 


Muitas vezes criamos (ou outros criam para nós) necessidades artificiais. Na prática, esse fenômeno se manifesta de várias maneiras. Uma das principais é o mecanismo de muitas das estratégias de marketing: a) primeiro, levar as pessoas a acreditar que necessidade é a mesma coisa que desejo (o que a torna insaciável); b) em seguida, criar necessidades artificiais; c) o resultado é que estas — sejam quais forem — jamais serão satisfeitas, o que equivale a transformar a vida em um projeto maníaco de aquisição, acumulação e consumo.

Igualar desejos e necessidades — e depois criar necessidades artificiais — é próprio de uma época como a nossa, em que a frase “tempo é dinheiro” ampliou-se para “tudo é dinheiro”. Essa máxima de Benjamin Franklin e sua ampliação são mais que adequadas aos dias atuais, em que o poder é só o poder econômico; a vida é vista como um  investimento; as relações entre as pessoas são um comércio e o mundo é um mercado; a guerra é um business e o business é uma guerra. Hegel dizia que as guerras internacionais são um modo de impor mercadorias a quem não as quer comprar (ou, ao contrário, tomá-las sem precisar pagar). Em 1821, o mesmo Hegel já observava que a colonização é uma forma de resolver conflitos das sociedades colonizadoras, pela abertura de novos mercados e a descoberta de novos fornecedores de matérias primas.
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Meu desejo de viver não pode ser igual às minhas necessidades materiais. Pois se assim for elas determinarão minha vida e — por terem se tornado insaciáveis — acabarão por me transformar em um predador impiedoso. A atitude de limitá-las a níveis razoáveis (o que implica desatrelá-las do desejo) é um imperativo de justiça social e por isso deve fazer parte de toda cultura de paz.

Essa posição tem recebido vários nomes, entre eles o de "simplicidade voluntária". Sua prática requer o refreamento da avidez. Em outras palavras: para que nossas necessidades não acabem por excluir os outros (por meio da hiperconcentração de renda, por exemplo), é preciso que  exerçamos algum controle racional, sobre a nossa condição de desejantes.
Para que nossas necessidades não excluam os outros, é preciso que as contenhamos num patamar que permita que as necessidades deles também possam ser satisfeitas, proporcionando-lhes assim uma vida digna. E para que isso seja possível na prática — repitamos —, é preciso saber diferenciar com clareza o que é necessidade e o que é desejo. 

Mas a compreensão — e sobretudo a colocação em prática — dessa proposta não é tão simples como parece. A satisfação tanto quanto possível eqüitativa das necessidades é uma dificuldade humana. Em condições satisfatórias de equilíbrio ecológico (ou seja, se não houver devastação por parte do homem), os animais que chamamos de selvagens não têm esse problema. Mas nós o temos com muita freqüência, e sua solução requer que seja levado em conta o diálogo incessante entre satisfação e insatisfação. Tanto uma quanto a outra não podem ser entendidas apenas em termos mecânicos e materiais, embora essa dimensão seja indispensável.

Quando o ser humano em sua globalidade é ignorado (como acontece sempre que o reduzimos ao lado mecânico de sua existência), sua condição de ser desejante não é levada em consideração como deveria. E assim perde-se a oportunidade de entender que não só os modos de satisfação precisam ser trabalhados: são as próprias necessidades que devem ser reavaliadas e redimensionadas.

Parece  não haver dúvida e que boa parte da violência entre pessoas é gerada pela insatisfação crônica de necessidades. Para satisfazê-las, ou ao menos atenuá-las, é claro que são necessários recursos suficientes.
Com o atual nível de concentração de renda de nossas sociedades  — e também com o atual nível de desperdício e depredação do mundo natural —, isso está longe de ser possível, ao menos em escala significativa. É claro que, uma vez ultrapassado um determinado limite, as necessidades insatisfeitas produzem um mal-estar que muitas vezes leva à violência aberta. Ao longo da história, esse tem sido um componente bem conhecido dos períodos de incerteza e instabilidade.

Dirá o leitor: tudo isso é óbvio. Concordo e  acrescento: também é óbvio que esse estado de coisas não pode ser mudado se não mudarmos o modelo mental que o criou e mantém. Resta saber qual dessas duas obviedades é a mais difícil de perceber entender.

Notas
1.  FREUD, Sigmund. El malestar en la cultura y otros ensayos. Madrid: Alianza Editorial, 1973.
2.  FREUD, Sigmund. "Nuevas aportaciones al psicoanálisis (continuación de "Introducción al psicoanálisis"). Lección 31". In Freud, Sigmund, Obras completas. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1948, vol. II, pág. 824.
3.  FREUD, Sigmund. “El porvenir de una Ilusión”. Id. ibid., vol.  I, pág. 1277.
4.  BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da Pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, em especial págs. 7-11.
5.  SENNETT, Richard.  A corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 1999.
6. BELLUZZO, Luiz G. "O porrete da liberdade: a nova ordem internacional mergulha no caos da violência cega", CartaCapital (São Paulo), 05/02/2003, págs. 42-43.

7
.  BORGES, Jorge Luís. Esse ofício do verso. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, pág. 12.
8
.
  
FAIRBAIRN, W.R.D. An object-relations theory of the personality. Nova York, Basic Books, 1952.
9
.
  
MARIOTTI, Humberto,  As paixões do ego: complexidade, política e solidariedade. São Paulo: Palas Athena, 2000.
10.
CHÂTELET, François. Uma história da razão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994, pág. 129. 

 
© Humberto Mariotti 2003

* HUMBERTO MARIOTTI. Professor e Coordenador do Centro de Desenvolvimento de Lideranças da Business School São Paulo. Consultor em desenvolvimento pessoal e organizacional. Conferencista nacional e internacional. Coordenador do Núcleo de Estudos de Gestão da Complexidade da Business School São Paulo.

E-mail: [email protected]

 


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