INCERTEZA,
INSTABILIDADE E VIOLÊNCIA
(Obstáculos
políticos
a uma cultura de
paz?)
Humberto Mariotti
Para
começar, retomemos uma noção bem conhecida: o homem é um ser desejante —
um ser que deseja acima de tudo viver. Desde sempre, as múltiplas possibilidades de realização
desse desejo nos têm levado a buscar respostas para pelo menos
três questões que, como se sabe, podem entrelaçar-se de muitas maneiras: de
onde viemos? (cosmologia); quem somos? (antropologia); para onde vamos?
(escatologia).
São
as três grandes vertentes de onde vêm os sistemas filosóficos e seus
desdobramentos. Hoje, mais do que nunca, buscar respostas para elas inclui
examinar os temas que dão título a este ensaio. Por sua vez, essa investigação
cedo ou tarde nos levará a considerações de ordem política e econômica.
É o que veremos a seguir.
Ao contrário do que muitos têm como certo, a instabilidade não
é o oposto da estabilidade, assim como a incerteza não é o inverso da
certeza. Do mesmo modo, a paz não é o oposto da guerra nem a saúde o contrário
da doença. Esses são apenas alguns exemplos de uma infinidade de condições que
são ao mesmo tempo antagônicas e complementares: cada uma delas está contida
na que lhe é oposta e lá reside em estado latente, isto é, como
possibilidades que podem se tornar manifestas a qualquer momento.
Essa
realidade não é fácil de
aceitar por mentes como as nossas, tão condicionadas por uma lógica
que nos leva a lidar com o mundo em termos binários: ou bem ou
mal; ou estabilidade ou instabilidade; ou certeza ou
incerteza; ou verdadeiro ou falso; ou comigo ou
contra mim; e equivalentes. Esse modelo é excludente, maniqueísta, e não
deixa espaço para a tolerância, a aceitação, a negociação e o respeito à
diversidade. Na maioria dos casos, é por causa dele que temos dificuldade de
lidar com a instabilidade e a incerteza.
Uma das manifestações mais evidentes da dominância dessa lógica
(dominância da qual a maioria das pessoas nem sequer tem consciência) pode ser
vista em dois períodos históricos. O primeiro é a Modernidade que, segundo
muitos admitem, começou no século 18 e terminou por volta do fim da década de
1960. A partir de então, e sempre segundo esse consenso, começa a Pós-modernidade.
Em termos gerais, a Modernidade se caracterizou por uma visão de mundo
quantitativa, pragmática e racionalista: a razão deve predominar sobre os
instintos, os sentimentos e as emoções. E o faz de modo muito intenso, o que
resultou no chamado mal-estar da civilização, descrito em 1930 por Freud num
ensaio hoje clássico.
Para que haja civilização é preciso que haja repressão. A proposta central
da psicanálise é controlar o Id
— o substrato instintivo da psique. Em outro ensaio clássico,
Freud sustenta que o objetivo do método psicanalítico é fortalecer o Ego:
“Os esforços terapêuticos da psicanálise elegeram um ponto de ataque”.
(...) “Onde era o Id, deve ser o Ego. É um trabalho de civilização, como a
drenagem do Zuiderzee”.2 (O
Zuiderzee era uma enseada na Holanda, da qual fazia parte o lago Ijsselmeer, em
cujas margens fica Amsterdã).
Submeter
o instintual/natural ao
cultural/civilizatório, portanto: ou natureza ou cultura. É o
que Freud propunha num ensaio anterior (de 1927), "O futuro de uma ilusão",
no qual sustenta que nossa cultura “compreende todo o saber e o poder
conquistados pelos homens para conseguir dominar as forças da Natureza e
extrair os bens naturais com que satisfazer as necessidades humanas”.3 Cartesianismo e Iluminismo em estado puro,
como se vê. Com essa linha
de pensamento, Freud punha em prática a divisa iluminista, proposta por Kant: Sapere
aude! (ousa utilizar-te de tua razão!).
No entanto, em que pesem os avanços representados por essas mudanças, no geral
não escapamos da pendularidade de sempre. Se antes se
reprimia demais os instintos, agora se reprime demais a racionalidade, o que acabou gerando um novo mal-estar. Se antes vivíamos o
mal-estar da Modernidade, agora experimentamos — na expressão de Zygmunt
Bauman — o mal-estar da Pós-modernidade.4 Ele se origina do
fato de que agora temos de lidar num grau talvez sem precedentes com a
instabilidade, a incerteza, a aleatoriedade e a imprevisibilidade.
Alguns
exemplos bastam para ilustrar esse ponto: a volatilidade dos mercados; a
insegurança nos empregos; a pulverização da guerra, com a proliferação dos
conflitos localizados; o esvaziamento do Estado de bem-estar social; a explosão
do terrorismo e da violência; e assim por diante.
No século 19, Nietzsche decretou a morte de Deus. Na década de 1960, o
estruturalismo anunciou a morte do homem. Agora, na Pós-modernidade, fala-se da
morte das certezas e da estabilidade. Como sempre, a linearidade se repete: sai
uma coisa, entra outra; ou uma coisa ou o seu contrário.
A incerteza e a instabilidade sempre existiram, mas
nem por isso foram tão percebidas como nos tempos atuais. O mais
importante a notar é que agora temos de lidar com elas sem meias medidas ou
eufemismos. Vale dizer, lidar de modo direto e sem disfarces com as características
mais íntimas, mais viscerais, da condição humana.
Já no século 6 a.
C., Heráclito de Éfeso dizia que tudo marcha na direção do seu contrário.
Era uma forma de explicar que todo excesso cedo ou tarde produz uma crise e, em
conseqüência dela, salta-se para a polaridade contrária.
É esse o caso: nossa adoração da tecnociência já começa a dar
sinais de que é preciso buscar e recuperar o humano não matematizado, não
mecanizado. Ao contrário da maioria dos efeitos colaterais das dosagens
excessivas seja do que for, esse é salutar. Só é de lamentar que
tenha de ser dessa maneira: ou a tecnociência ou o humano. Mas
assim continuará, até que o dia em que compreendermos (se isso acontecer) que ambos
os lados são necessários, e por isso mesmo deveriam complementar-se, e não
excluir-se mutuamente.
Enquanto tal não acontece, aumentam em todos nós a angústia e a
perplexidade — resultados de mais essa mudança pendular: ou Modernidade ou Pós-modernidade. Elas acabaram abrindo os olhos de um certo número de
pessoas para o mal-estar que é conviver (como sempre, aliás) com as conseqüências
de nossa incapacidade de pensar e agir de outro modo que não fragmentando,
excluindo e separando tudo — o que acabou por fragmentar, excluir e separar
a nós próprios.
Mário de Andrade dizia que temos uma consciência lógica e uma consciência poética.
Henri Bergson sustentava que não existe desordem, mas sim duas espécies de
ordem, a geométrica e a viva. Acrescento que a geométrica exclui a desordem,
mas a viva a incorpora e com ela convive.
A predominância da mentalidade binária — o modelo “ou/ou” — gerou
nossa dificuldade fundamental de entender idéias como essas. Dificultou-nos
também a compreensão de que a instabilidade e a incerteza são inerentes à
condição humana, e também a percepção de que quanto mais as negamos mais elas se
revelam atuantes e inevitáveis. Tentar suprimi-las de maneira artificial
resultou num mundo em que as incertezas e a
instabilidade assumiram um significado obscuro e ameaçador,
quando na verdade são apenas companheiras de viagem, inerentes ao processo da
vida.
A busca incessante da estabilidade e de certezas que na realidade não existem
— nem nunca existiram — é uma das características mais visíveis da
chamada “ortodoxia neoclássica” ou “sabedoria convencional”. Esses são
dois dos vários nomes com que hoje se designam os esforços do
chamado senso comum, em sua tentativa de negar a realidade. Tudo isso serve para
edulcorar estratégias cujos resultados mais evidentes têm sido a desconfiança,
o medo e a paranóia.
Nossa
principal dificuldade de
compreender a instabilidade e a imprevisibilidade vem da crença num universo
matematizado, pleno de pseudocertezas e estabilidades que jamais existiram — o
que só tende a tornar-nos mais inseguros. O fenômeno é bem conhecido. As
pessoas se deixam enganar e condicionar porque assim a vida lhes parece mais fácil,
as decisões parecem mais rápidas. Sobretudo, não é necessário refletir,
pensar, fazer escolhas. Estas são deixadas a cargo de outros, de instâncias
“superiores” que as apresentam já tomadas, já prontas para o consumo.
Mas essa espécie de comodidade custa caro. O resultado de sua "compra" é enganoso e se manifesta pelo estreitamento e obscurecimento do
horizonte mental dos "compradores". Criou-se um universo de indivíduos e
sociedades imediatistas, autocomplacentes, ávidos e egoístas. Ou, como se
costuma dizer, sociedades cujas marcas fundamentais são a superficialidade da
mente e a auto-indulgência do corpo. Corpos e mentes pesados, inseguros e
dependentes sob a aparência de auto-confiança; e também resistentes ao novo, à
diversidade, ao não-padronizado.
Hoje, um os nomes mais comuns para esse reacionarismo é “aversão ao risco” —
eufemismo utilizado para esconder um sentimento que, no fundo, é de aversão à
vida. A conhecida frase de Guimarães Rosa “viver é perigoso”, refere-se
à nossa necessidade de aceitar a incerteza e a aleatoriedade naturais do
processo vital. Não se aplica ao atual imperativo de fortificar casas, blindar automóveis e
viver atrás de grades e muros, com medo dos resultados das tensões sociais por
nós mesmos criadas.
Dessa “aversão ao risco” faz parte a estranheza que desperta, na
maioria das pessoas, o questionamento da lógica binária por meio de sua denúncia
e análise. Assusta-as não apenas o questionamento de seu hábito de pensar
de modo superficial e padronizado, mas também a exposição das conseqüências
práticas dessa forma de raciocinar. Tudo isso provoca reações de resistência, análogas às que proteínas estranhas causam nos sistemas imunológicos.
Surgem então mecanismos de defesa bem conhecidos. Um deles é a cobrança a
quem fala ou escreve: “Você só mostra
problemas, não dá soluções”. Essa atitude é própria de quem imagina que
todos os problemas são simples e, portanto, devem ter soluções simplistas e vindas de fora já prontas — as conhecidas “receitas”. Não se
compreende que a análise crítica não pretende ser incômoda pelo prazer de
sê-lo. Não se consegue entender que seu propósito é buscar parceiras e parceiros de reflexão, num esforço
para mostrar que dificuldades coletivas devem ser enfrentadas por meio do debate e da
produção de idéias novas.
Essa é a nossa situação atual. O excesso de flexibilidade do
mundo pós-moderno tem sido apresentado como uma alternativa ao excesso de
rigidez da Modernidade. O resultado é que a vida que tanto nos esforçamos para
tornar estável acabou (como sempre faz) nos mostrando que as coisas não são bem
assim. A vida sempre incluiu um inevitável (e necessário) grau de instabilidade.
Portanto, o
problema não está na instabilidade em si, mas nas conseqüências de sua negação
e ocultação.
Segundo
nossa percepção predominante, na Modernidade havia certezas e estabilidade
— o chamado safe heaven. Agora há certezas de menos e instabilidade
demais. Entretanto, é preciso entender que em um e no outro caso trata-se de
percepções apenas culturais. Pois no mundo natural nada é demasiado: não há
excessos, seja de rigidez ou estabilidade, seja de flexibilidade ou
instabilidade. Há apenas a justa medida e a auto-regulação que nos capacitam,
na condição de seres vivos, a existir no meio ambiente interagindo com ele.
A natureza não obedece a pendularidades, move-se em ciclos. No mundo natural
não há saltos bruscos do tipo “ou/ou”. Entre os opostos (dia/noite,
quente/frio, etc.) há todo um espectro de gradações, nuanças, estados
intermediários, entretons, passagens. As mudanças pendulares são
apenas o resultado de nossa percepção condicionada.
Nosso condicionamento pela lógica binária em muitos casos impede que percebamos que fazemos parte do mundo
natural. Para nós, é difícil entender que a interação com o mundo modela
desde a morfologia do fenótipo dos seres vivos até o modo de funcionamento de
seus organismos. E que, portanto, a ação destrutiva que exercemos sobre a
natureza acaba se voltando contra nós mesmos.
Na esteira do Iluminismo (depois na do positivismo e, mais tarde, na do
freudismo, com seu reforço do Ego), muitos passaram a acreditar que a
missão fundamental do homem dito civilizado é lutar contra a natureza,
conquistá-la e dominá-la. Nessa linha de idéias, não somos seres que vivem
na Terra: somos uma espécie de exército colonial de ocupação. Entre
nós, há muitos anos, ficou famoso um slogan reducionista: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva
acaba com o Brasil”. É claro que não aconteceu nem uma coisa nem outra.
Na opinião de vários observadores — entre eles Richard Sennett5
—, a situação que mais gerou grande flexibilidade e, como
resultado, aumento da incerteza e da instabilidade, foi a opressão das
exigências do capitalismo globalizado. Este, observa Sennett, corrói nossa
capacidade ética e portanto o nosso caráter. É claro que aqui esse autor se
refere, entre outras coisas, à adoção da competição predatória e
agressiva como valor positivo.
Nunca
foi novidade que perceber,
entender, tomar consciência e explicar, diminuem a incerteza e com ela a
ansiedade. Por isso, a ciência e a tecnologia como meios de conhecimento e
explicação de mundo são da maior importância. Contudo, a mentalidade tecnocientífica pôs em segundo plano o conhecimento representado pelas
humanidades, o que nos levou a uma visão de mundo unidimensional,
fragmentada e portanto simplista.
A fragmentação dos saberes (a superespecialização é um exemplo) é
uma conhecida manifestação de nosso condicionamento pelo modelo mental
binário ou pensamento linear. É claro que não se trata aqui de querer
contestar o valor e os benefícios da tecnociência: o que se pretende é
mostrar que sua hegemonia nos tornou incompetentes para lidar com os
sentimentos, as emoções e a intuição. Tal incompetência nos levou a fazer
de conta que essas dimensões do humano não existem. E as conseqüências
desse empreendimento, tão ingênuo quanto autodestrutivo, estão aí, à vista
de todos.
O modelo mental linear tem entre as suas características a superficialidade
e o imediatismo. Mas é impossível simplificar a complexidade biológica e social,
por mais que tenhamos ilusões a esse respeito. As tentativas de criar,
por meio da cultura tecnocientífica, um clima artificial de exatidão,
imediatismo e certezas são o resultado de uma das orientações centrais da
Modernidade, a chamada "idéia de progresso", em cujas bases estão o racionalismo
e o modelo mental binário. Esse ânimo super-simplificador faz com que nos
sintamos prisioneiros da teia da complexidade da natureza e da de nossas
sociedades, quando na verdade somos fios dessas malhas, não vítimas dela.
Em sua busca de objetivos polarizados e unidimensionais, a lógica binária
fragmenta os indivíduos e as sociedades, o que dificulta a visão do conjunto e o
hábito de pensar além do curto e médio prazos. Tal circunstância faz aumentar a
instabilidade e a incerteza, em vez de diminui-las.
O universo da Modernidade, com suas promessas de progresso infinito e certezas
inabaláveis, fez com que desaprendêssemos a lidar com a incerteza
e a instabilidade. Caímos na ingenuidade de
acreditar que elas são circunstanciais e controláveis. Tornamo-nos, assim,
cada vez mais despreparados para lidar com as mudanças sociais, políticas e
econômicas por nós mesmos produzidas.
A passagem para a Pós-modernidade fez com que nos víssemos diante de
circunstâncias das quais não mais podíamos fugir por meio da racionalização.
Isso nos mostrou que os ideais de estabilidade, controle, mensurabilidade e
previsibilidade eram em boa parte ilusões.
Ainda
assim, muitos ainda não
perceberam que muitas das promessas do Iluminismo não foram cumpridas. Como
Nietzsche previu, o século 20 foi um tempo de guerra. Albert Camus foi
mais fundo, quando escreveu que o século
17 foi o das matemáticas; o 18, o das ciências físicas; o 19, o da biologia;
e o século 20, o do medo.
E agora, no século 21, o medo continua, alimentado e realimentado por
nossa teimosia em achar que tudo pode ser pensado e resolvido pelo modelo mental binário.
Dia após dia, imersos em nosso reacionarismo, continuamos incapazes de entender
uma realidade que julgamos que pode ser sempre mantida estável, exata e controlável.
Que futuro terá essa ilusão?
A crença de que a instabilidade é sempre o oposto da estabilidade diminui
muito nossas possibilidades de perceber a tensão criativa que existe na interação
de ambas. Se não compreendermos essa dinâmica recursiva, a redução a níveis
toleráveis da instabilidade percebida não poderá ser alcançada, ou só o será
depois de muito tempo e sofrimentos.
O grande problema é que estamos condicionados a ver tudo em termos de partes
isoladas e incomunicáveis. Em palestras e seminários, costumo propor um exercício
simples, baseado numa idéia de Jorge Luís Borges7 (que
por sua vez se inspirou numa frase de Berkeley), que a utilizou para ilustrar a
relação entre o leitor e o livro. Mostro um esquema que retrata, de um lado,
uma pessoa de perfil com destaque para a boca. Do outro lado, diante da boca,
há o desenho de uma maçã. E pergunto: onde está o gosto da maçã, na fruta
ou na boca de quem a come?
As pessoas logo se dividem: umas acham que o gosto está na boca e outras que ele
está na maçã. É quase sempre assim: ou num pólo ou no
outro. Outras hipóteses são também propostas, mas quase todas elas em termos
da polarização “ou/ou”. Com menor freqüência há quem perceba o óbvio,
isto é, que a maçã por si só não pode ter gosto algum e que o mesmo ocorre
com a boca.
Por fim, muitos se surpreendem com a revelação de que o gosto não está na
maçã nem na boca: ele surge da relação entre uma e outra, isto é, trata-se
de uma propriedade emergente. Esse é um exercício simples, mas sua aparente
simplicidade revela a profundidade do nosso condicionamento, de nossa propensão
a lidar com partes isoladas e a pensar pouco ou nunca nas relações entre elas.
Daí a nossa pequena ou quase nenhuma habilidade para pensar e agir em termos de
interações, relacionamentos. Inabilidade de entender que
da tensão criativa entre os opostos surgem propriedades novas que existem em
cada um deles em estado latente.
O
predomínio da lógica binária
e fragmentadora em nossa cultura, e sua aceitação quase unânime como “razão
de poder”, faz com que tenhamos tanta dificuldade de lidar com a incerteza e a
instabilidade. É por isso que a Pós-modernidade — com sua cultura do volátil,
do instável, do imprevisível — só aumentou o mal-estar das pessoas e
instituições.
A redução de quase tudo à dimensão
econômica, e a subseqüente redução do econômico ao financeiro, tem produzido resultados
não raro desastrosos. A percepção da instabilidade, aliada à
necessidade de aprender a conviver com ela, trouxe de volta a consciência
de um velho problema:
quanto mais relegamos ao segundo plano as humanidades (a filosofia, as artes, a
literatura), mais necessitamos delas para que nos ajudem a compreender por que
fazemos isso e o que perdemos com essa atitude.
A necessidade de aprender a conviver com a instabilidade e a incerteza reforça
as três grandes indagações antes mencionadas, das quais desde sempre a
filosofia tem se ocupado: de onde viemos, quem somos e para onde vamos.
É claro
que jamais teremos respostas definitivas para elas — pelo menos não
encontraremos respostas “exatas”, tão ao gosto da cultura tecnocientífica. Aprender a situá-las, porém, já é um avanço, e a necessidade de que isso seja feito de modo mais claro torna-se cada vez
maior. No entanto, nosso condicionamento para o simplismo não permite a muitos
de nós sequer perceber como e por que essa clareza é tão importante. Essa maioria
não entende — e provavelmente jamais entenderá — por que razão é
importante pensar também fora dos referenciais utilitaristas e mecanicistas
habituais. E assim, sem uma compreensão que leve a atitudes capazes de ao menos atenuar a
instabilidade e a incerteza, estas continuarão a nos parecer cada vez mais
assustadoras.
Sem uma postura de respeito à diversidade, jamais poderemos compreender por que razão é preciso buscar a religação
dos saberes. Ou seja, por que é necessário estabelecer comunicações eficazes
entre as áreas tecnocientífica e humanística do conhecimento. Acontece, porém,
que nos consideramos "pessoas práticas"
e estamos convencidos de que propostas como essa não passam de "teorias" e
"utopias". Nossa “praticidade” , e
com ela a tendência a negar a incerteza e a instabilidade, criaram uma
cultura em que a violência, o estresse e o medo têm uma presença bem maior do
que poderiam ter — o que, convenhamos, não é nada prático.
O não cumprimento de muitas das promessas da idéia de progresso da
Modernidade nos deixou atônitos, porque enfim começamos a notar que o
progresso não é o oposto da regressão e do atraso: ele os contém e neles está
contido. A incerteza e a instabilidade dos tempos atuais já não nos permitem
julgar a árvore por seus frutos. Agora é preciso pensar de um modo mais amplo:
perceber e compreender estruturas, processos, conexões, inter-relações.
Mas
como conseguir isso com as
limitações de nossa lógica binária? Infelizmente, a inclusão da
diversidade, da aleatoriedade e da incerteza como variáveis de raciocínio (o
que é essencial para a compreensão e gestão da complexidade) é algo não muito comum em nossos
dias. Existem pessoas dotadas para tanto — entre elas, vários líderes políticos importantes —, mas seu número
ainda é bem menor do que o desejável. Falarei a esse respeito em outro
ensaio. Por enquanto, convém abordar a relação entre o desejo e a necessidade
e suas conseqüências sociais, econômicas e políticas.
Examinemos as relações entre a incerteza, a
instabilidade e as necessidades humanas. Aristóteles sustentava que é da essência do desejo jamais poder ser
satisfeito. Hoje, dizemos que os humanos são seres desejantes. Não nos esqueçamos
de que o desejo inclui o outro, mesmo que não percebamos isso.
O psicanalista inglês W. Fairbairn8 já havia notado que a
finalidade do desejo não é o prazer, mas sim a relação com o outro. Em outro
texto9, digo o mesmo de outra forma: não buscamos a convivência
pelo prazer, é ele que nos leva a
procurá-la.
Atrelar sempre nossos desejos às nossas necessidades acaba pervertendo a
idéia da natural insaciabilidade do desejo que, como vimos, corresponde ao próprio
impulso de viver. É por isso que igualar o desejo às necessidades — em
especial às materiais — transforma-as em cupidez predatória.
Expliquemos. Desejar é querer. Aqui não há objeto: trata-se do querer em
estado puro, do querer viver. Necessitar é precisar. Aqui há objeto: precisar
é precisar de alguma coisa, em geral de algo material.
Mesmo sendo insaciável o desejo é sempre legítimo, pois sua legitimidade
nasce
do direito à existência. As necessidades também são legítimas, mas não de
modo irrestrito: sua legitimidade vai até o ponto em que asseguram o direito de
viver de cada um. Quando se tornam insaciáveis, elas cedo ou tarde acabam
restringindo os direitos dos outros.
Pode-se dizer o mesmo à maneira de Martin Heidegger: o desejo é ontológico,
relativo ao Ser (como categoria filosófica). A necessidade é ôntica, relativa
ao ente (aos seres existentes). Como todos sabem, muitas vezes queremos (sentimos necessidade) daquilo de que não
precisamos. Na realidade, em termos materiais precisamos de muito
menos coisas do que imaginamos, mas para entender isso é preciso desatrelar o
desejo das necessidades.
Muitas
vezes criamos (ou outros
criam para nós) necessidades artificiais. Na prática, esse fenômeno se
manifesta de várias maneiras. Uma das principais é o mecanismo de muitas das estratégias de marketing: a) primeiro, levar as pessoas a acreditar que
necessidade é a mesma coisa que desejo (o que a torna insaciável); b) em
seguida, criar necessidades artificiais; c) o resultado é que estas — sejam
quais forem — jamais serão satisfeitas, o que equivale a transformar a vida em
um projeto maníaco de aquisição, acumulação e consumo.
Igualar desejos e necessidades — e depois criar necessidades artificiais
— é próprio de uma época como a nossa, em que a frase “tempo é dinheiro”
ampliou-se para “tudo é dinheiro”. Essa máxima de Benjamin Franklin e sua
ampliação são mais que adequadas aos dias atuais, em que o poder é só o
poder econômico; a vida é vista como um investimento;
as relações entre as pessoas são um comércio e o mundo é um mercado;
a guerra é um business e o business é uma guerra.
Hegel dizia que as guerras internacionais são um modo de impor
mercadorias a quem não as quer comprar (ou, ao contrário, tomá-las sem precisar
pagar).
Em 1821, o mesmo Hegel já observava que a colonização
é uma forma de resolver conflitos das sociedades colonizadoras, pela abertura de novos mercados e a
descoberta de novos fornecedores de matérias primas.10
Meu desejo de viver não pode ser igual às minhas necessidades materiais. Pois
se assim for elas determinarão minha vida e — por terem se tornado
insaciáveis — acabarão por me transformar em um predador impiedoso. A atitude de limitá-las a
níveis razoáveis (o que implica desatrelá-las do desejo) é um imperativo de
justiça social e por isso deve fazer parte de toda cultura de paz.
Essa posição tem recebido vários nomes, entre eles o de "simplicidade
voluntária".
Sua prática requer
o refreamento da avidez. Em outras palavras: para que nossas necessidades
não acabem por excluir os outros (por meio da hiperconcentração de renda, por
exemplo), é preciso que exerçamos
algum controle racional, sobre a nossa condição de desejantes.
Mas a compreensão — e sobretudo a colocação em prática
— dessa proposta não é tão simples como parece.
A
satisfação tanto quanto possível eqüitativa das
necessidades é uma dificuldade humana. Em condições
satisfatórias de equilíbrio ecológico (ou seja, se não houver devastação
por parte do homem), os animais que chamamos de selvagens não têm esse
problema. Mas nós o temos com muita freqüência, e sua solução requer que
seja levado em conta o diálogo incessante entre satisfação e insatisfação. Tanto uma quanto a outra não podem ser entendidas apenas
em termos mecânicos e materiais, embora essa dimensão seja
indispensável.
Parece não haver dúvida e que boa
parte da violência entre pessoas é gerada pela insatisfação
crônica de necessidades. Para satisfazê-las, ou ao menos atenuá-las, é
claro que são necessários recursos suficientes.
Notas
6.
BELLUZZO, Luiz G. "O porrete da liberdade: a nova ordem internacional
mergulha no caos da violência cega", CartaCapital (São Paulo),
05/02/2003,
págs. 42-43.
7. BORGES, Jorge Luís. Esse ofício do verso. São Paulo:
Companhia das Letras, 2001, pág. 12.
8. FAIRBAIRN, W.R.D.
An
object-relations theory of the personality. Nova York, Basic Books, 1952.
9. MARIOTTI, Humberto, As paixões do ego: complexidade, política e
solidariedade. São Paulo: Palas Athena, 2000.
10. CHÂTELET, François. Uma
história da razão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994, pág. 129.
©
Humberto Mariotti 2003
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