A ESCALADA DA BARBÁRIE *
(E o papel da palavra como instrumento de libertação)
Humberto Mariotti **
Este
ensaio fala da literatura como forma de buscar algum grau de compreensão do mundo em
que vivemos. Na qualidade de arte, o fazer literário é um modo de resistência
à alienação. Mantê-lo ou perdê-lo é uma escolha nossa — e também uma
responsabilidade da qual não podemos escapar.
Duas
culturas
Ao que se diz,
vivemos hoje uma fase de refluxo da literatura de ficção. O que se afirma é que a ficção literária estaria sendo
substituída pelas formas de expressão que utilizam a imagem. E o
livro estaria em vias de extinção e seria substituído por outras
formas midiáticas como o E-book, o DVD, o CD-Rom e similares.
Mas pouco
se fala de um aspecto óbvio: para que se chegue ao filme, ao vídeo ou
equivalentes, é preciso que alguém pense no enredo e em sua expressão inicial,
que será sempre constituída por palavras. Isto é: alguém terá
de escrever a sinopse e o roteiro, para que uma história possa ser posta em
imagens e apresentada. Desse modo, aquele que inventa e transforma o que criou
em palavras — o escritor — continuará existindo, seja como roteirista ou o que
for.
Dito
de outra maneira: sem a palavra como ponto de partida não poderão existir as
outras formas que supostamente substituirão o livro, ou elas só existirão de
um modo muito primitivo. Não nos esqueçamos de que foi a linguagem verbal
que nos tornou humanos.
O problema real, portanto, é que
o suposto desprestígio do texto é na verdade uma forma de privar a mente humana
do contato direto com a palavra e seu poder analisador e transformador.
Dessa
forma, o que importa investigar aqui é a perspectiva do desaparecimento da literatura
como forma de pensar o mundo e tentar compreendê-lo. Para tanto, convém deixar de lado o aspecto acessório da
questão, isto é, se o livro de papel vai ou não perdurar. Passemos, portanto, a examinar o que acontece com o texto
ficcional como meio de apreensão, compreensão e expressão da realidade e as
prováveis conseqüências de tudo isso.
Antes, porém — e apenas para apoiar a análise feita neste parágrafo e no
seguinte —, tomemos como correta a premissa de que a era do livro
tal como o conhecemos está no fim. Como de costume, essa seria mais uma
ocasião em que o Brasil conviveria com uma fase cultural importante sem ter ao menos
entrado nela. Sabemos que, ao longo da história, a
literatura de ficção como instrumento de
reflexão sobre
a condição humana proporcionou apreciáveis benefícios a um bom número de países.
Entre nós, contudo, isso não ocorreu ou só ocorreu de um modo muito restrito
— mas não por falta de bons escritores. O que aconteceu foi que desde o início
a cultura brasileira pouco teve a ver com a palavra escrita, ao
contrário da anglo-saxônica e da judaica.
O estreitamento e o obscurecimento do nosso horizonte mental daí resultantes
persistem até hoje, como mostra a nossa eterna condição de país periférico, que
insiste em continuar a se auto-enganar com a esperança de um desenvolvimento que
virá num futuro sempre adiado. Tal esperança, como todos sabemos,
refere-se a um desenvolvimento apenas mecânico, tecnocrático, quantitativo e
reservado a uma elite. Assim é claro que ele não melhorará em nada as nossas
capacidades de reflexão, auto-compreensão e compreensão do mundo. Por isso
mesmo, dificilmente nos livrará da posição periférica e caudatária que
hoje ocupamos.
Voltemos
agora ao tema principal. Já sabemos
que a ficção escrita, veiculada sob a forma de contos, novelas, romances,
etc., é um modo importante de compreender (não de explicar) o
mundo. O mesmo é válido para a poesia. A questão é determinar até que ponto a palavra pode ser
suprimida sem que o logos — a razão1 — seja prejudicado, com o estado de
alienação daí resultante. Não há respostas categóricas para essa
indagação, é claro. O que se pode fazer é mostrar como tais fenômenos se
revelam na prática, e convidar o leitor a refletir sobre os estragos que essa
supressão pode provocar caso seja quase total, como muitos afirmam. Trata-se,
portanto, de determinar até que ponto a palavra como meio de compreensão de mundo
pode e deve ser complementada pela imagem.
Como
se sabe, o sucesso de público, o grande sucesso de massa, em geral se expressa por um discurso
verbal pouco expressivo, complementado por imagens padronizadas. Quando a palavra
escrita é utilizada, muitas vezes ela é posta a serviço do esquematicismo, da uniformização e da
superficialidade. Em termos literários, é o caso dos chamados bestsellers, a conhecida literatura digestiva. Além disso o sucesso de massa, iletrado
por natureza, manifesta-se em geral pela propensão à violência, à
banalização do sexo e outras formas de expressão da superficialidade. Em outros
termos, a diminuição da importância da escrita como meio de expressão da
inteligência e do imaginário está enraizada na barbárie em que
as sociedades humanas vêm cada vez mais mergulhando.
É
sabido que a grande maioria das pessoas tem seu gosto massificado pela
propaganda e pelo marketing. Essa massificação se tornará cada vez mais fácil e
eficaz se o pensamento coletivo for mantido no plano do concreto, do linear, do
raciocínio de causalidade simples, cuja característica básica é ver as
causas como imediatamente anteriores ou muito próximas aos efeitos. Trata-se de
um modelo mental imediatista e simplificador, que procura excluir a diferença
(a diversidade) e privilegiar a repetição (os padrões). É evidente que nesse
processo o imaginário, com seu potencial de criar novas visões de mundo, é
reprimido ou direcionado para a produção em série de imagens estandardizadas.
A
educação que recebemos, balizada por essa linearidade, faz o que dela se
espera: produz a instrução técnica necessária aos atos da vida
mecânica. Para isso, utiliza um mínimo de palavras e um máximo de
imagens-padrão (características da baixa cultura). E procura reprimir, ou pelo
menos não estimular, a emergência da linguagem escrita como instrumento de
investigação/invenção e produção de imagens criativas — características
da alta cultura.
A
tônica da barbárie, portanto, inclui a repressão ao imaginário e o combate à
diferença em todas as suas formas: na linguagem, na arte, na expressão
corporal — em todos os meios pelos quais o indivíduo pode se diferenciar da
massa. Todos esses fenômenos são conhecidos
há muito tempo. A atual diminuição de prestígio da literatura de ficção é
apenas uma das manifestações de um processo mais amplo, que é a progressiva
boçalização da nossa cultura.
Sabe-se
que as pessoas criativas tendem a se rebelar contra a massificação de seus
gostos e preferências. Reagem contra a uniformização resultante da
ação do marketing e da propaganda e contra a monotonia do trabalho e do lazer
repetitivos. O declínio da literatura de ficção se enquadra nas estratégias de
desestímulo ao comportamento diferenciado. Os bons livros são, como sempre
foram, inimigos da vulgaridade e do nivelamento por baixo. É por isso que eles
fazem tanta falta no mundo atual. O romance, como disse Lucien Goldmann, é um
gênero de oposição.
Mas
o problema é que a vulgarização das pessoas pela supressão da palavra as torna cada vez menos capazes de perceber essas
nuanças. Um dos mecanismos pelos quais isso se produz é nossa tendência
à interpretação conspiratória da massificação. Ao que parece, muitos de
nós estão
convencidos de que a imbecilização coletiva, como todos os fenômenos que a acompanham, é produto da
ação de um sistema "superior", "onisciente" e
"onipotente". Seria uma espécie de establishment que tudo comanda e contra o
qual é inútil lutar. Colocamo-nos na situação de vítimas, e com
essa desculpa tentamos fugir à responsabilidade de ter de enfrentar essa
realidade: não há dominação sustentada sem o consentimento e a colaboração dos
dominados. Tudo o que vivemos ocorre com nossa anuência, seja
ela consciente ou inconsciente.
Essa postura de vítimas de uma suposta conspiração reflete
e reforça uma das manifestações clássicas do modelo mental predominante em nossa
cultura, que tende a dar pouco valor às iniciativas individuais para a
transformação social. É por isso que é tão difícil o trabalho de conscientização
das pessoas para a cidadania, em especial em nosso meio latino-americano. Ao
que tudo indica estamos num beco sem saída, que no entanto pode ser reaberto por
meio de uma educação que ensine as pessoas a pensar de maneira racional.
É o que se pretende
pôr em prática hoje em dia com iniciativas como a interdisciplinaridade e, de
modo mais sofisticado, com a transdisciplinaridade. Entretanto,
mesmo entre os proponentes dessas orientações é freqüente uma dificuldade:
reconhece-se a importância do imaginário, é claro, mas muitos
parecem não entender que propostas como a abordagem transdisciplinar — que
visa a sinergia dos modelos mentais linear e sistêmico — precisam ser postas
em prática por meio da harmonia entre a palavra e a imagem. Parece que existe uma
grande
lentidão para entender que para o sucesso dessa complementação é
fundamental que o fabulário dos povos continue abrangente. E que para tanto é
indispensável o uso da palavra — do logos, portanto — como instrumento de
criação.
Tal objetivo não pode ser atingido
numa cultura cada vez mais atrelada a ícones, logomarcas e outras expressões da
imagética padronizada.
Não
que esteja de todo ausente a noção da importância da ficção. As pessoas
costumam citar obras literárias, até porque esse procedimento sempre
foi considerado cult. Mas a grande maioria não as leu e, mesmo nesse
caso, muitos não chegaram a compreender que a leitura dos textos da grande
literatura é um poderoso instrumento de desenvolvimento da razão
humana, base de toda iniciativa de compreensão do mundo. A literatura não é apenas um entretenimento (esta é a proposta das obras
ditas "digestivas"). Ela cumpre o papel geral das artes: a busca da clareza
possível sobre o mundo e as pessoas, tarefa de que o pensamento linear isolado
não é capaz. Como escreveu Albert Camus, "se o mundo fosse claro, a arte não
existiria".
A
esse respeito, convém lembrar o que Harold Bloom mostrou com argúcia: em Shakespeare
estão muitas das bases do pensamento de Freud. Ao que se pode
acrescentar que em Kafka, Proust e Céline há uma profundidade de
investigação da alma humana de que as psicologias formais ainda não são
capazes. No caso da ficção de um escritor como Ernesto Sábato, pode-se
dizer que poucos textos filosóficos da atualidade (inclusive os dele
próprio) têm examinado a questão do lado sombrio da alma humana como os seus
romances. Sartre mostra pela ficção o que muitas vezes tem dificuldade de
explicar por meio do discurso filosófico. Há toda uma filosofia implícita nos contos
de Borges.
Kurt
Lewin assinala que as descrições mais bem estruturadas e abrangentes de
situações humanas são as feitas por escritores como Dostoiévski. Acrescentemos que o
mesmo vale para Tolstoi.
Alfred Adler dizia que haveria de chegar um tempo em que os artistas seriam
considerados guias da humanidade. Também ele admirava Dostoiévski, e sempre
viu o escritor russo como um predecessor da chamada psicologia profunda. Aliás,
existe hoje um consenso que vê a obra dostoievskiana como ainda pouco
estudada sob o ponto de vista de sua contribuição à psicologia.
Nos
domínios de Machado
Freud
não ignorava nada disso. Chegou mesmo a aprender espanhol — sem mestre —
para ler o Dom Quixote. E se tivesse aprendido o português teria
se
deliciado com O alienista, de Machado de Assis, conto que mostra a que
extremos do ridículo podem chegar o cientificismo e a arrogância intelectual.
A história de Machado é uma pequena obra-prima, de modo que vale a pena
comentá-la.
O
alienista apareceu entre outubro de 1881 e março de 1882. A época é
a do vice-reinado. A ação se passa na vila de Itaguaí, onde o médico Simão
Bacamarte decide dedicar-se ao estudo e tratamento da loucura. Depois de vencer
as resistências de praxe, Bacamarte consegue da Câmara local autorização e
ajuda para abrir o seu manicômio, a Casa Verde. Logo após a inauguração, ele
começa a perceber que o número de insanos em Itaguaí e arredores é maior do
que imaginara. Por isso, as instalações do hospício vão aos poucos se
ampliando. Essa expansão faz com que o alienista alargue também seus
critérios para o diagnóstico da loucura:
"Homem
de ciência, e só de ciência, nada o consternava fora da ciência; e se alguma
cousa o preocupava naquela ocasião, se ele deixava correr pela multidão um
olhar inquieto e policial, não era outra cousa mais do que a idéia de que
algum doente podia achar-se ali misturado com a gente de juízo."2
Daí
a expandir na prática o âmbito da loucura é só um passo. As internações se
sucedem ao menor motivo e mesmo sem motivo algum. Já não há como escapar ao
poder da Casa Verde. As pessoas do lugar, entretanto, terminam se
insurgindo contra esse estado de coisas. A Câmara recebe uma petição que pede
o fechamento do hospício, mas não a acolhe. A reação popular, porém,
continua e é grande: discute-se o despotismo científico do médico e põe-se
em dúvida a sua própria sanidade mental. A resposta é categórica:
"Poderia
convidar alguns de vós, em comissão dos outros, a vir ver comigo os loucos
reclusos, mas não o faço, porque seria dar-vos razão do meu sistema, o que
não farei a leigos, nem a rebeldes."3
A
revolta cresce, mas depois de um momento de aparente vitória acaba fracassando.
Simão Bacamarte, revigorado pelos acontecimentos, permite-se um gesto
magnânimo: recolhe ao manicômio boa parte de seus críticos. As internações
recrudescem, a ponto de nem a própria esposa do médico ficar de fora. Até que
um dia, de súbito, ele resolve dar alta a todos os internados. A Câmara é
notificada por escrito. A perplexidade é geral. Bacamarte havia mudado de
orientação: o que agora via como normal era o anormal de antes. Revisara
as suas teorias, ou, como diriam hoje não poucos eruditos, "fizera uma
releitura de seu corpo de doutrina".
Mas
logo recomeçam as internações e a esse novo surto se segue mais um refluxo:
aos poucos volta a esvaziar-se a casa Verde. Ainda assim, Bacamarte não se
dá por satisfeito. Nas palavras de Machado:
"Não
lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o contentava ter
estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. Plus ultra! Não ficou
alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma cousa lhe dizia que a teoria nova
tinha, em si mesma, outra e novíssima teoria."4
Isso
pensado, o médico se enfurna em sua biblioteca e começa a se auto-analisar.
Depois consulta um conselho de amigos. Dessas reflexões tira uma
conclusão: acaba convencido de que é um modelo de sanidade mental.
Diante do que, interna a si mesmo na Casa Verde onde retoma a auto-análise. É
taxativo: "A
questão é científica (...); trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro
exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática".5
E
assim termina morrendo sob a suspeita de ser, no fim das contas, o único louco
do lugar. Suspeita essa, diga-se, atribuída ao padre da vila que "com
tanto fogo realçara as qualidades do grande homem".6
Como se vê, a posição de Simão Bacamarte consiste em acreditar que o
científico equivale sempre ao verdadeiro. Mesmo quando se auto-examina ele o faz
à luz de sua teoria, e não de sua experiência direta com o mundo real. Essa
atitude lhe conferiu poder e sobranceria, mistura que o levou passo a passo à
intolerância, ao radicalismo e por fim à solidão. Ao encarnar o
cientificismo, o personagem machadiano se propôs inquestionável, e portanto o
único detentor das artes e sutilezas de seu ofício.
Ao mostrar a
distância que Bacamarte estabelece entre ele e seus pacientes, Machado dá um
exemplo nítido da separação sujeito-objeto que é própria do modelo mental
linear. Assim, revela-nos o quão longe do real podem ficar determinados
teóricos. Vimos que a crise vivida pelo alienista num dado momento o levou a
dar alta a todos os internados, o que aparentemente faz dele um antipsiquiatra
avant
la lettre. Mas só aparentemente. Em seu estudo sobre a novela, Luiz Costa
Lima identifica o significado do comportamento pendular de Bacamarte, e mostra
que o tema básico d'O alienista — o que é a loucura? —
só pode ser compreendido se examinado por meio da relação entre a ciência, a
linguagem e o poder.
Surge
então a importância de um tema paralelo: o poder do saber, que Machado
denuncia partindo do discurso ficcional e chegando ao psicológico, político e
filosófico. Por não reconhecer que poderia estar errado (ou seja, que poderia
perder o saber), o alienista acabou perdendo o poder. O que nos leva à
especulação: o que teria acontecido se ele não tivesse parado, se tivesse
continuado a internar as pessoas a seu talante, a considerar-se a
personificação da teoria e da ciência?
À
vista de casos análogos, registrados na história da psiquiatria e da
psicoterapia, teríamos algo assim: um Bacamarte cada vez mais
poderoso, internando na Casa Verde (isto é, reduzindo à sua teoria) todos os
que não se mostrassem crédulos e disciplináveis. Desse modo, seu prestígio
aumentaria de modo crescente; não tardariam a acorrer discípulos, acólitos e
agregados vários, que levariam adiante as teorias do mestre e logo formariam
instituições; estas brigariam entre si pela custódia e interpretação do
"corpo de doutrina"; daí surgiriam dissidências, que dariam origem a
novas correntes e novas instituições; e assim por diante — todos os
envolvidos, é
claro, sempre fiéis nem tanto à teoria em si mas à autoridade e ao poder que ela
proporciona, sem no entanto jamais deixar de proclamar que a questão é
científica.
O
exemplo d'O alienista, somado às demais citações deste texto, pretende
reiterar que a ficção, longe de ser um simples meio de entretenimento, é uma das
formas mais eficientes de buscar algum grau de compreensão de mundo. Ela pode,
por exemplo, mostrar como é possível buscar por meio da palavra o tão sonhado
equilíbrio entre razão e emoção.
Não é novidade que muitos
romancistas se anteciparam a Freud, ao revelar a importância do inconsciente e
seus processos. Aliás, o próprio criador da psicanálise (ele mesmo dono de um
esplêndido estilo literário), já em 1895 se admirava com a grande semelhança
entre os relatos de seus pacientes e as obras ficcionais.
Também
em Tolstoi é possível entrar em contato com as profundezas da condição
humana. A noção de situação-limite, tal como viria ser depois
desenvolvida pela filosofia e psicoterapia existenciais, está bem clara em sua
novela A morte de Ivan Illitch. Cervantes é hoje reconhecido como tendo
sido um dos primeiros a mostrar, em termos romanescos, a ambigüidade do ser
humano. Viagem ao fim da noite, de Louis-Ferdinand Céline — um dos
grandes romances do século 20 — é um discurso penetrante sobre a fragilidade da
condição humana e a presença do mal no coração do homem.
Todos esses
dados mostram que a narrativa ficcional é um meio de acesso ao conhecimento e
à sabedoria, o que a torna também um instrumento de libertação. Existe um consenso de que a expressão literária
não é compatível
com regimes políticos totalitários e situações de opressão. Os romances de Nadine Gordimer, por exemplo, foram importantes na luta contra o apartheid
na África do Sul. Os muitos episódios de censura e queima pública de livros
dão testemunho desse potencial libertador da ficção literária. Entre
psicologia, filosofia e literatura, portanto, há um estreito parentesco. O
contador de histórias (e todo escritor se orgulha de ser um) se
antecipa com freqüência ao psicólogo e ao filósofo, e assim mostra que a
literatura é também uma forma filosófica.
Dualidade
e circularidade
É
na qualidade de forma filosófica que a literatura investiga a dinâmica
razão/emoção. Sabemos que do só intuitivo ao inteiramente
racional há um espectro. Entre os seus extremos há uma
movimentação sutil, quase imperceptível. Seria mesmo imaginável uma linha
que ligasse o máximo do emocional ao auge do racional, isto é, que unisse o
linear ao sistêmico. Veríamos então que, num dado momento e a depender de muitas variáveis, poderíamos nos situar num ponto qualquer
desse continuum, indo ou vindo na direção de um de seus pólos.
Dessa maneira, nada impede que suponhamos também a existência de uma faixa
mediana, que representaria o lugar do equilíbrio dinâmico entre essas tendências. Talvez
a metáfora dos círculos concêntricos expresse ainda melhor essa idéia. Aqui a
faixa mediana seria o centro, que é comum aos sucessivos círculos. Num dado
momento estaríamos num determinado círculo, aproximando-nos ou afastando-nos da
área central. Em qualquer dos casos esse centro comum — ou essa faixa mediana —
seriam ideais, como as tendências que para eles convergissem.
Mesmo assim, teriam uma função importante: não como algo concreto, palpável, mas
como uma posição que, embora inatingível na prática, não excluiria os nossos
esforços para chegar tanto quanto possível perto dela.
Lionel
Trilling diz que no mundo "adulto" atual não são apenas os poetas que estão sob
ameaça. Sustenta que o racionalismo excessivo prejudica, e muito, as
emoções . O contrário, claro, é também verdadeiro. Para ele, devemos manter a preocupação
e o cuidado que começaram no século 18 em relação às crianças, às
mulheres, aos camponeses e aos selvagens. Trata-se de seres humanos cuja vida mental é menos reprimida que a
do homem "prático", bem mais submetido às imposições e restrições
do conservadorismo da sociedade.
Tal preocupação e cuidado exprimem a
intuição de que não só a lógica linear tem importância para a condição
humana. Em outros termos, a razão precisa aliar-se à emoção para continuar racional. A perda da
capacidade de fabular faz com que percamos também a habilidade de
descontextualizar. Como resultado, ficamos confinados ao modelo mental linear e
assim nos tornamos incapazes de entender o poder transformador dos mitos, dos
símbolos e das metáforas. Daí as nossas crescentes dificuldades na busca
da harmonia possível entre razão e emoção.
O
universo de Dostoiévski
As
relações entre psicologia, filosofia e literatura são
da maior importância, não apenas no plano intelectual mas também na prática
cotidiana. Para aprofundar um pouco mais o tema, tomemos um autor
muito citado mas hoje pouco lido: Fiodor Dostoiévski. Analistas da sua
obra com freqüência discutem se ela reflete a experiência de um romancista
ou a de um visionário. A personalidade do escritor russo mescla arte,
psicologia e filosofia, entre outras coisas, daí sua agudeza e a extrema facilidade que tem de
penetrar no fundo da condição humana. Em Os irmãos Karamazov, por
exemplo, ele faz Zósima aconselhar a Aliócha: "Não se envergonhe do seu
êxtase, beije a terra".
As
relações humanas estão sempre no centro das preocupações de Dostoiévski.
Sua ficção é povoada de anti-heróis às voltas com experiências
extremas. Talvez por isso, Freud, no fim da vida, não tivesse sido capaz de
suportar a leitura de seus romances. Essa circunstância se torna crucial, se
recordarmos que o criador da psicanálise, dada a evolução da doença que o
consumia, vivia também uma situação-limite.
Nada mais ilustrativo do poder da
ficção de Dostoiévski. Ninguém como ele investigou a
dualidade da condição humana. Em seus textos, a culpa é mostrada como uma
condição existencial e não apenas como algo circunstancial, atrelado a uma
causa imediata. A eterna busca do equilíbrio entre razão e emoção pode ser vista no
complexo mundo de Os irmãos Karamazov, ou no sombrio universo de Crime
e castigo. No entanto, o lugar onde ela talvez seja mais
bem analisada é um trabalho bem mais breve, a novela Memórias
do subterrâneo.
O
texto data de 1864 e é considerado o ponto de partida para os romances que
viriam consolidar a obra do escritor russo. Nele, como num prelúdio para o que
continuaria a fazer ao logo de sua obra, o autor se antecipa a muitas
das descobertas da psicologia e da psicanálise. Sua leitura é tão
surpreendente que se torna indispensável lembrar aqui algumas passagens.
As
duas primeiras colidem em cheio com o cientificismo:
"Mas
de tal maneira o homem se apega aos seus sistemas e à sua dedução abstrata,
que seria capaz de alterar a verdade com conhecimento de causa, de fingir-se
surdo e cego só com o fim de não invalidar a sua teoria."7
(...)
"A razão só sabe aquilo que teve tempo de saber (pode ser que haja
algumas coisas que ela nunca venha a saber; não é muito consolador dizer isto,
mas por que não reconhecê-lo?), ao passo que a natureza humana atua em
massa com tudo quanto nela se contém, e quer se engane ou acerte, vive."8
Nosso espanto
aumenta à medida em que avançamos na leitura. Lá está quase tudo: a
percepção de que o homem não pode se apropriar impunemente do mundo natural;
o pressentimento de que o ego tende a afastar-nos da natureza; a reificação
das pessoas; a intuição da liberdade como dimensão-chave da existência
humana; a antecipação da noção psicanalítica de retorno do reprimido e do
uso da palavra como provocadora da emergência de conteúdos do inconsciente; e,
por último mas não menos importante, a previsão da alienação de muitas de
nossas sociedades pelo economicismo tecnocrático. Leiamos alguns trechos:
"Este tem fome de
viver e resolve as questões vitais com um palavreado lógico. Que aborrecidas e
impertinentes são as suas palavras e, ao mesmo tempo, que medo tem!"9
(...)
"Hão de gritar-me (se ainda se dignam a responder-me) que ninguém fala em
privar-me da minha liberdade, que se aspira somente a organizar a vida do homem,
de maneira que a própria vontade, a minha vontade própria, esteja de acordo
com os meus interesses normais, com as leis da natureza e a aritmética. Mas
não quererão dizer-me, meus senhores, que vontade será a minha quando o mundo
for regido pela tal lista e pela aritmética, quando todos pensem unicamente que
dois e dois são quatro?"10
(...)
"Mas o homem é um ser volúvel, inconseqüente, e talvez, como o jogador de
xadrez, apenas tenha prazer nos meios e não nos fins em si mesmos: quem sabe
(ninguém poderia demonstrar o contrário) se o fim para o que a humanidade
propende consistirá apenas nesse incessante esforço para chegar; por outras
palavras, na vida em si própria e não no fim, que certamente não é mais que
dois e dois são quatro, quer dizer, uma fórmula?"11
(...)
"E, no entanto, fiquem sabendo: tenho a certeza de que é preciso segurar pela
trela o nosso irmão do subterrâneo. Pois ainda que seja capaz de passar
quarenta anos no seu esconderijo, assim que finalmente sai logo se escapa e se
põe a falar, a falar, e não consegue fazer parar a língua."12
Há quem dê
pouco valor a transcrições, confundindo-as com a mera exposição de frases
pinçadas e fora de contexto. No caso de Memórias do subterrâneo,
porém, essa restrição logo se esvazia. A novela tem poucas páginas
(24, na tradução aqui citada), o que torna mais fácil recomendá-la aos
céticos, muitos dos quais são, como se sabe, pouco dispostos a reflexões mais demoradas.
Leiam o texto
inteiro e tirem suas próprias conclusões.
As
veredas da alienação
Aqui estão,
portanto, alguns exemplos da força da ficção, instrumento de cujo poder
transformador aparentemente julgamo-nos hoje capazes de prescindir. Mas é fundamental que
também aqui não caiamos numa das principais
armadilhas do modelo mental linear: dividir tudo em dois lados e depois assumir
a posição maniqueísta de afirmar que a palavra é superior à imagem ou
vice-versa. Isto é, decretar que todos devem transformar-se em leitores
compulsivos ou, como hoje é a regra, em exclusivos (e passivos) receptores de
imagens estandardizadas.
Também não se
deve confundir baixa cultura com cultura popular. Sabemos que é nesta que se
encontram muitas das potencialidades criativas dos povos. Do mesmo modo, não se
deve confundir alta cultura com erudição acumulativa, pedante e ornamental. É
óbvio que se as pessoas podem se alienar pelas imagens, podem também fazê-lo
por meio da palavra escrita.
Esse, aliás, é o tema de um dos romances mais
importantes de nossa época, Auto-de-fé. Nele, o escritor búlgaro Elias
Canetti, laureado com o prêmio Nobel, conta a história de um professor que era
um dos mais famosos sinólogos de seu tempo. Mas tornou-se a tal ponto obcecado
pelos livros que acabou perdendo o contato com as realidades práticas da vida, e
por isso passou a vê-las como ameaças. Nessa obra, Canetti mostra como o
instinto de posse (no caso a posse dos livros e do saber) pode se transformar
numa poderosa forma de alienação, paranóia e arrogância, disfarçadas em
humanismo e erudição.
Eis alguns dos
dilemas atuais da literatura. Como sempre, boa parte de nossos destinos depende
de nossas escolhas. Está em nossas mãos, pois, preservar ou não o poder e o
encanto dessa forma de arte. Não sabemos com exatidão o que acontecerá com
ela a longo prazo. No entanto, se deixarmos que se perca, para pôr em seu lugar
esse obscurantismo que avança a passos largos sobre o cenário mundial, terá
sido uma grande pena. E por ela haveremos de pagar um preço cujo total ainda
não conhecemos — mas que tudo indica que será bem maior do que
imaginamos.
Notas
1. Neste contexto,
deve-se entender a razão segundo a concepção de Espinosa, isto
é, a razão que inclui a intuição e a emoção.
2. MACHADO
DE ASSIS, O alienista, in Obra completa, 3 vols., Rio de
Janeiro, Nova Aguilar, 1986, vol. 2 , p. 259.
3. Id.,
ibid., p. 272.
4. Id.,
ibid., p. 186.
5. Id.,
ibid., p. 288.
6. Id.,
ibid., p. 288.
7. DOSTOIÉVSKI,
Fiodor M., Memórias do subterrâneo, in Obra completa, 4
vols.,Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995, vol 2, p. 678.
8. Id.,
ibid., p. 681.
9. Id.,
Ibid., p. 687.
10. Id.,
ibid., p. 683.
11. Id.,
ibid., p. 684.
12. Id.,
ibid., p. 687.
© Humberto Mariotti, 2000
*Publicado,com pequenas
modificações, na revista Thot (São Paulo) 67:25-33, 1997.
* HUMBERTO MARIOTTI. Professor e Coordenador
do Centro de Desenvolvimento de Lideranças da Business School São Paulo.
Consultor em desenvolvimento pessoal e organizacional. Conferencista nacional e
internacional. Coordenador do Núcleo de Estudos de Gestão da Complexidade da Business School
São Paulo.
E-mail: [email protected]