DIÁLOGO:
UM MÉTODO
DE REFLEXÃO
CONJUNTA E
OBSERVAÇÃO COMPARTILHADA
DA EXPERIÊNCIA*
Humberto Mariotti **
Introdução
O diálogo, tal como entendido neste texto, é um
método de conversação que busca os seguintes
resultados: a) melhoria da comunicação entre os interlocutores; b) observação
compartilhada da experiência; c) produção de percepções e idéias novas. O
diálogo amplia a percepção cooperativa do real. Sua marca fundamental é,
pois, a fertilização mútua.
A
proposta não inclui chegar a sínteses nem tomar decisões; estas são as
finalidades da discussão e do debate. Na interação do diálogo, o propósito
é exercitar novos modos de ver e criar significados em conjunto. Por esse
motivo, a denominação “diálogo” é até certo ponto inadequada. Em nossa
cultura, aquilo que conhecemos com esse nome são interações verbais em que os participantes defendem posições, argumentam,
negociam e, eventualmente, chegam a conclusões ou acordos.
O método do diálogo, como acabamos de ver, não busca nada disso. No entanto,
o termo “diálogo” já está consagrado pelo uso. É necessário, portanto,
buscar formas de atenuar as confusões e equívocos derivados dessa inadequação.
O ideal seria abandonar a palavra “diálogo” e substituí-la por outra, mas já
sabemos que isso não é mais viável. Por essa razão, proponho que sempre que
a utilizemos — no sentido em que é considerada neste texto — ela seja
complementada pela explicação de que o diálogo é uma atividade cooperativa
de reflexão e observação da experiência vivida.
Diante do exposto, proponho
a seguinte definição: diálogo (reflexão conjunta e observação cooperativa
da experiência) é um método de conversação que busca melhorar a
comunicação entre as pessoas e a produção de idéias novas e significados
compartilhados. É um método que permite que as
pessoas pensem juntas e compartilhem os dados que surgem dessa interação, sem
procurar analisá-los ou julgá-los de imediato.
O
método se opõe à fragmentação, ao imediatismo e à super-simplificação
— três das características fundamentais do modelo
mental que condiciona a nossa cultura. Esse condicionamento é milenar e se
acentuou nos últimos três séculos. É como se estivesse gravado a ferro em
brasa em nossa mente, de tal modo que na prática se tornou o único
meio pelo qual percebemos o mundo, interagimos com ele e tentamos entendê-lo.
É por meio desse padrão que a ciência e a tecnologia (e, por extensão, toda
a nossa cultura) lidam com os fenômenos naturais e culturais e buscam compreendê-los
e explicá-los. Isso significa que todos os nossos pressupostos, todas as nossas
“certezas”, todas as nossas teorias a respeito do mundo, são formatadas por
esse modo de pensar.
Os
pressupostos fundamentais desse modelo sustentam que: a) a maneira mais adequada de
examinar um objeto ou situação é fragmentá-los e estudar as partes em
separado, para depois tentar reunir os resultados da investigação numa síntese;
b) as causas são sempre imediatamente anteriores aos efeitos ou estão muito próximas
deles; c) a seqüência causa-efeito ocorre sempre num mesmo contexto de espaço
e tempo; d) o mundo é visto de
forma binária, pelo padrão ou/ou: ou bem ou mal; ou
certo ou errado; ou real ou imaginário; ou vencedor ou vencido; e assim por diante; e) tendência à quantificação e à
objetividade; f) dificuldade de lidar com a subjetividade (sentimentos, intuição,
emoções) e com a dimensão qualitativa da vida.
Como já foi demonstrado em muitos estudos, a fragmentação e a
super-simplificação não raro têm produzido graves conseqüências. As imensas dificuldades
de comunicação entre as pessoas e as instituições que elas criaram (a família, a
escola, os governos, as empresas, as culturas, enfim) são alguns exemplos. O
mesmo é válido para os fracassos quase que invariáveis dos esforços diplomáticos
e das intermináveis conversações de paz que proliferam nos noticiários.
A
principal peculiaridade desse nosso condicionamento é desalentadora: a experiência
tem mostrado que quanto mais claro fica que estamos marcando passo, mais
insistimos em não mudar nosso modo de pensar; quando mais óbvio se torna que
estamos num processo de repetição dos mesmos erros, mais incapazes
nos tornamos de perceber essa obviedade. Albert Einstein definiu essa situação
em duas frases bem conhecidas: a) “nenhum problema pode ser resolvido pelo
mesmo estado de consciência que o criou”; b) “tudo mudou, menos o nosso
modo de pensar”.
O
automatismo concordo-discordo
Nossa
tendência a fragmentar é mais forte que a necessidade de integrar. Não
sabemos ouvir. Quando alguém nos fala, em vez de escutar até o fim o que ele
tem a dizer, logo começamos a comparar o que é dito com nossas idéias
e referenciais prévios. Esse processo mental — que chamo de automatismo
concordo-discordo — quando levado a extremos é muito limitante. Ouvir até o
fim, sem concordar nem discordar, é muito difícil para todos nós. Não
sabemos como lidar — mesmo de modo temporário — com o pouco conhecido ou o
desconhecido.
O
automatismo concordo-discordo funciona assim: quando nosso interlocutor começa
a falar, de imediato assumimos duas atitudes: a) “já sei o que ele vai dizer
e concordo; portanto, não vou perder tempo a ouvi-lo”; b) “já
sei o que ele vai dizer e discordo; assim, não tenho por que ouvi-lo até o
fim”. Em ambos os casos o resultado é o mesmo: negamos a quem nos fala a
capacidade ou a possibilidade de dizer algo de novo — o que na prática pode
corresponder à negação da existência dessa pessoa.
Faça você mesmo a
prova: tente escutar até o fim, sem concordar nem discordar, o que o seu
interlocutor lhe diz. Procure evitar que, logo às primeiras frases dele,
você já esteja pensando no que irá responder. Verá então como é difícil. E constatará que esse automatismo é uma das manifestações mais poderosas do
condicionamento de nossa mente pelo modelo mental "ou/ou" — a lógica binária.
Eis
o principal objetivo do diálogo: lidar com o automatismo concordo-discordo.
Tentar atenuar os nossos condicionamentos, buscar alternativas à atitude
habitual. Destas observações, pode-se deduzir a principal utilidade do método
dialógico: perceber e pensar as mesmas questões de modo diferente, a fim de
que daí possam emergir idéias novas. Num segundo momento (ou seja, já por
meio da discussão e do debate) estas poderão ser avaliadas, julgadas, o que
pode resultar na implementação de ações não-repetitivas, diferentes das
rotineiras.
O
questionamento básico do diálogo é simples e pode ser assim enunciado: “E
se suspendermos — ao menos de modo temporário — as nossas ‘certezas’, e
conversarmos fora de sua influência para ver o que acontece?” Ou, posto de
outra forma: mudar o modo de olhar, modificar a perspectiva, observar a partir
de outros ângulos, pensar os mesmos problemas de modo diferente. Conclui-se,
então, que o método se aplica a qualquer contexto no qual seja necessário
produzir idéias não-rotineiras e aprender em grupo. Ele é útil em todos os
âmbitos e oportunidades em que se torna necessário mudar o modo habitual de
perceber o mundo. A área educacional e o universo das empresas são dois desses
domínios. Com efeito, em muitas organizações de vários países do mundo o método
do diálogo é utilizado nesse sentido.
Origens
A palavra “diálogo” resulta da fusão das palavras gregas dia e logos. Dia significa “por meio de”.
Logos foi traduzida para o latim ratio
(razão) mas tem vários outros significados, como “palavra”, “expressão”,
“fala”, “verbo”. Dessa maneira, o diálogo é uma forma de fazer
circular sentidos e significados. Num grupo que dialoga, as palavras circulam
entre as pessoas, passam através delas sem que sejam necessárias concordâncias,
discordâncias, análises ou juízos de valor. As palavras — e o que elas
significam — são observadas tal como se apresentam à experiência imediata
dos participantes.
Isso quer dizer que na experiência do diálogo a palavra liga, permeia, em vez de
separar. Aglutina em vez de fragmentar. Essa noção nos leva a concluir que a
interação dialógica não é um instrumento que permite que as pessoas defendam e
mantenham suas posições, tal como acontece na discussão e no debate. A dinâmica
do diálogo está voltada para ligações, para a formação de redes. Daí o nome de
“redes de conversação”, proposto para as experiências de reflexão conjunta,
geração de idéias, educação mútua e produção compartilhada de significados.
Objetivos
do diálogo e dinâmica da conversação
Segundo o físico David Bohm,
estes são os principais objetivos de um grupo que utiliza a interação dialógica:
a) melhorar a comunicação entre as pessoas; b) observar o processo do
pensamento (ou seja, observar a dinâmica da mente de um modo prático e
disciplinado); c) construir de micro-culturas por meio da criação de redes de
conversação; d) produção e compartilhamento de significados.
De um modo geral — e para fins didáticos —, a seqüência dos fenômenos
que ocorrem numa conversação pode ser exposta da seguinte forma: a) as pessoas
falam; b) as diferenças emergem; c) fica claro, então, que é necessário
fazer escolhas. Estas podem ser orientadas para dois caminhos: 1) discussão
controlada, que, caso as posições se acirrem, transforma-se em debate; 2) diálogo.
O diálogo é diferente da discussão/debate que, como vimos, é uma forma de
negociação que implica a exclusão das idéias “vencidas”. Ao negociar, os
interlocutores trabalham no sentido de ganhar algo, embora nesse esforço possam
ter de ceder um pouco daquilo que pretendiam ganhar. Depois de uma discussão/debate
há uma conclusão — pelo menos é isso que se deseja. No diálogo não se
visa concluir, chegar a um resultado único, nem nada equivalente. Tudo o que se
quer é fazer emergir idéias e significados novos e compartilhá-los.
Abaixo,
as principais diferenças entre o diálogo e a discussão/debate.
-Mostrar.
-Estabelecer relações.
-Compartilhar idéias.
-Questionar e aprender.
-Compreender.
-Ver as relações entre as partes e o todoo.
-Fazer emergir idéias
-Revelar a pluralidade das idéias
Objetivos da discussão/debate
-Fechar questões.
-Convencer.
-
-Defender idéias.
-Persuadir e ensinar.
-Explicar.
-Examinar as partes em separado.
-Descartar as idéias vencidas".
-Fazer acordos.
Cabem
aqui algumas observações a respeito dessas diferenças. Em primeiro lugar, elas não
pretendem afirmar que o diálogo é melhor ou pior do que a discussão e o debate.
Trata-se de maneiras diferentes — porém complementares — de conversar. E é
bom que assim seja, pois há situações na vida em que precisamos dialogar e
circunstâncias nas quais precisamos discutir e debater.
Além disso, na prática a
separação entre uma coluna e a outra não é tão estanque assim. Numa sessão
de diálogo, as pessoas muitas vezes passam da discussão/debate à interação
dialógica e vice-versa. É muito importante, pois, evitar o esquematicismo, que
aqui é utilizado apenas com objetivos didáticos.
Em outros termos: há instantes em que precisamos utilizar o modelo mental fragmentador (útil para a discussão e o debate) e momentos em que
precisamos utilizar um modelo de pensamento abrangente (útil para o diálogo).
No primeiro caso, trata-se das circunstâncias práticas da vida mecânica,
em que precisamos lidar com fenômenos objetivamente observáveis, com
quantidades e com as partes em separado. No segundo caso trata-se de situações
da vida não-mecânica. Nelas é necessário pensar de modo global, lidar com sentimentos, emoções
e intuição. São ocasiões em que é necessário compreender a interação
entre o todo e as partes.
Ao contrário do que acontece na discussão/debate, no diálogo não existe o
pingue-pongue de perguntas e respostas. O ânimo das pessoas que dialogam não é a atitude costumeira da nossa cultura litigante,
na qual nada deve ser deixado sem réplica e competimos para ficar com
a última palavra, isto é, para “ganhar”. Numa sessão de diálogo, quem fala não deve esperar
sempre uma resposta — que seria
como uma reação à sua fala —, mas sim as percepções e idéias que esta
faz surgir nos interlocutores.
Dessa
forma, não se trata de responder ao que foi dito pelo outro. Mas, sim, falar complementando ou acompanhando o que ele disse.
Trata-se de produzir algo
que não existia antes em cada interlocutor e que surge como propriedade
emergente ao longo da relação. Alguma coisa é produzida — algo que não
existia nos interlocutores em separado a não ser em estado latente. No diálogo,
o padrão “eu falo, você responde” é substituído pela alternativa “eu
falo, você também fala; falamos juntos”. As idéias novas surgem por meio da
cooperação, não pelo confronto.
No
diálogo não há enfrentamento ou competição. Existem interações, ligações interpessoais. A expressão gráfica da discussão/debate
poderia ser assim: -> <-. Já para o diálogo ela seria uma circularidade. Num caso a relação é linear. No outro é sistêmica. A
finalidade do diálogo é observar e participar para aprender pela compreensão.
O objetivo da discussão/debate é participar e intervir para aprender pela
explicação. Por isso, pode-se dizer que no diálogo a postura observadora é o princípio,
o meio e o fim. Mas é indispensável ter em mente que a observação dialógica
é participante: observo, mas ao mesmo tempo me observo como observador; faço parte
daquilo que observo.
Não existe um
padrão de comportamento ideal para o diálogo. Como veremos adiante, as (poucas) regras do método dialógico são
apenas operacionais. Além disso não podem ser tomadas como normas rígidas,
pois isso quebraria a naturalidade do processo. Não nos esqueçamos de que o
compromisso básico de quem entra em um grupo de diálogo é suspender a atitude
habitual, ou seja, procurar afastar a rigidez dos condicionamentos.
Vimos
que numa sessão de diálogo às vezes a conversação é entremeada de momentos
de discussão e debate e/ou tentativas de interpretação/explicação. Tal
circunstância costuma incomodar alguns dos participantes, que se autocensuram e
censuram os companheiros de grupo por não cumprir “as regras”. Por
outro lado, as pessoas muitas vezes perguntam: “Como saber se estamos ou não em diálogo?” Essa indagação, além de não ter maior significado prático,
é ela
própria um pressuposto: o de que é preciso seguir à risca as normas. Indica que
as pessoas acham que quando dialogam é imperioso dialogar e nada mais.
Todas
essas eventualidades tendem a desvirtuar a proposta dialógica, pois podem levar
ao modelo fragmentador: ou discussão ou diálogo. Nesses casos, a suspensão de
pressupostos torna-se em si mesma um pressuposto, o que gera dúvidas, tensão e
ansiedade. Na verdade nada disso é necessário: se o diálogo e a
discussão/debate são complementares, é claro ambas as duas formas podem surgir durante uma reunião.
A
atitude de sempre comparar, checar, controlar, julgar — própria
do condicionamento básico de nossa cultura —, tende a dificultar ou mesmo
impedir o diálogo. Nossos condicionamentos nos levam a utilizar a discussão e
o debate quando eles são necessários e eficazes — mas usá-los também nas situações
em que são desnecessários e ineficazes. O diálogo tornou-se um meio de
comunicação relegado ao segundo plano, quando não de todo desprezado. É
preciso, pois, reaprender essa arte esquecida. Foi essa a iniciativa
tomada por autores como o educador Jiddu Krishnamurti, o filósofo Martin Buber,
o físico David Bohm e o psicoterapeuta Patrick de Mare, entre outros.
Contudo
é importante lembrar que, no Ocidente, o introdutor da filosofia em que se
baseia o método do diálogo foi Edmund Husserl (1859-1938). Sua proposta
fundamental
era a suspensão de pressupostos, idéias prévias, teorias, seguida da observação
dos fenômenos tal como eles se apresentam à experiência imediata. Essa
postura está expressa na famosa frase de Husserl: “Voltar às coisas mesmas”.
À sua filosofia Husserl chamou de fenomenologia. À suspensão de pressupostos,
ele denominou de "suspensão da atitude natural" (que prefiro chamar de atitude
habitual) ou "redução fenomenológica". Dessa forma deve-se reconhecer que Husserl —
ao menos em termos ocidentais — talvez seja o principal precursor da
atitude dialógica. Do mesmo modo que, em termos de investigação da mente, ele
é hoje reconhecido como um dos precursores da ciência cognitiva.
Abertura
para idéias novas
Nossa
mentalidade utilitarista e instrumental faz com que esperemos que nos sejam
sempre fornecidos produtos e/ou ferramentas para uso imediato. É claro que tal expectativa pode ser também aplicada ao diálogo, que no entanto não é uma
ferramenta pois somos partes dele. Em geral não existe, em nossa cultura, a
preocupação de aprender pelo relacionamento com o mundo e com os outros.
Esperamos que tudo venha de fora já pronto sob a forma de teorias, regras,
normas, instruções de uso que nos digam o que pode e o que não pode ser
feito e como fazê-lo. No diálogo, porém — com exceção de algumas atitudes básicas —, não
há “modos de usar”. Existe a consciência de que as pessoas não são
coisas nem instrumentos. O que há são modos de participar e compreender.
Na
postura dialógica não há lugar para a idéia de que as pessoas devem se
colocar como comandados à espera de ordens e regras sobre como viver suas
experiências. Para muitos tal postura parece cômoda, simples, rápida. Sobretudo, tem a virtude de dispensá-los do esforço de pensar. No
diálogo não há nada disso. Ele não se apresenta como um remédio, terapia,
nem muito menos como uma ferramenta para resolução de problemas.
Outro pressuposto bem conhecido de nossa cultura é a separação sujeito-objeto. Por meio
dele, julgamo-nos separados do mundo e independentes uns dos outros. No processo
dialógico suspendemos temporariamente as nossas crenças. Ao fazer isso damos um passo importante para identificar e, nos casos necessários,
suspender ao menos por alguns momentos a idéia de que somos separados do mundo em
que vivemos, isto é, de que o ser humano é separado da natureza.
Nossa
mentalidade instrumental nos levou a muitas esperanças falsas.
Talvez a principal delas seja a de que as ferramentas, as técnicas, as
terapias, etc., estão à nossa disposição para fazer o “trabalho duro”,
enquanto descansamos e nos divertimos. Tudo isso potencializa nossas fantasias,
mas leva com freqüência a decepções.
É o que acontece todas as vezes
que descobrimos que nossa vida depende de nós mesmos. Por outro lado, isso não nos dispensa de cooperar com os outros e vice-versa. A
vida depende do que criamos em comum, mas cada um deve assumir a
responsabilidade pelo que construiu. Somos ao mesmo tempo autônomos e
dependentes. O diálogo é um dos meios pelos quais essa condição se torna
clara.
O
silêncio no diálogo
O indivíduo que opta por longos períodos em silêncio, enquanto participa de um
grupo de diálogo, está dialogando? Quando o grupo entra em silêncios
prolongados pode-se dizer que existe diálogo? A resposta é simples:
dialogar é antes de mais nada aprender a ouvir. O outro precisa ser ouvido até o
fim sem que o interrompamos, seja para concordar ou
discordar.
Enquanto ouvimos, é importante ter consciência
do que sentimos. É preciso que estejamos atentos às nossas reações ao que
ouvimos. A comunicação é determinada pela percepção de
quem a recebe, e não pelo que é expresso por quem comunica. O
silêncio — individual ou coletivo — também faz parte do diálogo. É
importante perceber aquilo que a fala (ou o silêncio) do outro produz em nós:
impaciência? Inquietação? Desconfortos em determinadas partes do corpo?
Alterações no ritmo cardíaco e na respiração? Aborrecimento? Ansiedade? O
que mais?
Não
que o conteúdo do que nos dizem não tenha importância. O que quero destacar
é que a comunicação provoca em nós um impacto global e não apenas
intelectual. Por isso, é preciso que estejamos atentos à totalidade de nossa
estrutura enquanto ouvimos. É preciso ouvir até o fim, sem concordar nem discordar.
Ou compartilhar o silêncio, se for o caso. Observar, deixar-nos permear pelo que
ouvimos. Não tentar logo de saída analisar, explicar, classificar, ou por
qualquer outro meio racionalizar. Praticar a auto-observação (não a auto-análise
ou a auto-explicação) enquanto escutamos. Essa é uma postura que por si só
implica um grau importante de suspensão de pressupostos. É o que o filósofo
Martin Heidegger chamava de "relação aberta com o mundo".
Foi
dito que as posturas básicas do diálogo são relativamente poucas. Já sabemos
que sua essência corresponde à atitude fenomenológica proposta por Husserl,
que pode ser resumida nos seguintes itens: a) prestar atenção aos fenômenos
quando e como eles se mostram; b) descrevê-los sem tentar explicá-los; c)
respeitar as diferenças; d) não se deixar influenciar por pressupostos e crenças;
e) pôr todos os fenômenos em pé de igualdade; f) não delimitar
logo de saída o campo de observação; g) ver-se como participante, não como
observador.
A
suspensão de pressupostos
Os
pressupostos são nossas crenças arraigadas, nossas teorias sobre como o mundo
deve ser, nossas “certezas”. Aqui se incluem também os nossos preconceitos. Apesar de serem úteis em casos específicos,
em muitas circunstâncias os pressupostos “engessam” a nossa mente de tal
maneira que podem estreitar e obscurecer nossa visão de mundo.
Correspondem aos “já sei do que se trata”, “isso não é
novidade” e assim por diante. Lembremos um conhecido pressuposto que prejudicou e ainda prejudica a aprendizagem de incontáveis alunos: “A matemática é
complicada e incompreensível”. Essa “certeza” tem fechado o horizonte
mental de muitas pessoas para o aprendizado dessa disciplina.
Por
meio dos pressupostos, ficamos convencidos de que já “sabemos” tudo sobre
uma determinada pessoa, situação ou assunto. Convencemo-nos de que não há
mais nada a aprender. Sempre que nos defrontamos com uma idéia ou situação
nova, nossa tendência é compará-la de imediato com nossos referenciais, isto
é, tentar enquadrá-las neles, reduzi-las a eles. Assim, é fácil deduzir que
quanto mais nos agarramos a crenças mais nossa percepção e compreensão se
estreitam e se tornam obscuras. A fixação em determinadas idéias constitui o
principal motivo de nossa resistência ao novo e à mudança. Fecham portas e
obstruem caminhos. Se pudermos suspendê-las — ainda que temporariamente —,
um mundo novo se abrirá diante de nossa percepção e perspectivas novas se
tornarão possíveis.
Entretanto,
resta saber: a) é possível, na prática, fazer essa suspensão?; b) em caso
afirmativo, como fazê-la? A resposta à primeira questão é positiva, mas é
preciso esclarecer o que significa suspender crenças. Essa noção,
por sua vez, nos dará elementos para responder à segunda questão. O
filósofo francês Michel de Montaigne (1553-1592) já falava sobre isso, quando
se referia à “suspensão do juízo”. Ele observou que suspender não significa eliminar
em definitivo. Significa apenas não julgar por algum tempo até
que se tenha uma percepção melhor da pessoa, conceito ou situação. Ou seja:
deixar para fazer os julgamentos um pouco mais tarde, quando for o caso. Enfim,
manter a mente aberta à experiência.
Referenciais
importantes
Os pontos abaixo são cruciais para o diálogo como instrumento de busca de idéias
novas e, portanto, de conhecimento e aprendizagem. Por isso, precisam ser
relembrados:
1. O principal obstáculo ao diálogo é que as pessoas quase
sempre definem o seu comportamento com base em referenciais que consideram
consolidados. Estes constituem o principal bloqueio à abertura mental e
ao aprendizado. É o que podemos chamar de atitude habitual.
2. Essa atitude é a principal manifestação do modelo mental fragmentador
que formata a nossa cultura. Suas características básicas são: a) visão de
mundo voltada mais para fora, isto é, a busca constante da
objetividade, como se o conhecimento pudesse ser só objetivo; b) o
conseqüente desprestígio da subjetividade e da qualidade, que são vistas como
maneiras “inferiores” de conhecer; c) pensar quase sempre em
termos de causalidade imediata.
O aprendizado eficaz depende do modo como aprendemos a questionar nossas
idéias prévias. Como resultado, poderemos chegar à abertura mental necessária
à diminuição da resistência à mudança.
A
atitude habitual pode se transformar em uma posição defensiva. É ela
que faz com que a maioria de nós assuma uma posição resistente sempre que
postos diante de idéias novas. Para diminuir essa resistência, como já
vimos, é preciso aprender a suspender tal postura.
A suspensão nos leva a uma
visão de mundo mais abrangente. Esta, por sua vez, mostra que o conhecimento não
é só objetivo nem apenas subjetivo: é o resultado da interação
entre o observador e o observado. Por isso, lidar com ele implica que as pessoas
aprendam a lidar também com sua subjetividade, isto é, com o modo como vêem o
mundo e como essa visão gera comportamentos.
Se
aprendermos a suspender a atitude habitual, serão removidas, ao menos em parte, as defesas que entravam esse aprendizado. Ao agir de
modo defensivo
imaginamos que nos protegemos, quando na verdade perdemos eficácia
perceptiva e estreitamos nossa compreensão. A principal característica da
atitude defensiva é a recusa à auto-observação e ao auto-questionamento, com
a conseqüente criação do hábito de atribuir as causas de nossos problemas a
fatores externos.
Nessa
situação, sempre que confrontados com o fato de estarmos na defensiva nos
tornaremos ainda mais defensivos. Entraremos num beco sem saída. Se as pessoas
não tomarem consciência de como muitas vezes raciocinam de maneira defensiva — e
de que é necessário suspender a atitude habitual para evitar isso —,
qualquer tentativa de mudança de modelo mental dificilmente será bem sucedida.
Por isso a suspensão da atitude habitual não é um sinal de fraqueza ou de
falta de persistência, como muitas vezes se pensa, mas sim uma demonstração
de abertura e senso de realidade. Ela pode ser difícil, mas
seus resultados valem a pena.
Talvez
as noções mais importantes sobre a suspensão dos pressupostos sejam estas: a)
a suspensão é temporária; b) limita-se ao tempo de duração do diálogo e ao
assunto em pauta. Para David Bohm, ela começa com a observação. Na metáfora
desse autor, durante o diálogo os pressupostos devem ficar suspensos à nossa
frente como se estivessem pendurados num fio invisível — como roupas num
varal. Isso quer dizer que antes de proceder à sua suspensão é preciso
identificá-los e expô-los, não apenas a nós próprios mas também aos
nossos interlocutores.
É
como colocá-los no centro do círculo que dialoga. Apresentá-los e tentar
compreendê-los, e não analisá-los, questioná-los nem explicá-los. A esse
respeito, a conhecida frase de Espinosa é ilustrativa: “Não rir, não
lamentar, não odiar, mas sim compreender”. Ao proceder dessa maneira,
permitimos a nós mesmos e aos nossos interlocutores examinar as crenças a
partir de perspectivas novas e diversificadas perspectivas. Olhá-las de outras maneiras,
enfim.
É importante que esse procedimento seja bem compreendido, porque ele constitui
a própria essência do diálogo.
A reflexão coletiva é muito importante. Há muito se sabe que os
outros conhecem bem melhor que nós os nossos pressupostos. Ao localizá-los e
expô-los, reconhecemos esse fato e permitimos que as pessoas nos dêem retorno a respeito de nossas “verdades”. Ao proceder
assim, pedimos-lhes que nos ajudem a superar algumas de nossas limitações.
Dialogar,
portanto, é pôr-se à prova, o
que não é fácil. Os resultados, porém, são compensadores.
A posição dialógica é uma troca de impressões, um compartilhamento de idéias
ou significados que surgem à medida que as pessoas conversam. É comum
que elas produzam frases assim: “O que você acabou de dizer me faz lembrar
que...”, ou semelhantes, e a partir daí se desenrole toda uma dinâmica de
criatividade.
Interações
dessa espécie geram idéias novas. Produzem sinergias. Pode-se dizer que elas põem em prática
um princípio
básico do pensamento sistêmico: num sistema o mais importante não
são as partes isoladas, mas sim o modo como elas interagem e fazem surgir
propriedades novas (propriedades emergentes), que não existiam — ou só
existiam em estado latente — nas pessoas isoladas.
As propriedades emergentes surgem em resposta ao convite implícito em todo
diálogo: cada participante convida os demais a ajudá-lo a perceber que
não consegue aprender sozinho, pois suas “certezas” o impedem de fazê-lo.
Posições diferentes das nossas não devem provocar rejeição nem contestação. Ao contrário, precisamos aproximar-nos delas, conhecê-las,
observar as modificações que elas produzem em nossa estrutura.
Há
dois modos principais de lidar com a diversidade. O primeiro consiste em tentar
superá-la, ou, se isso não for possível, afastá-la. É o modo representacionista, que afirma que o mundo é pré-dado em relação à nossa
experiência e que portanto todos devemos percebê-lo da mesma maneira. Criam-se
assim visões padronizadas.
O outro modo é o
construtivista, que sustenta que o mundo em que vivemos é o que construímos
ao longo de nossas interações com ele. Para tanto, é preciso aprender a
conviver com a diversidade. Sob esse ponto de vista, o diálogo é
um exemplo de construtivismo levado à prática. A emergência de
significados e seu compartilhamento geram novos modos de comportamento:
constituem a
matéria-prima da construção das microculturas grupais.
O
diálogo é mais um modismo?
Eis
uma pergunta que as pessoas fazem com freqüência, em especial no âmbito das
empresas, no qual os chamados “modismos gerenciais” proliferam com rapidez. Por essa razão, justificam-se alguns esclarecimentos. Proponho alguns critérios, que talvez que nos capacitem a
saber com um razoável grau de aproximação quando estamos diante de um
modismo.
Ei-los: a) promessa de aprendizado rápido; b) promessa de resultados
imediatos ou a curto prazo; c) visão quantitativa e financeira; d) promessa de tornar as
pessoas “mais competitivas”, por meio da aquisição de certas
“habilidades” e “poderes”; e) a pouca ou nenhuma importância dada às
relações interpessoais; f) a pouca ou nenhuma importância dada às emoções
e sentimentos.
É
claro que o leitor também pode, recorrendo à sua própria experiência (e
talvez recordando as decepções que já teve com um ou mais desses métodos
“miraculosos”), aumentar a lista acima. De todo modo, ela se propõe a ser
um auxílio àqueles que precisam lidar com os modismos.
Se aplicarmos esses
critérios ao diálogo, os resultados serão: a) o método não é fácil de
aprender; b) não há promessa de resultados imediatos; c) a visão é mais
qualitativa; d) o objetivo
não é aumentar a “competitividade” das pessoas nem dar-lhes poderes “mágicos”;
e) as relações interpessoais são o ponto central; f) dá-se importância
às emoções e sentimentos, sem no entanto negar a racionalidade e a
praticidade.
Mais
uma vez, é necessário lembrar que o diálogo não se propõe a ser algo
“bom” e “correto”, cujo objetivo é ocupar o lugar de práticas “más”
e “incorretas”. Ao contrário, sua finalidade é evitar esse e
outros tipos de polarização.
Tudo isso visto, o leitor está convidado a tirar suas próprias conclusões.
O
diálogo é mais um conjunto de "receitas prontas"?
Há quem imagine que o diálogo não tem metodologia, que seja algo apenas intuitivo.
Trata-se de um equívoco. Há muito de intuitivo em sua prática, é claro, mas
existem outros aspectos a serem observados.
Ao
falar sobre a evolução das espécies, o cientista chileno Francisco Varela se
referiu a dois tipos de jogo. No primeiro (que para ele é o que ocorre
no mundo natural), uma vez cumpridos certos requisitos básicos o resto corre
por conta da interação dos sistemas vivos com o meio. O segundo tipo se pode
ser definido pela diretiva: “Eis o que deve ser feito; tudo mais é
proibido”. O primeiro jogo é libertário, o segundo é determinístico,
regulamentado.
O
diálogo é um jogo do primeiro tipo. Prevê algumas normas iniciais, mas daí em
diante tudo depende dos participantes. Portanto, não se deve confundir normas
operacionais com receitas. Do mesmo modo que o exagero do uso de métodos e técnicas
pode se transformar em obstáculos, a ausência de metodologia pode levar ao mesmo
resultado.
Assim, o que se segue deve ser visto como um conjunto de sugestões a
serem aplicadas e desenvolvidas de modo ativo: a) ouvir para aprender algo de
novo e não para conferir com crenças prévias; b) respeitar as diferenças
e a diversidade; c) refletir sem julgar; d) ter sempre em mente que o objetivo
é criar e aprender, e não “ter razão” e sair vencedor. As
pessoas que não compreendem o que é suspensão de idéias preconcebidas, ou
que necessitam de explicações, regras, normas e diretrizes detalhadas para
suspendê-las, dificilmente conseguirão dialogar.
A suspensão de pressupostos deve ser uma atitude consciente e pragmática.
Não há mágicas nem aspectos miraculosos em sua realização. Também não se
trata de suspender todos os pressupostos a respeito de tudo e para
sempre. Tal coisa seria impossível e, mesmo que fosse possível, seria
desnecessária para a prática do método do diálogo. Nunca é demais insistir que o
objetivo é suspender, durante a duração do diálogo, idéias prévias sobre o assunto que está sendo tratado.
Por fim, eis mais algumas considerações que têm sido úteis em minha
experiência com grupos:
A
mente faz parte do cérebro; o cérebro faz parte do corpo; o corpo faz parte
do mundo; logo, a mente não é separada do mundo.
A
realidade de um indivíduo é a visão de mundo que sua estrutura lhe
permite perceber num dado momento. A estrutura muda sempre, de modo
que essa compreensão, que num dado instante parece fora de dúvida e
definitiva, pode não sê-lo mais tarde.
Enquanto
permanecer apenas individual, qualquer compreensão de mundo será precária.
Por isso, é preciso ampliá-la.
Com
quanto mais pessoas conversarmos sobre nossas percepções e compreensões,
melhor. Quanto maior a diversidade de pontos de vista dessas pessoas, melhor
ainda.
Se
uma conversa produzir em nós tendência a achar que não ouvimos nada de novo, é bem provável que estejamos na defensiva.
É
importante dar atenção aos pontos de vista dos quais mais
discordamos e aos comportamentos que mais nos irritam. Mas isso não quer
dizer que estejamos obrigados a aceitar tudo ou a concordar com tudo:
significa que o contato com a diversidade é fundamental para a aprendizagem
e para a abertura de nossa mente.
Do
mesmo modo, é importante dar a mesma atenção (no sentido de avaliar
sempre) aos pontos de vista com os quais mais concordamos, isto é,
às crenças que nos deixam mais confortáveis, mais acomodados.
Referências
BOHM,
David.
Unfolding
Meaning: a weekend of dialogue with David Bohm.
Mickleton, Gloucestershire: Foundation House Publications, 1985.
BOHM, David. Thought as a system. Londres: Routledge, 1997.
BOHM, David. A totalidade e a
ordem implicada: uma nova percepção da realidade.
São Paulo: Cultrix, 1998.
BOHM,
David. On dialogue. Londres: Routledge, 1998.
BUBER, Martin. I and thou. Nova York: Charles Scribner’s Sons, 1958.
BUBER, Martin. Do diálogo e
do dialógico. São Paulo: perspectiva, 1982.
HUSSERL, Edmund. Ideas: general introduction to pure phenomenology. Londres: George
Allen & Unwin, 1931.
ISAACS, William. Dialogue and the art of thinking together. Nova York:
Doubleday Currency, 1999.
MARIOTTI, Humberto. As paixões
do ego: complexidade, política e solidariedade. São Paulo: Palas Athena,
2000.
MARIOTTI, Humberto. "O automatismo concordo-discordo e as armadilhas do
reducionismo".
VARELA, Francisco. Entrevista. (Publicada em Psychologie Heute e
reproduzida em Hyperpage www.kweb.it/hyperpage/varela/html)
YANKELOVICH,
Daniel. The magic of dialogue: transforming conflict into cooperation.
Nova York: Simon & Schuster, 1999.
© Humberto Mariotti, 2001.
*Publicado na revista Thot (São Paulo) 76:6-22,
2001.
* HUMBERTO MARIOTTI. Professor e Coordenador
do Centro de Desenvolvimento de Lideranças da Business School São Paulo.
Consultor em desenvolvimento pessoal e organizacional. Conferencista nacional e
internacional. Coordenador do Núcleo de Estudos de Gestão da Complexidade da Business School
São Paulo.
E-mail: [email protected]
O
autor agradece a colaboração de
CRISTINA ZAUHY, que atuou na pesquisa e elaboração deste
artigo.
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