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A  ERA  DA  AVAREZA
(A Concentração de Renda como Patologia Bio-Psico-Social)  

Humberto Mariotti *

A infelicidade não está na privação das coisas, mas na necessidade que temos delas.
(Jean-Jacques Rousseau)

Os tipos friamente racionais podem povoar nossos livros didáticos, mas o mundo é mais rico.
(Amartya Sen)

O dicionário assim define a avareza: “1. Excessivo e sórdido apego ao dinheiro. 2. Falta de generosidade, mesquinhez”. É mais nesses dois sentidos que o termo será usado e ampliado neste texto. A avareza é uma patologia do Ter. Como se sabe há muito tempo, o Ter e o Ser são duas dimensões fundamentais da condição humana.1

O Ter relaciona-se às necessidades concretas, da vida dita mecânica, que correspondem à satisfação das exigências do corpo: alimentação, excreção, sexo, reprodução, abrigo e a inclinação — que varia de pessoa a pessoa — de acumular dinheiro e bens materiais. A dimensão do Ser liga-se à vida que pode ser chamada de não-mecânica, e compreende os sentimentos, as emoções, a intuição, o imaginário e os impulsos de realização pessoal e interpessoal. 


Nessa linha de raciocínio, a avareza inclui o tomar posse dos outros (que gera o ciúme mórbido, por exemplo) e o que podemos chamar de “avareza de qualidades”, que leva algumas pessoas a se apossarem de determinados atributos e posar de modelos para as outras: o “super-santo” (que acha que todo mundo é pecador); o “super-honesto” (que imagina que todos são corruptos);  o “superinteligente” (que está convencido de que vive cercado de imbecis); o “super-erudito” (que acredita que todos os outros são ignorantes). 

Enfim, trata-se da volúpia da posse de tudo aquilo que puder ser capturado, colecionado e acumulado, que leva as pessoas a venerar o material e “materializar” o que não é material. Centrarei minhas considerações na aquisição e acumulação de dinheiro e bens materiais (aqui incluídos os da natureza), mas sem esquecer que todas as formas de avareza são manifestações de um fenômeno básico: a perversão da dimensão do Ter.

Antes de mais nada, é importante que não adotemos uma posição maniqueísta ou moralista diante das relações entre o Ter e o Ser, ou mesmo em relação à eventual predominância de uma dimensão sobre a outra, nessa ou naquela fase da vida humana. Ambas são instâncias essenciais ao nosso cotidiano. É também indispensável compreender que a predominância exacerbada e prolongada de uma delas sobre a outra acaba trazendo conseqüências marcantes — e é aqui que começam os problemas.

Na qualidade de exacerbação do Ter, é evidente que a avareza traz conseqüências danosas para a dimensão do Ser. Trata-se da distorção de dois dos valores mais importantes da condição humana: o valor-coisa e o valor-processo. Em meu livro mais recente2 abordo, entre outros, esses valores. Convém voltar um pouco a eles agora, para melhor compreensão das considerações que se seguirão.

O valor-coisa foi um dos aspectos mais destacados da Era Industrial. Nesse período (ainda em vigência em muitos países), o alicerce mais sólido era representado pelo primado do produto concreto — a mercadoria tangível. Essa visão de mundo acabou em muitos casos conduzindo a uma atitude reificante, que incluiu a redução das pessoas a coisas, como parte da compulsão geral para a aquisição e o controle de bens físicos. Como escreveu o antropólogo Gregory Bateson, as sociedades industriais só se referem a seus produtos e não aos seus processos. Tal inclinação, é claro, reforça as idéias de previsibilidade e imobilização, próprias do conservadorismo. 

A necessidade de segurança traduz o desejo de que as coisas continuem inalteradas, de que elas se imobilizem. Os investimentos em bens de capital físico, em especial imóveis, típicos da Era Industrial, são um reflexo desse modo de ver o mundo: a busca de estabilidade, a fuga ao aleatório, o anseio pela solidez. Uma das manifestações dessa procura do concreto é o modo como transformamos as pessoas em objetos, o que permite o seu confinamento e controle. Uma vez convertidos em coisas, os indivíduos podem ser concentrados, acumulados e, quando isso for conveniente, descartados. Já o fluxo, os processos e a dinâmica dão uma sensação de instabilidade, de incerteza — mas também de liberdade.


Na avareza, a posse das coisas não faz cessar a necessidade que sentimos delas, como observou Rousseau. Nem ao menos a diminui. Pelo contrário, estimula-a indefinidamente. O avarento caminha sempre na direção da ansiedade e o faz ao longo de uma seqüência: a) a posse não o satisfaz; b) por isso, a necessidade de seguir acumulando jamais o abandona; c) a essa circunstância se juntam o medo de perder o já acumulado e o pavor de não conseguir continuar concentrando.
Na prática, portanto, o avarento concretiza a formulação de Aristóteles, que dizia que é da própria essência do desejo jamais ser satisfeito.

Avareza e auto-interesse  
Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia, afirma que o processo econômico pode se tornar mais produtivo se olhar mais para o lado ético do comportamento humano. A recíproca é verdadeira. Como esclarece Sen, o fenômeno econômico tem aspectos “engenheiros”, que são os que tratam em especial do lado logístico da economia e constituem a tendência dominante na teoria econômica atual. Mas também tem um lado ético, ligado aos valores e necessidades humanos e que é parte constitutiva da economia, por mais que com isso não concorde o pensamento econômico hoje prevalente.

A predominância da economia logística tem relação direta com o que o filósofo Norberto Bobbio3 chama de dissociação entre o progresso científico ou técnico e o progresso moral. As evidências históricas mostram que o progresso científico contribuiu muito para a melhora material do ser humano. Com isso, deu-lhe instrumentos para que ele exercesse a sua vontade de poder, não raro levando-o ao autoritarismo que, como veremos, é uma das faces do fenômeno da avareza. 

Esse desequilíbrio entre os universos tecnocientífico e moral —  sustenta Bobbio — fez com que as leis criadas para lidar com o mundo material se tornassem muito mais dinâmicas que as normas de conduta destinadas a facilitar a convivência entre as pessoas. Estas últimas constituem as regras ditas culturais, muitas delas pertencentes ao domínio da ética. No mundo cada vez mais materialista de hoje, elas ocupam um lugar secundário em relação à sua importância.

Nos últimos tempos, porém, começam a despontar tentativas de recuperar a dimensão ética por tanto tempo deixada em segundo plano. A obra recente de Sen faz parte desses esforços. Em seu modo de ver, os aspectos logísticos da economia podem ser úteis ao lado ético e vice-versa. Ao raciocinar dessa maneira, ele reconhece que é indispensável a circularidade entre a vida mecânica e a não-mecânica que, como já vimos, são dois aspectos destacados do Ter e do Ser.

Sen observa que os economistas “engenheiros”  pressupõem que os seres humanos têm um comportamento racional, que deve ser considerado como o comportamento real. Eis aqui um ótimo exemplo de como funciona o modelo mental parcelar: separa o irracional do racional e toma este último como o “real”. Afasta-se do mundo real (fragmentando-o) e em seguida afirma que o comportamento humano “real” é o racional — como se a conduta humana irracional fosse algo desprovido de realidade. Ao proceder assim, esse modelo mental se revela irracional, porque atribui o status exclusivo de realidade a um fragmento cujo oposto foi tornado irrelevante. 

Em outras palavras, a atitude fragmentadora pretende conferir sentido conceitual a uma postura que não faz sentido algum. Entretanto, não fazer sentido do ponto de vista conceitual não significa que ela deixe de gerar conseqüências práticas importantes. Se agimos de modo fragmentador e excludente desde as bases teóricas, é óbvio que as práticas produzidas por essas ações serão também fragmentadoras, excludentes e, é claro, acompanhadas pelas mazelas que lhes correspondem. 

Um equívoco semelhante seria cometido se só a conduta irracional fosse considerada como o comportamento humano real. Dessa forma, é possível argumentar que a teoria econômica dominante se afasta da conduta humana real, ao contrário do que se propõe. Isso equivale a dizer que ela tem apenas parcialmente a ver com ser humano, apesar de ter sido criada por ele.

Como bem sabemos, essa não é a primeira vez — nem será a última — que o homem cria situações contra si próprio. Tudo ponderado, é possível concluir que a teoria econômica hoje predominante acaba abrindo caminho para que a avareza seja considerada como um valor de base, quando na verdade ela é uma patologia multifacetada da condição humana.

Como assinala Sen, entre outros, é comum em economia identificar-se a racionalidade com a maximização do auto-interesse. É o que caracterizo como a pulsão básica do avarento: privilegiar o “meu” e buscar por todos os meios transformar o “não-meu” em “meu”. É importante, contudo, estabelecer a diferença entre auto-interesse e maximização do auto-interesse. Trata-se da mesma diferença que pode ser feita, por exemplo, entre fome e voracidade. O auto-interesse faz parte da condição humana e não tende a excluir o próximo. É um dos componentes da individualidade, e permite que o ser humano se afirme como indivíduo sem negar a sua pertença à condição humana. Quando ele é exacerbado, porém, entra-se na área do individualismo, que é excludente.

As conseqüências éticas de cada uma dessas circunstâncias são bem conhecidas. A principal delas, que vimos há pouco, é a atitude de identificar a maximização do auto-interesse com a racionalidade — o que é o mesmo que apresentar a avareza como comportamento racional, fingindo ignorar que ela ser disseminada não lhe confere foros de normalidade.

Em uma edição da revista americana Time4 há um anúncio de duas páginas, patrocinado pelo governo brasileiro, cuja finalidade é sensibilizar empresas estrangeiras para que invistam no país. Em destaque, lê-se o seguinte: “Se você acha que o Brasil é uma selva,  você está certo. No mundo dos negócios, só os mais fortes sobrevivem”. Esse anúncio é exemplar em vários sentidos. O principal é que ele constitui um exemplo da utilização da teoria de Darwin (como é a regra, nos dias atuais) para justificar a competição predatória. 

Para tanto, é indispensável tomar como ponto de partida o modelo mental fragmentador e excludente.5 E nada mais fácil, porque é para pensar desse modo que nossa cultura está condicionada. Foi esse padrão que, entre outras coisas, permitiu identificar a maximização do auto-interesse com a racionalidade. Como resultado, o conceito de sobrevivência do mais apto — transformado em sobrevivência do mais forte — foi transplantado para o terreno da economia e utilizado para justificar a competição predatória.

Hoje, porém, há outros modos de abordar a questão, que conduzem a conseqüências éticas bem diferentes. Em obra já clássica6, os biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela observam que com freqüência se diz que os seres vivos são mais ou menos adaptados, ou que sua adaptação é o resultado de sua história evolutiva. Sustentam ainda que essa interpretação do fenômeno da adaptação é equivocada, pois baseia-se em crenças, modelos e critérios estabelecidos por observadores que se julgam externos aos processos que investigam. 

Tais critérios traduzem os pressupostos desses observadores e suas necessidades de confirmá-los, não aquilo que na realidade acontece no âmbito dos fenômenos. É o que exemplificarei logo mais, ao falar sobre os testes padronizados que se propõem a avaliar a eficácia de metodologias educacionais também estandardizadas.

Como acentuam os dois biólogos, se estão confinadas ao contexto das descrições feitas pelo observador, as comparações sobre eficácia (maior aptidão, maior adaptação) só podem gerar descrições e teorias que não têm relação direta com as histórias individuais de conservação da adaptação dos seres vivos. Nessa linha de raciocínio, não há sobrevivência do mais apto (a chamada “competitividade”), e sim sobrevivência do apto (que chamo de competência). 

Nos dias atuais, vários outros autores vêm publicando estudos sobre as relações entre biologia, cultura e solidariedade, que apontam para evidências de que no mundo natural há cooperação e competição, e não apenas competição. Entre eles estão Lynn Margulis7-14, Matt Ridley15 e Robert Axelrod16-18. De todo modo, o certo é que não há provas de que no mundo natural exista, de maneira tão disseminada como se pensa, a ansiedade e a paranóia características da predatoriedade humana (tanto em relação aos outros seres vivos quanto em relação ao meio ambiente) — a chamada “competitividade”.

No entanto — e na contramão de todas essas novas evidências — a idéia de sobrevivência do mais apto tem sido, como acabamos de ver, apresentada como sobrevivência do mais forte. Essa atitude destrutiva só é possível quando se mantém a crença de que somos separados do mundo natural. Ela gera a concepção de que o mundo é uma fonte de “recursos” e “bens” dos quais somos os usuários. A visão utilitarista, que reifica os seres humanos (chamando-os de “recursos humanos”), é a mesma que reifica o mundo (vendo-o como uma fonte de “recursos naturais”).

Esse utilitarismo da noção do homem como “usuário” do mundo aparece até mesmo em textos sobre o direito ambiental. Apesar das boas intenções de seus autores, essa posição contribui para manter a clássica fragmentação homem-sujeito/mundo-objeto. E desse modo distancia-se do ponto central, o que, é claro, compromete a sua eficácia.

Não se percebe que o importante não é só legislar e regulamentar, como se costuma fazer quando se está diante de um bem físico a ser partilhado e desfrutado. Falta a compreensão de que é também necessário questionar a “certeza” de que não fazemos parte do mundo natural. Essa última providência não pode ser tomada por meio de leis, decretos e instrumentos afins, embora eles sem dúvida possam ajudar de modo subsidiário.

Enquanto não for abalada a nossa convicção da dicotomia entre o homem e o mundo, continuaremos a nos considerar “autorizados” a ver a natureza como um butim da guerra que travamos uns contra os outros em nome da sobrevivência dos “mais fortes”. Pouco ou nada importa que a “competitividade” leve ao estresse e a outras patologias mais graves, que ela gere medo, ansiedade, depressão e violência.19-20 Pouco ou nada importa, ainda, que ela produza sociedades litigantes, nas quais todos processam a todos para obter vantagens financeiras, muitas vezes por motivos mínimos. Nada disso interessa: o que na realidade conta é seguir os ditames da avareza e captar, estocar, entesourar, conservar. 

Estamos de tal modo condicionados a essa atitude, que de pouco adiantam as evidências dos relatos sobre a má situação do meio ambiente e a lamentável qualidade de vida da maioria das populações. Tais relatos, como é sabido, têm revelado que caminhamos a passos firmes para uma grande derrota. Que incluirá, é claro, tanto os “mais fortes” quanto os “mais fracos”.

É o que se pode comprovar, por exemplo, em dados fornecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que passo a transcrever: a) hoje, as perturbações mentais e neurológicas atingem cerca de 400 milhões de pessoas em todo o mundo e essa cifra tende a aumentar nas próximas décadas; b) a OMS prevê que por volta de 2020 a depressão (com a alta taxa de suicídios a ela associada) ocupará o segundo lugar como causa de morte e incapacidade, logo atrás das doenças cardíacas isquêmicas; c) essas patologias — segundo a mesma agência — estão muito ligadas a modos de vida estressantes, à pobreza e à violência; d) a OMS observa que existe um mito de que as perturbações neurológicas e mentais são próprias dos países ricos, quando na verdade elas constituem graves problemas de saúde pública no mundo inteiro.

Esses dados foram apresentados no lançamento de uma campanha da OMS, cujo slogan é: stop exclusion — dare to care (“pare de excluir — “ouse cuidar”).21 São constatações e projeções numéricas, objetivas, bem ao gosto da maioria das pessoas em nossa cultura. Elas mostram que, quando examinamos essas questões a partir de uma perspectiva mais ampla — que ultrapassa o contexto do espaço e tempo imediatos —, torna-se claro que se a exclusão faz mal aos excluídos também não poupa os excludentes.

Exclusão, vida estressante e violência: esse é o espírito que permeia o anúncio da revista Time, de que falei há pouco. Ele tem endereço certo e diz o que seu público quer ouvir. Trata-se de um público imenso: compõe-se de pessoas influenciadas pelos que — no exemplo de Amartya Sen — fragmentam a obra de Adam Smith (o chamado “pai” da economia), ignoram as partes que não lhes interessam e a apresentam como uma prova “científica” de que o egoísmo compensa. É a mesma posição que faz com que o comportamento “racional” seja visto como a conduta “real” do ser humano, pouco importando que a irracionalidade dessa formulação esteja à vista. Ainda assim, como adverte Sen,

"... é justo dizer que, apesar dessas (e de outras) críticas, a hipótese do comportamento puramente auto-interessado permanece como a mais utilizada na economia, fornecendo os alicerces do comprometimento para a teoria econômica e a análise da política econômica tradicionais e servindo de base para boa parte do que é ensinado aos estudantes de economia."22

Não admira, portanto, que uma manifestação de patologia social como essa seja vista como “normal” e “racional” por muitos e, pior ainda, sirva-lhes como norma de vida. As repercussões éticas, é evidente, levam a resultados práticos que são do conhecimento geral — ao menos, são do conhecimento das pessoas que não se prestam ao papel de enganar a si mesmas e a tentar negar a realidade social em que vivemos hoje, em especial nos países pobres. Em suma, o que fica claro é que a avareza (que não é nada mais nada menos que a maximização do auto-interesse) é estimulada pela divisão de um ser — o humano — que não pode ser fragmentado sem que as conseqüências disso lhe sejam prejudicais.

Objeto e alteridade  
Por ser uma patologia do Ter, a avareza é também uma patologia do objeto, uma patologia da coisa. Como já sabemos, ela se traduz pela negação de tudo aquilo que implica processo, fluxo, circulação. É uma inclinação para o enrijecimento, para a petrificação, um movimento em direção ao inanimado.

O avarento se sabe um funcionário da retenção. Mais ainda, percebe que não é capaz de fugir dessa armadilha, e por isso está a cada dia mais cheio de medos, sendo o maior deles, como logo veremos, o que tem de si próprio. Esse medo é a cada passo potencializado pela desconfiança. Já vimos que o avarento percebe que por mais que tente não conseguirá acumular e reter o que sua compulsão interna lhe impõe. Por isso, no fundo ele não confia em si próprio como agente da acumulação. Essa desconfiança alimenta o medo, que retroage sobre ela,  intensificando-a. E assim se fecha o círculo.


Por não poder tolerar essa pressão além de um certo limite, o avarento a projeta nos outros. É por meio dessa dinâmica que a avareza acaba sendo também uma patologia da alteridade, pois para o avarento tudo na vida parece resumir-se ao “meu” que ele opõe ao “não-meu”: “meu” dinheiro, “minha” casa, “minha” mulher, “minhas” crenças e assim por diante. Ao lado disso, como mencionei há pouco, jamais o abandona a compulsão de transformar o “não-meu” em “meu”, no menor tempo possível e com o menor esforço e gastos possíveis.

Em seus esforços para alcançar esse objetivo, o avarento passa ao largo de que cedo ou tarde suas ações acabarão destituindo os outros, privando-os   — muitas vezes totalmente — de seus haveres. Como para ele os valores humanos se reduzem ao valor dos bens e do dinheiro, acaba convencido de que quando despojado deles o ser humano deixa de existir, deixa de ter interesse, transforma-se num estorvo. Em conseqüência, precisa ser excluído. Portanto, a avareza é também uma patologia da inclusão social, o ponto extremo da patologia da alteridade. 

O avarento exclui o outro mesmo quando não consegue se apropriar de seus bens: em muitos casos descarta-o, porque teme que ele por sua vez seja também avarento e, nessa condição, possa aproximar-se e destituí-lo. Como resultado, transforma-se num solitário: sua única companhia é o dinheiro e os bens que conseguiu juntar e reter. Dado que vê as posses como um fim e não como um meio, aliena-se a elas e assim acaba dando-lhes mais valor do que a si próprio. Já não possui seus bens: é possuído por eles. Em seu afã de imobilizar, de reter, no fundo o avarento quer se livrar do diferente, da diversidade. Quer transformar tudo num valor único e padronizado — o valor econômico. Nesse empenho, descobre os princípios da estratégia que utilizará: padronizar para facilitar a dominação, controlar para melhor concentrar.

A avareza é muito mais do que o simples entesouramento de dinheiro, como fazia Ebenezer Scrooge, o personagem de Charles Dickens. Ser avarento significa não apenas vencer, mas sobretudo impedir que os outros façam o mesmo. Já vimos que essa forma de paranóia vem sendo chamada de “competitividade”. Em síntese, ela significa isso: pôr a competição predatória da exclusão no lugar da competência do conviver e achar que desse modo está sendo satisfeita uma crença basilar, que está sendo criado um valor fundamental.


Um exemplo é a frase atribuída a Andy Grove e muito utilizada no mundo das empresas: “Só os paranóicos sobreviverão”.23 Segundo essa visão de mundo, a “competitividade” é algo útil, louvável, meritório, algo que pode e deve ser exaltado e levado às últimas instâncias. Lembremos o anúncio da Time, há pouco mencionado. Ignora-se (ou finge-se ignorar) que essa compulsão paranóico-bucaneira orienta uma série de ações que hoje, no mundo inteiro, vêm gerando pelo menos duas sérias conseqüências: a exclusão social e a disseminação do medo de viver numa realidade que Viviane Forrester24 chama de “o horror econômico”. 

Essa autora sustenta que uma das dimensões básicas do ser humano — o trabalho — foi reduzida ao emprego. Em conseqüência, ter um emprego constituiu-se num determinismo que, na prática, controla as nossas vidas. Noutros termos, foram dados os seguintes passos: a) converter o trabalho em emprego (transformar o artesanal em industrial); b) apropriar-se dos empregos, concentrando-os e distribuindo-os segundo as conveniências dos apropriadores. Uma das principais estratégias usadas para conseguir isso tem sido diminuir o poder do Estado e concentrar a capacidade de gerar empregos na chamada economia de livre mercado. O resultado é muito conhecido: quanto mais livre se torna o mercado, menos livre fica a maioria dos cidadãos.

A visão de mundo artesanal não implica, é claro, uma rejeição à economia de mercado nem à produção em grande escala, de resto necessárias e até mesmo inevitáveis dentro de determinados limites. Seu significado é mais profundo e faz parte de vários referenciais importantes. Um deles é o pensamento do filósofo italiano Giambattista Vico (1668-1744), que introduziu o conceito de verum factum: o verdadeiro é o que eu faço, isto é, o meu mundo é o que construo no relacionamento cotidiano com o mundo em que vivo. 

Para tanto, é fundamental que eu esteja presente como pessoa (como trabalhador) e não me permita ficar alienado, transformado num instrumento (num empregado). O trabalhador participa, cria, diversifica. O empregado se conforma e repete. Um produz e o outro reproduz. Uma pessoa pode, é claro, trabalhar numa fábrica sem ser um autômato. Tudo depende de como ela é vista pela instituição que contrata os seus serviços. Sob o dito “socialismo real”, por exemplo, as pessoas eram consideradas simples (e descartáveis) meios de produção. É também assim que hoje as vê a “nova economia”.

O trabalho é um dos modos pelos quais o Ter e o Ser interagem e se equilibram. Reduzi-lo ao emprego significa transformar a diversidade humana (nossa visão artesanal do mundo, que nos orienta para o Ser sem prejuízo do Ter) num monocordismo, num martelar repetitivo, num viver concentracionário e tutelado. Essa é uma das principais características da visão de mundo industrial, que conduz as pessoas na direção exclusiva do Ter, afastando-as do Ser.

Uma das evidências de que essa situação é indesejável é que os países ricos agora fazem de tudo para livrar-se dela, exportando as indústrias (em especial as poluidoras) para os países mais pobres e reservando para si o setor de serviços. Isso significa que quando se diz (como hoje é comum) que estamos numa era de serviços, tal condição de nenhuma maneira se aplica à imensa massa dos excluídos da sociedade, que aliás estão também fora do modo de produção industrial. 

Da mesma maneira, quando surgem novas tecnologias médicas, novos métodos de diagnóstico e tratamento, etc., eles nem de longe estão à disposição de todas as classes sociais, como seria desejável e justo. Aqui, como em todos os demais âmbitos, a concentração de renda define, estabelece e mantém os privilégios. Nenhuma dessas circunstâncias pode ser entendida em profundidade sem que reformulemos nossa atitude habitual para com o outro. Passar a inclui-lo, em vez de vê-lo como um concorrente a eliminar, corresponde a trocar a competitividade pela competência. 

Tudo considerado, é possível dizer que as características fundamentais da avareza são: a) a exacerbação do controle, da previsão, da quantificação e da concentração; b) o conservadorismo e a repetitividade; c) a negação do aqui-e-agora, com a conseqüente projeção da vida para o futuro.

O ter e o futuro  
O avarento teme e evita o aqui-e-agora, pois como está mais voltado para o Ter do que para o Ser tende afastar-se de si mesmo. Não poderia ser de outro modo, aliás, pois ao longo do processo em que terminará por excluir a si próprio do mundo ele acaba se vendo como uma coisa. E então, coisa por coisa, prefere a “segurança” dos valores que acumulou a ter de lidar com a aleatoriedade da vida. Projeta o Ter no Ser e acaba excluindo este último. 

Essa projeção faz com que ele procure perder o contato consigo mesmo, isto é, que abandone a experiência vivida. Para evitá-la, nega o presente e se lança em direção ao futuro. Joga a experiência para a frente, porque ainda não se julga preparado para vivê-la: acha que ainda não acumulou o bastante para usufrui-la. Nesse sentido, a avareza é também uma patologia do porvir.

Mas esse “bastante” é para ele inatingível, e assim o avarento está sempre acumulando, sempre se preparando para uma fruição que jamais chega. Em última análise, trata-se de uma forma de negar a vida ou, como vimos, uma tentativa de controlar sua diversidade e suas incertezas. A vida é então trocada por uma “segurança”, que faz com que ela própria acabe sendo vista com ansiedade e suspeita. 

Sabemos que projetar os ganhos para o futuro, com o objetivo de acumular, é um dos princípios do capitalismo. O avarento apropria-se dele e o transforma em patologia. Adia a experiência do viver em troca dos prazos (sempre permeados de tensão e medo) necessários à acumulação. Prorroga a vida para um porvir no qual os ganhos de capital e demais benefícios do valor econômico permitirão a “realização”. Mas está convencido de que esse vir-a-ser não deve ser jamais alcançado, como desejam as pessoas que poupam parte do que ganham para mais tarde beneficiar-se. Do ponto de vista do avaro, o futuro não pode nem deve chegar: o que seria a vida, sem o infindável processo de captar, recolher, amealhar, concentrar?

Por todas essas razões ele se refugia num auto-exílio angustiado, ao abrigo do qual passa a negar quase tudo, em especial a si próprio. Não é difícil compreender o que o motiva. Para experienciar o aqui-e-agora, como acabamos de ver, é preciso que nos voltemos para dentro de nós mesmos, que nos auto-observemos com atenção, que estejamos ligados a nós próprios. O contato com a experiência nos leva em direção ao Ser, sem contudo negar o Ter, pois ambas as dimensões fazem parte da condição humana e por isso precisam ser consideradas em sua justa medida. Para o avarento, porém, isso é impossível: como observar uma subjetividade que, de tanto ser negada, acabou por quase desaparecer?

Para ele, as coisas são confiáveis porque não se movem, ou movem-se muito pouco e numa única direção — a do acúmulo. Procura assegurar-se disso mantendo-as sob controle, conservando-as sob sua custódia, enclausurando a dinâmica do Ser no cofre do Ter. E assim precisa continuar, porque o sólido e o pesado são em geral inertes e não costumam gerar grandes riscos e incertezas.

O universo da acumulação é também o do controle e da padronização. E tudo aquilo — em especial as pessoas — que não puder ser reduzido a essas dimensões precisa ser excluído. O diferente, o incerto, o imprevisível — ou seja, o criativo e o vivo — aterrorizam o avarento. Apavoram-no sobretudo as idéias novas, os fenômenos não-quantificáveis e a diversidade. Por isso, é preciso que ele imagine um mundo em que todos pensem sempre do mesmo modo e continuem sempre assim.

Tal estado de coisas lhe convém, dada a sua necessidade de prever as ações dos outros (que vê como adversários a serem eliminados por sua “competitividade”), suas estratégias, seus mínimos movimentos. “Afinal”, pensa, “nunca se sabe em que instante essa gente acabará vindo tentar tomar o que consegui juntar”. 

É por essas razões que aquilo que não se move — ou que se move de maneira repetitiva, de modo previsível — vale mais. É por isso que as coisas têm mais valor do que as pessoas. Coisas juntas, concentradas, homogeneizadas, conferem poder e tranqüilidade. Pessoas reunidas e pensando de modo diferente umas das outras trazem problemas — a não ser que consigamos controlá-las, bitolá-las, isto é, dar o máximo de valor possível aos homens-coisa e excluir ao máximo os homens-pessoa. Dessa forma, como é fácil concluir, a avareza é também uma patologia da autoridade, uma apologia do autoritarismo.

A escalada da padronização
O historiador Eric Hobsbawm25 observa que a estrutura fundamental da globalização do neoliberalismo é a área econômico-financeira e não a política. O centro de tudo é o dinheiro, e para apropriar-se dele e concentrá-lo é necessário homogeneizar as pessoas e seu cotidiano, o que se vem tentando por meio de esforços destinados a  apresentar o monoculturalismo como um valor ético e social.

No entanto, a bibliografia sobre a importância da biodiversidade e da diversidade cultural é extensa. É óbvio que a segunda está muito ligada à primeira, ao menos para quem não costuma se auto-enganar com a ilusão de que o homem não faz parte do mundo natural. 

Há muito que se sabe que a monocultura agrícola leva à aridez, ao empobrecimento do meio ambiente e, em conseqüência, é nociva aos seres vivos. Tal circunstância, convém insistir, vale para todas as áreas, desde a terra, o ar, a água, a vegetação nativa, as plantações, os animais, até o âmbito das sociedades humanas. A esse respeito — e para citar um autor brasileiro —, lembremos o clássico Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre26, publicado em 1933. Com base em pesquisas de campo e volumosa documentação, o sociólogo pernambucano sustenta — referindo-se em especial às vastas plantações de cana de açúcar no nordeste brasileiro, a partir do período colonial —, que não há nada de mais perturbador para o equilíbrio da natureza do que a monocultura. 

O ensaio de Freyre — que talvez seja o primeiro estudo interdisciplinar realizado no Brasil — demonstra toda a complexidade das inter-relações e repercussões do fenômeno monocultural, cujas lamentáveis conseqüências ambientais, biológicas, sócio-antropológicas, econômicas e políticas até hoje podem ser observadas no país.

Numa linha semelhante, Hobsbawm destaca que um dos maiores problemas do século 21 será definir até onde se pode ir, em termos de eliminação da diversidade das culturas humanas (o que em si é um processo concentracionário, e portanto ao mesmo tempo padronizador e excludente), sem provocar reações mais ou menos drásticas. Em outras palavras: determinar até onde é possível prosseguir com a estratégia de transformar as pessoas em clientes/investidores, descartando as que não puderem (ou não quiserem) adaptar-se a essa estandardização.

A padronização da educação como instrumento de imposição do monoculturalismo é um aspecto importante desse fenômeno. Um dos mecanismos mais eficazes para pôr em prática a exclusão de culturas que não têm “vantagens competitivas” (estágio preparatório para a “limpeza étnica” e a exclusão social) tem sido a educação padronizada, cujos resultados são avaliados por meio de testes tanbém padronizados. Dessa maneira, tudo se orienta para a imposição de uma visão de mundo única que, para satisfazer às suas conveniências, ignora a diversidade cultural. Como resultado, acabam sendo excluídas as pessoas (e não são poucas) que constroem seus mundos de maneira diferente, por meio de diferentes modos de percepção, interação e aprendizado. 

É dessa forma que se elaboram e se publicam relatos que supostamente constatam a “superioridade intelectual” de uma etnia sobre outras. Mas o óbvio quase não é dito. Não se esclarece, por exemplo, que esse tipo de avaliação — como quase sempre acontece — se faz por meio de critérios que representam de forma unilateral os pontos de vista, as finalidades e as necessidades dos avaliadores.

A conseqüência é que as pessoas avaliadas não o são por suas reais capacidades, mas sim pelo crivo desses critérios, os quais no entanto não são por sua vez avaliados. Criam-se então situações em que o empenho monoculturalista é financiado pelo modelo econômico ao qual ele serve, com o objetivo de dar-lhe credibilidade e perpetuá-lo. 

É útil relembrar pelo menos dois dos pilares sobre os quais se apóia  — e a partir dos quais é instrumentalizada — a situação em que vivemos hoje: a) o realismo ingênuo, isto é, o pressuposto de que o mundo é pré-dado em relação à experiência humana, e que portanto é o mesmo para todos e desse modo deve ser visto; b) a crença de que o ser humano é separado da natureza. 

Linhas atrás, vimos que este último pressuposto faz com que imaginemos que o mundo é uma imensa e inesgotável fonte de riquezas sempre ao nosso dispor, em relação às quais devemos assumir uma atitude extrativista, voraz e portanto avarenta: quem for mais esperto/forte/avaro extrairá mais. Tal postura estimula o individualismo e a idéia de que não há nenhum motivo para que ajudemos os mais pobres.

Os esforços para a implementação desses pressupostos nascem de duas vertentes principais: a) a educação (vertente formativa); e b) a ação da cultura, em especial os meios de comunicação (vertente mantenedora). Ignora-se, assim, que a competência (nos relacionamentos, no trabalho, nos negócios, na vida) não tem como ingrediente único a “competitividade”. 

Pelo contrário, a  competência inclui a “competitividade” e vai além dela. Ao fazer isso, procura corrigir-lhe as impropriedades e a transforma num fator de busca de uma qualidade de vida mais consistente com a realidade da existência humana — e não apenas com as exigências de um mercado muitas vezes orientado por patologias sociais que se reforçam mutuamente. Na prática, portanto, a competência é a expressão da circularidade que deve existir entre a competição e a cooperação.

No estado atual de nossas sociedades, os esforços dos meios de comunicação se concentram em nos fazer crer que por meio da poupança nosso futuro estará garantido, quando na verdade o que está garantido mesmo é o presente da avareza institucionalizada, que por meio da apropriação de pequenas rendas concentra e detém o poder. O que não quer dizer, em absoluto, que não devemos poupar. É claro que devemos. Mas é importante fazê-lo com uma nítida consciência da proporcionalidade entre meios e fins, ou seja, a consciência do que nossa própria acumulação nos pode proporcionar e do que ela representa num contexto mais amplo. 

Em outros termos: poupar tendo a consciência da relação entre a acumulação e a compaixão. É o maior ou menor equilíbrio dessas polaridades que determina o grau de avareza de cada um de nós. E é dele, é claro, que se origina a maior ou menor avareza de nossas culturas.

A esse respeito, Amartya Sen fala da “otimalidade de Pareto” (ou eficácia econômica), conceito que trago para este contexto como mais um exemplo da unilateralidade do sistema de pensamento que formata a mente de nossa cultura. Trata-se do princípio segundo o qual nenhuma pessoa pode melhorar seu estado sem que isso resulte na piora do estado de outro indivíduo.

Esse postulado, é claro, serve às mil maravilhas para justificar a competitividade vista como competição predatória e a exclusão social. Mas o que não se diz é que ele só serve para esse fim quando utilizado em termos de polarização, isto é, por meio do clássico modelo “ou isso ou aquilo”. Essa maneira de pensar a otimalidade dá a ela um status de validade absoluta e, em conseqüência, ajuda a levar às últimas instâncias o exercício da avareza como norma de vida. 

No entanto, se utilizarmos um modo de pensamento mais abrangente, chegaremos ao óbvio: se os mais ricos renunciarem a um pouco de sua riqueza (por exemplo, via impostos, com combate simultâneo à sonegação e à corrupção para assegurar a sua correta aplicação) em benefício dos mais pobres, o princípio da eficácia econômica se mantém — mas aí já não só determinado pela visão pendular e utilitarista.

O que significa, é claro, que o problema não é a otimalidade em si, mas o modo como ela é vista e posta em prática. Essa é, no fundo, a diferença entre “competitividade” e competência. O que chamo de competência é o que alguns economistas denominam, em seu jargão, de “suplementação da otimalidade de Pareto pela distributividade”. Em termos mais claros: justiça social pela diminuição da concentração de renda. Para consegui-la, Sen considera indispensável a aproximação entre a ética e a economia, de modo que ambas interajam e se fertilizem entre si. Entre os frutos dessa fertilização estaria, claro, a diminuição da avareza.

Mas não imaginemos que as coisas são assim tão simples. Não se pode deixar de lembrar que as possíveis tentativas de solução que têm sido propostas são elaboradas pelo modelo mental simplificador, o qual propõe soluções binárias para problemas multidimensionais. Não se pode atenuar a avareza a partir do mesmo modelo mental que a produz e perpetua. Digamos a mesma coisa de outra maneira, utilizando as palavras de Sen:

"A concentração no que se denominou (...) o aspecto da 'engenharia' na economia tendeu a andar lado a lado com a adoção de uma visão muito restrita da ética. Pode-se dizer que o critério utilitarista e também o da eficiência de Pareto foram atrativos em especial por não exigirem demais da imaginação do economista tradicional."27 

Nada disso, porém, interessa ao avarento, pois já vimos que ele subverte a própria  natureza do capitalismo e assim, em última análise, não são o capital e seus benefícios que lhe interessam. Para ele o que importa é a atitude de concentrar — o acúmulo como um fim em si. Não se trata apenas de acumular haveres: trata-se de fruir a concentração como projeto de vida e de venerar a avidez e a insaciabilidade. Elas são, em si mesmas, o benefício.

Ao ser possuído pelos bens e pelo dinheiro, o avarento se transforma num manipulador compulsivo de símbolos abstratos, e com isso acaba se reduzindo a mais uma cifra entre as tantas que conseguiu estocar. Nesse momento, nem sequer é  mais um homem-coisa: é um fantasma de si mesmo. Passa a fazer parte do universo das pessoas perplexas diante das incertezas do mundo real, que reagem tentando escapar da responsabilidade de ter de lidar com elas. Eis a essência da alienação.


Vimos que a experiência do Ter implica controlar, prever,  ter “certezas”. Já a experiência do Ser significa abertura, convivência com a incerteza. Controlar equivale a imobilizar, a isolar. Conviver significa experienciar, o que por sua vez implica deixar fluir, observar participando, estar atento. O Ter se volta para a coisa. O Ser se orienta para o processo. São duas vivências fundamentais. Como já sabemos, cada uma delas se tomada de modo isolado revela-se necessária —  mas não suficiente — para nos capacitar a lidar com a complexidade do mundo e com a nossa própria.


A conclusão é óbvia (e por isso mesmo tão difícil de perceber): precisamos das duas.
Precisamos aprender a complementá-las, a equilibrá-las. A relação entre elas deve ser de inclusão mútua, jamais de exclusão. É essa circularidade que precisamos aprender a exercer, mas é isso que temos mais dificuldade para fazer. Por enquanto, voltamo-nos para um lado só — e quanto mais o fazemos mais somos levados à repetição.


Os dilemas da política
Por todas essas razões é possível afirmar que hoje, mais do que nunca, estamos em plena Era da Avareza. Atravessamos uma situação em que se digladiam essas duas grandes dimensões que já conhecemos: a da coisa e a do processo, isto é, o Ter e o Ser. Trata-se, como já vimos, de uma luta sem sentido, pois a exclusão de uma delas em prejuízo da outra dificulta nossa interação com o  mundo real. 

É o que acontece quando as pessoas estão voltadas demais para o objetivo, para o concreto (o que leva, no exagero, à avareza) ou quando elas estão demasiadamente orientadas para o experiencial, o sensualismo (o que leva, no limite, à prodigalidade). Como em nossa cultura essas tendências se manifestam de maneira predominante em termos econômicos, pode-se complementar as idéias de Amartya Sen a esse respeito, e dizer que na Era da Avareza a economia “engenheira” (o universo do Ter) está separada da ética (o universo do Ser).

A conseqüência mais clara dessa situação foi que tanto os “mais aptos” (ou “fortes”) quanto os “menos aptos” (ou “fracos”) saíram perdendo. Há muita renda concentrada, mas também há muito sobressalto, muita desconfiança, muito medo, muita paranóia. Essa é a principal façanha da “competitividade”: debilitou a ética prática e tornou muito limitada, muito rasteira, a qualidade do pensamento econômico. Este, como já sabemos, mostra-se orientado pela  unilateralidade do modelo mental parcelar, que por sua vez leva ao imediatismo e à perda da noção da proporcionalidade entre meios e fins, há pouco mencionada. O que não chega a ser nenhuma novidade: Aristóteles já havia observado que “a vida empenhada no ganho é uma vida imposta e, é claro, a riqueza não é o bem que buscamos, sendo ele apenas útil no interesse de outra coisa”.28

Quando fala em “vida imposta”, o filósofo quer dizer que a avareza comanda o nosso viver, isto é, tolhe a nossa liberdade. Amartya Sen diz o mesmo, ao afirmar que a economia voltada apenas para a logística atrasa o desenvolvimento. Quando baseado apenas em parâmetros como o crescimento do PIB ou a industrialização (variáveis que ligadas ao universo do Ter), o desenvolvimento se reduz aos critérios da avareza, porque deixa de lado variáveis como as liberdades políticas e sociais, a educação, os anseios de auto-realização das pessoas, o saneamento básico, a extensão e qualidade da assistência médica e assim por diante.29 

Estes últimos parâmetros são muito ligados ao Ser, pois permitem uma qualidade de vida que, além de ajudar na manutenção das necessidades fundamentais, proporciona às pessoas oportunidades de pensar com suas próprias cabeças e fazer escolhas que as levem a construir seus mundos tanto quanto possível fora da alienação. Não é nada disso que vivemos hoje em dia. Falta-nos a compreensão de que a avaliação do desenvolvimento econômico deve basear-se tanto nos critérios do Ter quanto nos do Ser.

Torna-se claro, pois, que se ampliada em termos de Ter e Ser, como proponho, a percepção de Sen pode ser estendida a quase qualquer área da atividade humana. O âmbito da assistência médica é um exemplo. Não é novidade para ninguém que entre os médicos e os pacientes intrometeu-se uma gigantesca estrutura tecnoburocrática, representada pelos chamados “planos de saúde”.

A medicina atual transformou-se num frio e tenso diálogo entre a doença e a economia logística. De um lado está o médico, cada vez mais reduzido à condição de mão de obra barata, cujas atividades profissionais são vigiadas e controladas; na outra parte fica o paciente, relegado à posição de contribuinte, sempre pressionado por ameaças de supressão de benefícios e aumento de desembolsos. 


Tem-se, portanto, uma medicina predominantemente “engenheira”, para utilizar mais uma vez a terminologia de Sen. É óbvio que as considerações sobre ética também se aplicam aqui. Analisei em outro lugar30 estes e outros aspectos desse mecanicismo, que — convém deixar claro —, se por um lado é necessário por outro não é suficiente para lidar com as necessidades globais das pessoas. 


Eis alguns do muitos — e bem conhecidos — resultados da avareza, no âmbito planetário atual: a) a progressiva deterioração dos hábitos comunitários e associativos; b)
o progressivo abandono de formas de convivência capazes de contrabalançar o individualismo agressivo e predatório; c) a crescente erosão das conexões sociais; d) o desprestígio da idéia de um Estado em que haja lugar para a assistência (não o assistencialismo) e a compaixão; e) a reificação da condição humana e de suas manifestações; f) a diminuição, em todos os níveis, da solidariedade e da lealdade; g) o monoculturalismo, implantado e mantido pelo marketing e pela educação orientada para a quantificação e a homogeneização.

Como nota Hobsbawm, nos dias de hoje nosso grande problema é garantir a sobrevivência dos excluídos por uma economia capaz de produzir cada vez mais com cada vez menos pessoas. A questão da produção — diz ele — já foi resolvida. Nunca se produziu tanto. A grande dificuldade é como distribuir a riqueza produzida, numa época em que — digo eu — a avareza reina, globalizada e triunfal. 

Sabemos que o Estado é a instituição que tem mais condições de contrabalançar a avareza, e portanto de ser um agente eficaz de distribuição de renda. Mas nos últimos tempos ele vem sendo posto em xeque (com razão, em alguns casos, mas nem sempre) pela ordem econômica hoje prevalente. Se, como consideram Hobsbawm e muitos outros, as funções econômicas do Estado já não têm a importância de outros tempos, seu papel de agente desconcentrador de renda  continua não superado. Mas como conciliar essa circunstância com a mentalidade avara predominante?

As soluções propostas têm sempre um componente político destacado e é importante que assim seja. Mas há problemas também nessa área. O próprio Hobsbawm diz que tem dúvidas sobre o futuro da política. Com efeito, é notória a apatia das populações em relação à política em geral e ao processo eleitoral em particular. É o que revelam os altos índices de abstenção de voto, mesmo em países onde ele é obrigatório, a começar pelos mais ricos.

Em poucas dimensões da vida humana o modelo mental simplificador se instalou e se acomodou de maneira tão confortável quanto na política e nas ideologias. Como resultado, o processo político vem se afastando cada vez mais daquilo de que mais precisa: a reflexão — em especial no que se refere à noção da importância e da legitimidade humana do outro.

A meu ver, essa situação constitui uma das principais dificuldades que a política vem enfrentando nos dias atuais. O declínio da ação política é ao mesmo tempo efeito e causa da mentalidade aquisitiva e concentradora, do consumismo — da avareza, enfim. A interação dos mecanismos é sempre a mesma: a simplificação alimenta o maniqueísmo, que alimenta a simplificação e assim por diante. Essa circularidade é alienante, na medida em que o furor aquisitivo e concentrador afasta as pessoas da ação política. Por isso, a avareza é também uma patologia da cidadania.

Voltemos às propostas de solução. Todas elas têm uma limitação fundamental: partem do princípio de que não há nada de errado com o modelo mental dominante em nossa cultura, isto é, com o sistema de pensamento, excludente e de causalidade imediata que recorta o todo e imagina poder pensá-lo apenas por meio de fragmentos isolados. Imagina-se que tal modelo seja capaz de produzir idéias que resolvam problemas criados por ele mesmo. 

Há muito anos, Albert Einstein disse que nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou. Há muitos séculos, Platão já denunciava a limitação básica do modelo mental parcelar: “Separar cada coisa de todas as demais é a maneira mais radical de reduzir a nada todo o raciocínio. Pois o raciocínio e a conversa nasceram em nós pela combinação das formas entre si”.31 

Ainda assim, continuamos acreditando que é possível resolver nossos grandes problemas por meio de um sistema de pensamento que privilegia o imediatismo, o materialismo e o recorte. É com esse padrão paroquial que pretendemos solucionar questões planetárias. Por seu intermédio, imaginamos que seremos capazes de gerar idéias que possam provocar mudanças amplas e profundas. 

Pior ainda: estamos convencidos de que ele representa a única maneira possível de pensar. Recusamo-nos a sequer imaginar a possibilidade de alternativas — e é isso que nos torna prisioneiros dessa armadilha, que é a pior de quantas há, pois é reforçada por quase tudo o que se diz, se escreve e se publica em nossa cultura. É como se esse condicionamento estivesse gravado a ferro em brasa em nossas mentes, implantando nelas uma cicatriz dificílima de remover. Recusamos como “utópicas” as tentativas de mostrar que há outros modos de ver o mundo, vivenciá-lo e falar sobre ele. Esse é o seu efeito mais deletério: virtualmente incapacita-nos de pensar, a não ser de um único modo.

E.F. Schumacher32 diz que a vida humana é um diálogo que travamos com o meio ambiente. Questionamos o universo por meio de nossas ações e, a depender delas, as respostas serão mínimas, medianas ou graves, não raro chegando à violência. É por meio dessas respostas que o universo nos informa de que modo nossas ações são adequadas às suas leis.

Tais ações, é claro, dependem de como vemos o mundo, isto é, do modo como o pensamos e interagimos com ele. Para Schumacher, é uma questão de determinar quais são as nossas necessidades. Uma civilização voltada quase que só para o progresso material desenvolverá uma ciência e uma tecnologia que, por seu turno, produzirão um modo de vida cada vez mais exigente em relação ao mundo natural. Um modo de vida explorador e extrativista, como foi mostrado nestas páginas. Essa cultura criará uma civilização intervencionista, imperial, que visará o controle, a previsão e a quantificação — uma civilização em tudo adequada à avareza e por ela orientada. Essa é, como todos sabem, a nossa situação nos dias atuais.

Mas há pessoas que só se impressionam com números. É pensando nelas que passo as seguintes informações, relativas a alguns dos resultados da globalização: a) nos dias atuais, 1,3 bilhão de seres humanos está abaixo da linha de miséria. Essa população constitui mais de um quinto da população do globo e sobrevive com menos de US$ 2 por dia; b)  apenas um quinto da população mundial possui 86% das riquezas da Terra; c) só 10% da população produzem e consomem mais de 70% dos bens e serviços do planeta.33

Muitos não ignoram nada isso, mas na maioria dos casos trata-se de um entendimento apenas intelectual — um saber que não transforma. O mais comum é que estejamos sempre na defensiva em relação a essas evidências. Resistimos às formas de pensar que contestam os nossos condicionamentos e as julgamos segundo os pressupostos desses mesmos condicionamentos.

Por isso as rejeitamos antes que elas tenham oportunidade de se apresentar por inteiro. Tentamos desqualificá-las logo de saída, como costumamos fazer com tudo o que nos incomoda. No fundo, temos medo delas. Preferimos confiar naquilo que nos manipula, no que nos transforma num rebanho e nos mantém alienados. Trancamo-nos num ceticismo cuja irracionalidade fica tanto mais evidente quanto mais o chamamos de “racional”. Continuamos a ver o que estamos condicionados para ver. Transformamo-nos em verdadeiros virtuoses do auto-engano.

Entretanto, é inegável que houve mudanças positivas no mundo, em especial no século 20. Mas os efeitos colaterais danosos da visão mecanicista mostram que o outro lado da moeda é também significativo. Como disse Hobsbawm, o século 20 foi ao mesmo tempo o melhor e o pior dos séculos. De qualquer maneira, as melhorias conseguidas poderiam ter produzido muito  menos efeitos colaterais, ou seja, seu preço não precisaria ter sido tão alto. A própria escalada da avareza — milenar, é claro, mas hoje incomensurável — é uma evidência disso. E ela não diminuirá enquanto não houver, em âmbito planetário, uma mudança significativa de modelo mental, isto é, enquanto não ocorrer uma reforma significativa do sistema de pensamento hoje dominante.

Essa reforma se revela ainda mais indispensável quando relembramos dois pontos fundamentais: a) em que pesem suas inúmeras limitações e distorções, a ação política continua sendo uma manifestação de preocupação com o outro; b) a alienação é um componente da inconsciência e, assim, um passo importante na direção da exclusão social.

Há outro ângulo da questão política, que pode fornecer mais alguns dados esclarecedores. Como foi dito acima, é notória a apatia de populações inteiras diante do processo político, em especial a política partidária. A manipulação das eleições pelas pesquisas de opinião pública, veiculadas pelos meios de comunicação, contribuiu muito para disseminar essa situação. As pessoas estão se acostumando a acreditar que, vença quem vencer, os resultados práticos são previsíveis. Existe uma relação entre esse fenômeno, algumas situações históricas e certas concepções de política e economia. Um exemplo clássico é a chamada “tese de Lee”, atribuída a um antigo primeiro ministro de Cingapura, Lee Yuan Yew, segundo a qual suprimir os direitos políticos e civis do governados favorece o desenvolvimento econômico.34

Convém lembrar que essa tese faz parte da estratégia de inúmeros regimes autoritários — tanto anteriores como posteriores a ela — e tem a ver com o pressuposto de que o povo é ignorante e, portanto, sua atuação política e o fato de ele poder exercer direitos civis são fatores de atraso econômico e social. Esse fenômeno é muito revelador. 

Com efeito, a observação dos fatos históricos mostra que em muitos casos as elites econômicas projetam inconscientemente sua própria ignorância sobre as populações mais pobres. Em outras circunstâncias, também freqüentes (e sem que seja descartada essa projeção), pode tratar-se de uma estratégia de produção e manutenção da ignorância coletiva, cujo objetivo principal é perpetuar a alienação. Para tanto, como é bem sabido, os meios de comunicação (em especial a televisão) desempenham um papel de destaque. Essas circunstâncias reforçam minha conclusão de que a avareza é uma patologia da autoridade.

Há também outra situação, não menos importante e esclarecedora. Como se sabe, cresce nas populações a crença de que os políticos são todos iguais. Embora, é claro, não deva ser generalizada, essa percepção é até certo ponto válida. De fato, é inegável que em muitos casos o próprio comportamento dos políticos se encarrega dessa validação. Contudo, as raízes mais profundas do fenômeno quase nunca são expostas, de modo que convém mostrar pelo menos uma delas.

Quando dizemos que os políticos são todos iguais, esquecemo-nos de acrescentar um detalhe: se assim é, eles são todos iguais a nós, que os elegemos. Com poucas (e aos poucos crescentes) exceções, somos todos mais ou menos inconscientes de nossa realidade, tanto a interna quanto a externa. Estamos todos mais ou menos ausentes às nossas próprias vidas. Nossos condicionamentos não nos permitem perceber com clareza que não somos separados uns dos outros nem do mundo natural, e que portanto somos responsáveis por tudo o que fazemos, tanto em relação aos nossos semelhantes quanto no que se refere ao meio ambiente. 

Do mesmo modo que nós, muitos dos políticos que elegemos não sabem disso — e em muitos casos é por esse motivo que são eleitos. Se tivessem noção das relações entre as partes e o todo, se fossem capazes de pensar com abrangência, se fossem menos alienados, enfim, não seriam com tanta facilidade vitoriosos em suas campanhas eleitorais. Aliás, nem mesmo obteriam, nas convenções partidárias, os votos necessários para se lançarem como candidatos, pois não encontrariam quem financiasse suas campanhas.


Tudo isso visto, façamos uma última pergunta: afinal de contas quem é, ou melhor, quem são os avarentos? Quem é que com tanto entusiasmo participa da atual escalada da avareza? A resposta é fácil: esses avarentos somos nós. Somos nós próprios, na medida em que — cada um à sua maneira e cada qual num determinado grau — achamos que é “racional” negar a legitimidade humana do outro e exclui-lo; pensar apenas em termos de partes isoladas do todo; fingir que o mundo real não existe e tentar posar de observadores não-participantes e “imparciais”. 

Enfim, somos avarentos na medida em que entramos e permanecemos nesse grande jogo, feito de reacionarismo, autocomplacência e ceticismo conveniente, que nos permite exercer um sem-número de  formas de auto-engano. Uma delas consiste em eleger representantes que pensam e agem do mesmo modo que nós e depois alegar que tudo o que ocorre de desagradável é culpa exclusiva deles.


N
otas  
1. FROMM, Erich. To have or to be? Nova York: Harper & Row, 1976.
2. MARIOTTI, Humberto, As paixões do ego: complexidade, política e solidariedade, São Paulo, Palas Athena, 2000, p. 71 e segs.
3. BOBBIO, Norberto. “A banalidade do apocalipse”. Entrevista ao jornal italiano (de Milão) 24 Ore, transcrita em CartaCapital (São Paulo), ano IV, No. 113, 22 de dezembro, 1999, p. 14.
4. Anúncio veiculado em Time (edição para a América Latina), 20 de novembro de 2000, entre as páginas 63  e 65.
5. Sobre esse modelo mental ver MARIOTTI, op. cit., p. 56 e segs.
6. MATURANA, Humberto, VARELA, Francisco. El árbol del conocimiento: las bases bioológicas del entendimiento humano, Santiago de Chile, Editorial Universitaria, 1992, p. 75.
7. MARGULIS, Lynn.  “Symbiosis and evolution”.  Scientific American 224 (2):48-57, 1971.
8. MARGULIS, Lynn. “A review:  Genetic and evolutionary consequences of symbiosis”.  Experimental Parasitology 39:277-349, 1976.
9. MARGULIS, Lynn. Symbiosis in cell evolution. San Francisco: Freeman, 1981.
10.
MARGULIS, Lynn. Five kingdoms. San Francisco: Feeman,1982.
11.
MARGULIS, Lynn.  "Early life:  The microbes have priority".  In Gaia:  A Way of Knowing.  Political Implications of the New Biology.  W. I. Thompson, ed. Great Barrington, MA: Lindisfarne Press, pp. 98-109, 1987.
12. MARGULIS, Lynn, FESTER, R., eds.  Symbiosis as a source of evolutionary innovation: speciation and morphogenesis. Cambridge, MA: MIT Press, xiii + 454 pp, 1991.
13. SAGAN, D., MARGULIS, Lynn.  "Bacterial bedfellows".  In Cooperation: beyond the age of competition.  [The World Futures General Evolution Studies, vol. 4].  A. Combs, ed. Philadelphia: Gordon and Breach, pp. 121-125, 1992.
14. MARGULIS, Lynn.  Symbiotic planet. A new look at evolution.  Basic Books. Nova York,  147 pp., 1998.
15. RIDLEY, Matt. As origens da virtude: um estudo biológico da solidariedade. Rio de Janeiro: Record, 2000.
16. AXELROD, Robert. “The emergence of cooperation among egoists”. American Political Science Review 75: 306-318, 1981.
17. AXELROD, Robert, HAMILTON, William D. “The evolution of cooperation”. Science 211: 1390, 1396, 1981.
18.  AXELROD, Robert. The evolution of cooperation. Londres: Penguin Books, 1990.
19. MARIOTTI, Humberto. “Autopoiesis, culture, and society". www.oikos.org/maten.htm 
20. MARIOTTI, Humberto. “Competitividade e violência estrutural”. In ESTEVES, Sérgio A.P., Org. O dragão e a borboleta: sustentabilidade e responsabilidade social nos negócios. São Paulo: Axis Mundi/AMCE, 2000, pp. 265-282.
21. “U.N. Sees Rise in Mental Disorders in Coming Decades”. New York Times, 11.01.2001.
22. SEN, Amartya. Sobre ética e economia, São Paulo, Companhia das Letras, 1999, p. 33 (nota).
23. WOOD JR., Thomaz. “Caráter Corroído”. CartaCapital, ano VII, No. 137, 2000, p. 84.
24. FORRESTER, Viviane. L’horreur économique. Paris: Fayard, 1996.
25. HOBSBAWM, Eric. O novo século: entrevista a Antonio Polito. São Paulo; Companhia das Letras, 2000, p. 75 e segs.
26. FREYRE, Gilberto. Casa grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1987, p. 34, passim.
27. SEN, 1999, op. cit., p. 66.
28. ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, I. 1-I.5. 
29. Para um estudo profundo e original das relações entre desenvolvimento e liberdade, ver SEN, Amartya, Desenvolvimento como liberdade, São Paulo, Companhia das Letras, 2000. Embora o autor não utilize essa terminologia, seu estudo trata das múltiplas relações entre o Ter e o Ser e as explica de um modo muito claro em termos econômicos, filosóficos e sociais. A maioria das citações de Sen, neste texto, foi retirada dessa obra.
30. MARIOTTI, 2000, op. cit., p.260 e segs.
31. PLATÃO, Sofista, 259e.
32 . SCHUMACHER, E.F. This I believe and other essays. Dartington Totnes: Green Books, 1998, p. 208 e segs.
33. “Porto Alegre x Davos: Eles, o Povo”. República, No. 52, fevereiro de 2001, pp. 48-54.
34. SEN, 2000, op. cit., p. 30. 


© Humberto Mariotti, 2001.


* HUMBERTO MARIOTTI.
Professor e Coordenador do Centro de Desenvolvimento de Lideranças da Business School São Paulo.
Consultor em desenvolvimento pessoal e organizacional. Conferencista nacional e internacional. Coordenador do Núcleo de Estudos de Gestão da Complexidade da Business School São Paulo.

E-mail: [email protected]

 


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