AUTOPOIESE, CULTURA E SOCIEDADE
Humberto Mariotti *
A noção de
autopoiese já ultrapassou em muito o domínio da biologia. Hoje, ela é utilizada em
campos tão diversos como a sociologia, a psicoterapia, a administração, a antropologia,
a cultura organizacional e muitos outros. Essa circunstância transformou-a num importante
instrumento de investigação da realidade.
Há tempos,
seus criadores, os cientistas chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela, propuseram a
seguinte questão: até que ponto a fenomenologia social pode ser considerada uma
fenomenologia biológica? Este ensaio procura respondê-la, ou pelo menos encaminhá-la.
Antes disso, porém, é necessário resumir alguns dos conceitos básicos desenvolvidos
por esses dois autores.
Autopoiese
Poiesis é
um termo grego que significa produção. Autopoiese quer dizer autoprodução. A palavra
surgiu pela primeira vez na literatura internacional em 1974, num artigo publicado por
Varela, Maturana e Uribe, para definir os seres vivos como sistemas que produzem
continuamente a si mesmos. Esses sistemas são autopoiéticos por definição, porque
recompõem, de maneira incessante, os seus componentes desgastados. Pode-se concluir, portanto, que
um sistema autopoiético é ao mesmo tempo produtor e produto.
Para Maturana,
o termo "autopoiese" traduz o que ele chamou de "centro da dinâmica
constitutiva dos seres vivos". Para exercê-la de modo autônomo, eles precisam
recorrer a recursos do meio ambiente. Em outros termos, são ao mesmo tempo autônomos e
dependentes. Trata-se, pois, de um paradoxo. Essa
condição paradoxal não pode ser bem entendida pelo pensamento linear, para o
qual tudo se reduz à binariedade do sim/não, do ou/ou. Diante de seres vivos, coisas ou
eventos, o raciocínio linear analisa as partes separadas, sem empenhar-se na busca das
relações dinâmicas entre elas. O paradoxo autonomia-dependência dos sistemas vivos é
melhor compreendido por um sistema de pensamento que englobe o raciocínio sistêmico (que
examina as relações dinâmicas entre as partes) e o linear. Eis o pensamento complexo,
modelo proposto por Edgar Morin.
Maturana e
Varela utilizaram uma metáfora didática para falar dos sistemas autopoiéticos que vale
a pena reproduzir aqui. Para eles, trata-se de máquinas que produzem a si próprias.
Nenhuma outra espécie de máquina é capaz de fazer isso: todas elas produzem sempre algo
diferente de si mesmas. Sendo os sistemas autopoiéticos a um só tempo produtores e
produtos, pode-se também dizer que eles são circulares, ou seja, funcionam em termos de
circularidade produtiva. Para Maturana, enquanto não entendermos o caráter sistêmico da
célula, não conseguiremos compreender os organismos.
Reafirmo que
esse entendimento só pode ser bem proporcionado por meio do pensamento
complexo. No entanto, vivemos em uma cultura formatada pelo pensamento
linear. Esse fato tem resultado em conseqüências importantes, algumas delas muito
graves, como veremos a seguir.
Estrutura,
organização e determinismo estrutural
Segundo
Maturana e Varela, os seres vivos são determinados por sua estrutura. O que nos acontece
num determinado instante depende de nossa estrutura nesse instante. A esse conceito, eles
chamam de determinismo estrutural.
A estrutura de um sistema é a maneira como seus
componentes interconectados interagem sem que mude a organização. Vejamos um exemplo
simples, referente a um sistema não-vivo uma mesa. Ela pode ter seus pés
encurtados, alongados ou reposicionados e seu tampo mudado de retangular para circular,
sem que isso interfira na sua configuração. O sistema continuará sendo identificado
como mesa (isto é, manterá a sua organização), apesar dessas modificações
estruturais.
No entanto, se desarticularmos os pés e o tampo e os afastarmos, o sistema
se desorganizará e deixará de ser uma mesa. Dizemos então que ele se extinguiu. Da
mesma forma, num sistema vivo a estrutura muda o tempo todo, o que mostra que ele se
adapta às modificações do ambiente, que também são contínuas. Mas a perda da
organização (a desarticulação) causaria a sua morte.
A
organização é a determinante de definição e a estrutura a determinante operacional. A
primeira identifica o sistema, diz como ele está configurado. A segunda mostra como as
partes interagem para que ele funcione. O momento em que um sistema se desorganiza é o
limite de sua tolerância às mudanças estruturais.
O fato de os
sistemas vivos estarem submetidos ao determinismo estrutural não significa que eles sejam
previsíveis. Em outras palavras, eles são determinados, mas isso não quer dizer que
sejam predeterminados. Com efeito, se sua estrutura muda sempre e em congruência
com as modificações aleatórias do meio, não é possível falar em predeterminação e
sim em circularidade. Para evitar dúvidas sobre esse ponto, basta ter sempre em mente
este detalhe: aquilo que acontece em um sistema num dado momento depende de sua estrutura
nesse momento.
O mundo em que
vivemos é o que construímos a partir de nossas percepções, e é nossa estrutura que
permite essas percepções. Por conseguinte, nosso mundo é a nossa visão de mundo. Se a
realidade que percebemos depende da nossa estrutura que é individual ,
existem tantas realidades quantas pessoas percebedoras.
Eis por que o
chamado conhecimento só objetivo é inviável: o observador não é separado dos
fenômenos que observa. Se somos determinados pelo modo como se interligam e funcionam as
partes de que somos feitos (ou seja, pela nossa estrutura), o ambiente só desencadeia em
nós o que essa estrutura permite. Um gato percebe o mundo e interage com ele de acordo
com sua estrutura de gato, jamais com uma configuração que não tem, como a de um ser
humano, por exemplo. Não vemos um rato da mesma forma que o vê um gato.
Assim, não
podemos afirmar que existe a objetividade da qual tanto nos orgulhamos. Para Maturana,
quando alguém diz que está sendo objetivo, na realidade está afirmando que tem acesso a
uma forma privilegiada de ver o mundo e que esse privilégio lhe confere alguma
autoridade, que pressupõe a submissão de quem não é objetivo. Essa é uma das bases da
chamada argumentação lógica.
Nossos
condicionamentos nos levaram a ver o mundo como um objeto. Imaginamos que estamos
separados dele. E vamos mais longe: por meio do ego, achamos que somos observadores
afastados até de nós mesmos. Para que possamos exercer essa suposta objetividade, é
necessário que estabeleçamos uma fronteira, uma divisão entre o ego e o mundo e também
entre o ego e o restante de nossa totalidade. Dessa forma, dividimo-nos. E se nos tornamos
divididos, o mesmo acontecerá ao nosso conhecimento, que por isso resultará limitado.
Eis o que
conseguimos, com nossa pretensa objetividade: uma visão de mundo fragmentada e restrita.
É a partir dela que nos imaginamos autorizados a julgar e condenar a
"não-objetividade" e a "intuitividade" de quem não concorda conosco.
Em outras palavras, a partir de uma visão dividida e limitada, pretendemos chegar à
verdade e mostrá-la aos outros uma verdade que julgamos ser a mesma para
todos.
O
acoplamento estrutural
Maturana e
Varela observam que o sistema vivo e o meio em que ele vive se modificam de forma
congruente. Na sua comparação, o pé está sempre se ajustando ao sapato e vice-versa.
É uma boa maneira de dizer que o meio produz mudanças na estrutura dos sistemas, que por
sua vez agem sobre ele, alterando-o, numa relação circular. A esse fenômeno, eles deram
o nome de acoplamento estrutural. Quando um organismo influencia outro, este replica
influindo sobre o primeiro. Ou seja, desenvolve uma conduta compensatória. O primeiro
organismo, por sua vez, dá a tréplica, voltando a influenciar o segundo, que por seu
turno retruca e assim por diante, enquanto os dois continuarem em acoplamento.
Mesmo sabendo
que cada sistema vivo é determinado a partir de sua estrutura interna, é importante
entender que quando um sistema está em acoplamento com outro, num dado momento dessa
inter-relação a conduta de um é sempre fonte de respostas compensatórias por parte do
outro. Trata-se, pois, de eventos transacionais e recorrentes. Sempre que um sistema
influencia outro, este passa por uma mudança de estrutura, por uma deformação. Ao
replicar, o influenciado dá ao primeiro uma interpretação de como percebeu essa
deformação. Estabelece-se portanto um diálogo. Por outras palavras, forma-se um
contexto consensual, no qual os organismos acoplados interagem. Esse interagir é um
domínio lingüístico.
Posto de outra
forma, nesse âmbito transacional o comportamento de cada organismo corresponde a uma
descrição do comportamento do outro: cada um "conta" ao outro como recebeu e
interpretou a sua ação. É por isso que se pode dizer que não há competição entre os
sistemas naturais. O que existe é cooperação. No entanto, quando à natureza se junta a
cultura como no caso dos seres humanos , as coisas mudam.
Reafirmo que
não existe competição (no sentido predatório do termo) entre os seres vivos
não-humanos. Quando o homem chama determinados animais de predadores está
antropomorfizando-os, ou seja, projetando neles uma condição que lhe é peculiar. Como
não competem entre si, os sistema vivos não-humanos não "ditam" uns aos
outros normas de conduta. Mantidas as condições naturais, entre eles não há comandos
autoritários nem obediência irrestrita. Os seres vivos são sistemas autônomos, que
determinam o seu comportamento a partir de seus próprios referenciais, isto é, a partir
de como interpretam as influências que recebem do meio. Se tal não acontecesse, seriam
sistemas sujeitados, obedientes a determinações vindas de fora.
No caso das
sociedades humanas, em que as condições não são apenas as da natureza, é isso que o marketing e outros meios de condicionamento de massa tentam (e em boa parte dos
casos conseguem) fazer com populações inteiras. É, portanto, possível a produção em
grande escala de indivíduos sujeitados, embora para isso os estímulos condicionadores
precisem ser amplos e ininterruptos.
É o que o psicanalista Félix Guattari chama de
produção de subjetividade. Com essa noção ele introduz a idéia de uma subjetividade
industrial, fabricada, moldada pelo capitalismo. Trata-se da introdução de gigantescos
sistemas de formatação e condicionamento, por meio dos quais o capital (hoje em sua fase
de triunfalismo) constrói e mantém o seu imenso mercado de poder. É disso
mesmo que se trata: transformar em sujeitado um sujeito natural. Ou seja,
implantar e levar adiante a violência sobre a característica mais básica dos sistemas
vivos a autopoiese.
A noção de
que os sistemas são determinados por sua estrutura é de fundamental importância para
muitas áreas da atividade humana. Na psicoterapia, por exemplo, a transferência e a
contratransferência podem ser tomadas como manifestações de acoplamento estrutural, no
qual as modificações experimentadas pelo cliente são determinadas por sua estrutura.
Não podem, portanto, ser vistas como causadas ou produzidas pelo terapeuta. Por isso, é
importante ter sempre em mente que o domínio consensual resultante do acoplamento de
sistemas autopoiéticos é um contexto lingüístico mas não no sentido de mera
transmissão de informações de parte a parte.
A
extensão sociocultural
Maturana e
Varela observam que a teoria evolutiva de Darwin ultrapassou a simples diversidade dos
seres vivos e sua origem, e estendeu-se até a noção de cultura. Como se sabe, essa
proposta teórica põe ênfase nas dimensões espécie, aptidão e seleção natural.
Essas noções acabaram por servir de base ao darwinismo social, que é a utilização das
idéias darwinianas para justificar a competição predatória entre os homens. Trata-se,
portanto, de uma interpretação fundamentalista.
Na mesma
linha, passou-se a utilizar a idéia de transcendência para justificar a exclusão social
e outros fenômenos, como a escravidão e a dependência político-econômica. Por esse
ângulo, o indivíduo teria um valor ínfimo em relação à espécie. Em conseqüência,
deveria dar tudo de si (inclusive a própria vida) para a perpetuação da espécie
mas a recíproca nem sempre seria verdadeira.
A esse
respeito, os dois biólogos chamam atenção para os seguintes argumentos, que têm sido
aplicados às nossas sociedades: a) o que evolui é a humanidade, a espécie humana; b) de
acordo com a seleção natural, sobrevivem os mais aptos; c) os que não o fazem, em nada
contribuem para a história da espécie; c) a competição leva à evolução e isso vale
também para o ser humano. Em suma, o indivíduo deveria deixar que os fenômenos naturais
se desenrolassem e teria de permanecer passivo: tudo pelo bem comum.
Contudo, os
mesmos autores observam que esses argumentos não se sustentam quando se trata de
justificar a subordinação do indivíduo à espécie, porque a fenomenologia biológica
se dá no indivíduo e não na espécie. Não se sustentam, enfim, porque aqui a
fenomenologia biológica é a da parte, não a do todo. Se o modo de ser do indivíduo é
determinado por sua organização, que é autopoiética, não deveriam existir indivíduos
descartáveis, seja em relação à espécie, à sociedade, à humanidade ou a qualquer
outra instância, por mais transcendental que a consideremos.
Ordenações,
sociedades e indivíduos
No mundo
natural observam Maturana e Varela , há uma tendência para a constituição
de sistemas autopoiéticos de ordem superior (no sentido de mais complexos). Isso ocorre a
partir do acoplamento de unidades autopoiéticas de ordem mais simples para formar
organizações mais complexas. Nestas, observa-se o princípio da hierarquia dos sistemas:
um sistema está dentro de outro que lhe é superior; este, por sua vez, está contido em
outro que lhe é superior; e assim por diante. É o que ocorre nos organismos
multicelulares e, de acordo com os dois biólogos, talvez na própria célula.
A questão é
saber de que modo essa circunstância pode ser aplicável às sociedades humanas. Se o
conceito de autopoiese dos indivíduos for aplicado à organização social, esta pode ser
vista como um sistema autopoiético de primeira ordem. Nessa linha de raciocínio, a
autopoiese das pessoas seria subordinada à da sociedade, e assim seria eticamente
justificável o sacrifício dos indivíduos em favor desta. Nessas circunstâncias
argumentam Maturana e Varela , ficaria muito difícil para os seres humanos atuar
sobre a dinâmica autopoiética da sociedade da qual fazem parte.
Concordo com
esse argumento, e creio que é possível reforçá-lo com mais algumas considerações.
Para desenvolvê-las, permanecerei no âmbito da biologia. Sabemos que um sistema
autopoiético se autoproduz utilizando para isso recursos do ambiente. Para dar
continuidade a esse processo, um organismo humano, por exemplo, vai descartando suas
células mortas à medida em que se renova, isto é, à medida em que continua o seu
processo de autopoiese. Enquanto estiver vivo, porém, nenhuma unidade autopoiética
descarta quaisquer de seus componentes vivos: não há partes prescindíveis em sistemas
dessa natureza.
Em
conseqüência e sempre mantendo a argumentação no contexto biológico ,
uma sociedade só poderia ser vista como autopoiética se satisfizesse a autopoiese de
todos os seus indivíduos. Logo, uma sociedade que descarta indivíduos vivos enquanto
eles ainda estão vivos, e portanto atual ou potencialmente produtivos (por meio de
expedientes como produção de subjetividade, exclusão social, guerras, genocídios e
outras formas de violência), é automutiladora e portanto patológica.
Se o homem
fosse um ser apenas natural, sua autopoiese seria exercida como a dos demais
seres vivos. No entanto, o fato de ele ser também cultural faz com que a exerça de modo
diferente. Diferente e patológico, porque autoagressor. A cultura condiciona o
indivíduo, que por sua vez a realimenta com essa influência. E assim por diante, numa
circularidade em que não é possível pensar em termos de causalidade linear.
Por que isso
acontece? Sabemos que não há fenômenos de causa única no mundo natural, e este caso
não faz exceção. Ainda assim, pode-se afirmar que a principal causa dessa disfunção
é o sistema de pensamento predominante em nossa cultura patriarcal o pensamento
linear. Estamos condicionados por esse modelo mental, que estimula o
imediatismo e valoriza a competição predatória e a guerra. Essa é a principal razão
pela qual nossas sociedades são patológicas.
É importante
repetir: o que as torna assim não é a dimensão cultural em si, mas a espécie de
cultura sob a qual vivemos, na qual predomina a crença de que a competição é boa,
saudável e eticamente defensável. Sua tradução prática é a
"competitividade" a compulsão de não apenas vencer, mas também de
eliminar o outro, de levar às últimas conseqüências a agressividade, a implacabilidade
e o afã de excluir. Essa distorção funciona como motor de todas as demais, que refluem
sobre ela, e assim o círculo se realimenta de maneira incessante.
Todos nós
somos, em grau maior ou menor, influenciados pela unidimensionalidade do pensamento
linear, que nos leva a pensar que o lado mais agradável da vitória é derrotar alguém.
É o chamado jogo de soma zero: uma interação na qual para que um ganhe o outro tem
necessariamente de perder. Nesse clima, as pessoas, as coisas e os eventos não podem se
complementar: é sempre indispensável que algo seja removido e descartado e que seu lugar
seja reocupado. Essa situação pode até ser inevitável em casos específicos, mas não tem a abrangência que imaginamos.
De todo modo,
a idéia invariável do outro como adversário, como inimigo a exterminar, é uma das
marcas fundamentais da "competitividade" da nossa cultura. Por meio dela
e em especial no universo dos negócios e das empresas vivemos no cotidiano essa
paranóia. Trata-se de uma visão de mundo que exclui a possibilidade de que o outro possa
ser momentaneamente superado pela competência, mas preservado para ser capaz de por sua
vez aprender a vencer, isto é, aprender a ser competente. O ideal da
"competitividade", pelo contrário, é vencer de tal modo que o vitorioso seja
sempre o primeiro e o único como se pudéssemos existir sem os outros e, pior
ainda, como se pudéssemos ser os primeiros e únicos sem ser também os últimos.
Digamos a
mesma coisa de outra maneira. Há pouco, escrevi que no mundo natural não há
competitividade. O que há é competência. Como lembra Maturana, quando dois animais
estão diante do mesmo alimento e apenas um come, ele o faz porque naquele momento
foi o mais competente para tanto. Mas essa ação não implica que o que não comeu seja
daí por diante impedido de comer e acabe morrendo de fome. Isso não
acontece no mundo natural.
Entretanto,
quando as circunstâncias envolvem a cultura o que comeu não se satisfaz por ter-se
alimentado: precisa assegurar-se de que o que não comeu deixe de ser para ele uma
ameaça, porque se sente inseguro de sua própria competência. Ou seja, não confia em si
mesmo como ser vivo.
Portanto, precisa eliminar o outro. Mesmo assim insistamos no
que foi dito há pouco , isso não se deve ao fator cultural em si: ocorre de modo
mais visível em uma cultura como a nossa, que não sabe como lidar com a aleatoriedade, a
imprevisibilidade e as mudanças constantes. E estas, como sabemos, são a própria
essência da vida. Em outras palavras, não sabemos lidar com a autopoiese. E por não
sabermos precisamos agredi-la e, no limite, negá-la.
Nada disso,
é claro, invalida o conceito de autopoiese. Pelo contrário, sua eficácia para
ajudar a diagnosticar a autoagressão dos indivíduos e sociedades humanas apenas o
confirma e valoriza. Retomemos agora a questão de Maturana e Varela: até que ponto a
fenomenologia social pode ser considerada uma fenomenologia biológica? As reflexões
acima já a responderam: a fenomenologia social tal como a vivemos é biológica, sim
mas é patológica.
Valores e
desvalores
Acrescentemos
mais algumas reflexões. Martin Heidegger, entre outros, afirma que as pessoas têm a
tendência de se alienar para as coisas do mundo, o que faz com que se esqueçam do seu
Ser. Tal alienação faz com que elas se percam nas coisas (ou nos utensílios, na
terminologia do filósofo). Essa condição as leva a valorizar em excesso os objetos, a
desvalorizar a si próprios e, por extensão, a negar a humanidade de seus semelhantes. Em
outros termos, as pessoas passam a ver-se umas às outras como bens de comércio.
Nessa mesma
linha, nossa necessidade de transcendência é também desvirtuada. Consideremos a
questão da busca de valores espirituais que possam orientar e justificar a existência
humana. Em sociedades como as nossas, em que as pessoas são vistas como coisas, tais
valores tendem a ser idealizados demais, o que aumenta ainda mais a distância
entre eles e o homem comum.
Em conseqüência, tudo faremos para preservá-los, inclusive
desprezar cada vez mais a não-transcendentalidade dos nossos semelhantes. Estes, por sua
vez, respondem na mesma moeda. O psicólogo Emílio Romero tem uma frase reveladora a esse
respeito: "Não é fácil gostar de seres de carne e osso, simples mortais,
limitados, contraditórios, oscilantes, como todos nós. É mais fácil admirar ídolos
distantes, talvez protetores por sua majestade inalcançável".
Como mostra a
história, essa posição tem produzido resultados lamentáveis. Todos conhecemos
sociedades em que a acentuada inclinação para a espiritualidade produziu e produz
legiões de miseráveis. Por outro lado, sabemos que a excessiva tendência para a
materialidade produziu e produz as mesmas legiões de despossuídos. Ao que parece, o
excesso de não-linearidade de pensamento é tão nocivo para a autopoiese (isto é, para
vida) quanto o excesso de linearidade (ou seja, de racionalidade).
Como se nada
disso fosse bastante, um novo fenômeno surgiu e se consolida a olhos vistos. Falo da
superidealização do capital. Como se sabe, o dinheiro sempre foi o valor básico da
nossa cultura. Nos últimos tempos, porém, tornou-se muito fácil idealizá-lo ainda
mais. Isso se deve à ascensão do chamado "capital volátil", veiculado por
cifras intangíveis que circulam eletronicamente pelos mercados de todo o mundo. Essa
"transcendentalização" aumentada do capital vem acrescentando, de modo agora
vertiginoso, combustível à imensa fogueira na qual são queimados os excluídos da
sociedade os chamados "excedentes onerosos da dinâmica do mercado".
Essa
descartabilidade das pessoas que é a manifestação básica da patologia de nossa
cultura tende a aumentar cada vez mais com o passar do tempo. Por isso, uma
sociedade autopoiética não pode coexistir com o capitalismo de
competição predatória e de índole excludente que hoje predomina no mundo. O mesmo
vale, é claro, para o capitalismo de Estado, pelo menos o que se tem posto em prática
até agora, em regimes que não primam pelo respeito à diversidade de idéias. Se somos
determinados a partir de dentro, qualquer forma de autoritarismo é e sempre será uma
agressão.
Por fim, todas estas reflexões permitem
concluir que:
a.
A autopoiese, tal como proposta por Maturana e Varela, de
fato resolve o problema da fenomenologia biológica e a define com clareza.
b.
Sob esse ponto de vista, a fenomenologia social pode ser
considerada uma fenomenologia biológica, porque a sociedade é constituída de seres
vivos.
c.
No entanto a idéia de autopoiese, quando aplicada como
instrumento de análise, permite perceber que as sociedades atuais são automutiladoras e portanto patológicas.
d.
Grande parte dessa patologia se explica pelo fato de que a
mente de nossa cultura é formatada pelo pensamento linear, que propõe que as causas são
imediatamente anteriores aos efeitos ou estão muito próximas deles, e afirma que essas
relações ocorrem sempre no mesmo contexto de espaço e tempo.
e.
Esse modelo mental é necessário para entender e pôr em
prática as circunstâncias mecânicas da nossa vida (produção material, ingestão,
processamento, excreção e intercâmbio de bens tangíveis). Mas não é suficiente para
compreender e lidar com as dimensões que envolvem sentimentos e emoções.
f.
Dessa forma, o modelo mental linear é adequado para servir
de base à economia dita "de mercado", que subestima ou ignora as
dimensões não-mecânicas da existência humana. Por isso, ela cria cenários nos quais o
ser humano total (isto é, o homem complexo) é sempre dividido, utilizado e por fim e
descartado.
g.
Trata-se, pois, de uma super-simplificação da condição
humana, que tem a pretensão de resolver problemas sistêmicos, multidimensionais, por
meio de um modelo de pensamento linear e unidimensional.
h.
A partir daí formam-se sociedades mórbidas, que insistem
no desrespeito à autopoiese de seus componentes. São comunidades que se dizem em busca
de uma boa qualidade de vida. No entanto, a observação atenta mostra o que
na realidade
ocorre: essa qualidade, além de ser acessível a poucos, está passo a passo se
transformando no subproduto de uma indústria muito maior que começa pela
negação do humano e acaba na exclusão social e na morte.
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Cambridge, Massachusetts: The MIT Press, 1997.
©
Humberto Mariotti,
1999.
*
HUMBERTO MARIOTTI. Professor e Coordenador do Centro de
Desenvolvimento de Lideranças da Business School São Paulo. Consultor em
desenvolvimento pessoal e organizacional. Conferencista nacional e
internacional. Coordenador do Núcleo de Estudos de Gestão da Complexidade da
Business School São Paulo.
E-mail: [email protected]