


Março de 1963 / maio de 1970. Duas datas: na primeira, o LP Please please me, o primeiro; na segunda o disco de despedida, Let it be. No arco que une as duas, a corda da música popular permaneceu sempre tensa, em todo o mundo. Porque foi então que aconteceu a mágica dos Beatles.
Agora, quase tres décadas depois, todos continuam a olhar para trás com saudade.
O mais natural, é claro, é associar cada disco, cada faixa, a um determinado momento bom que ficou espetado na memória - ela se volta para ele e diz: "Olha, meu amor, estão tocando nossa canção". E pelo mundo afora, talvez naquele preciso momento milhares de pessoas digam exatamente a mesma coisa. E o tal "nossa canção" se torna particular, exclusivo, para cada um que ouve, lembra, se emociona. É a mágica dos Beatles.
Mas com eles - surpresa - a coisa se revela mais ampla ainda. A lógica diz que apenas uma determinada geração deveria eleger os Beatles como trilha sonora, como aconteceu com a melhor fase de Frank Sinatra ou Elvis Presley, por exemplo. Só que todo mundo sente saudades dos Beatles, do maestro Leonard Bernstein aos adolescentes que até hoje compram e se deliciam com Sgt. Pepper's ou Abbey Road, sem falar no vovô e na vovó, os pais da juventude dos anos 60. Todos, absolutamente todos, rendidos à mágica do Beatles.
No Brasil, essa imortalidade está pulsando cada vez mais. Já foram compostas mais de vinte canções falando dos Beatles, sonhando com a volta impossível. Algumas homenagens são bem compreensíveis - como a de Caetano Veloso em 1975, ao reproduzir a capa do Let it be no brasileiríssimo Qualquer coisa. Afinal, Caetano acompanhou bem de perto toda essa paixão - ele até vivia em Londres no final dos anos 60. Mas e o pessoal do 14 Bis ? Na primeira faixa do primeiro disco, editado em 1979, eles se confessam "perdidos em Abbey Road" . . .
Quando Paul McCartney deu a sua famosa entrevista - em 10 de abril de 1970, confirmando o fim, a turma do 14 Bis não deveria ter sequer vinte anos.
É a mágica, o encanto de um grupo que permanece imóvel, suspenso numa cápsula à prova de tempo. E não adianta reunir explicações, não importa a partir de que ângulo - musical, sociológico ou qualquer outra lógica. As canções dos Beatles, como no lance do mágico, brilham acima de qualquer arrazoado. Mas o que sempre esquecemos é que por trás desse brilho existiam quatro pessoas. E é isso que este site, humildemente, tentará mostrar. Isto é a mágica dos Beatles.
MAURÍCIO KUBRUSLY
julho de 1982 (adaptado)
