Alguns comentam
que as palavras são um modo de imortalizar as pessoas.
E
os que já são imortais? Como ficam então?
Dizem
que para alguém se torne realmente imortal, sua história deve ser escrita
por outrem.
Ela
sempre se preocupou com esse tipo de detalhe. E por isso, aqui está
a sua história, por escrito.
INFINITA ESPIRAL
PRESENTE DE BRIGHID
795
d.C. - Eboracum
Caer
era uma mulher alta e forte, como os demais de sua aldeia. Eles eram
descendentes da tribo dos Brigantes, celtas que se estabeleceram ali
naquela região. Os Romanos acabaram por dominar a área e a vila chamou-se
Eboracum. Ela não gostava muito dos romanos, mas não se envolvia nessas
coisas políticas. Ela preferia cuidar de sua vida. O marido, morrera
recentemente em uma batalha contra os vikings. As guerras eram algo
constante naqueles tempos. Por vezes, caravanas de romanos passavam
pela vila, que era caminho para outras paragens.
Numa
dessas caravanas, Caer viu uma romana com um bebê no colo. Mas ela parecia
procurar esconder a criança enquanto um homem falava com ela energicamente.
Ela entendia latim, pois havia aprendido com a sacerdotisa da tribo.
Ouviu que os dois discutiam e o homem mandava que ela se livrasse daquela
criança.
-
É amaldiçoada! Livre-se dela. Jogue por aí. Dê a algum criado, algum
escravo! Não me interessa o que pensas. Ainda por cima, é uma mulher!
E pára de te lamuriar! Se eu retornar do mercado e encontrar a criança
aqui, eu mesmo darei cabo dela! - o homem dizia energicamente.
A
mulher chorava. Os sacerdotes disseram ao grande general que a criança
era amaldiçoada. Os oráculos não viam com bons olhos. E a mulher estava
inconsolável. Ela não podia ter filhos e aquela criança havia chegado
até ela. Mas até agora, ninguém via com bons olhos.
Caer
olhava para a mulher e para a criança. Uma menina. Os romanos eram mesmo
estúpidos e muito machistas. Desprezar a criança porque era uma menina.
Isso a revoltou. Uma das sacerdotisas da vila, Ingra, parou ao seu lado.
-
Não sabem reconhecer um presente dos deuses quando têm um em mãos. -
disse a velha mulher.
Caer
olhou para ela. Se assustou pois não havia percebido a presença da mulher.
-
Quer para ti, Caer? Se quiseres, pego aquela criança para ti. Certamente
terá mais carinho e cuidados do que entre esses romanos estúpidos. E
pelo jeito, não é nem filha deles. - a mulher disse séria.
-
O homem disse que se a mulher não se livrar da criança, ele o fará.
- Caer disse com pesar na voz. Olhou novamente para a mulher e viu que
esta olhava na direção delas. Desviou o olhar, olhando para a velha.
-
Oh. Acho que a criança virá até nós... - a velha disse apontando para
a direção da mulher.
Caer
se virou e viu que a mulher vinha até elas, com uma criada e o bebê
nos braços. Caer ficou esperando. A mulher se aproximou e disse em latim.
-
Ave! Falam minha língua?
-
Aye! Sim, falamos. - a velha respondeu prontamente.
-
Então ouviram o que meu marido me disse. - ela disse, engolindo o choro.
-
Infelizmente, ouvimos, pois seu marido fez questão que todos ouvissem.
- a velha respondeu séria - Em que podemos ajudá-la?
-
Quero que cuidem da minha filha. Ele não a quer. Não tenho escolha.
Prefiro que cresça com outra mãe do que seja morta por homens insensíveis.
- ela disse soluçando.
Caer
se comoveu com a dor daquela mulher.
-
Dá-me tua criança e eu a criarei como se fosse minha. - Caer disse -
Eu compreendo tua dor.
A
mulher olhou o bebê em seus braços... Olhou para Caer e suspirou.
-
Chama-se Laissa. Peço apenas que não mudes o nome dela. Pois assim,
enquanto for viva, poderei procurá-la. - entregou o bebê, virou-se de
costas e saiu correndo de volta para onde veio. A criada, pareceu surpresa
com a atitude pois levou alguns segundos para seguí-la.
Caer
olhou para a menina... Pele rosada, cabelos escuros e lisos. Olhos castanhos.
-
Hm. Que bebê bonito você tem, Caer. - Ingra disse sorrindo - Vou anunciar
a todos que você recebeu uma graça de Brighid. Esta criança é especial.
É um presente. Assim ninguém fará perguntas demais.
Caer
sorriu. Voltou para sua casa. Nunca pensara em ter filhos. Na verdade,
acabara de sair do período de luto. A criança viera num momento propício.
Enquanto
cantava para que a menina dormisse, naquela noite, Caer agradeceu Brighid,
por ter colocado aquela criança em seu caminho. E dormiu um sono cheio
de sonhos bons e agradáveis.
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