Saqqara, Baixo Egito - 2640 / 2639 a.C.
-
Estão procurando gente para as obras! - garantiu um dos masciauash que
vinha da região do delta - É coisa importante! A colheita do último
ano também foi ruim, e muita gente tem passado fome... Pelo menos o
rei prometeu comida a todos os que quiserem trabalhar!
Akh
e Heka ouviam sempre com atenção as novidades que os nômades masciauash
traziam. Sabiam que o novo rei, Netjerikhet Djoser, transferira a capital
do reino para Mênfis, que os nômades chamavam de Inebhedj, e abandonara
Tinis, como outros antes dele já haviam abandonado Abtu, a primeira
capital do reino unificado. Agora, Netjerikhet Djoser decidiu realizar
enormes construções no deserto, ao redor da tumba de seu irmão mais
velho, Sanakhte Nebka, a quem sucedeu no trono, e estava recrutando
trabalhadores (1).
Os
masciauash andavam agitados nas últimas décadas, pois o Nilo apresentou
cheias acima da média por vários anos consecutivos. Muitas cidades e
vilas foram arrasadas, atrapalhando o comércio e trazendo doenças. Diques
e canais que irrigavam plantações foram destruídos, casas foram arrastadas
pelas águas, animais morreram. O Nilo negou-se até a voltar a seu leito
durante os meses da seca, impedindo que suas margens fossem cultivadas.
Depois, vieram anos de aridez, com o rio enchendo-se abaixo do normal,
atrapalhando a irrigação e resultando em colheitas insuficientes. O
resultado em ambos os casos foi fome generalizada, falta de mão de obra
para recuperar as cidades atingidas e perigosas epidemias. E os masciauash
aproveitaram para conseguir algum lucro, alguns até estabelecendo-se
junto às cidades ou firmando rotas comerciais entre elas, garantindo
o abastecimento de mercadorias nas áreas carentes.
Não
que a vida no deserto estivesse ruim, ao contrário. Com as cheias os
oásis, alimentados por rios subterrâneos, estiveram mais opulentos do
que nunca. Só que agora, com a seca, alguns oásis estavam a ponto de
desaparecer, e as cidades tornavam-se uma fonte nova de riqueza, onde
podiam fazer fortuna depressa. Até Heka andava pensando em aproveitar-se
da atual situação e voltar à civilização, para ver pessoalmente o que
tinha mudado durante os últimos séculos. Várias vezes tinham ido até
alguma cidade para comerciar, mas sempre por pouco tempo. Talvez fosse
hora de mudar...
Akh
não opôs-se à decisão do irmão. Estavam há tanto tempo no deserto que
com certeza ninguém mais se lembraria de suas histórias. Abtu ficava
muito longe da nova capital, não haveria risco nenhum. E se não encontrassem
o que queriam, haveria sempre o enorme deserto a esperá-los.
Heka
convenceu então seu grupo atual a rumar para Saqqara, a oeste de Mênfis,
no Baixo Egito, onde o rei estava contratando gente para suas obras.
Em poucas semanas encontraram outras tribos e caravanas que iam na mesma
direção, todos atraídos pela promessa de moradia e alimentação garantidas.
Encontraram
Saqqara, antes um nada no meio do deserto, transformada num gigantesco
acampamento controlado por administradores reais vindos de Mênfis, encarregados
de selecionar e cadastrar os trabalhadores. Algumas obras já estavam
em andamento - uma enorme mastaba, a tumba real, erguia-se no centro
de uma área demarcada com cercas de corda. Trabalhadores traziam, em
lombo de bois, lotes de tijolos crus vindos do leste, onde diziam haver
uma outra unidade de trabalho, mais próxima ao Nilo, empregada na fabricação
dos tais tijolos - uma massa de argila misturada com palha e socada
em fôrmas, que deixavam secar ao sol do deserto para cozinhar. Grupos
de trabalhadores já contratados empenhavam-se em construir armazéns
e casas com esses tijolos, enquanto pastores cuidavam dos animais de
carga em cercados, artesãos fabricavam ferramentas em oficinas, mercadores
circulavam com água em enormes sacos de couro para vender aos sedentos.
Um
dos masciauash da tribo de Heka e Akh conseguiu a informação de que
era preciso cadastrar-se com os administradores reais, dizendo o que
cada um sabia fazer, a fim de conseguir licença para trabalhar. De acordo
com o ofício, os trabalhadores seriam acomodados em áreas específicas,
onde poderiam montar suas tendas ou até construir casas.
Heka
decidiu cadastrar-se sem demora com os outros homens, em qualquer ofício
possível, e pediu que Akh ficasse junto com as demais mulheres do grupo,
esperando seu retorno. Se houvesse ocupação para mulheres, ele depois
arrumaria para que elas também se cadastrassem.
Heka
perdeu horas rodando atrás de informações e em filas, até conseguir
chegar a um oficial que anotou seus dados numa enorme lista. Ao ouvir
o nome do ex-sacerdote, sem desconfiar de quem se tratava, o oficial
olhou-o de soslaio - um nômade com nome de rei! Mesmo assim, escreveu
as funções que ele poderia realizar e dispensou-o, prometendo que ao
final da tarde haveria uma chamada para designação de acampamentos e
escolha de tarefas.
Na
hora da chamada, Heka foi convocado para trabalhar na contagem de materiais,
pois sabia escrever, e foi-lhe designado um acampamento separado do
resto de sua tribo, que acabou na maioria escolhida para carregar tijolos
e pastorear gado. Heka e Akh levaram suas coisas e armaram sua tenda
já ao anoitecer, ainda confusos com o burburinho local.
-
Acreditas que fazemos bem em estabelecermo-nos aqui? - perguntou Akh,
incomodada com o cheiro de suor e fezes de animais que empesteava o
acampamento como um todo - Essa gente anda suja, amontoada... No deserto
conseguíamos ser mais limpos!
-
Falta organização... Tu notaste como muitos andam agora carecas? - disse
Heka, observando um grupo de rapazes que passava - Por que será?
-
Já vimos carecas antes nas cidades! - replicou Akh com impaciência,
espantando as moscas e cobrindo o rosto com um véu diante de um homem
que a olhava com curiosidade - Deve ser por causa dos piolhos! Anda,
arruma logo tudo para que possamos comer e descansar!
Os
dois mal dormiram à noite, atentos aos ruídos nas tendas vizinhas, desconfortáveis
no meio de tantos estranhos de uma vez só. No deserto, os grupos eram
sempre menores, e a maioria conhecia-se entre si, como uma gigantesca
família. Ali, aglomerava-se gente de várias cidades e tribos que nunca
tinham visto antes, e era preciso tomar cuidado.
Pela
manhã, Heka foi enviado para trabalhar numa espécie de armazém, onde
eram contados e amontoados os tijolos vindos do leste, para que cada
carregador depois recebesse conforme os tijolos que transportava. Ali
também eram contados os animais de carga, antes de serem levados para
o trabalho pela manhã ou de volta para seus currais à noite. Se um animal
desaparecesse, o responsável teria que pagar pelo prejuízo. Alguns dos
masciauash de sua tribo iriam fazer o transporte de tijolos, e Heka
poderia vê-los constantemente.
Ao
final da tarde foi-lhe entregue um pacote com carne e peixe secos, cereais
e duas peles de boi curtidas, um adiantamento pela próxima semana de
trabalho. Akh ficou feliz ao vê-lo retornar e poder ouvir as novidades.
Seu dia havia sido maçante, recolhida em sua tenda para não chamar a
atenção.
-
Eles carregam os tijolos em cestos, no lombo dos bois! - comentou Heka,
desempacotando a comida que recebeu - Se arrastassem a carga em trenós,
como fazíamos no deserto, menos tijolos chegariam aqui quebrados, e
os animais poderiam trazer uma carga maior! Nossos homens reclamaram,
pois não recebem pelos tijolos quebrados... É trabalho perdido!
-
Explica tua idéia a eles! - incentivou Akh - Talvez alguém te dê ouvidos!
Na
manhã seguinte, Heka procurou seu superior e arriscou oferecer sua teoria.
O homem a princípio não entendeu qual seria a vantagem, e Heka então
correu a buscar o trenó que usavam no deserto para mostrar-lhe como
era mais seguro arrastar os tijolos, ao invés de jogá-los mal acomodados
em cestos chacoalhantes, que poderiam romper-se no caminho. Os carregadores
logo aglomeraram-se ao redor dos dois, curiosos com as explicações de
Heka. Um dos masciauash ofereceu-se então para fazer uma viagem com
o trenó atado ao boi, apostando com os companheiros de que traria o
dobro de tijolos, e em pouco tempo estava de volta, cumprindo o prometido.
-
És um rapaz muito inteligente! - aplaudiu o encarregado do armazém -
Se puderem trazer mais tijolos em menos viagens, e sem quebrá-los, nossos
animais ficarão menos cansados e nossas obras andarão mais depressa!
Muito boa a tua idéia, tu mereces um prêmio!
E
Heka voltou para casa com uma cabra e duas galinhas, para surpresa da
irmã.
-
Este povo é maluco! - aplaudiu ela entre risos - Tu lhes deste uma idéia
tão simples e eles te presenteiam assim! Se continuas neste ritmo, ficaremos
mais ricos do que éramos em Abtu!
-
Perdi nosso trenó, mas ganhei a amizade do encarregado do armazém e
agora teremos leite e ovos! - Heka sorria sem parar - E os carregadores
também ganharão mais, estão todos felizes! Já estamos fazendo trenós
para todos!
-
E sabes o que descobri hoje?! - Akh sorriu com malícia - Que não são
só os homens que andam carecas por aqui! Vi uma das vizinhas raspando
a cabeça dos filhos e perguntei se era por causa dos piolhos, para oferecer-lhe
um remédio, mas ela disse-me que o costume é ser careca! Acreditas que
ela própria também raspa a cabeça?! Ela explicou que agora os deuses
querem assim, e só quem está de luto deixa o cabelo crescer...
-
Que horror! - Heka instintivamente levou a mão às longas madeixas negras,
atadas numa trança que lhe chegava quase à cintura - Que costume idiota
é esse?!
-
Parece que os ricos fazem perucas para cobrir-se, mas os pobres andam
carecas mesmo!
-
Que coisa mais feia! Raspam o cabelo para depois cobrir com perucas...
- Heka franziu as sobrancelhas numa careta de desgosto - Eles que não
se atrevam a vir com essas modas estranhas para cima de mim!
Os
dois tagarelaram por horas, antes de finalmente pegar no sono. Na manhã
seguinte, Heka conferiu os bons resultados de sua idéia e, vendo a satisfação
do chefe, logo começou a sugerir novas melhorias.
Nas
semanas que se seguiram, aconselhou que contratassem as mulheres e crianças,
até então ociosos nos acampamentos, para tarefas que exigissem menor
esforço, como ordenhar o gado, tecer cordas e cestos, distribuir comida
e cuidar de doentes. Implantou ainda um primitivo sistema de creches,
em que algumas mães recebiam pagamento para cuidar dos filhos das que
trabalhavam fora, permitindo assim que mais mulheres arrumassem serviço
e incrementassem o pagamento familiar. E chegou até a conseguir que
alguns remédios fossem distribuídos entre os trabalhadores, para controlar
parasitas e epidemias.
O
sucesso das idéias de Heka logo tornou-o uma figura popular e valeu-lhe
promoções. Chegou em pouco tempo ao posto de subadministrador-geral,
encarregado de fiscalizar o funcionamento das melhorias que havia implantado,
e seu salário também ficou bem maior. Acabou por ser transferido para
uma pequena casa de tijolos, de dois andares, onde podia acomodar-se
melhor com a irmã, que inclusive nomeou para o pomposo cargo de fiscal
da distribuição de medicamentos e controle de doenças. Mesmo podendo
dar-se ao luxo de ter criados, os dois preferiram continuar sozinhos,
preservando sua intimidade.
Com
os dias cheios, os dois nem percebiam mais o tempo passar. Recebiam
bons pagamentos, eram conhecidos em todo o acampamento, queridos pelos
vizinhos e respeitados pelos subordinados. Ao fim do dia, contavam o
que tinham realizado e trocavam novidades, entusiasmados com seu novo
mundo de realizações.
-
Só agora dou-me conta de quanto a vida numa cidade me fazia falta! -
comentou Akh uma noite - Aqui ninguém nos hostiliza, não sabem do nosso
passado nem temos o que temer! O deserto foi bom, claro... Porém foi
como se dormíssemos enquanto o tempo passava! Agora sinto-me VIVA novamente,
fazendo tanta coisa e conhecendo tanta gente... É tudo tão novo, tão
empolgante!
Heka
olhou-a com orgulho, sorrindo em silêncio, sentindo o mesmo. Seu medo
de ser descoberto, de ter que revelar seus segredos, já havia passado.
Em Saqqara, era um homem qualquer trabalhando no meio de tantos outros,
sem precisar explicar de onde viera nem há quantos anos vivia. Não era
um sumo-sacerdote invejado nem um "morto-vivo", uma misteriosa lenda
do deserto: era simplesmente Heka Ma'At, um trabalhador inteligente
que foi promovido por seus próprios méritos. A vida parecia finalmente
lhes sorrir, ali naquele nada no meio do deserto, onde nascia uma nova
cidade que eles ajudavam a construir.
*************
Saqqara,
Baixo Egito - 2638 a.C.
Durante
a nova cheia da estação de Akhet começaram a chegar pelo Nilo barcos
com enormes quantidades de blocos de pedra, que seriam usados exclusivamente
nas obras da tumba real. Ao que parece, o projeto original fora completamente
alterado e seriam feitas grandes ampliações no monumento.
Agora,
ao invés dos tijolos crus, usados apenas para construir os edifícios
administrativos e as casas principais do acampamento de Saqqara, os
carregadores arrastavam tijolos de pedra maciça até o canteiro de obras.
Num braço do Nilo que aproximava-se de Saqqara, foi construído um canal
para que os barcos pudessem chegar mais perto, encurtando a distância
para o transporte, e um porto ao redor do qual logo o comércio cresceu.
Com
os barcos vieram também cargas de alimentos e bebidas, tecidos, ferramentas,
papiro, tintas, animais, mel, óleo. Vieram ainda novos escribas, médicos,
sacerdotes, pintores, artesãos das mais variadas especialidades e até
um ruidoso grupo de moças da alegria.
Akh
e Heka esforçaram-se ao máximo por manter-se longe do clero que invadia
a cidade, mas o contato era inevitável. Tinham agora que prestar contas
de seus serviços a toda uma nova hierarquia de funcionários, a maior
parte deles ligados a um ou outro templo, de acordo com as funções que
exerciam - escribas de Tout e Seshat, mumificadores de Anup e Ausar,
arquitetos e artesãos de Ptah, médicos de Sakhmet, magos de Ast, soldados
de Ashtoreth, oleiros de Khnum, parteiras de Meshkent, eróticas sacerdotizas
de Hátor... (2)
Logo
os irmãos voltaram a ser semi-anônimos, líderes comunitários bem pagos
e respeitados, porém perdidos na nova miríade administrativa de Saqqara,
onde nada mais poderia ser feito sem aprovação de burocratas.
Um
dia, após uma violenta discussão com um desses burocratas a respeito
da construção de um depósito, Heka decidiu voltar para casa mais cedo
e esfriar a cabeça. Tomaria um banho e, quem sabe, visitaria as moças
da casa da alegria... Após mais de três séculos, continuava virgem!
Antes
sequer importara-se com isso, mas a convivência constante com belas
mulheres desconhecidas, algumas vindas de lugares distantes da Ásia
e com feições exóticas, começava a perturbá-lo profundamente. Só não
tinha ido à casa da alegria por pura vergonha. Pela primeira vez na
vida tinha curiosidade em saber como era deitar-se com uma mulher, ver
um corpo nu que não fosse o da irmã e sentir finalmente as tais delícias
que diziam ser os prazeres do sexo. Se pudesse encontrar alguma daquelas
maravilhosas estrangeiras, então...
Foi
em meio a esse devaneio malicioso que Heka sentiu, ao cruzar uma rua,
o golpe seco de uma forte vibração em seu íntimo. Era um alarme muito
parecido com o que experimentava ao encontrar a irmã, e ao mesmo tempo
soava-lhe completamente novo. Um medo estranho fê-lo parar e olhar ao
redor, procurando de onde partia aquilo. Fosse o que fosse, era algo
que se aproximava cada vez mais, e sem dúvida não era Akh.
A
alguma distância um homem alto e robusto, usando emblemas de alto dignatário
no peito nu e com os cabelos cortados rentes, destacou-se de um grupo
e encarou Heka com curiosidade. Imediatamente Heka foi invadido pela
certeza de que era deste homem que partia a forte vibração, e devolveu-lhe
o olhar com valentia.
O
homem aparentemente desculpou-se com seus acompanhantes e, com gestos
para que seus serviçais não o seguissem, encaminhou-se sozinho até Heka.
Atrás do estranho, os outros cochichavam, talvez espantados com tal
atitude. Vendo que o homem media-o cautelosamente de alto a baixo, Heka
ofendeu-se e não arredou pé de onde estava, esperando-o completamente
imóvel. O estranho parou a poucos passos de distância e só então Heka
percebeu que ele passava frouxamente a mão pelo cabo de um longo punhal,
preso a sua cintura e escondido entre as dobras de seu saiote.
-
Quem és tu? - indagou o homem, a voz dura dos que estão acostumados
a mandar e ser obedecidos.
Heka
irritou-se profundamente com a ousadia do outro. Alto funcionário ou
não, ele não tinha o direito de interpelá-lo com tamanha grosseria em
plena rua, ainda mais revelando traiçoeiramente uma arma, tentando intimidá-lo.
-
Não sei quem és, nem devo-te satisfações! - sibilou Heka por entre os
dentes - Dize-me tu quem és e o que queres, ou deixa-me seguir meu caminho!
O
homem pareceu inabalável, mas Heka percebeu um brilho de dúvida em seus
olhos. Numa voz ameaçadora, o estranho apresentou-se.
-
Sou o príncipe Imhotep, sumo-sacerdote de Rá e nomeado Pilar dos Dois
Países, conselheiro do rei Netjerikhet Djoser (3), ministro de Mênfis
e arquiteto supremo de Saqqara! Tudo e todos aqui estão sob meu comando,
inclusive tu! Ordeno-te que me respondas!
Heka
levou um susto ao ouvir diante de quem estava, porém já era tarde para
desculpar-se e seu orgulho não lhe permitiu recuar.
-
Sou Heka Ma'At, escriba-sacerdote de Abtu e subadministrador-geral de
Saqqara! - respondeu com altivez, sabendo que poderia ainda ter acrescentado
muito mais ao próprio nome, se isso não implicasse num escândalo sem
precedentes ao revelar sobre seu passado.
Desta
vez, Imhotep não disfarçou o espanto e levou a mão ao cabo da adaga
com maior evidência.
-
Heka Ma'At de Abtu! - exclamou, depois continuou num tom mais baixo
- Estamos em público, sabes que nossos assuntos não devem ser tratados
assim! Dize-me a hora e o local de tua escolha, e nos encontraremos
a sós!
-
Nada tenho a tratar contigo! - respondeu Heka, sem compreender onde
o outro queria chegar - Não tenho medo de ti nem da tua maldita adaga,
sejas tu ministro do rei ou o que quer que digas! Se tens ordens a dar-me
sobre meu trabalho, podes dizê-lo sem segredos. Se tens alguma pendenga
comigo, procura a justiça como se deve e não me ameaces assim!
Imhotep
encarou-o por alguns segundos, a testa franzida. O homem à sua frente
era insolente e estava desarmado, mas não poderia subestimá-lo. Não
era assim que as coisas se resolviam.
-
Por acaso temes duelar comigo, Heka Ma'At de Abtu? - sussurou num tom
que tentava ser zombeteiro - Nunca ouvi dizer que fosses um covarde!
-
Que sabes tu de mim? - sibilou Heka, aproximando-se perigosamente.
Foi
então que ambos foram antingidos ao mesmo tempo por outra vibração.
Heka reconheceu imediatamente a presença da irmã e viu como Imhotep
afastou-se, assumindo uma posição defensiva. Sentiria ele também a mesma
coisa? Quem era esse homem, afinal?
A
alguma distância, vindo da direção oposta, Heka divisou Akh Kheper-Apet
aproximando-se. Viu imediatamente que a presença de Imhotep a assustava,
portanto ela também recebera o alarme. Akh caminhou com hesitação até
o irmão, os olhos passeando rapidamente entre os dois homens. Imhotep
mediu-a de alto a baixo, como fizera com Heka.
-
O que está a passar-se aqui, meu irmão? - indagou ela - Quem é esse
homem?
A
palavra "irmão" não escapou aos ouvidos de Imhotep, deixando-o visivelmente
perplexo.
-
Não é possível! - exclamou, vendo como ela tentava ocultar os longos
cabelos castanho-claros com um véu para fugir a seu olhar inquiridor
- Se tu és mesmo Heka Ma'At de Abtu então ela... Os dois!
-
Que sabes sobre nós? - indagou Akh, um frio no coração.
-
Os papiros estavam mesmo corretos, ainda que eu duvidasse disso! - prosseguiu
Imhotep sem responder - Uma mulher! Então era verdade, as profecias
não mentiram!
Akh
agarrou o braço do irmão com força.
-
Vamos, Heka! - implorou - Voltemos para nossa casa! Este senhor assusta-me
com seus maus modos! Vê como estamos a chamar a atenção...
Com
efeito, os acompanhantes de Imhotep agitavam-se vivamente, com certeza
percebendo a animosidade entre os três. O ministro endereçou-lhes um
longo olhar que misturava tédio e desprezo, e logo todos se aquietaram.
Em seguida, voltou-se novamente para o casal.
-
Pois bem, devemos resolver logo esta situação! Só pode haver um, portanto
resta-me saber qual dos dois deverei enfrentar primeiro!
Heka
deu um passo à frente, pondo-se entre Imhotep e a irmã.
-
Como ousas ameaçar-nos?! Haver um O QUÊ?
-
Deixa-o, Heka! - suplicou Akh, puxando-o pela mão - Esse homem deve
ter passado muito tempo ao sol, está a delirar! Vamos embora!
Imhotep
olhou de um para outro com desconfiança. Aos poucos, largou o cabo da
adaga e cruzou os braços sobre o peito, demonstrando que não iria mais
atacá-los.
-
Quantos anos tens, Heka Ma'At de Abtu? - perguntou de repente - Por
acaso os séculos deformaram tua alma?
Foi
como se um raio atingisse os dois irmãos, paralisando-os.
-
Sim, pois se tu és mesmo quem dizes ser - prosseguiu Imhotep, a voz
baixa para que só os outros dois ouvissem -, então esta mulher, tua
irmã, é tão velha quanto tu mesmo...
Akh
deu um passo à frente.
-
Sou Akh Kheper-Apet e...
-
E és a filha da Íbis Celeste de Qunfidhah, filha adotiva de Epher de
Abtu, profeta-mor do templo de Khentymentyou! - sussurrou Imhotep, vendo
o pânico crescer nos olhos dos irmãos - Pelas minhas contas, Akh de
Abtu, tu estás belíssima para teus 354 anos... Se me perdoas o atrevimento,
por favor!
-
Quem és tu? - Akh mal conseguiu perguntar, as pernas tremendo - Como
sabes disso?
-
Ora, minha cara, não é todo dia que ouve-se uma história recheada de
profecias sobre órfãos, crianças especiais, corpos desaparecidos...
- zombou Imhotep - Nós, Imortais, temos que ficar atentos aos rumores!
Nunca se sabe quando outro de nós aparecerá...
-
Imortais? - Heka puxou Akh para junto de si - Nós? Tu também és como
nós?
Imhotep
começou a gargalhar, mas de repente conteve-se.
-
Então vós não sabeis quem sois? - não podia acreditar naquilo - Mais
de três séculos se passaram, e ainda não entendesteis?
-
Há outros como nós? - insistiu Akh - Existem mais?
Vendo
que ambos estavam sinceramente perturbados, Imhotep desmontou. Por onde
teriam andado estes dois estupores, para mostrarem-se tão alheios às
Regras? Eram acaso novatos?
-
Sigam-me até meu barco! - decidiu-se por fim - Conversaremos mais à
vontade...
Imhotep
despediu-se formalmente de alguns de seus acompanhantes anteriores e
ordenou que seus criados seguissem a uma distância conveniente, na retaguarda.
Com passos firmes, guiou os irmãos até uma imponente embarcação de madeira
amarrada ao porto. O barco, feito com o raro cedro importado de distantes
lugares a nordeste do Delta, trazia as insígnias reais e estava decorado
com todo o conforto para acomodar a pequena comitiva do ministro de
Mênfis.
Os
criados logo acorreram com jarros de água, toalhas limpas, almofadas
e bandejas com frutas e carne assada. Numa mesa à parte, Heka percebeu
a maquete em madeira da futura mastaba real, um prédio exótico em degraus,
cercado por outras construções a serem iniciadas, e mostrou-a silenciosamente
à irmã. Com um gesto amistoso, Imhotep convidou-os a refrescar-se da
poeira e ofereceu-lhes lugares à mesa de refeições. Em seguida, dispensou
todos os criados, garantindo que ninguém poderia ouvi-los.
-
Sei bastante a respeito da vida de ambos... - começou por fim - Li tudo
o que pude encontrar em Abtu e ouvi rumores de vossa passagem por algumas
cidades espalhadas ao longo do Nilo. Sei quem sois, como fostes criados,
como morrestes... Sei inclusive que, após vossas mortes, o rei da época
voltou atrás em sua injusta sentença e mandou que vossos corpos fossem
recuperados, só que nada mais foi encontrado. Eu cresci também em Abtu,
nasci quase cinquenta anos após vossas mortes, e vossas histórias eram
contadas como uma lenda para mim! Mal sabia eu que, um dia, seríamos
iguais...
-
Então também vives há séculos! - interrompeu Akh - Por acaso sabes por
que não morremos? Por que somos assim?
-
Ah, minha bela Akh! - riu Imhotep - Isso ninguém sabe! Nascemos assim,
especiais, mas só descobrimos isso quando já é tarde demais... Eu também
não sabia, fui um órfão como vós! Nem tive a sorte de ser adotado, fui
entregue aos sacerdotes de Rá e criado sem família no templo, educado
para ser um escriba! Cresci entre papiros e tintas, e foi assim que
tomei conhecimento das profecias sobre dois irmãos misteriosos, assassinados
injustamente... Para mim, saber que dois órfãos haviam tornado-se mitos,
era um triste consolo! Enfim, caí um dia do barco que me trazia de Saís,
onde fui estudar medicina (4), e quando voltei a mim estava sozinho,
abandonado no meio do nada, cercado por pescadores apavorados!
-
Tu também morreste? - arriscou Heka.
-
Sim, morri... Mas não sabia disso! - prosseguiu o ministro - Achei que
tivesse apenas desmaiado, e simplesmente continuei minha viagem. Só
quando retornei a Abtu foi que descobri que meu corpo permaneceu quase
cinco dias desaparecido sob a água, com dezenas de pessoas me procurando,
e nem sei como não fui devorado por crocodilos! Minha chegada causou
um tumulto enorme...
-
Nós também não sabíamos! - Akh explicou - Simplesmente saímos andando
pelo deserto... Pareceu-nos a melhor coisa a fazer!
Imhotep
sentiu simpatia por aqueles dois.
-
Nós somos assim, minha cara! - prosseguiu - Parecemos normais, e só
nos tornamos eternos após morrer de uma forma trágica. A partir daí,
somos invulneráveis, a não ser que arranquem nossas cabeças...
-
Que horror! - exclamou Akh com uma careta.
-
Arranquem o quê?! - Heka arrepiou-se - E por que alguém faria isso?
-
É a única forma de matar-nos para sempre! - continuou Imhotep, com um
gesto para acalmá-los - Sem isso, o máximo que pode nos acontecer é
uma morte aparente, temporária, como a que nos transforma em Imortais.
-
Eu já morri outras vezes, sei que o que tu dizes é verdade... - comentou
Heka - Sempre acordei de novo, e meus ferimentos também somem de repente!
-
Isso faz parte de nossa nova natureza, e ninguém pode saber disso! -
Imhotep foi categórico - Para os demais seres humanos, somos um mistério
apavorante, e não devemos deixar que saibam de nossa existência!
-
E essa coisa que sentimos quando nos encontramos? - perguntou Akh -
Esse mal-estar, um zumbido estranho na cabeça... Tu também o sentes?
-
Sim, todos sentimos quando outro de nossa espécie se aproxima. É a única
forma de nos defender...
-
Por que tu insistes em dizer que algo pode nos acontecer? - quis saber
Heka - Na rua tu me enfrentaste como se eu te ameaçasse, chegaste a
desafiar-me! Se nós só podemos sentir outros de nossa espécie, por que
haveríamos de nos defender deles?
Imhotep
soltou um longo suspiro. Jamais, em tantos anos de vida, imaginou que
encontraria pessoalmente as personagens principais das lendas de sua
infância, e muito menos que teria que educá-los... Quanta ironia!
-
Cerca de trinta anos após minha, digamos, primeira morte - recomeçou
por fim -, encontrei outro de nossa espécie. Um Imortal mais velho do
que nós. Vendo que eu não sabia nada, como vós, ele poupou-me e tomou-me
sob sua proteção, ensinando-me tudo o que sei sobre nossa raça. Ele
avisou-me de que há outros como nós, criaturas que passaram pelos mesmos
sofrimentos para chegar à Imortalidade. Irmanados pela vida eterna,
somos contudo condenados a uma dura provação... Uma antiga lei diz que
todos os Imortais deverão um dia eliminar-se uns aos outros, e só um
de nós poderá sobreviver!
-
Akh e eu não fazemos parte disso! - indignou-se Heka - Vivemos muito
bem até agora, não pretendo eliminar ninguém nem ser eliminado!
-
Nenhum de nós escapará à luta! - insistiu Imhotep com um certo amargor
- Estamos todos sujeitos às mesmas regras e, se tu não lutares quando
um de nós desafiar-te, arrancarão tua cabeça e morrerás para sempre!
É a Lei! Ou lutas ou morres!
-
Por que tudo isso? - gritou Akh, confusa - Por que irão nos matar, se
nada fizemos? Que sandice é essa?
-
É a Lei! - gritou Imhotep de volta, prosseguindo depois num tom mais
brando - Infelizmente essa maldição está agora em nós, não há como fugir!
Somos uma raça à parte, nosso mundo não obedece à lógica que conhecemos
antes. Esqueça a justiça dos mortais! Agora vivemos sob uma nova ordem,
quer queiramos ou não!
-
Então foi por isso que tu me enfrentaste agora há pouco? - inquiriu
Heka, o olhar sombrio - Querias matar-me?
-
Sim e não... - Imhotep acalmou-o com um gesto conciliador - Não sou
um homem violento, acredita-me! Aliás, nunca mais encontrei outro Imortal
além de meu mestre, não sabia o que esperar de ti. Fi-lo por temer que
tu próprio tivesses vindo desafiar-me, e tentei defender-me. Também
acho essa matança um absurdo, mas juro que não pretendo entregar-me
facilmente... Aprendi a prezar minha vida, lutarei por ela se for preciso!
-
E teu mestre, onde está? - Akh tentava juntar as pontas daquele enigma
- Por acaso tu o mataste, para estares aqui agora?
-
Não! - espantou-se Imhotep - Não, com certeza! Ele poupou minha vida,
devo-lhe minha gratidão e tenho-lhe profunda amizade! Ele abandonou-me
há mais de dois séculos e fugiu para as terras do nordeste, depois de
decapitar um de nós que veio enfrentá-lo... Nunca mais o vi desde então,
e rezo para que esteja vivo, para que um dia nos reencontremos!
-
Ele disse por que tudo isso é assim? - Heka perguntou, servindo-se de
um pouco de água para refrescar as idéias.
-
Ele também não sabia... - confessou Imhotep - Há muito tempo alguém
o ensinou, como ele fez comigo e hoje faço convosco! Temos que passar
as leis aos novatos, para que todos possam lutar com igualdade!
-
Há muitos como nós?
-
Não muitos, mas novos irão surgir até que tudo se acabe. Os mais fortes
e hábeis sobreviverão mais tempo, os fracos e covardes ficarão pelo
caminho, até que só um de nós exista.
-
E esse um - indagou Akh - como ficará? Viverá então eternamente, sem
outros para ameaçá-lo?
-
Isso também é um mistério! - Imhotep sacudiu os ombros - Só sei que,
ao morrer nas mãos de um semelhante, um Imortal doa-lhe seu Kah, seu
espírito eterno, e com ele vai-se todo seu poder e conhecimento. O vencedor
torna-se assim mais forte a cada Imortal vencido, acumulando energias
poderosas. Quanto maior o poder do vencido, maior será a força absorvida
pelo vencedor. No fim, o último de nós será uma criatura mais poderosa
do que todos os deuses juntos, e herdará um prêmio que só ele conhecerá...
Por
longas horas Imhotep explicou, pacientemente, tudo o que sabia. Que
os Imortais devem lutar apenas um contra um, sem a interferência dos
outros, e jamais em Solo Sagrado. Que a transmissão do Kah do vencido
para o vencedor causava fogos misteriosos, que Imortais não podiam ter
filhos, que os mortais comuns jamais deveriam presenciar suas lutas...
A
noite abateu-se sobre o barco e os três atravessaram-na incansáveis,
indagando, respondendo, citando exemplos, contando suas histórias, rindo
de seus medos, sofrendo por seus destinos.
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Notas
explicativas:
1
- Ao contrário do que se pensa, as primeiras grandes construções do
Egito antigo não foram realizadas por escravos, e todo operário, criado
de casa ou artesão recebia pagamento por seu trabalho. Todos tinham
direito a um contrato trabalhista e, caso precisassem, podiam trabalhar
para o governo a fim de pagar seus impostos, ao invés de receber salário.
Se um trabalhador fosse maltratado ou sentisse que estava sendo mal
pago, poderia queixar-se à justiça, ao sindicato ou mesmo fazer greves.
Os escravos, que em geral eram prisioneiros de guerra estrangeiros,
só passaram a trabalhar na construção muitos séculos mais tarde.
2
- Tout ou Tehuti era o deus-escriba Tot, ou Thot, tido como o inventor
dos hieróglifos. Seshat era a deusa protetora dos escribas. Anup ou
Anpu era o deus-chacal Anúbis, patrono dos embalsamadores e protetor
das tumbas. Ausar ou Asar era o deus-múmia Osíris, deus supremo dos
cerimoniais funerários e rei dos mortos. Ptah era o patrono das artes
e ofícios, sendo mais tarde associado ao deus Hefaísto ou Vulcano, da
mitologia greco-romana. Sakhmet ou Sekhmet era a deusa-leoa, esposa
de Ptah e associada aos médicos. Ast era Ísis, irmã e esposa de Osíris,
conhecedora de todas as magias e sortilégios. Ashtoreth era a deusa-guerreira
Astarte, de origem asiática e provavelmente depois associada à lenda
das Amazonas pelo fato de ser representada montada sobre um cavalo.
Khnum era o deus Khnemu, o oleiro celeste que modelou os deuses e homens
a partir do barro. Meshkent era a deusa protetora do parto. Hátor era
a deusa-vaca que tinha o céu e as estrelas em seu ventre e era tida
como a deusa do amor e do sexo.
3
- O conselheiro real na época tinha status de príncipe, independente
de sua ligação ou não com a família da casa real, e recebia o título
de Pilar dos Dois Países (Alto e Baixo Egitos). Normalmente o conselheiro
era nomeado sumo-sacerdote do deus que estivesse na moda, ou cujo clero
fosse mais influente junto ao trono real. Seu poder só era inferior
ao do próprio rei. Durante alguns períodos o Egito teve dois conselheiros
reais, um para o Alto Egito e outro para o Baixo Egito. O título de
vizir (palavra de origem árabe) só foi introduzido muito mais tarde
na história do Egito.
4
- A escola de medicina da cidade de Saís é considerada a primeira universidade
da história da humanidade. A cidade também é conhecida como Saïs, Zau
ou Sa el Hagar.
