Tem comida estranha na geladeira

 


Apesar dos inegáveis benefícios à produtividade das lavouras, brasileiros, europeus e americanos ainda não sabem quais os riscos, se é que existem, dos alimentos transgênicos

A onda é irreversível. Por mais forte que seja a desconfiança em relação aos produtos geneticamente modificados, não há mais como fugir deles. O primeiro passo foi a criação de soja resistente a herbicidas, tomates longa-vida e milho imune a insetos. Agora está sendo preparada uma nova geração de vegetais alterados: grãos mais nutritivos, sementes estéreis que não se reproduzem no segundo plantio, alimentos recheados com remédios. As invenções saltam dos laboratórios para as prateleiras dos supermercados com muito mais rapidez do que a perplexidade humana é capaz de digeri-las. Na brincadeira de cortar e colar, os cientistas extraem genes responsáveis por características desejáveis de animais e vegetais e os incorporam aos alimentos. A biotecnologia rompe a barreira entre as espécies e provoca discussões ambientais, éticas e religiosas. Enquanto uma parte da população ignora o assunto e outra reage com medo, os produtores argumentam que só as alterações genéticas garantirão comida suficiente para alimentar os 10 bilhões de pessoas que habitarão o planeta em 2025.Nas duas últimas semanas, esses temores afloraram nas ruas de Londres, Paris e Berlim durante protestos organizados por ativistas do Greenpeace. O mesmo ocorreu em Cartagena, na Colômbia, onde delegados de 174 países signatários da Convenção das Nações Unidas sobre Biodiversidade tentavam estabelecer regras para o comércio internacional de plantas e animais modificados. A reunião terminou na terça-feira 23 sem acordo. Os Estados Unidos, que cultivam pelo menos 35 tipos de alimento transgênico, negaram-se a discutir questões de saúde e desaprovaram a rotulagem de produtos que contenham organismos modificados. Os brasileiros apoiaram a posição americana de não impor entraves à comercialização dos transgênicos. "Há muitas informações conflitantes, mas não podemos apoiar barreiras porque o Brasil tem grande potencial exportador", diz o ministro Everton Vargas, chefe da Divisão do Meio Ambiente do Itamaraty.Enquanto as autoridades desviam o foco da discussão para a batalha comercial, o que interessa aos cidadãos é saber se as invenções fazem mal à saúde e ao ambiente. Mas os estudos e argumentos são contraditórios. No Brasil, os grãos modificados só podem ser cultivados em áreas experimentais autorizadas pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). No total, 593 plantios de soja, milho, cana-de-açúcar, algodão, arroz, batata e fumo foram autorizados em 12 estados. A Monsanto foi a primeira empresa a receber passe livre para plantar soja transgênica em escala comercial. Mas, depois de uma ação judicial proposta pelo Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), determinou-se que a palavra final será do Ministério da Agricultura. Se a comercialização for autorizada, como tudo indica, as primeiras colheitas de soja transgênica ocorrerão em abril do ano 2000. Na contramão, ambientalistas, consumidores, o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) defendem uma moratória até que despontem conclusões científicas inquestionáveis.O grão modificado virou caso de polícia no Rio Grande do Sul, justamente o estado que pretende tornar-se zona livre dos transgênicos. A Polícia Federal indiciou um agricultor e três comerciantes de Júlio de Castilhos pelo plantio e comercialização ilegais de 22,5 sacas de sementes de soja transgênica. Provavelmente os grãos foram trazidos da Argentina, onde o plantio e o consumo são liberados. Os envolvidos poderão ser condenados a até quatro anos de prisão.Apesar da proibição, nada impede que grãos transgênicos plantados nos Estados Unidos e misturados aos convencionais já tenham entrado na produção de biscoitos, salsichas ou achocolatados vendidos no Brasil. Os cinco grandes fabricantes (Monsanto, DuPont, AstraZeneca, Novartis e AgrEvo) argumentam que os grãos são seguros e testados como alimento de insetos, peixes, aves e outros animais antes de chegar ao mercado. Os oponentes dizem que ninguém pode prever os efeitos desses alimentos passado tão pouco tempo de consumo. Alertam também para o caso de uma das primeiras sojas transgênicas produzidas nos Estados Unidos com um gene extraído da castanha-do-pará. Os indivíduos alérgicos à castanha sentiram o mesmo efeito desagradável ao comer a soja modificada. As empresas, porém, citam esse caso para demonstrar a segurança dos testes. Se as análises não fossem eficientes, argumentam, o efeito adverso passaria despercebido e a produção da semente não teria sido interrompida.Após mais de dez anos de ensaios, o fato é que não existe relato de desequilíbrio ambiental causado pela distribuição das plantas ou por seus genes tóxicos. Por essas e outras, a respeitada agência americana controladora de drogas e alimentos, a FDA, considera que derivados da biotecnologia não apresentam riscos. Para o órgão, a biotecnologia é simplesmente mais uma das ferramentas do homem na busca milenar de melhoramentos genéticos, a princípio apenas fazendo cruzamentos entre exemplares da mesma espécie, agora misturando características de organismos diferentes.Se não vislumbrasse ganhos de produtividade, nenhum agricultor arriscaria adotar sementes modificadas. Convencidos dos benefícios, os americanos já plantam transgênicos em 45% da área cultivada com soja e em 30% das lavouras de milho. As empresas transferem às sementes características de melhor adaptação ao ambiente. As plantas desenvolvem-se bem em solos ácidos, alagados ou pobres de nutrientes. Reduzem-se os custos porque os agricultores usam menos insumos para corrigir o solo ou controlar ervas daninhas. A diminuição da aplicação de pesticidas poupa o ambiente e cativa consumidores que evitam agrotóxicos.Na Europa, onde os ambientalistas têm mais força, essa argumentação é menos eficaz. Ativistas do Greenpeace despejaram 4 toneladas de soja transgênica na esquina da Downing Street, a residência oficial do primeiro-ministro britânico. Tony Blair disse que come, gosta e recomenda os polêmicos alimentos modificados. Mas consumidores e ambientalistas reagiram. O susto da opinião pública obrigou cadeias de supermercados como a Safeway, a terceira maior do país, a anunciar a suspensão da venda de massa de tomate transgênico.Estima-se que 60% de toda a comida à venda no país tenha uma pitada de transgênicos. A soja alterada é misturada há anos com a convencional e utilizada na fabricação de alimentos que vão de biscoitos a refeições prontas para microondas. No tradicional breakfast inglês, praticamente todos os elementos dependem de alguma modificação genética ao longo da cadeia produtiva - do ovo ao bacon, passando pelo pão da torrada. Mesmo assim, o público mostrou-se dividido quando o governo disse que a comida genética será tão importante para o século 21 quanto o computador foi para este. O príncipe Charles, como um porta-voz dessa ala temerosa, recusou-se a atender ao apelo de Blair para retirar de seu website um artigo que condena os produtos modificados.Escaldado por episódios recentes como o da vaca louca, o consumidor britânico desconfia das garantias oficiais. Dois terços da população têm medo de produtos químicos na alimentação e mais da metade manifesta sérios temores em relação aos transgênicos. Quem reacendeu a polêmica foi o cientista Arpad Pusztai, que já trabalhou no respeitado Instituto de Pesquisas Rowett, na Escócia. Há seis meses ele anunciou que batatas modificadas tinham enfraquecido o sistema imunológico e o cérebro de ratos. Acabou suspenso do trabalho, mas voltou a insistir no assunto, apoiado por mais de 30 cientistas de vários países. As autoridades britânicas e o diretor do instituto escocês insistiram que a pesquisa era incompleta e não havia sido checada. Mas os desmentidos não convencem os cidadãos.Ao contrário dos Estados Unidos, onde esse tipo de comida jamais foi problema, na Europa os consumidores temem conseqüências não totalmente estudadas. Os americanos entendem que a natureza deve ser domesticada. Como afirma o especialista em bioética Tristram Engelhardt Jr., o mesmo senso de oportunidade que levou os americanos a expandir suas fronteiras geográficas fará com que cruzem limites da revolução genética com menos perplexidade moral do que muitos europeus considerariam decente.O último capítulo dessa novela atende pelo nome de "exterminador", cuja patente foi registrada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e pela empresa de biotecnologia Delta and Pine. Trata-se do gene extraído da planta Saponaria officinalis e transferido a culturas de algodão, soja ou trigo para torná-las estéreis no segundo plantio. Com isso, os agricultores ficam obrigados a comprar novas sementes a cada ano, interrompendo o costume tradicional de guardar as melhores para a safra seguinte. A Monsanto (em processo de aquisição da Delta and Pine) acredita que ainda serão necessários de cinco a sete anos para tornar a técnica disponível. "O agricultor não se tornará dependente da empresa porque só comprará nossas sementes se achar que elas oferecem vantagens", comenta o diretor de regulamentação da Monsanto do Brasil, Luiz Abramides do Val.Assim como os computadores são vendidos com softwares embutidos, a tendência é incluir nas sementes benefícios que as tornem superiores. Mas o "exterminador", considerado pelos críticos um instrumento da Monsanto para obter o monopólio da área de sementes, provocou tantas manifestações de antipatia que a empresa cogita a idéia de abandonar o projeto. A Fundação Internacional para o Avanço Rural (Rafi), uma ONG canadense, descobriu cerca de outras 30 patentes semelhantes nos Estados Unidos. Muitos desses projetos só serão divulgados no próximo século, mas o cenário desenhado pelas empresas remete à utopia de The New Atlantis, escrita por Francis Bacon em 1622. O filósofo inglês descreveu um período em que todas as formas biológicas poderiam servir de material para a construção de um novo mundo. As plantas floresceriam quando o ser humano quisesse, os frutos teriam novos sabores e os grãos seriam mais fecundos. A ciência está chegando lá, ainda não se sabe a que custo.DO LABORATÓRIO À MESA

MILHO: Um gene da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt) adicionado à planta tornou-a resistente a insetos. Trinta por cento do milho dos Estados Unidos é transgênico
BATATA: Cada linhagem de Bt ataca uma praga diferente. A batata da Monsanto resiste ao devastador besouro do Colorado
SOJA: Os primeiros grãos cultivados no Brasil serão resistentes a herbicidas. No futuro, a soja sofrerá alterações para ficar mais protéica
TOMATE: Pioneiro entre os transgênicos, o produto Flavr Savr amadurece lentamente, dura mais nas prateleiras e tem melhor sabor
ALGODÃO: A planta resistente a insetos cultivada nos Estados Unidos diminui a necessidade de pulverizações, de 5 para 0,3 aplicação por ano
MELÃO: Frutas recebem genes que melhoram a durabilidade e permitem o transporte a longas distâncias. A manipulação foi estendida também a flores e hortaliças

CORTAR E COLAR: Como os cientistas modificam os alimentos

Os pesquisadores descobrem genes responsáveis por características interessantes em outras plantas ou animais.
Determinadas enzimas agem como "tesouras" que cortam a fita de DNA e extraem o trecho em que está o gene desejado.Paralelamente, as "tesouras" são usadas para abrir um plasmídeo, tipo de anel de DNA encontrado em bactérias.Um segmento do DNA doador é colocado no plasmídeo. A nova unidade passa a produzir as proteínas específicas.Essas proteínas garantem características desejadas, como melhor sabor ou tolerância ao frio, a pragas e a herbicidas.

SEMENTES ESTÉREIS: Gene estranho só permite uso único

Um trecho do DNA extraído da planta Saponaria officinalis, espécie silvestre americana, é inserido em sementes de algodão.O grão cultivado germina e desenvolve-se normalmente. Quando a plantação amadurece, o gene "exterminador" entra em ação.Ele produz uma toxina que mata os novos embriões de semente. A planta torna-se estéril e não produz a segunda geração.Na safra seguinte, os agricultores são obrigados a comprar novas sementes do fabricante. A técnica pode ser aplicada a outras culturas, como a de soja e trigo.

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Cristiane Segatto e William Waack, de Londres (colaborou: Márcia Alves) REVISTA ÉPOCA  01/03/99

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