É POSSÍVEL ACREDITAR SIMULTANEAMENTE

EM DEUS E NO BIG BANG?

Bruno Maçães

 

No século XIX, durante uma permanência no Taiti, no Oceano Pacífico, o pintor Paul Gauguin escreveu numa de suas pinturas: "De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?" Estas três perguntas são de fato as mais fundamentais que nós, humanos, podemos perguntar.

Tais questões estão, é claro, entre as mais difíceis que temos que responder, se é que elas podem ser respondidas um dia. Eis porque temos ruminado sobre elas por tanto tempo com um sucesso apenas limitado.

Muitas culturas diferentes, em diferentes épocas, imaginaram engenhosas explicações para dar conta de tudo o que vemos e de quem somos. Chamamos estas explicações de mitos de criação. A maioria das religiões do mundo tem seus próprios mitos de criação. Em alguns mitos, existem múltiplos deuses, cada um tomando conta de um diferente aspecto da natureza ou de nós mesmos. Há também mitos que não envolvem nenhum deus e mitos em que o mundo não teve origem, tendo existido eternamente. Em nossa tradição ocidental, o mundo foi criado. Um único Deus criou tudo o que há, incluindo todas as criaturas vivas e nós mesmos.

Há um problema com os mitos de criação: eles raramente coincidem. Cada povo acredita que o seu ponto de vista é o verdadeiro, mas há muitos pontos de vista diferentes. Diferentes culturas frequentemente entram em choque para defender suas crenças. Mas finalmente, nesta virada de milênio, estamos cada vez mais chegando à conclusão de que não é aquilo em que acreditamos que está errado, e sim o próprio ato de acreditar. Nós normalmente acreditamos em idéias que nos dão prazer. Frequentemente ficamos bravos com alguém que não partilha nossas opiniões, porque acalentamos nossas crenças. É difícil acreditar que não somos totalmente racionais quando se trata de nossas crenças. Mas se fossemos realmente racionais nestes casos, no máximo devolveríamos os argumentos de nosso oponente com outros argumentos, em vez de tomar a discussão como um ataque pessoal. Normalmente, entretanto, o debate entre dois partidários de crenças opostas é como se fosse um diálogo de surdos, porque nenhum dos dois parece prestar atenção ao que o outro diz. Existem coisas em que acreditamos com tanta força que esta mesma força serve como uma prova para nós da verdade da crença. E na verdade não há uma base concreta para aquilo em que acreditamos.

No século XX, nosso entendimento da natureza aumentou muito graças ao rápido progresso da ciência. Aprendemos que o Universo é muito maior do que imaginávamos, e que nosso planeta não é o centro do mundo, como acreditávamos. Também não fomos especialmente criados acima dos animais. Num passado distante, nós tivemos um ancestral em comum com todos os seres vivos. Podemos provar isto olhando através de um telescópio e observando outras galáxias, e analisando nossas células e descobrindo que um mesmo tipo de molécula, o DNA, é a base de toda a vida na Terra.

A ciência, como os mitos, fornece uma explicação para os fenômenos da natureza. Nenhum dos dois necessariamente representa a verdade completa sobre alguma coisa. De fato, a ciência às vezes tem mais de uma boa explicação para certos fenômenos naturais, como dois mitos diferentes. Mas há razões para se esperar que as explicações científicas sejam muito mais exatas do que aquelas fornecidas pelos mitos, porque elas podem ser demonstradas a qualquer momento, para qualquer um e em qualquer lugar. As teorias científicas geralmente envolvem previsões muito precisas sobre os fenômenos naturais, enquanto seguir mitos é uma questão altamente subjetiva. Pode-se estar certo da existência de Deus, mas é extremamente difícil demonstrar ou provar sua existência.

Foi devido a estes desenvolvimentos da ciência em nosso século que tornou-se possível tentarmos responder com mais exatidão às três perguntas mencionadas acima. A teoria do Big Bang, e sua recente extensão, o modelo inflacionário, permitem descrições extremamente precisas da origem do universo, e limitam a muito poucas as possibilidades do que acontecerá no "fim dos tempos". Antes do aparecimento da teoria do Big Bang, as respostas predominantes a estas questões provinham da Bíblia. De acordo com o mito descrito no livro do Gênese, e alguns cálculos feitos por teólogos no século passado, a idade do Universo era no máximo seis mil anos. Atualmente sabemos com certeza, depois de estudar a geologia da Terra e o movimento das Galáxias, que o Universo tem pelo menos dez bilhões de anos.

Estudando o movimento das galáxias, descobrimos que elas estão se afastando umas das outras. Isto significa que no passado elas estavam mais próximas, e na verdade devem ter-se tocado num tempo muito distante. Se isto é verdade, então todo o Universo deve Ter tido um começo. A teoria do Big Bang é uma explicação para a expansão do Universo e para o aparecimento da matéria e dos elementos químicos. A evidência mais poderosa e convincente de que ela é a verdadeira explicação para o aparecimento do Universo é uma fraca radiação que está em toda parte e foi prevista pela teoria antes mesmo de ter sido acidentalmente descoberta. Sua extensão, a teoria inflacionária, é uma explicação do "bang", em si mesmo, o que explodiu e como, nas palavras do físico Alan Guth. Há pouco tempo a ciência começou a tratar de problemas que se pensava pertencerem ao domínio da teologia. Este domínio, desde a Renascença, cinco séculos atrás, está gradualmente diminuindo. Na década de 80 começamos a ter outros indícios de que a descrição do Big Bang é correta devido a uma bela e aparentemente improvável fusão entre duas diferentes áreas da ciência. A física de partículas elementares, o estudo do muito pequeno, ajuda os cientistas a estimar quais as estruturas mais prováveis para o universo como um todo. E a cosmologia, o estudo do muito grande, nos ajuda a encontrar novas partículas e conexões entre as forças da natureza. Isto acontece porque em seu início o universo era menor do que um átomo. A cosmologia e a física de partículas elementares eram uma coisa só.

Mas deixemos de falar de diferenças entre a fé e a ciência. O que nos preocupa agora é: será que estas duas coisas são compatíveis? A resposta é que um dia, é possível que os cientistas descubram uma explicação completa para toda a natureza, uma teoria de tudo. Haverá então uma fórmula pequena e bela que dará conta de tudo o que é mais fundamental na natureza, ou porque as coisas são como são. Esta fórmula estampa-de-camiseta poderá ser aprendida por qualquer um. A teoria final sem dúvida nos dará valiosas pistas sobre a origem do universo. E mesmo assim, depois disto alguns de nós ainda se perguntarão: existe algum ser, algum Deus por trás de toda esta beleza subjacente que o universo está nos mostrando? Para os crédulos, Deus nunca será incompatível com o big bang.

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