POR QUE NÃO DEVEMOS ACREDITAR

EM ASTROLOGIA

Bruno Macaes

Muitas pessoas não saem de casa sem consultar seu signo nos jornais. Outras recorrem a astrólogos profissionais para orientar suas decisões na vida. Até mesmo presidentes da nação mais poderosa do mundo, os Estados Unidos da América, já conduziram a política externa e interna de seu país seguindo conselhos de astrólogos. A astrologia parece ser mesmo muito importante no nosso mundo.

Você acredita em astrologia? Se acredita, então você é capaz de dizer o que é astrologia.... Ou não? Certo, a astrologia descreve nossa personalidade e prevê nosso futuro. Mas o que é astrologia ? Como ela chega a estas previsões? Em que se baseia? Que métodos utiliza?

Muita gente acredita em astrologia, mesmo sem saber muito bem o que ela é. Às vezes nem sabemos porque acreditamos em certas coisas. Mas por que não acreditar em astrologia, se até presidentes a utilizam? Presidentes devem ser pessoas cultas! Além disso, a astrologia está em toda parte: existem cursos de astrologia, professores de astrologia, livros de astrologia e softwares de astrologia. A astrologia está até nos jornais. Os jornais não publicariam se fosse mentira. Ou publicariam?

Aqui provarei que astrologia é mentira. E espero conseguir convencê-lo disso.

Se você está duvidando de mim, parabéns ! Você está sendo prudente. Duvidar é bom. Não aceite nada que te digam sem duvidar. Exija provas. A prova, aqui, é a própria definição de astrologia, que é absurda, como veremos. O que é irônico é que nós, quando crianças, questionamos tudo, mas aceitamos as explicações que os adultos nos dão. E depois duvidamos da verdadeira explicação de um fenômeno, apegando-nos às nossas crenças. Tendemos a acreditar naquilo que, afinal, há muito tempo todos já acreditam. É a força da tradição.

A astrologia é de fato muito antiga. Há registros de previsões astrológicas desde que a escrita começou. Os sumerianos, egípcios, gregos e romanos a praticaram. Naquela época, assim como hoje, havia outras formas de se prever o futuro além da astrologia. Você pode achar absurdo hoje, mas os antigos acreditavam que a observação do vôo dos pássaros também era capaz de revelar o futuro. Os profissionais engajados neste tipo de previsão eram os chamados áugures. Os sacerdotes gregos acreditavam poder prever o futuro observando as entranhas de um animal morto; geralmente um carneiro. Talvez no futuro julguem absurdos as cartomantes e os jogos de búzios dos tempos atuais...

A astrologia baseia-se num mito, numa visão de mundo. O homem tem necessidade de compreender o mundo onde vive. Os mitos existem porque, apesar de muitas respostas serem muito difíceis de serem obtidas, elas são entretanto necessárias para satisfazer nossa vontade de estar seguros; de sentir-se em casa no Universo. O mito e a explicação científica surgem da mesma maneira. Ambos são hipóteses sobre um determinado fenômeno. A diferença entre os dois é que o mito é geralmente uma história fantástica, uma alegoria sobre impressões acumuladas ao longo de gerações. Não há necessidade de provar mitos. As explicações científicas também surgem como hipóteses, mas os cientistas procuram provar o que pensam através de experiências que possam ser repetidas por qualquer um, em qualquer lugar. Muitas hipóteses, é claro, não resistem aos testes. E algo curioso ocorre com relação aos mitos: com o tempo, muitas das questões que se pensava totalmente impossíveis de serem comprovadas tornam-se facilmente comprováveis. Para nossos ancestrais somente quatrocentos anos atrás, a questão da natureza dos corpos celestes ainda estava no campo da crença. Podia-se debater o assunto mas julgava-se impossível comprovar qualquer das explicações contrárias entre sí. A explicação que prevalecia no Ocidente, é claro, era a da Igreja Católica: a Terra era fixa, quadrada e o Sol girava em torno dela. Hoje, podemos sair em órbita da Terra e verificar que ela se move e é redonda.

A astrologia é ainda anterior a esses tempos...

Na época em que a astrologia surgiu, acreditava-se que os céus eram perfeitos e imutáveis. As estrelas eram luzes coladas na esfera celeste de cristal. Suas posições eram sempre as mesmas. Elas formavam figuras, se as uníssemos mentalmente. Essas figuras eram as constelações. A esfera celeste como um todo girava lentamente, e ao longo de um ano, voltava à mesma posição. Cinco estrelas eram verdadeiramente estranhas: pareciam estar paradas, mas ao longo do ano podia-se perceber que na verdade elas se moviam em relação às outras. A explicação que se encontrou foi simples. Claramente, se cinco estrelas se movem, então existem cinco outras esferas de cristal, uma dentro da outra, onde elas podem ser coladas. Dentro dessas, havia ainda, mais próximas, uma esfera que continha a Lua e outra que continha o Sol. As estrelas móveis foram chamadas planetas, que em grego significa "andarilhos".

O Sol e os planetas não seguiam trajetórias desordenadas. Curiosamente, ao longo do ano eles passavam sempre na frente das mesmas constelações. Apesar de existirem muitas constelações no céu, o Sol e os planetas passavam sempre na frente de somente doze. Inicialmente, passavam na frente da constelação de Áries. Em seguida, nesta ordem, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Libra, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes. Estas constelações formavam o zodíaco.

Chegamos ao ponto crucial da questão: a definição de astrologia. Astrologia é a crença de que a passagem dos planetas na frente das constelações significa alguma coisa. Os astrólogos defendem a idéia de que a posição dos planetas com relação às constelações pode revelar a personalidade ou o futuro de alguém. Para os povos antigos, é algo compreensível crer em tal coisa. Algumas estrelas só aparecem em determinadas estações do ano, o que era um verdadeiro sinalizador das épocas de plantio e preparação do solo. Também se acreditava que o reaparecimento todos os anos das aves migratórias causava a volta da primavera. No Egito dos faraós, a época do aparecimento da estrela Sírius, a mais brilhante do céu, coincidia com o início da inundação anual do rio Nilo, que adubava o solo. Coincidia também com o dia mais longo do ano. A Lua também determinava claramente as marés (atualmente este fenômeno é bem explicado em termos de gravidade). Então, acreditar em outras "influências" dos astros era só uma extensão do que já se observava.

Mas hoje em dia acreditar em astrologia é deixar de conhecer como o mundo realmente é, e toda a beleza das explicações sobre ele. É uma superstição. Talvez muitas pessoas acreditem justamente por não saberem disto.

Muitas das constelações que existem atualmente foram nomeadas ainda no tempo dos gregos. Por isso a maioria tem nomes de personagens da mitologia grega. Outras foram nomeadas pelos navegadores europeus no tempo das descobertas. Eles as viram pela primeira vez, depois dos povos nativos, e colocaram nelas os nomes dos instrumentos de navegação mais avançados da época. As constelações são desenhos que criamos mentalmente ao unir os pontos que as estrelas formam. Os desenhos, é claro, não estão verdadeiramente lá. Inclusive, podemos criar com as estrelas quantos desenhos quisermos. Basta usar a imaginação. Se as constelações fossem nomeadas hoje em dia, talvez tivéssemos a constelação do Automóvel, a do Avião e a da Geladeira, entre outras. Mas como nossa cultura herdou os mesmos nomes dados pelos gregos e os navegadores, então temos, para citar algumas, as constelações de Andrômeda e Perseu, no hemisfério norte, e Bússola e Oitante no hemisfério sul.

Na verdade, as estrelas que formam as constelações não estão nem sequer próximas entre si. Nós as vemos próximas devido ao ângulo em que nos encontramos. Mas suas distâncias variam enormemente. Umas estão distantes, outras relativamente próximas.

Os planetas são corpos celestes grandes e arredondados, como a Terra. A Terra é um planeta comum. Os planetas que giram em torno do Sol formam o Sistema Solar. São os únicos que conseguimos ver atualmente, embora a análise da luz de estrelas distantes indique que elas possuem companheiros. Os planetas são mundos como o nosso. Um dia os visitaremos. Seus ambientes não são iguais ao da Terra, mas quem não imagina a humanidade habitando esses locais um dia ?

Os planetas do Sistema Solar giram todos em torno do Sol, dentro de um mesmo plano. Este plano se chama eclíptica. O motivo de os planetas e o Sol passarem sempre na frente das mesmas constelações é que nós também estamos dentro do plano da eclíptica. De nosso ângulo de visão, todos parecem seguir trajetórias parecidas, passando pelos mesmos pontos no céu.

Como se vê, não há nada de mágico nos planetas, que possa dizer algo sobre nós. Nem nas constelações, que são nada mais do que estrelas distantes de nós e entre si, porém transformadas em desenhos por nossa imaginação. Quando um planeta passa na frente de uma estrela, não se pode concluir nada. É um fenômeno igual à passagem de uma pessoa na frente da outra. Ou de um avião na frente de uma estrela. Ou mesmo passar seu dedo na frente de uma estrela. Você não pode dizer nada sobre o futuro ao passar seu dedo na frente de uma estrela, pode ? A diferença está apenas na distância envolvida. A substância dos planetas e das estrelas nem sequer é diferente da que existe em seu dedo ou num avião. Todos são formados pelos mesmos átomos e pelas mesmas substâncias químicas. Aliás, nossos átomos foram formados dentro de estrelas que explodiram, num processo chamado fusão nuclear. Não há por quê tirar conclusões a partir da passagem de um planeta na frente de uma estrela.

Muitas pessoas podem dizer que seu astrólogo, ou vidente, ou qualquer outro tipo de profissional "do futuro" acertou em suas previsões, e com detalhes. Como explicar isto ? Bem, estes profissionais têm de ser excelentes observadores para "acertar". Muitas vezes as pessoas, por sua aparência, pelos modos ou pelos pertences que carregam deixam transparecer a um olho observador muitos detalhes de suas vidas. Basta ler um livro de Sherlock Holmes para ver como isto funciona. De outro lado, temos casos de gêmeos que nascem no mesmo dia, no mesmo local e têm destinos completamente diferentes. Os astrólogos dizem que a diferença de minutos entre os dois nascimentos é importante. Então, porque publicam previsões para todas as pessoas nascidas durante um período de um mês, não necessariamente no mesmo ano, no jornal ? As desculpas dadas podem ir até o infinito. Os astrólogos podem dizer que as previsões do jornal não são "sérias". Mas o fato é que, se a astrologia fosse tão boa, ela não seria tão vaga e obscura. As previsões nunca são exatas. São quase sempre metafóricas. Se a precisão da astrologia é tão grande no caso dos gêmeos, por que então não fazer todas as previsões com a mesma exatidão? Explicando hora, local e razão de acontecimento dos eventos futuros ?

Faça um teste: peça para ler o signo de outra pessoa no jornal, e em vez disso leia outro signo que não o dela. Ela provavelmente dirá que o jornal está correto. As previsões dos jornais combinam com qualquer pessoa. Qualquer signo dá certo com qualquer pessoa. Isto porque as "previsões" são na verdade conselhos, do tipo "hoje você deve se empenhar mais para conseguir o que quer". Quem na vida não sente que "precisa se empenhar mais" de vez em quando?

Se a astrologia é uma mentira tão clara, por que ela ainda existe ? Enquanto existirem pessoas para serem enganadas, ela progredirá. A publicações sobre astrologia rendem muito mais dinheiro do que publicações sobre assuntos científicos (na banca de jornais que freqüento, as revistas sobre astrologia, muito mais numerosas, estão lado a lado com as de astronomia. A diferença, irritante para quem gosta de astronomia, não é percebida pelo jornaleiro...). A astrologia impressiona o leigo com uma aparência "científica". Existe todo um sistema com "casas", "triplicidades", "quadruplicidades", "aspectos" ,"eras", e assim por diante. Mas isto não é ciência. Todas estas entidades astrológicas se parecem mais com aspectos e regras de um jogo do que com ciência. A ciência é sempre direta.

A ciência hoje já respondeu questões que imaginávamos impossíveis de serem respondidas. E descobriu fenômenos muito além do que o senso comum poderia imaginar. Mas muitas perguntas ainda não podem ser respondidas. Estão no campo da crença. Cada resposta da ciência expande a fronteira do conhecido mas gera novas perguntas. Mesmo assim um dia teremos conseguido responder grande parte destas perguntas que hoje não conseguimos solucionar. Um dia conseguiremos responder claramente o que somos e por que as coisas são como são. Outras perguntas aparecerão que temporariamente não conseguiremos responder. Não é hora de pararmos de atribuir tudo o que não entendemos a deuses e outras entidades místicas? O mundo que a ciência nos tem revelado é muito mais interessante do que o mundo mágico de nossas crenças. E muito mais belo. E comprovado através de experiências. Quando uma questão é difícil de se responder, devemos pensar sobre ela, e quando julgarmos ter encontrado uma solução, devemos pensar em como prová-la a todos. Não devemos construir um castelo com fundações no ar e tentar convencer os outros a morar nele. Devemos tentar conhecer o mundo como ele realmente é.

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