Entrevista com Profissional da Área

Entrevista realizada com uma psicóloga, a qual trabalha com Grupo Operativo em uma Instituição para psicóticos crônicos em Porto Alegre/RS-Brasil..
1. O que entendes por grupo operativo?
Para mim Grupo Operativo é todo aquele que centra-se na tarefa para poder refletir sobre as dificuldades pessoais e grupais de cada paciente. Não deixa de ser um grupo terapêutico, porém é mais dirigido e organizado, com tempo limitado para cada assunto. Terapêutico porque é através de situações individuais ou grupais agendadas pela própria pessoa ou por outro participante qualquer do grupo que podemos pensar sobre os mecanismos utilizados, histórias e identificações, tentando transformar o comportamento pré-existente e fazendo circular condutas para serem refletidas e posteriormente modificadas.
2- Como surgiu a idéia de se trabalhar com grupos operativos?
Penso que a idéia surgiu para que se pudesse lançar mão de mais um recurso no tratamento de doenças graves como Esquizofrenia ou Distúrbios Afetivos, com nível de funcionamento psicótico. Isto porque observa-se que tratar diretamente sobre histórias passadas e afetos presentes significa uma necessária capacidade interna e estrutura egóica pouco presente nos Psicóticos. Para isto é imprescindível que possamos chegar a eles através da conduta, daquilo que eles fazem e nos mostram, porque é assim que se comunicam.
3. Qual a concepção teórica que trabalhas com grupo?
A primeira concepção teórica e fundamental é a de Picho-Rivière que nos diz o quanto nos grupos operativos está presente o esclarecimento, a comunicação, a aprendizagem e a resolução de tarefas, isto porque é na operação de tarefas que pode ser possível resolver situações de ansiedade. Ou seja, é através da tarefa realizada no grupo operativo que o sujeito recupera um pensamento discriminativo, obtendo consciência de sua identidade e da identidade dos outros à nível real. Outro autor importante que não poderia deixar de mencionar é Bleguer que nos situa frente à riqueza de produções e comunicações exercidas por cada componente do grupo, onde cada um sempre atua com seu repertório próprio de conduta e em sua forma característica. Por fim, Osório e Badaracco que especificam melhor este tipo de grupo em comunidade terapêutica, tipo de trabalho que faço parte. Ambos falam sobre o objetivo destes grupos como uma tentativa de ampliar vias de comunicação e elaborar as experiências cotidianas em comum. Badaracco ainda salienta que devido à heterogeneidade da comunidade terapêutica, aparece ao mesmo tempo diferenças enrriquecedoras e a possibilidade de encontrar semelhanças e correlações.
4- Qual a demanda/ tarefa/ objetivo do grupo que trabalhas?
Normalmente o objetivo do grupo que trabalho centra-se no fato de que precisamos tratar diversos assuntos e sentimentos relacionados às atividades desenvolvidas na casa (moradia protegida) onde moram, tomando como fundamental a tarefa diária que visa a reabilitação pessoal e social de cada paciente. Quando podemos falar sobre as queixas, dificuldades e preocupações, bem como atuações (e aqui estou falando do termo designado para explicar atitudes não pensadas) dos pacientes e da equipe presente, possibilitamos um momento de reflexão e uma abertura de espaço para que possam falar (ao invés de atuar) e examinar de forma integrada as dificuldades que estão aparecendo, os fatores que estão contribuindo para um funcionamento inadequado e analisar atitudes e participações.
5- Descreva como é o andamento do trabalho com grupo.
O grupo ocorre 1 vez na semana durante aproximadamente 1 hora, onde inicialmente algum paciente lê o relatório feito pela equipe ( plantonista e estagiários), relatório este que contém dados de funcionamento de cada paciente durante a semana. Posteriormente se faz a agenda de assuntos, onde cada um pode agendar o que quiser, e calcula-se o tempo para cada assunto ser tratado. É, então, através dos assuntos agendados que dizem respeito à pedidos, dúvidas, combinações etc. que podemos conversar sobre sentimentos, dificuldades, comportamentos e fazer com que o paciente se torne mais ativo neste processo. É claro que, por vezes, é preciso repetir o mesmo assunto por vários grupos consecutivos, ou voltar a tratá-lo tempos depois, mas o que se observa é uma maior participação dos pacientes, na medida em que alguns mais calados podem começar a trazer assuntos ou outros mais falantes podem permitir mais espaços para colegas, ou podem pensar e questionar mais sua própria atitude e dos demais. Exemplo disto é de um paciente que queixava-se de uma plantonista que não entregava seu turno limpo, ou seja, não limpava os cigarros e sujeiras na sala de fumantes (este paciente é um fumante), viu-se com ele como ele poderia ajudá-la (transformando a queixa em algo ativo seu) e ele se propôs a começar a limpar e chamá-la depois, possibilitando que também se responsabilizasse por manter a casa limpa.
6- Como defines o teu papel de coordenador no grupo operativo?
Penso que o trabalho do coordenador é de ser um facilitador, aquele que está presente como uma ponte para que coisas possam ser ditas e pensadas, mas que não deve ter respostas prontas ou soluções, que possa ajudar a cada indivíduo no grupo encontrar suas soluções ou o próprio grupo movimentar-se para mudanças importantes. Penso que quanto mais outros no grupo assumirem indiretamente a coordenação, maior será a efetividade deste grupo, pessoalmente acho que quando sou eu que falo muito no grupo ou fico com toda a preocupação para mim, este não foi um bom grupo.
Algumas considerações finais do Entrevistador :
Tendo como base essa experiência de trabalho com Grupo Operativo pode-se reforçar algumas considerações. Primeiro, que o grupo operativo caracteriza-se por estar centrado em uma tarefa e a participação através dela permite não só sua compreensão, mas também sua execução, conforme Bauleo define grupo operativo um artigo de 1969. Partindo dessa afirmação pode-se apontar que neste caso ( o da entrevista) a tarefa fica centrada na abordagem de diversos assuntos e sentimentos relacionados as atividades desenvolvidas na instituição. A participação na tarefa faz parte do processo de reabilitação social e pessoal de cada paciente, então por exemplo seria o agendamento de assuntos no grupo operativo. Dessa forma cria-se um tempo para que esse assunto seja tratado, questionado, pensado e compreendido, fazendo com que todos possam refletir mais sobre suas próprias atitudes e na dos demais componentes. O processo terapêutico do qual o grupo operativo é instrumento consiste na diminuição dos medos básicos através da centralização na tarefa do grupo que promove o esclarecimento das dificuldades de cada integrante aos obstáculos.
E segundo, que o papel do coordenador tanto essa experiência prática (entrevista) como as leituras para este trabalho nos mostram que, este deve estar mais para aquele que pensa junto com o grupo, facilitando a comunicação e o funcionamento do grupo.