nostradamus

Entre todos os homens ilustres do século XVI, Michel de Nostredame, conhecido como Nostradamus, é incontestavelmente o que, depois de sua morte, deu origem ao maior número de obras literárias, com incidência no século XX, objeto essencial de sua visão profética. Nasceu a 14 de dezembro de 1503, em Saint-Rémy, França, e morreu a 2 de julho de 1566, em Salon, França. Astrólogo e um respeitável médico francês de origem judaico-provençal, Nostradamus aprendeu latim, grego, hebraico, matemática e astrologia com seu avô, Jacques de Nostredame, médico da corte do rei René de Provença. Estudou humanidades e filosofia em Avignon, e medicina em Mont-pellier, graduando-se em 1529. Serviu como clínico na peste de 1525; descobriu o modo de transmissão dessa peste, e inventou, quase quatro séculos antes de Pasteur, "um método de assepsia"; uma assepsia muito poderosa; usando um pó de sua fabricação, para disfarçar a descoberta científica, pois se esta fosse conhecida poderia levá-lo à pena capital, sob a acusação de "bruxaria"; Curou várias vítimas e sua fama de curandeiro se espalhou. A convite de Escalégero, radicou-se em Agen, lá latinizando seu nome e exercendo a profissão de médico. Abandonou a cidade, quando em 1533 uma outra peste, matou sua mulher e filhos. Viveu isolado e tornou-se introvertido, passando dez anos numa vida errante e misteriosa. Casou-se novamente e se estabeleceu em Salon, voltando a exercer a profissão de médico. Por volta de 1547, começou a fazer predições. "Sentado à noite, estudando sozinho em lugar retirado, numa cadeira de bronze, uma pequena chama sai da solidão e faz surgir coisas (predições) das quais não se pode duvidar". Suas profecias baseavam-se em estudos de astrologia, e em inspirações divinas. Publicou em 1555 um livro de profecias em rima, de título Les Centuries de Michel Nostradamus. Republicou a obra em 1558, aumentando-a e dedicando-a à Henrique II, cuja morte predisse acertadamente, trazendo-lhe fama e fortuna. " O jovem Leão vencerá o velho num torneio na liça. Ele lhe perfurará o olho numa armadura dourada, num dos dois combates, e depois morrerá de morte cruel." (Em um torneio, num combate contra o conde de Montgomery, comandante da guarda escocesa , o Rei Henrique II teve seu olho direito perfurado pela lança do adversário, que após resvalar em sua armadura, levantou a viseira de seu capacete dourado perfurando-lhe o olho. O rei agonizou durante algumas horas antes de morrer). A fama de Nostradamus atingiu tal elevação que passou a ser requestado por reis e príncipes europeus. Foi conselheiro dos Reis Henrique II e Francisco II; o Rei Carlos IX nomeou-o médico particular da corte, tendo sido também médico, conselheiro e protegido da Rainha Catarina de Médici, para quem elaborava horóscopos e fazia previsões astrais. As Centúrias de Michel Nostradamus foram escritas sob um hermetismo codificado, um manto filológico e mesmo astrológico, por causa da Inquisição. Ele usou construções latinas e gregas, sentido etimológico das palavras, anagramas, figuras de sintaxe, lugares geográficos pouco conhecidos, e queimou todos os livros nos quais se baseou para proteger suas profecias, tornando-as acessível somente a poucas pessoas, porque se as descrevesse claramente, seria perseguido e sua visão do futuro não teria chegado à posteridade. Sua obra teria sido condenada e destruída pelas autoridades governamentais e religiosas da época, que a teriam como uma obra completamente adversa aos seus desejos e anseios. "Temendo também que vários livros ocultos durante séculos longos viessem a ser conhecidos, e prevendo o que aconteceria se fossem lidos, eu os dei de presente a vulcão (isto é, eu os queimei)". Os livros usados por Nostradamus constituem, portanto, a chave das centúrias; e sabendo o que aconteceria à sua mensagem, se fosse logo decifrada, ele destruiu esses livros, atirando-os ao fogo, queimando com eles a chave do segredo do cofre-forte que é a sua obra. Uma de suas primeiras previsões, foi religiosa. Ele viu um jovem frade se aproximar do poço. Sentiu-se compelido a ir prestar-lhe uma homenagem. Ajoelhou-se e beijou as vestes do jovem. Perguntado porque fazia aquilo, respondeu: "Preciso beijar as vestes de sua santidade, o Papa". Acharam seu comportamento um tanto excêntrico. Em 1585, muitos anos depois de Nostradamus estar morto, o jovem (Felice Peretti) tornou-se o Papa Sisto V. Numa outra ocasião, num banquete, o anfitrião quis enganá-lo. Disse que naquela noite comeriam um leitão. Disse que tinha um branco e um preto, e pediu a Nostradamus que adivinhasse qual deles comeriam. Ele disse: "O preto". O anfitrião mandou preparar o branco. Durante o jantar desafiou Nostradamus a dizer mais uma vez, qual o leitão que comiam. Como antes, respondeu: "O preto". Triunfante, o anfitrião chamou o cozinheiro para que dissesse qual deles comiam. Este contou que, enquanto preparavam o leitão branco, ele caíra da mesa e fora devorado pelos cachorros. Então tiveram que servir o preto. Pouco tempo antes de morrer, Nostradamus previra sua própria morte: "Voltando de uma visita, e guardando o presente do rei em lugar seguro, ele não poderá mais agir, e morrerá. Os parentes próximos, amigos e consanguíneos o encontrarão morto ao lado do leito e da cadeira". (Ele foi encontrado morto, ao lado do leito e ao pé da cadeira de bronze onde fazia suas predições, depois de uma visita ao Rei Carlos IX, que lhe presenteou com trezentos escudos de ouro). Sabendo de sua própria morte, fez então alguns preparativos. Pediu, que ao ser enterrado, junto a seu corpo fosse colocada secretamente uma placa de metal com uma determinada data, e pediu que após sua morte, fosse dada uma advertência: Aquele que bebesse utilizando a caveira de Nostradamus como se fosse um copo conquistaria a capacidade de também predizer o futuro, porém essa capacidade duraria poucos segundos, pois seu autor, em seguida, tombaria fulminado pela morte. Essa advertência acabou se tornando uma lenda. Mais de duzentos anos depois, em maio de 1791, durante a Revolução francesa, o túmulo de Nostradamus foi aberto por soldados bêbados. Ao abrirem o caixão ficaram espantados com a placa que lá estava: "maio, 1791". Um dos soldados desafiou a lenda e tomou vinho no crânio de Nostradamus, e poucos segundos depois foi atingido por uma bala perdida, morrendo instantaneamente. Os restos de Nostradamus foram então reenterrados na igreja de São Lourenço, em Salon, onde permanecem até hoje.

A obra de Nostradamus estrutura-se da seguinte forma:

1. A "Carta ao seu filho, César": texto em prosa, na realidade uma advertência ao seu futuro tradutor. Esse texto reveste-se de importância capital para a compreensão da obra.

2. Doze centúrias, divididas da seguinte maneira:

3. Uma quadra em latim, colocada entre a centúria VI e a centúria VII, representando uma advertência complementar.

4. Os presságios, em número de cento e quarenta e um.

5. As sextilhas, em número de cinquenta e oito.

6. A "Carta a Henrique, Rei de França, segundo": texto em prosa, colocado no fim da centúria VII, uma espécie de quadro sinótico das visões de Nostradamus. Esse interesse manifestado por este personagem enigmático faz supor que o mesmo tenha deixado uma "grande obra", fora do comum, dotada de um poder excepcional de fascinação. Se somarmos os versos escritos por Nostradamus, teremos um total de quatro mil setecentos e setenta e dois versos, escritos em francês arcaico, uma língua intimamente ligada às suas origens greco-latinas, o que explica as dificuldades encontradas pelos exegetas que não têm, em primeiro lugar, a formação literária indispensável para traduzir a obra para o francês do século XX, e, em segundo, para reconstituir o gigantesco quebra-cabeça cujas peças são as quadras. Assim, os livros sobre Nostradamus estão repletos de inúmeros erros filológicos, o que levou muitos a acreditarem na tese segundo a qual a obra de Nostradamus não passa de um texto obscuro e incompreensível, sendo a crítica mais frequente a de que as quadras podem ser interpretadas de acordo com o ponto de vista de cada um! Isso seria o mesmo que afirmar que a linguagem usada pelo profeta não tinha nenhum sentido, o que para mim é inaceitável. Há ainda um fato que poderia surpreender uma mente mais histórica do que técnica: a "mensagem" de Nostradamus foi escrita para o século XX, (dois terços da obra), pois ele sabia que o texto só seria compreendido e revelado nesse século, objeto de sua visão, e, portanto, os textos que se referem aos séculos anteriores servem apenas de testemunho da autenticidade da profecia. Para compreender o caráter hermético da obra é necessário conhecer a "Carta a César". As advertências de Nostradamus ao seu futuro tradutor são da maior importância para penetrarmos a mensagem profética. A magia e o ocultismo estão completamente fora de cogitação.

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