Exercendo
a Individualidade no Mundo Social
Este texto discute a tendência contemporânea de
anulação do indivíduo em uma sociedade globalizadora e
massificadora.
Vivemos em uma sociedade
no qual somos, já há alguns séculos, incitados a pensarmos
sobre nós mesmos em termos gerais, de maneira coletiva. Por
exemplo, ao invés de dizermos "pessoas exercendo
cidadania", falamos da Sociedade; ao invés de dizermos
"pessoas aprendendo a governar", falamos de Governo; ao
invés de falarmos de "pessoas exercitando suas
crenças", falamos de Religião; ao invés de falarmos de
"pessoas reunidas", falamos de Coletividade, ao invés
de falarmos em "pessoas transformando a realidade",
falamos em "Revolução"...
Reconheço que tal diferenciação é sutil, principalmente por
estarmos imersos nela e acostumados a tais mecanismos de
apagamento do indivíduo, presente em diversas linhas
ideológicas e em múltiplas formas de sociedade na qual
discursos, dos mais diversos matizes, muitas vezes funcionam,
cada qual à sua maneira, como mais um mecanismo renovado de
exercício de poder sobre os homens e seu cancelamento enquanto
pessoa singular ...
Certamente um estudo mais acurado de tal tendência nos
reportaria ao processo de evolução das ciências, as quais
fizeram com que surgisse o "homem como medida de todas as
coisas".
Assim, com o aumento da população do planeta nos últimos
séculos e o aprimoramento das formas de poder e de dominação
sobre os seres humanos, nós, indivíduos, passamos a ser
focalizados enquanto meros dados estatísticos em uma série de
análises demográficas, tornados objetos para a disposição dos
indivíduos em espaços urbanos cada vez mais aglomerados, tendo
nossos comportamento e desejos analisados com o intuito de
estabelecer desde o controle da natalidade, princípios de
higiene até o conhecimento e controle de nossos sentimentos e
idéias, no sentido de assegurar a potencialização de nossa
produtividade e o aumento de nosso consumo, em um mundo no qual
cada indivíduo é uma mera peça em uma sociedade altamente
tecnológica, globalizadora e uniformizadora de hábitos e
vontades.
Quando escrevo um texto busco aos poucos,
expandir sua significação a ponto de podermos refletir, de
maneira mais ampla, sobre assuntos que, em um primeiro momento,
são de cunho aparentemente pessoal.
Intenciono, assim, apagar a divisão entre o micro e o macro,
entre o indivíduo e o coletivo, de forma que sintamos que cada
um de nós está atravessado pela história, até em nosso
trivial cotidiano de forma que, qualitativamente, existe pouca
diferença entre o indivíduo focalizado no seu dia-a-dia e a
compreensão de indivíduos enquanto agrupamentos humanos. Ou
melhor, que o coletivo é o efeito de conjunto de múltiplas
individualidades.
Digo-lhes isto pois o último artigo que escrevi, tendo como
gancho a morte de Cassia Eller e a sua expressividade
comportamental provocou, como previa, algumas manifestações de
apreço e outras que consideraram o texto muito focado na
intimidade de uma pessoa ou de um grupo de pessoas o que, a meu
ver, não corresponde ao que está escrito.
Aliás, me parece muito mais um hábito de leitura que todos
temos de, por um lado, não vermos em nós mesmos uma síntese
particularizada do mundo, que faz com que consideremos o
comportamento "da Cassia" como não expressivo de um
momento histórico abrangente. Ou seja, será que somos uma ilha,
indivíduos com personalidade fechada e cindida do mundo?
Compreendo que não!
E, por outro lado, tendemos a esquadrinhar
comportamentos como se o comportamento "do outro" não
fosse co-constituído por "nós", através de nossos
diálogos cotidianos, de nossos posicionamentos pessoais e de
nosso discernimento sobre as diferenças entre as pessoas. Ou
seja, é possível falar "de si" ou "do
outro" sem levar em conta a interação, direta ou indireta,
a qual todos nós nos submetemos constantemente, interação esta
feita tanto por palavras, gestos como por enormes zonas de
silêncio?
E isto me lembra o ditado que diz que, quando apontamos um dedo
para o outro, três dos nossos dedos estão apontados para
nós... Repare...
Acredito que, ao tentar abordar temas comportamentais buscando
correlacioná-los com amplos processos da realidade, já estarei
falando de assuntos globalmente importantes, visando destacar de
que cada um de nós é um microponto de apoio de amplos processos
históricos.
Phelipe Halfeld
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