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Pol�ticos em campanha volta e meia anunciam que s�o a favor da libera��o da maconha. A justificativa? "Maconha n�o vicia". Realmente, uma s�rie de estudos j� demonstraram que animais de laborat�rio ficam rapidamente viciados em drogas como coca�na e nicotina (sim, aquilo que se compra em ma�os em qualquer padaria), mas n�o conseguiam deix�-los viciados em maconha.
At� agora. Um grupo de pesquisadores do National Institutes of Health (NIH) dos EUA n�o s� conseguiu deixar macacos viciados em maconha, como tamb�m explica porque outros cientistas n�o conseguiram.
O teste padr�o para determinar se uma subst�ncia gera depend�ncia � a auto-administra��o. O animal tem um cat�ter inserido na veia, e cada vez que aperta uma barra na gaiola, recebe uma inje��o da subst�ncia. Ratos e macacos gostam de apertar barras e bot�es por natureza, principalmente quando s�o novidade na gaiola, mas logo deixam pra l� quando nada de interessante acontece em seguida. Ou continuam apertando, se isso tiver conseq��ncias interessantes como fazer aparecerem pedacinhos de comida ou �gua. Ou disparar a inje��o de drogas como a coca�na: os animais ficam rapidamente viciados, e continuam apertando a barra enquanto podem.
Foi nesse teste que outros pesquisadores vinham tendo dificuldade em provocar o v�cio com a maconha; os bichinhos n�o buscavam repetir a dose. Pensando nisso, o grupo de Steven Goldberg, no NIH, usou de uma artimanha: usar coca�na primeiro para deixar alguns macacos viciad�es, depois retirar a droga, e ver se a maconha servia de substituta.
Para complicar a tarefa e deixar bem claro que era necess�rio se esfor�ar para conseguir a droga, eles modificaram o protocolo de auto-estimula��o. Ao contr�rio de outros estudos, agora n�o bastava apertar a barra uma vez s�; os animais somente recebiam a droga depois de abaixarem a barra dez vezes seguidas. Para evitar overdose, cada sess�o durava s� uma hora por dia, e ap�s cada inje��o a barra n�o funcionava mais durante um minuto, enquanto as luzes se apagavam na sala (pro bichinho curtir a viagem, talvez...)
Depois dos animais ficarem ex�mios na auto-estimula��o, conseguindo 40 inje��es de coca�na em uma hora - praticamente o m�ximo poss�vel -, os pesquisadores trocavam a coca�na por soro fisiol�gico, durante uma semana inteira. Decep��o para os pobres macaquinhos: apertar a barra n�o dava mais barato, e dentro de alguns dias eles se injetavam com o soro apenas umas quatro vezes por hora.
E ent�o Goldberg colocou canabinol, o princ�pio ativo da maconha, no lugar do soro fisiol�gico que os macaquinhos recebiam. Mas com dois truques, que outros pesquisadores n�o tentaram. O canabinol se dissolve muito mal em �gua, e a maior parte fica em suspens�o, aglomerada. Para compensar, estudos anteriores usaram concentra��es muito elevadas de canabinol - t�o elevadas que, na opini�o de Golberg, acabavam deixando os animais t�o chapados com uma �nica inje��o que eles n�o conseguiam juntar for�as para apertar a barra de novo. Da� parecer que eles n�o buscavam a auto-estimula��o.
Goldberg, ao contr�rio, preparou uma solu��o bem l�mpida de canabinol, usando min�sculas concentra��es de �lcool e detergente para dissolver a droga. E al�m disso, deixou a solu��o bem fraquinha em canabinol, em doses semelhantes �s usadas com fins medicinais.
Foi s� trocar o soro pelo canabinol que os macacos imediatamente voltaram a se auto-injetar entre 30 e 40 vezes por sess�o. Para garantir que n�o era efeito do �lcool e do detergente usados na dilui��o, Goldberg testou em seguida uma solu��o dessas subst�ncias, mas sem o canabinol. E os macacos se desinteressaram novamente.
Se for verdade, � um balde de �gua fria nos militantes pela legaliza��o. Que, obviamente, j� se manifestaram, alegando que os resultados v�o contra o senso comum e contra tantos outros estudos anteriores que fica parecendo que o NIH est� tentando de qualquer maneira justificar seus "excessos" na proibi��o do uso da maconha nos EUA. Verdade seja dita, agora que Goldberg acertou na dose e na dilui��o do canabinol, � preciso repetir o experimento com macacos "caretas" e determinar se o canabinol, sozinho, leva os bichinhos ao v�cio.
Essa n�o � a primeira vez que se sugere que a maconha n�o � t�o diferente de coca�na e similares como se pensava. Depois de outro tanto de discuss�o e controv�rsia, j� ficou claro que a maconha, como as outras drogas, tamb�m age no sistema de recompensa do c�rebro. Quando estimulado diretamente, esse sistema produz sensa��es de prazer e euforia no homem. � tamb�m ele que se habitua com a droga, fazendo com que a pessoa ou o animal busque se drogar cada vez mais para conseguir o mesmo efeito.
E depois, n�o ser� somente uma quest�o de viciar ou n�o que vai determinar a libera��o da maconha - se fosse assim, os cigarros j� estariam nas m�os de traficantes, e n�o de padarias e botequins. A maconha tem seu lado �til, por acabar com a n�usea e com a dor, e por isso �s vezes � usada em casos terminais de c�ncer, por exemplo.
Mas tamb�m tem seus efeitos nocivos � sa�de. E indesej�veis para os vizinhos. Al�m de ficar com o cora��o acelerado, chegando a 160 batidas por minuto, quem fuma maconha se fecha ao redor de suas pr�prias sensa��es, que podem parecer mais fortes e n�tidas, como o som da m�sica, mas se desliga das pessoas ao redor. A maconha tamb�m impede a forma��o de novas mem�rias, e pode causar tanto acessos de riso quanto crises de p�nico e paran�ia. Al�m de deixar o usu�rio incapaz de dirigir com seguran�a. Quer dizer: a viagem pode at� parecer legal pro dono do c�rebro dopado, mas aturar gente chapada pode ser muito chato. E perigoso. Pena que quem est� chapado n�o consegue entender isso.
Fonte:
G Tanda, P Munzar & SR Goldberg (2000). Self-administration behavior is maintained by the psychoactive ingredient of marijuana in squirrel monkeys. Nature Neuroscience 3, 1073-1074.
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