Você já tentou fazer cócegas em você mesmo? Recorreu até a uma pena ou um fiozinho de lã na sola do pé? E mesmo assim não funcionou? Segundo neurocientistas ingleses, foi pela mesma razão pela qual não sentimos os sapatos roçando nos pés a cada passo: o cérebro bloqueia as sensações causadas pelos movimentos do próprio corpo. Inclusive a sensação das cócegas auto-infligidas.
Há tempos que os neurocientistas acreditam que toda ordem dada para executar um movimento deixa uma "cópia" sua circulando no cérebro, como uma maneira de informar às outras partes do cérebro que há uma ordem em execução, e prepará-las para a ação. Graças a essa cópia seria possível executar sequências complexas de movimentos, monitorar nossos próprios movimentos, e até mesmo reconhecê-los como "nossos".
Mas a cópia do comando motor também teria uma outra função: prever quais serão as sensações resultantes do próprio movimento, e suprimi-las. Assim o cérebro ficaria "livre" para receber sensações inesperadas, muito mais informativas. Ainda bem, porque as sensações "auto-provocadas" seriam tantas, e tão constantes, que deixariam qualquer um doido. Já imaginou se você sentisse sua língua mexendo dentro da boca ao falar? Claro que você consegue, se começar a prestar atenção. Mas o tempo todo, seria distração demais. Melhor deixar o cérebro se preocupar somente com sensações imprevistas.
A proposta da predição de sensações a partir da cópia interna dos comandos motores era interessante, mas não era muito mais do que isso: apenas uma proposta, sem muita evidência contra ou a favor. Até que em 1998 alguns ingleses, neurocientistas sérios, tiveram a improvável idéia de fazer cosquinhas em seus voluntários.
As predições a testar eram várias. Primeiro, tentativas de cócegas auto-infligidas não deveriam chegar aos pés de cócegas feitas por outra pessoa. Grande coisa: todo mundo sabe que isso é verdade, não é? Mas quando se trata de ciência, o "todo mundo sabe" não vale muito. É preciso testar, para ter dados, e se possível números, de referência. Chris Frith, do departamento de Neurologia Cognitiva da Wellcome Foundation, em Londres, e seu grupo montaram um robozinho para reproduzir um dedo humano fazendo cócegas na palma da mão de voluntários. Que, munidos de uma tabela para dar "notas" às sensações, sempre julgavam a sensação causada pelo robozinho como mais intensa, mais agradável, e causando mais cócegas do que quando as pessoas usavam o próprio dedo.
Outra predição era que o cérebro deveria responder bem menos a tentativas de cócegas auto-provocadas do que às feitas por outra pessoa. Seis voluntários entraram em um aparelho de ressonância magnética, e o nível de atividade em seus cérebros foi escaneado enquanto eles usavam um aparelho para fazer cócegas na palma da própria mão. Era uma caixinha com uma alavanca, empurrada com um dedo, que mexia uma espuminha, que acariciava a palma da outra mão. Às vezes a própria pessoa mexia a alavanca; outras, era o pesquisador, do lado de fora do aparelho, quem produzia o movimento.
De fato, a resposta no córtex somestésico, a região do cérebro que sente toques na pele, era muito maior quando as cosquinhas eram feitas pelo pesquisador. Quando o voluntário controlava a espuma, produzindo exatamente a mesma estimulação, a ativação do córtex somestésico era bem menor. E se há menos ativação, a sensação é menor. Exatamente conforme previsto: o cérebro não responde tão bem a estímulos causados pela própria pessoa.
Como o cérebro sabe quando é a própria pessoa quem faz cócegas? A resposta parece estar logo acima da nuca, no cerebelo, a porção mais posterior do cérebro. As funções exatas do cerebelo ainda são tema de debates acalorados, mas é certo que uma de suas ações é a coordenação dos movimentos de acordo com os sentidos. Tocar o nariz com a ponta do dedo, por exemplo, é um dos mais velhos testes para ver se o cerebelo está funcionando direitinho - se não estiver, seu dedo partirá em todas as direções antes de aterrisar no nariz, ao invés de seguir um caminho direto.
Os pesquisadores propõem que é o cerebelo quem faz a previsão das sensações decorrentes dos movimentos, funcionando mais ou menos como um "detector de sensações inusitadas". Quando as sensações não combinam com a predição, ele "dispara", e gera um sinal para permitir uma resposta do córtex sensorial. Mas se a sensação combina com a predição, ele não dispara - e não acontece grande coisa no córtex sensorial.
Foi o que os pesquisadores encontraram. Cócegas vindas "de fora" são pegas pelo detector e ativam o cerebelo, mas tentativas de fazer cócegas em si mesmo não dão em nada.
Se é a predição que faz a diferença, uma maneira de aumentar as cócegas deve ser enganando a própria predição. E foi o que os voluntários de Frith conseguiram fazendo cócegas em si mesmos por controle-remoto (garanto que você nunca imaginou que esse tipo de coisa acontecesse num laboratório!). Ao invés de fazer cócegas diretamente com uma mão na outra, os movimentos feitos com a mão esquerda eram transmitidos para o robô na mão direita pelo controle-remoto. Como era de se esperar, não dava muitas cócegas.
Só que às vezes o controle-remoto dava um tempinho antes de fazer as cócegas, para esperar a predição "passar". Quanto mais tempo ele dava, mais cócegas a pessoa sentia cócegas feitas por ela mesma!
Ótimo: a gente sente cócegas com sensações que o cerebelo não consegue predizer. Mas como explicar aquelas gargalhadas deliciosas das crianças e as defesas destruídas de até o mais durão dos marmanjos à simples visão de dedinhos em riste se aproximando ameaçadoramente?
Agora foi a vez de cientistas suecos fazerem cócegas em seus voluntários. Ou melhor: ameaçá-los com cócegas. Martin Ingvar, um dos pioneiros da ressonância magnética funcional do cérebro, comparou a resposta do cérebro às cócegas e à expectativa das cócegas. O resultado? Ambas ativam o córtex somestésico, aquele que sente toques, da mesma maneira. Para o cérebro, a ameaça de cócegas funciona tão bem quanto a própria.
Só que ninguém ainda explicou porque alguns toques são só toques, e outros são "cócegas". O que faz a diferença: a intensidade? Os movimentos repetitivos das cosquinhas? O lugar do corpo? Essa pesquisa ainda vai render muitas gargalhadas...
Mas ainda tem um detalhe. E para os mais coceguentos, uma esperança. A ativação do córtex somestésico é atenuada por qualquer movimento que você faça. No experimento de Chris Frith, bastava a pessoa mover a alavanca, sem que a espuma encostasse na pele, para que houvesse desativação do córtex somestésico.
Se tudo isso for verdade, talvez exista um remédio contra as cócegas: contra-atacar fazendo cosquinhas em você mesmo, no mesmo lugar, ao mesmo tempo. Ou, se você for bom nisso, usando a imaginação, já que imaginar um movimento ativa os mesmos circuitos, como se o movimento fosse feito de verdade. Em teoria, basta fazer ou imaginar que você está fazendo cosquinhas em você mesmo, e os dedos alheios não mais funcionarão. Como mágica!
O único problema é que ainda preciso encontrar quem tope participar do experimento. Quis testar em casa esse método revolucionário para dar ao leitor uma receita comprovada, mas meu marido, que morre de cócegas nos pés, não gostou muito da idéia. Alguém quer testar? Mande seus resultados para a autora e entre para o Clube dos Voluntários do Primeiro Teste Mundial do Novo Método Anti-Cócegas!
Fontes:
Blakemore S-J, DM Wolpert & CD Frith (1998). Central cancellation of self-produced tickle sensation. Nature Neuroscience 1, 635-640.
Carlsson K, P Petrovic, S Skar, KM Petersson & M Ingvar (2000). Neural processing in anticipation of a sensory stimulus. Journal of Cognitive Neuroscience 12, 691-703.