Poema de Fernando Pessoa.
Quando vier a Primavera,
si eu já estiver morto,
as flores florirão da mesma maneira
e as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
a realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanha morria
E a Primavera era depois de amanhã
morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia de vir se não no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências .
O que for, quando for, é que será o que é.
(Obra poética. Rio de Janeiro.Aguilar.1972)