Índice de Imagens (Clique para vê-las em seu contexto)
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Canoas na praia de Madre de Deus, ao lado do Terminal da Petrobrás, 2007.
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Canoas de pesca do Recôncavo: simples, porém eficientes e de baixo impacto ambiental. |
Atividades de exploração de petróleo são percebidas como as principais responsáveis pela redução da pesca e coleta de moluscos e crustáceos na região de São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano. Esse processo teve conseqüências sobre os níveis de emprego e renda da população local de menores recursos, sejam culturais, sejam financeiros.
A atração exercida pela implantação de plantas de produção e serviços nas áreas próximas tem levado a uma progressivo esvaziamento produtivo de São Francisco do Conde, reduzindo as alternativas de emprego e renda a uma dependência considerável do governo municipal local.
Este trabalho identifica e recomenda procedimentos capazes de ampliar benefícios sociais e econômicos de ações de recuperação de áreas impactadas pela exploração de petróleo naquele município.
São recomendadas ações de curto e médio prazos a serem empreendidas antes e durante as atividades de recuperação, tendo como meta os principais stakeholders (partes interessadas) identificados.
As recomendações são baseadas em diagnósticos de campo realizados no período de 2002-2004, junto à população local de São Francisco do Conde, em particular as partes interessadas locais – pescadores e marisqueiras. Os diagnósticos incluíram os seguintes aspectos da realidade ambiental da área:
l CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-ECONÔMICA DOS PESCADORES NO MUNICÍPIO DE SÃO FRANCISCO DO CONDE
l PROBLEMAS AMBIENTAIS PERCEBIDOS PELOS PESCADORES
l ETNOGRAFIA DA
UTILIZAÇÃO DE MOLUSCOS POR PESCADORES EM SÃO FRANCISCO DO CONDE
CARACTERIZAÇÃO GERAL DA ÁREA DE SÃO FRANCISCO DO CONDE
O município de São Francisco do Conde faz parte da Região Metropolitana de Salvador, sendo considerado Área de Segurança Nacional. Possui 184 Km2, distando da capital 41 km em linha reta, localizada sob as coordenadas 12º35’50” S e 38º4’20” W. O clima é ameno, girando em torno de 19ºC e 28ºC. Limita-se com os Municípios de Santo Amaro, São Sebastião do Passe, Candeias, Salvador e com a Baía de Todos os Santos.
Foi a terceira vila a erguer-se no Recôncavo Baiano, em fevereiro de 1698. Firmou-se primeiramente como povoado, a partir da construção do convento de São Francisco, sendo seu primeiro nome São Francisco do Sítio ou Sítio de São Francisco. Posteriormente, o lugarejo foi elevado à categoria de vila, com o nome de Vila de São Francisco da Barra do Sergipe do Conde. Em 1802, diz-se que a maior parte da população do lugar era pobre, sendo a parte rica representada pelos donos dos Engenhos de Açúcar que existiam na região, único comércio da Vila naquele tempo. A elevação de Vila à Cidade só se deu em 1938.
Atualmente o Município possui 3 distritos: o da sede e os de Mataripe (ex-Nossa Senhora do Recôncavo) e do Monte Recôncavo (ex-Nossa Senhora do Monte). Os povoados são: Dom João, santo Estevão, São Bento das Lages, Paramirim, São Roque, Engenho D’Água, Socorro, Engenho de Baixo e Santa Elisa.
Entre os recursos naturais, seus principais rios são: Jacuipe, Joanes, Sergipe do Conde, Paramirim, Guaíba, Colônia, Cinco Rios e São João. Entre os riachos estão o Do Macaco, Malembé, Jacuipinho, Das pedras, Da Bomba, Das Almas, São Paulo e Caípe.
Duas ilhas se encontram nos limites do Município: a Cajaíba, com 6 Km de extensão, localizada em frente à Cidade e a Ilha das Fontes, em frente ao Monte Recôncavo.
Entre as atividades econômicas destaca-se a agricultura, fundamentada em culturas de cana de açúcar, cacau branco, banana, fumo, mandioca e laranja, além de algumas experiências com cravo da índia e mamona.
A Cidade representa um importante pólo de extração petrolífera, encontrado nos limites de sua plataforma submarina. Esse recurso foi descoberto pelo CNP – Conselho Nacional do Petróleo, no ano de 1947. No local há remanescente de poços de óleo e de gás. No Município está situada a Refinaria “Landulpho Alves” (RLAM), pertencente à Petrobrás, que desde 1950 produz, em suas várias unidades, gasolina, óleos combustíveis, gás liquefeito de petróleo, querosene, parafina e óleos lubrificantes.

Entrevistas com os pescadores do município buscaram caracterizar a situação atual da pesca na região. De acordo com a maioria dos entrevistados, as condições atuais da pesca no Município são ruins. Alguns relacionam o problema da pesca à instalação das plataformas da Petrobrás na área, outros indicaram os problemas da poluição, do aumento da população e da pressão de pesca. O relato de um pescador local resume o problema:
“Na minha opinião, a construção da Petrobrás desgraçou o canal; nos primeiros anos de pescaria não havia poluição, Ibama; havia fartura de peixes, crustáceos. Hoje não existe mais peixes e crustáceos como antigamente. Primeiro a Petrobrás – causaram os primeiros danos. Colocava uma sonda com motores GM, uma zoada. Depois de ter furado a plataforma/base, deu óleo. As linhas se estremeciam durante a produção; qual é o peixe que quer ficar? Depois de retirar as plataformas, a Petrobrás acabou de lascar com os pescadores; as redes ficam presas nas ferragens”.
Esses tubos despejam no manguezal
efluentes da Fábrica de Asfalto da Petrobrás,
em Madre de Deus, 24 horas por dia. (outubro de 2007)
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Redes retiradas do fundo da baía de Todos os Santos, enroscadas nos destroços dos antigos poços e plataformas do campo Dom João Mar, afundados como estratégia de desativação, há cerca de 10 anos atrás. (foto, outubro de 2007)
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O trabalho de retirada dos mais de 500 poços afundados e das 7 plataformas foi iniciado há cerca de 2 anos. Uma única embarcação, de pequeno porte, retira todos os dias algumas toneladas de destroços. Ninguém sabe quando o trabalho poderá terminar. Além dos poços, existem centenas de quilômetros de tubulações no fundo da baía, muitas delas com resíduos de petróleo. Sua retirada, segundo fontes da Petrobrás, está programada para começar apenas em 2008. (foto, out 2007) |
A associação dos problemas da atividade pesqueira e do meio ambiente com a atividade petrolífera mostrou-se uma constante. De acordo com o presidente da colônia de pescadores, existe o problema das bases deixadas pela Petrobrás embaixo d’água, que destroem as redes de pesca, pois não existe sinalização dessas áreas.
Além disso, constatou-se que existe subestimação da profissão de pescador e da própria atividade pesqueira no município, pois alguns pescadores criticaram as más condições de trabalho e a falta de reconhecimento da profissão. Segundo eles próprios “o pescador é uma classe sofrida, porque não é reconhecido; não reconhecem que é o pescador que traz comida para a cidade; o que falta pra gente é condição de trabalho”.
A pesca no local possui base artesanal, envolvendo toda a família. Entre os pescadores, a maioria é do sexo masculino (77,5%), contra 22,5% do sexo feminino (essencialmente marisqueiras). Entre esses, a grande maioria (95%) tem a pesca como atividade principal, sendo o restante empregado pela prefeitura, mas mantendo como atividade secundária a pesca, como forma de complementação do orçamento familiar. Muitos pescadores e marisqueiras também desempenham outras atividades temporárias, tais como pedreiro, soldador, servente, lavadeira, pequeno comércio na própria residência etc. Essa é uma evidência de que a atividade pesqueira atualmente não consegue suprir as necessidades básicas dos pescadores, tendo esses que complementar a renda familiar exercendo atividades de outra natureza.
Em relação à moradia, a grande maioria possui casa própria (92,5%), estando o restante residindo em casa alugadas (2,5%) ou cedidas por fazendeiros (5%). Dessas propriedades predominam aquelas urbanas (75%), contra 25% de propriedades rurais. O material predominante nas paredes é o tijolo (70%), e o restante das casas são feitas de taipa (30%).
Quanto às condições de higiene e saneamento domiciliar, a maioria das casas, mesmo as mais periféricas, recebem água encanada (67,5%), porém, apenas 32,5% dos entrevistados disseram possuir filtro de água. Um fato importante é que 40% das residências visitadas não apresentaram banheiro, sendo as necessidades fisiológicas feitas nos arredores da casa.
Alguns entrevistados apontam a depredação da flora local pela própria comunidade, fato influenciado pelas precárias condições financeiras. Enquanto 82,5% dos entrevistados afirmaram possuir fogão a gás, o restante utiliza lenha para cozinhar. Porém, apesar da maioria possuir fogão a gás, é comum a utilização dos dois tipos de fogão na falta de dinheiro para comprar o gás. Desta forma, se utiliza lenha das árvores de mangue que margeiam o município e das matas da região.
A Tabela 1 apresenta as principais alterações ambientais percebidas pelos pescadores e marisqueiras entrevistados no município de São Francisco do Conde, BA.
Na ordem de classificação, aparecem, em primeiro lugar, as atividades de petróleo da Petrobrás, sendo indicadas como as maiores poluidoras da Baía de Todos os Santos, ocasionando a redução dos recursos pesqueiros. As queixas dos pescadores referem-se à poluição de produtos derivados da extração do petróleo na baía, acarretando diversas conseqüências, tais como o acúmulo de óleo no fundo dos estuários e a morte de peixes, crustáceos e moluscos de importância econômica. Além disso, as bases das antigas plataformas são responsáveis pela destruição de redes de arrastos, puçás, tarrafas, manzuás, entre outros apetrechos de pesca, e até os próprios barcos.
Flagrante de pescador com rede enroscada e danificada nos poços desativados, do campo Dom João Mar,
cortados abaixo da linha da maré.
Sem qualquer sinalização, as redes são presa fácil dos destroços. (Outubro de 2007)
Em seguida, os pescadores apontam as fábricas de papel e de chumbo da região como as que mais reduziram o estoque da biota estuarina da baía, depois da Petrobrás. Os entrevistados também citaram o desmatamento dos manguezais e a poluição orgânica (lixo e esgotos) como problemas graves na área.
A pesca predatória (malha fina, bomba) também foi citada como prejudicial ao meio ambiente e à atividade pesqueira, assim como o incremento do número de pescadores (caracterizando assim uma sobrepesca).
Porém, além dos problemas ambientais citados, uma pequena porcentagem dos entrevistados afirmou que as mudanças que ocorreram no ambiente ao longo dos anos trouxeram benefícios para a pesca e para o meio ambiente.
Tabela 1. Alterações ambientais percebidas
pelos pescadores e marisqueiras da Baía de Todos os santos, São Francisco do
Conde – Bahia.
A Tabela 2 mostra as ações que deveriam ser feitas pelo governo para amenizar os problemas ambientais na área, segundo os entrevistados. A maioria deles citou a oportunidade de emprego como a melhor alternativa para ajudar os pescadores do município, demonstrando a falta de perspectiva quanto à atividade pesqueira. Em seguida foram citadas várias outras formas de ajudas materiais que poderiam ser dadas pelo governo aos pescadores, como cestas básicas, dinheiro, barcos e redes. A fiscalização da atividade pesqueira e dos resíduos poluentes provenientes das fábricas também se destacou entre as ações.
Entre as outras ações citadas (despoluição, viveiros comunitários, tratamento do esgoto e retirada dos destroços de antigas bases da Petrobrás), destaca-se a educação ambiental, demonstrando um certo grau de consciência ecológica entre os entrevistados.
Tabela 2. Possíveis soluções apontadas pelos pescadores e marisqueiras de São Francisco do Conde – Bahia referentes aos problemas sócio-econômicos e ambientais.

Desta forma, evidencia-se forte relação entre os problemas ambientais existentes na área costeira do município com a possível redução do estoque pesqueiro, sendo a poluição de várias origens (petrolífera, industrial, doméstica) apontada como o principal problema a ser levado em consideração, segundo a população. A questão social também se mostrou um fator importante em relação à melhoria da atividade pesqueira, sendo um dos problemas que mais afligem a população que depende da pesca para sobrevivência.
As diversas formas de utilização dos organismos aquáticos pelos pescadores, além da alimentação, revela o grau de conhecimento dessas populações em relação aos potenciais do recurso pesqueiro de uma região. A obtenção dessas informações, aliada a conceitos científicos específicos, é de grande serventia para a ampliação e complementação das atuais formas sistemáticas de uso desses organismos. Os aspectos etnobiológicos da pesca no município de São Francisco do Conde foram obtidos através de questionários e conversas informais com pescadores da região, ligados à Colônia Z-5, nos meses de setembro de 2002 e janeiro de 2003. Foi constatado que, além da alimentação, os moluscos são utilizados pela população principalmente para fins medicinais (funções cicatrizante, fortificante, afrodisíaca e coagulante), com destaque para os bivalves. Os gastrópodes, que não são utilizados com freqüência na alimentação, servem de iscas para pescar moluscos, peixes e crustáceos. Também foi observado o uso de conchas de moluscos em adornos decorativos de templos de cultos afro-brasileiros. As entrevistas também revelaram a origem de alguns tabus alimentares quanto à ingestão desses organismos em determinadas épocas do ano. A riqueza de utilizações dos moluscos revelada neste estudo apontou a estreita relação entre os pescadores e a malacofauna da região. As informações obtidas neste estudo, confirmadas também por trabalhos similares de outros autores, podem subsidiar pesquisas de novas formas de utilização desses animais, principalmente no âmbito medicinal e farmacêutico.
O uso intensivo dos organismos aquáticos como fonte alimentar define uma posição trófica de predador-presa do ser humano na cadeia alimentar, característica das comunidades de pesca em muitas partes do planeta, incluindo o Brasil. Nas comunidades de pesca e mariscagem, geralmente de baixo poder econômico, o consumo de peixes e outros organismos aquáticos, como moluscos e crustáceos, constitui importante fonte protéica (Boischio, 1999). A este uso mais primordial dos recursos naturais têm sido acrescidos usos cada vez mais sofisticados à medida que o conhecimento da manipulação do ambiente foi sendo acumulado (Sampaio e Gamarra-Rojas, 2002).
Boa parte das proteínas da dieta alimentar dessas populações provém dos manguezais. Artesanalmente, as mulheres e as crianças saem durante a maré baixa à procura de mariscos ou crustáceos. Enquanto isso, os homens pescam nas águas protegidas dos estuários, em estilo de pesca também artesanal. Esses agrupamentos populacionais são pobres e, de um modo geral, não recebem apoio dos órgãos governamentais (Grasso e Tognella, 1995).
Apesar disso, as agências governamentais estão gradualmente reconhecendo a importância do conhecimento local para a conservação dos recursos naturais. É quase impossível conservar um recurso sem o suporte e a participação da população local. Mas sua percepção do ambiente não é segmentada: seus conhecimentos sobre o ambiente natural inclui um mosaico de outros ambientes (Hanazaki e Begossi, 2000). Essa população, com frequência, tem estabelecido seus sistemas locais de direitos sobre os recursos naturais, os quais, muitas vezes, são reconhecidos pelos seus governantes (Primack e Rodrigues, 2001).
Este trabalho teve como objetivo geral descrever as características etnobiológicas das utilizações dos moluscos por pescadores da Baía de Todos os Santos, no município de São Francisco do Conde, sudoeste da Bahia – Brasil.
Os aspectos etnobiológicos da pesca no município de São Francisco do Conde foram obtidos através de questionários e conversas informais com pescadores da região. Para facilitar a obtenção dos dados, foram procurados aqueles pescadores ligados à Colônia Z-5.
Nos meses de setembro de 2002 e janeiro de 2003 foram consultadas 23 pessoas, sendo 19 homens (entre pescadores aposentados e em atividade) e 4 mulheres (todas marisqueiras). As perguntas principais que se faziam nas conversas com os pescadores eram “quais os produtos da pesca de hoje e de antes (quando jovens, no tempo dos pais, ou seja, provavelmente no início da atividade petrolífera)?” e “além da alimentação, quais as outras serventias dos produtos pesqueiros?”. O objetivo da primeira pergunta foi saber quais os nomes vulgares utilizados pelos pescadores para cada um dos organismos provenientes da pesca e as possíveis causas desses nomes. Com a segunda pergunta procurou-se obter os diversos usos dos moluscos. Outra questão abordada foi sobre curiosidades no ambiente da pesca, principalmente sobre o comportamento dos animais, adaptações evolutivas e sistema de defesa e ataque.
Além dos questionários e das conversas, foram visitados templos religiosos do Município, para verificar a possível utilização de conchas de moluscos nesses locais.
Após as entrevistas, foram feitas coletas dos moluscos citados pelos pescadores, os quais foram identificados em nível específico de acordo com a obra de Rios, 1994. A ordem sistemática e a distribuição geográfica desses organismos também foram feitas segundo o mesmo autor. Os dados ecológicos foram retirados das obras de Mello (1998; 1999) e Rios (1994).
Foram identificadas 24 espécies de moluscos de importância sócio-econômica no município de São Francisco do Conde. Deste total, 20 espécies são da classe Bivalvia e 4 pertencem à classe Gastropoda. Com relação ao enquadramento dos bivalves como moluscos, um dos depoimentos revela a visão de todos os pescadores entrevistados: “o que a gente pesca aqui é siri-de-vasa, siri-de-mangue, caranguejo, aratu: tudo crustáceo. Ostra, sururu, mapé: crustáceo também. O mapé é um crustáceo que parece com marisco”.
Os catadores de moluscos de São Francisco do Conde podem ser chamados de marisqueiro (a), mariscador (a) de mangue ou de mariscadeiro (a), sendo o primeiro o mais utilizado pelos pescadores. A maior parte dos marisqueiros coleta os moluscos manualmente, no caso das espécies de bivalves endopsâmicas ou dos gastrópodes. Quanto aos bivalves epifíticos e epilíticos, as coletas são auxiliadas por facas, foices ou machadinhas.
A mariscagem é executada, em sua maioria, por mulheres e crianças (Figura 2.1), embora os homens também exerçam esta atividade, principalmente na catação de ostras e sururus. Alguns depoimentos retratam a difícil arte da coleta de bivalves, como de uma marisqueira, hoje aposentada: “sempre vivi da pesca. Saía de manhã cedo... tenho cicatrizes nas mãos por causa das mordidas de caranguejos e siris e de pegar marisco no chão. (...) Eu pegava marisco, camarão, siri, caranguejo, sernambi (conchinha), ostra, sururu”.
O Quadro 1 apresenta as principais espécies, com seus nomes populares e suas utilizações. Vale ressaltar que muitas espécies da classe Gastropoda são conhecidas por grande parte dos pescadores como búzios. Poucos gastrópodos possuem nomes populares exclusivos, como ocorre com a maioria dos bivalves. Estes, por sua vez, apresentam uma diversificada nomenclatura popular, ocorrendo, em algumas espécies, mais de um nome vulgar.
As principais utilizações dos moluscos pelos pescadores são a alimentação e o uso medicinal. Diferentemente dos bivalves, os gastrópodos não possuem grande importância na alimentação humana. Este fato também foi observado no litoral dos estados do Rio de Janeiro (Mello, 1985) e de Pernambuco (Melo Júnior e Paranaguá, 2002). Entretanto, alguns pescadores afirmam consumir tapu (Turbinella laevigata Anton, 1839) e peguari (Strombus pugilis Linnaeus, 1758). No caso do peguari, Santos (1982) relata tal consumo na Bahia, sendo bastante capturado para alimentação. Para Costa (1985), esta espécie é tida como uma das mais consumidas no litoral brasileiro.
Quanto ao uso medicinal, os entrevistados atribuíram a algumas espécies, tanto de bivalves como de gastrópodos, efeitos cicatrizantes, fortificantes, afrodisíacos e coagulantes. A importância medicinal dos bivalves já era fato relatado no século XVIII, por Antonil (1976): (...) Porém, outros entendem o contrário, porque a fornalha da olaria gasta muita lenha de armar, e muita de caldear, e a de caldear há de ser de mangues, os quais, tirados, são a destruição do marisco, que é remédio dos negros (...). Relatos semelhantes aos de São Francisco do Conde foram observados por Alves e Souza (2000) para Itapissuma, município localizado no litoral norte de Pernambuco. Para esta região, estes mesmos autores relataram que o modo de uso dos bivalves varia de acordo com a espécie de molusco, sendo usadas a concha e/ou as partes moles, dependendo da enfermidade em questão.
Outro depoimento de um pescador mostra ainda a visão que as comunidades pesqueiras têm em relação à importância dos bivalves como fonte nutritiva: “o marisco tem muito fosfato”. Entretanto, esse mesmo pescador comenta sobre as conseqüências do consumo exagerado de bivalves: “(...) marisco e caranguejo dá disinteria... tem que ter um bom fígado e um bom rim”.
Outros depoimentos dos pescadores apontam tabus alimentares em relação a algumas espécies: “Aqui ninguém come búzios: temos nojo...”. Essa aversão aos gastrópodos pode ser explicada pelo modo de vida rastejante dos búzios ou pela constante produção de muco, peculiar a esses moluscos. Para Hanazaki (2002), a maioria das comunidades pesqueiras mostra um detalhado universo de preferências e tabus alimentares relacionados à proteína de origem animal. Estas particularidades alimentares, segundo esta mesma autora, podem ser explicadas em função de fatores como a disponibilidade do recurso animal, a posição trófica da espécie no ecossistema ou sua importância no contexto social da comunidade pesqueira.
Os tabus alimentares também podem ser vistos em relação a algumas espécies de bivalves. Em determinadas épocas, ostras, sururus, tariobas e lambretas são evitados por “menstruarem em noite de lua”. Segundo depoimento de uma marisqueira: “as ostras e sururus solta sangue feito mulher. A tarioba também, em noite de lua. Ninguém come marisco quando eles tão assim”. Fato semelhante foi registrado por Alves e Souza (2000) para o Canal de Santa Cruz, Itapissuma – PE. Nesta localidade, os referidos autores também apontaram que este fenômeno está associado a um tabu alimentar, pois as informantes (marisqueiras) dizem que “nessa época, a gente não pega ele (marisco). Não presta para comer, não. (...) o povo tem nojo”.
Apesar de não serem bem apreciados na culinária local, os gastrópodos são utilizados pelos pescadores como iscas para peixes, camarões e siris: “a gente usa isso para fazer isca para pescar”. Estudando a fauna malacológica dos sambaquis do Rio de Janeiro, Mello (1999) registra a utilização do gastrópodo Strombus pugilis (peguari) como isca para peixes, sendo este molusco de fácil captura.
Outros depoimentos revelam algumas lendas locais sobre as relações entre moluscos gastrópodos e caranguejos-ermitão. Os métodos empregados por esses crustáceos, conhecidos como carangodé, para habitar as conchas dos moluscos podem ser retratados no seguinte depoimento: “Ele invadia o espaço do búzio e matava o búzio e se instalava dentro dele”. Estórias deste tipo também foram retratadas por Santos (1982).
Além das utilizações na alimentação e na medicina alternativa, conchas de algumas espécies de moluscos estão presentes em objetos decorativos de cultos afro-brasileiros (Figura 2.2). Estes adornos consistem em colares, braceletes ou tiras de enfeites, todos confeccionados com conchas de moluscos, pedras e outros objetos.
Quadro 1. Principais
espécies de moluscos de importância sócio-econômica do município de São
Francisco do Conde, Bahia – Brasil, com seus nomes populares, nomes
científicos e utilizações.

Quadro 2. Problemas ambientais que acarretam danos à pesca segundo os pescadores do município de São Francisco do Conde, Bahia.
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Problemas |
Danos acarretados |
Soluções |
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Destroços de antigas bases da Petrobrás. |
Destruição das redes de pesca, que engancham nos destroços. |
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Poluição (proveniente da atividade petrolífera – óleo; resíduos industriais – fábrica de papel, de chumbo; esgoto doméstico – direto das casas ribeirinhas ou da rede municipal). |
Diminuição do pescado; fedentina no mangue; ostras sujas de óleo, se abrindo; caranguejo cego (“os caranguejos ficam na boca do buraco, mas não conseguem entrar”). |
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Aumento do número de pescadores, aliado ao desemprego. |
Muita gente pescando, diminuição dos recursos. |
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Falta de apoio para a pesca. |
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Falta de conscientização ambiental dos próprios pescadores. |
Aterro dos mangues para fazer casas “eu moro no lugar onde meus pais pescavam, e o lugar onde era para eu pescar cai minhas fezes”. |
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