Os Primeiros Encontros

Cada momento passado juntos 
Era uma celebração, uma Epifania,
        Nós os dois sozinhos no mundo.
 Tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
 Descias numa vertigem a escada
 A dois e dois, arrastando-me
 Através  de húmidos lilases, aos teus domínios 
Do outro lado, passando o espelho. 
Pela noite concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genufletia. E ao acordar
Eu diria “Abençoada sejas!”
Sabendo como pretenciosa era a benção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.

Rios palpitantes por dentro do cristal,
A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,
E tu com a bola de cristal nas mãos,
Sentada num trono enquanto domes,
— Deus do céu! — tu pertences-me.
Acordas para transfigurar
As palavras de todos os dias,
E o teu discorrer transbordante
De poder revela na palavra “tu”
o seu novo sentido: significa “rei”.
Simples objectos transfigurados,
Tudo — a bacia, o jarro —, tudo
Uma vez de sentinela entre nós
Se torna límpido, laminar e firme.

Íamos, sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o voo,
E no rio os peixes á procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.

Porque o destino seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.

Arsenii Tarkovskii

 

 




Pela manhã dentro esperei ontem,
Diziam eles que não virias, supunham.
Maravilhoso dia, lembra-ste?
Um feriado!- Dispensa casaco.

Hoje vieste, e o dia pôs-se
soturno, de chumbo,
 e chovia, fazendo-se tarde,
com gotículas na ramagem fria.

Não pode a palavra mitigar, nem o lenço devolver pureza.


Arsenii Tarkovskii

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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