Os
filmes de
Andrei Tarkovski que, segundo o seu pai Arsenii Tarkovski, não
eram cinema,eram outra coisa, falam dessa responsabilidade universal, da
relação de cada um de nós com o mundo e com o todo
("Eu sei que tu queres ser feliz,mas há coisas mais importantes...").
Falam de um regresso ao espiritual (porque o afastamento só pode
engendrar monstros), e da religião no seu verdadeiro sentido, a ligação
com tudo o que existe, e é talvez por isso que se devem olhar como
quadros, onde tudo tem a mesma importância, as pessoas, a chuva, as
imagens religiosas, as pedras, as árvores, os cães. E os poemas
de Arsenii Tarkovski ditos por ele mesmo ,na língua mais bela do
mundo. E a água entre as pedras, a música de Bach, o tempo,
uma folha de erva, a chama de uma vela. E a nostalgia. Ana
Teresa Pereira, in Público, 24 de Fevereiro 2001 Tive
em miúdo uma doença Sentia-me
quente, E
agora sonho com Arsenii Tarkovskii

E fome e medo. Grossas escamas soltando-se
Dos lábios, que eu humedecia. Nunca esqueci
Esse sabor, salgado e frio.
Mas não parava de andar, andar, andar.
Sentava-me nos degraus do alpendre ao sol,
Caminhava no meu modo leve como se dançasse
A melodia do caçador de ratos, no rio. Sentava-me
Ao sol nos degraus, a tiritar.
E a mãe vinha ali, acenando, parecia
Tão perto, e eu sem poder tocar-lhe:
Movo-me para ela, que sete degraus acima
Acena; movo-me para ela, que acena
Sete degraus acima.
Desarpertei o colarinho e adormeci,
As trombetas soaram, cavalos a galope, a luz
Batia suave minhas pálpebras, a mãe,
Que voava sobre o caminho, acenando,
Partiu
Um branco hospital entre as macieiras,
E um lençol branco sob o meu queixo,
E um médico de branco que olha para mim,
E uma branca enfermeira à cabeceira
Batendo as asas. Estavam todos ali.
Quando a mãe veio, acenando
E partiu