


Diário de Agnès:
Eu gostava da Mãe. Era uma pessoa tão doce, tão bela, tão viva. Era uma pessoa...nem sei como dizer...continua tão presente. Mas também podia ser uma pessoa fria e distante. Quando eu me aproximava dela, a precisar de um pouco de ternura, ela ficava indiferente, fingia-se ocupada ou então ria-se, e chegava a ser má. No entanto não deixava de ter pena dela,com a idade que tenho, compreendo-a muito melhor. Gostva tanto de voltar a vê-la, de dizer-lhe que compreendia o seu tédio, as suas irritações, os seus medos, a sua vontade de nunca desistir.
Lembro-me de uma vez, era no outono, vinha eu a correr, atravessei a sala grande e o salão, tinha qualquer coisa importante para fazer (há sempre coisas importantes a fazer quando se tem dez anos), de súbito, apercebi-me que a Mãe estava sentada ali, numa das enormes poltronas, imóvel, no seu vestido branco, comprido, com as mãos pousadas sobre a mesa, a olhar pela janela. Estava ligeiramente inclinada para a frente, mantendo a sua imobilidade característica. Aproximei-me dela e ela olhou para mim com um tal tristeza que eu quase chorei. mas em vez de chorar, comecei a acariciar-lhe o rosto. Ela fechou os olhos e deixou que eu fosse terna com ela. Dessa vez sentimo-nos muito próximas uma da outra.
Mas de repente, a Mãe acordou e disse: É horrível teres essas mãos tão sujas. O que é que andaste a fazer? Depois deixou-se levar apela ternura, tomou-me nos seus braços e abraçou-me. Eu senti-me fora de mim, com tanta plenitude. Depois a Mãe pôs-se a chorar e pediu por diversas vezes. Eu não percebia nada, limitei-me a apertá-la fortemente contra mim, até que ela se soltou dos meus braços.
O seu rosto transformou-se, pôs-se a rir com o seu risinho habitual, e enxugou rapidamente os olhos. Isto é ridículo, limitou-se a dizer, erguendo-se, e deixando-me sozinha no meio da dor.

Diário de Agnès:
Às vezes sinto vontade de levar as mãos ao rosto e deixá-las lá coladas para sempre. O que vai ser de mim, de mim e da minha solidão? Longos serão os dias, silenciosas as tardes, e as noites sem sono. Que farei de todo este tempo que se irá abater sobre mim? Só me resta refugiar-me no meu desespero e deixar que ele me consuma. Percebi que se tentar evitá-lo ou mantê-lo à distância, será ainda mais difícil. É preferível acolher o que nos atormenta ou nos faz mal, e não fechar os olhos ou tentar fugir como eu fazia antes.
Mas quando falo de solidão estou a ser injusta. Anna é a minha amiga e companheira. E acho que a sua solidão é mais dura que a minha. Eu ainda posso consolar-me com a minha pintura, a minha música, os meus livros. Mas Anna não tem nada. Às vezes tento falar com ela,dela. Mas ela fica tímda e fecha-se em si própria.

Diário de Agnès:
E eu continuo a pintar, a esculpir, a escrever, a tocar. Dantes pensava que ao fazer uma obra criativa, entrava em contacto com o mundo que me rodeia, e abandonava a minha solidão. Agora, sei que as coisas não são dessa maneira. No fim de contas, a minha assim chamada expressão artística é apenas um protesto desesperado contra a morte. Mas mesmo assim, continuo. Ninguém, a não ser Anna, vê aquilo que eu consigo fazer. E não sei se isso é bom ou mau. Provalvemente, é mau. Vi tão pouco da vida. Nunca me interessou viver no meio dos outros, no meio da realidade dos outros. E continuo a perguntar a mim própria se a realidade deles é mais sensível que a minha, quero eu dizer a doença.
(Nesta altura, talvez deva falar um pouco do atelier de Agnès. É uma sala espaçosa,comprida, com as janelas para norte,sem cortinas. No meio da sala está montado um cavalete no qual há um quadro inacabado. A pintura de Agnès é rica de cores e bastante romântica. O seu tema favorito são as flores.)
Perto da porta está pendurado um quadro ou um painel onde está escrito um poema decorado com pequenas aguarelas:
"Onde está o amigo que procuro por toda a parte, quando o dia nasce a minha languidez leva-me a acreditar que o encontro, mas quando o dia se vai, não o descobri, e o meu coração arde."

Diário de Agnès:
Dia de verão. Está fresco devido à proximidade do outono, mas o tempo está bonito e calmo. As minhas irmãs, Karin e Maria, vieram ver-me. É maravilhoso podermos estar juntas como dantes, quando éramos crianças. Sinto-me muito melhor, pudermos até dar um passeio as três, um grande acontecimento, sobretudo para mim que não saio de casa há tanto tempo. Passéamos calmamente até ao velho baloiço suspenso do carvalho. Em seguida ficámos sentadas as quatro (Anna também estava connosco) no baloiço e deixámo-nos embalar, vagarosamente, docemente.
Fechei os olhos senti o vento e o sol acariciarem-me o rosto. As dores tinham desaparecido. Os seres que mais amo no mundo estavam ao pé de mim, podia ouvi-las falar baixinho à minha volta, sentia a presença dos seus corpos. O calor das suas mãos. Mantive os olhos fechados, queria reter esses instantes e pensava. isto é certamente a Felicidade. Não posso desejar nada de melhor. Neste momento, e durante alguns minutos, posso saborear a plenitude. E sinto-me cheia de grantidão para com a minha vida que me dá tanto.
Farö, quinta-feira, 3 de junho de 1971
De Bergman, Ingmar, Lágrimas e Suspiros, Persona, Dependência (tradução de Armando Silva Carvalho),Assírio & Alvim 2002
