Penso
na película transparente a passar a toda a velocidade através
do aparelho de projecção. Virgem de qualquer sinal ou imagem,
ela vai permitir ao ecrá reflectir uma luz que crepita. Pelos altifalantes
perceberemos apenas o som surdo do amplificador e o leve ruído das
partículas de pó que passam pela cabeça de leitura. A
luz estabiliza-se e torna-se mais densa. Sons incoerentes e fragmentos de
palavras semelhantes a estalidos breves começam a soltar-se, pouco
a pouco, das paredes e do tecto. Na
brancura do ecrã surgem os contornos de uma nuvem, ou talvez seja
o reflexo da água, não, é o mesmo uma nuvem, ou antes,
uma árvore encimada por uma enorme coroa de folhagem, não,
é uma paisagem lunar. O
sussuro vai-se amplificando em movimentos ondulatórios e palavras
inteiras (incoerentes, longínquas) começam a distinguir-se
como sombras de peixes em águas profundas. Afinal
não é uma nuvem, não é uma árvore frondosa,
é um rosto cujo olhar fixa o espectador. O rosto de Alma. --A
enfermeira Alma foi ver a senhora Vogler? Não. Não faz mal.
Vamos as duas. Assim, poderei eu mesma apresentá-las. Vou pô-la
rapidamente ao corrente do caso de senhora Vogler, das causas da situação
em que se encontra e das razões por que foi encarregada de cuidar
dela. Em poucas palavras: A senhora Vogler é (como sabe) artista
de teatro e estava em palco, na última representação
de Electra. No decorrer do segundo acto, calou-se e pôs-se
a olhar à volta, aturdida. Não reagiu à intervenção
do ponto e nem se aproveitou da ajuda de quem com ela cntracenava, ficou
assim pelo menos um minuto sem dizer palavra. Depois, continuou a representar
como se nada tivesse acontecido. No fim do espectáculo, desculpou-se
junto dos colegas e explicou o seu silêncio dizendo o seguinte: "Fui
assaltada por uma terrível vontade de rir". Nessa
mesma noite (a noite em que Alma foi ao cinema) deu-se um acontecimento
que é preciso destacar. Como muitos outros doentes que estão
internados nesta clínica, a senhora Vogler tem uma televisão
no quarto. E há quem se admire com o interesse que Madame vogler
dispensa aos quais diversos programas. Mas há uns que ela evita ver:
sobretudo os programas de teatro. Nessa
noite, a senhora Vogler segue um documentário político. O
program inclui uma sequência que mostra uma monja budista a imolar-se
pelo fogo em plena rua em sinal de protesto contra a política do
governo em matéria de religião. Quando esta cena surge no
ecrã, a senhora Vogler começa a soltar gritos agudos e lancinantes. Um
dia, a médica entra no quarto da senhora Vogler e senta-se na cadeira
reservada às visitas. -Elisabet,
não há razão para continuares mais tempo aqui na clínica.
Acho que não é bom para ti. Como não podes voltar para
tua casa, proponho que tu e a enfermeira Alma passem algum tempo na minha
casa de verão à beira-mar. Não existe vivalma a uma
légua de distância. Posso garantir-te que a natureza é
o melhor dos médicos. (...) A
senhora Vogler fecha os olhos como se desse modo conseguisse expulsar a
médica do quarto. Depois volta a abri-los devagar. A médica
continua no mesmo sítio. -Não
penses que eu entendo. Todo esse sonho vão de ser. Não
de agir, mas de ser, de estar! De estar desperta, consciente, a cada instante.
E ao mesmo tempo esse abismo entre o que tu és aos olhos dos outros
e o que és em relação a ti. Essa sensação
de vertigem e esse desejo ardente de revelação...Ser finalmente
compreendida, revelada, diminuída, talvez mesmo aniquilada. Cada
entoação: uma mentira, e uma traição. Cada gesto:
uma falsificação. Cada sorriso, uma esgar: o papel de amante,
qual deles foi o pior? Qual foi o que mais te fez sofrer? Representar a
actriz de rosto interessante. Suster todos os pedaços com mão
de ferro e conseguir que eles mantivessem unidos. Onde foi que a coisa começou
a dar de si? Onde foi que falhaste? Foi o papel de mãe que te pôs
fora de ti? Não foi o papel de Electra, com certeza. Nele,
tu respiravas, e com ele conseguias retardar um pouco mais, essa espécie
de sentença. Ele desculpava-te de assumires os teus outros papéis,
os da realidade, de forma um pouco sumária. Mas quando a Electra
acabou, não tinhas mais nada onde pudesses esconder-te, mais nada
que te permitisse aguentar. Não tinhas mais desculpas. E ficaste
assim, com essa tua ânsia de verdade, com esse teu desgosto. Suicidares-te?
Não, isso era demasiado horrível e não se faz. Mas
ninguém pode permanecer imóvel. Mas pode tornar-se muda. Assim,
já não mente. Pode criar à sua volta uma cortina, fechar-se.
E já não precisa de desempenhar um papel, de exibir um rosto,
de fazer um gesto falso. É isso o que as pessoas julgam. Mas a realidade
é infernal. O teu esconderijo não está suficientemente
resguardado. A vida infiltra-se pelas mínimas fendas. E tu vês-te
obrigada a reagir. Ninguém te pergunta se é verade ou mentira,
se és sincera ou hipócrita. Só no teatro isso é
uma questão importante. E continua a ser, pelos vistos, Elisabet,
percebo que te cales, que tenhas feito da apatia um sistema fantástico.
Percebo e admiro. Penso que precisas de conservar esse papel até
ele deixar de ser para ti interessante. Então, esgotada, poderás
abandoná-lo pouco a pouco, como abandonas os teus outros papéis. AA
película corre no projector, crepitando. Passa a uma velocidade considerável:
vinte e quatro imagens por segundo, vinte e sete metros bem contados, por
minuto. As sombras jorram pela parede branca. É magia. Mas uma magia
de uma sobriedade excepcional e impiedosa. Nada pode ser alterado, anulado.
E tudo avança, ruidosamente, as vezes que quisermos, e sempre com
essa docilidade imutável e fria. Coloquem um copo vermelho em frente
da objectiva, as sombras serão vermelhas, isso que importa? Façam
passar o filme ao contrário, de trás para diante, o resultado
não será, de forma alguma, diverso. Só há uma
única alteração que é radical. Desliguem o interruptor
da corrente, apaguem esse arco luminoso que assobia, rebobinem o filme,
voltem a colocá-lo na caixa. Esqueçam. Acordou
pelo facto de alguém se encontrar no seu quarto. É uma silhueta
branca que se move com ligeireza e sem ruído, junto à porta.
De início, Alma fica com medo, mas depois apercebe-se que se trata
de Elisabet. Por uma qualquer razão, Alma evita dizer que seja o
que for. Está deitada, imóvel, com os olhos semicerrados.
Rapidamente, Elisabet aproxima-se da cama de Alma, traz vestida uma longa
camisa de noite branca e um casaco de lã tricotado. Inclina-se para
Alma. Com os lábios, aflora as faces de Alma. Os seus cabelos compridos
caem-lhe para a testa e envolvem os dois rostos. Na
manhã seguinte, as duas estão a puxar as redes de pesca, uma
ocupação que ambas gostam de fazer. -Elisabet... -? -
Queria perguntar-te um coisa. Falaste comigo ontem à noite? Elisabet
sorri e abana a cabeça como a dizer que não. -Foste
esta noite ao meu quarto? Elisabet
continua a sorrir e sacode a cabeça, uma vez mais. Alma debruça-se
de novo sobre a sua rede. Alma
continua encostada à parede, a cabeça inclinada para a frente,
os óculos de sol na ponta do nariz. -Não
é nada fácil viver com alguém que não diz nem
uma palavra, digo-te. Dá cao de tanta coisa. Já nem consigo
suportar a voz de Karl-Henrik ao telefone. Parece-me tão falsa e
tão contrafeita. Não sou capaz de falar com ele. Tudo isto
se tornou anormal. Ouvimos apenas a nossa própria voz e de mais ninguém!
Dizemos: " Como isto soa a falso. É uma loucura a quantidade
de palavras que utilizo." Estás a ver? Neste preciso momento
não paro de falar, mas sofro com isso, porque nem consigo dizer o
que pretendo. Tu, tu simplificaste o problema: calas-te e acabou-se. Não,
vou ver se consio não me zangar a valer. Tu, tu ficas calada, porque
isso só a ti diz respeito. Mas neste momento, preciso que fales comigo.
Cara Elisabet, diz-me qualquer coisa. Assim é quase insuportável. Longa
pausa, Eisabet sacode a cabeça. Alma sorri. Sorri, provalvemente
para evitar chorar. AAlma
deixa Elisabet adormecida e vai fazer a ronda pelas divisões da casa.
Depois sai, dirige-se ao jardim, por trás da casa. Ouve
alguém a falar atrás de si, volta-se, com um sentimento de
má consciência. Vê um homem de uns cinquenta anos,alto,
que lhe sorri com certa afectação. -Desculpa,
se te meti medo. -Eu
não sou a Elisabet. (...) -Amamons
uma pessoa, ou antes, dizemos que a amamos. É compreensível,
é verdade no plano das palavras. -Senhor
Vogler, eu não sou a sua mulher. -Em
contrapartida, somos também amados. Criamos uma pequena comunidade,
o que nos leva a tentar criar um sentimento de segurança, e a darmo-nos
conta de que é possível manter tal situação,
não é assim? Alma
pousa a mão direita em cima da mesa, e vira para cima a respectiva
palma. Elisabet olha com atenção o que Alma faz, em seguida
ergue a mão esquerda, e volta para cima a respectiva palma. Isto
é feito por diversas vezes, numa atmosfera de tensão crescente.
Alma sente as lágrimas aflorarem-lhe os olhos, mas domina-se. -Veremos
quanto tempo conseguirei aguentar este tormento, diz ela em voz alta. -...aguentar
este tormento, responde a senhora Vogler. Alma
arranha com as unhas o braço nu. Dele começa a correr um leve
fio de sangue. Elisabet inclina-se para a frente e com os lábios
sorve o sangue de Alma. Alma passa a mão pelos cabelos de Elisabet
e mantém a cabeça desta apoiada no seu braço. Para
isso é obrigada a inclinar-se ao comprido, na mesa. -Nunca
serei como tu, murmura, bruscamente. Estou sempre a mudar. Não há
nada de definitvo, nada está parado, faz o que te apetecer. Seja
como for, nunca me alcançarás. NNesta
altura, o projector deveria parar. Poder-se-ia pensar que a película
se partiu ou que o projeccionista puxoua cortina, por engano, ou então
que houve um curto-circuito. Toda a sala deveria ficar mergulhada na maior
escuridão. Mas não é isso que acontece. Acho que as
sombras poderiam continuar com o seu jogo mesmo que uma interrupção
bem recebida viesse abreviar o nosso incómodo. Elas não têm,
talvez, mais necessidade de projector, de película ou de banda magnética.
Agora avançam pelos nossos sentidos, em profundidade, através
da nossa retina ou nas mais belas ramificações do nosso ouvido.
Será assim? Ou sou eu que imagino a existir sem a ajuda das imagens,
nesse movimento de uma exactidão enervante, vinte e quatro imagens
por segundo, esses vinte e sete metros por minuto? De
Bergman, Ingmar, Lágrimas e Suspiros, Persona, Dependência
(tradução de Armando Silva Carvalho), Assírio &
Alvim 2002. Ingmar Bergman´s
Persona por Lloyd Michaels 









