Pont-Neuf

Ficara ali sozinho,quase morto

no meio daquela rua,sob o peso

dessa lâmina acesa a que chamamos

juventude.Tu foste

o primeiro dos rostos que tornei a ver

a caminho da ponte,a nossa imensa,

impossível morada.Chochards

era o nome que dantes nos davam

e,de facto,eu coxeio,sou um verdadeiro

chochard-do latim cloppus,coxo,manco.

 

Hoje em dia encontraram uma sigla

politicamente correcta

para nos definir-S.D.F,

sans domicile fixe,e assim vamos

entregues à ciência de escutar

os carros que trepidam sobre a ponte,

as memórias de um velho que ali dorme,

os pequenos sinais de um abismo

onde respira o espírito

que move a nossa carne vagabunda

à procura daquilo que a mata

e faz viver:uma paixão assim,

mal confessada em duas frases

talvez banais,eu sei-le ciel est blanc

mais les nuages sont noirs.

À flor da água vibram as mil luzes

dos fogos-de artifício que celebram

dois séculos de Revolução.

Vamos beber também,até que tudo

transborde e seja o caos,

o remoinho onde rebenta a espuma

ou esta labareda que eu devoro,

o fogo em estado puro

que me desce às escuras pla garganta.

 

Sei que vais ficar cega.Os meus olhos

queriam ser os teus olhos,ver o mundo

como se eu fosse tu

e pudesses ser eu enquanto a noite

reflecte o nosso amor,uma constelação

de estrelas sempre novas,desenhadas

sobre a pele negra deste céu

onde moramos e morremos juntos.

(fernando pinto amaral)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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