O PIRO MAN�ACO

Viegas Fernandes da Costa

 

Esta me foi contada, e a pessoa jura por Deus, apesar de se confessar at�ia, que aconteceu mesmo!

O fato se deu l� pelos meados da d�cada de setenta numa cidade do leste catarinense. As ruas ainda n�o conheciam o asfalto, quando muito o liso paralelep�pedo que em dias de chuva fazia a festa dos ortopedistas, e de viol�ncia s� se sabia daquelas que se perpetravam na calma do lar, do marido b�bado contra a esposa subserviente. A cidade se orgulhava de ostentar o t�tulo de "Vale Europeu", e bradava aos quatro cantos que sa�ra publicada nas p�ginas das "Sele��es", aquela revistinha que moldava nossos padr�es � luz do refugo yankee. Mat�ria paga, certamente, mas suficiente para fazer morrer de insana inveja os munic�pios vizinhos.

Pois bem, foi neste cen�rio quase que buc�lico, de pudic�cia at�, cujas cozinhas recendiam a p�o caseiro assado no forno � lenha, que o aqui narrado aconteceu.

Os dois jovens eram primos de sangue e, desocupados como eram, viviam a azucrinar a vida dos pacatos moradores com suas tiradas surreais (ou seriam criminosas?). Era muito comum v�-los caminhando nas tardes de domingo pelas pra�as desertas com aquele sorriso s�dico de quem andou a aprontar alguma, ou confabulando nas esquinas com seus bichinhos de estima��o amarrados � corrente (a cobra Jurema, um galho arrancado de um pobre Ip�, e Rodolfo, o sapo que morrera afogado, segundo a vers�o do criador). Durante a semana eram vistos separados, falando sozinhos, vestindo shorts no inverno e pesados palas no ver�o. Enfim, era imposs�vel n�o perceb�-los, n�o ouvi-los e n�o se irritar com os �nicos desajustados que o poder local permitia andar em liberdade. Percebam, amigos leitores, que isto conto de ter ouvido, e n�o de ter vivido, pois nem projetado ainda fora, e se me perguntam "� verdade?", respondo que n�o boto a m�o no fogo por ningu�m.

Mas para encurtar um pouco a hist�ria, vou chamar a aten��o para o fato de que um deles morava no centro da cidade, ao lado de uma igreja evang�lica, cujos cantos e preces nas manh�s de s�bado atrapalhavam o seu santo sono. Particularmente, nada tenho contra os cantos e preces, mas ele tinha, e sua raiva aumentava a cada s�bado. Cada vez que ele sa�a para a estrada e obrigatoriamente passava diante do humilde templo, lan�ava-lhe um olhar criminoso que prometia alguma coisa. Muitas vezes o olhar se transformava em gestos obscenos ou at� mesmo em palavr�es que aprendera com seu primo, mas n�o passavam disso, isto �, at� aquele dia.

Incomodado com as vespas que lhe invadiam o quarto, o famigerado saiu a procura do ninho com o intuito de queim�-lo, e qual n�o � a sua surpresa quando o encontra sob o forro da igreja vizinha. Desnecess�rio dizer que um brilho estranho tomou conta dos seus olhos quando percebeu que o vespeiro l� estava sob os ausp�cios da Provid�ncia Divina, e que concretizavam-se as possibilidades de vingan�a contra o seu despertador sabatinal.

Muito calmamente foi at� ao bambuzal que havia atr�s da sua casa, e de l� trouxe um bambu (porque outra coisa n�o poderia ser) com quase dois metros de comprimento, que lhe serviria como tocha ou algo do g�nero. Muito tranq�ilamente, embebeu um pano em �lcool e o amarrou a uma das extremidades do dito cujo. N�o preciso repetir que seus olhos lan�avam ao longe fagulhas de emo��o. Com um f�sforo, acendeu a tocha, e p�s-se a queimar o vespeiro, quase tendo um orgasmo ao imaginar o desespero dos insetos que tinham seus dom�nios invadidos pelas labaredas. Digo quase, porque o orgasmo mesmo viria no ato seguinte. A igreja possu�a ventarolas nas janelas, e a fim de permitir a circula��o de ar, as ventarolas permaneciam abertas. O famigerado, ao perceber as pesadas cortinas vermelhas por detr�s das ventarolas, direcionou para l� o bambu, ateando fogo �s cortinas. Pronto, agora podia gozar!

Naturalmente a inten��o do piroman�aco n�o era atear fogo � igreja, afinal, n�o era t�o mau assim, e quando ele viu que o fogo aumentava e que se alastrava por todas as cortinas que, diga-se de passagem, cobriam todas as paredes internas do templo, ele ficou realmente preocupado, e correu ao orelh�o mais pr�ximo para chamar os bombeiros. Nisto uma pequena multid�o de desocupados j� se reunia na rua para assistir ao espet�culo, e surgiam as primeiras explica��es para o sinistro: "s� pode ter sido um curto circuito!", dizia um; "n�o, eu vi, foi a vela que esqueceram acesa!", categoricamente afirmava uma senhora com "bobs" enrolados nos cabelos.

Alguns poucos minutos depois chegavam os caminh�es vermelhos do Corpo de Bombeiros com as estridentes sirenes ligadas, fazendo o maior estardalha�o e acompanhados de uma multid�o ainda maior de curiosos �vidos por trag�dias. T�o logo chegam, os soldados virilmente saltam dos caminh�es, quebram os vitrais com seus machados, invadem a casa santa com suas pesadas mangueiras, suas botas, seus extintores. Del�rio na plat�ia, �xtase total para o nosso jovem, que a esta altura em nada perdia para um v�ndalo profissional. O �xtase era tanto, que quase chegou a sentir pena quando viu a desola��o estampada no rosto do pastor Quando este chegou ao local.

Bem, a fim de chegar logo ao desfecho, porque j� em muito estou inventando, contou-me a tal pessoa que no s�bado que se sucedeu ao inc�ndio, o pastor reuniu seus fi�is naquele templo semidestru�do para um culto de agradecimento, j� que a casa do Senhor havia resistido � prova��o do inc�ndio gra�as ao providencial telefonema dado por nosso jovem cara-de-pau, "que fora enviado pela m�o bondosa de Deus!", segundo as palavras do ministro. De tudo participava o c�nico jovem, que em meio aos destro�os dos m�veis e � fuligem de fuma�a que permanecera na parede, recebia os olhares de aprova��o dos fi�is e as piscadelas de promessa das ninfetinhas, loucas para honrar ainda mais o nosso hip�crita her�i.

O primo, que de tudo sabia, porque ao outro bem conhecia, limitou-se a morrer de inveja e, no seu �ntimo, pensou em feito ainda maior. Mas a� j� n�o falo nada, afinal, termina aqui o que me contaram, e se mais houver, que se procure nas p�ginas policiais dos jornais da cidade.

 

 

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