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"SE"

(Rudgard Kipling (Tradução de Alcântara Machado - São Paulo - Maio de 1936)

Se puderes guardar o sangue frio diante
de quem fora de si te acusar, e, no instante
em que duvidem de teu ânimo e firmeza,
tu puderes ter fé na própria fortaleza,
sem desprezar contudo a desconfiança alheia ..

Se tu puderes não odiar a quem te odeia,
nem pagar com calúnia a quem te calunia,
sem que, tires daí motivos de ufania,
sonhar, sem permitir que o sonho te domine,
sonhar, sem que em pensar tua ambição se confine,
e esperar sempre e sempre, infatigavelmente ...

Se com o mesmo sereno olhar indiferente
puderes encarar a Derrota e a Vitória,
como embustes que são da fortuna ilusória,
e estóico suportar que intrigas e mentiras
deturpem a palavra honesta que profiras ....

Se puderes, ao ver em pedaços destruída
pela sorte maldosa, a obra da tua vida,
tomar de novo, a ferramenta desgastada
e sem queixumes vãos, recomeçar do nada ...

Se, tendo loucamente arriscado e perdido
tudo quanto era teu, num só lance atrevido,
tu puderes voltar à faina ingrata e dura,
sem aludir jamais à sinistra aventura ...

Se tu puderes coração, músculos, nervos
reduzir da vontade a condição de servos,
que, embora exausto, lhe obedeçam ao comando ...

Se, andando a par dos reis e com os grandes lidando,
puderes conservar a naturalidade,
e no meio da turba a personalidade,
impávido afrontar adulações, engodos,
opressões, merecer a confiança de todos,
sem que possa contar, todavia, contigo
incondicionalmente o teu melhor amigo ...

Se de cada minuto os sessenta segundo
tu puderes tornar com o teu suor fecundos ...

a Terra será tua, e os bens que se não somem,
e, o que é melhor, meu filho, então serás um Homem!

 

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