Cecília Meireles nasceu no Rio, em 7 de novembro de 1901, mesma cidade em que
morreu, a 9 de novembro de 1964. A menina foi criada pela avó materna, Jacinta Garcia
Benevides.
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A paixão pelos livros e a leitura norteia o caminho da
jovem Cecília. Aos 16 anos, ela se diploma professora. A
vontade e o fascínio pelo
"saber" a conduzem, então, para o estudo de outros idiomas e
para o
Conservatório Nacional de Música, onde tem aulas de canto e violino.
Ainda que "fizesse versos" e compusesse cantigas para os seus
brinquedos
desde a escola primária, é na adolescência que Cecília Meireles
começa a
"escrever poesias", segundo sua própria definição. Em 1919,
aos 18 anos,
ela publica seu primeiro livro de poemas: ESPECTROS, iniciando um
período
de grande produção. |
Em BALADAS PARA EL-REI, através do desencanto e da nostalgia do além.
Formalmente, os poemas constroem-se através da repetição de
palavras, vogais e consoantes, refletindo, os versos, uma particular musicalidade.
Segundo críticos de sua obra, Cecília Meireles, associando uma
percepção sensorial a outra, produz sinestesias
transfiguradoras da realidade, anunciando o nível de sua futura
produção. |
A Biblioteca Infantil, mais do que um sonho de Cecília Meireles embalado desde a
infância, é um sucesso no Rio de Janeiro até 37, quando o Interventor do Distrito
Federal invade o Centro e apreende AS AVENTURAS DE TOM SAWYER, de MARK TWAIN,
um clássico norte-americano, sob acusação de comunismo. O caso repercute no Brasil e no
exterior. Depois da invasão, o Centro de Cultura Infantil é fechado pelo Estado Novo. O
ano de 38 marcará seu retorno à poesia. O livro VIAGEM, publicado no ano seguinte
(1939), recebe da Academia Brasileira de Letras o Prêmio de Poesia. O reconhecimento se
faz presente. VIAGEM é composto por doze poemas, que podem ser interpretados como
doze etapas de uma trajetória espiritual, onde vida e poesia se confundem, da mesma
maneira que a poeta e a natureza. Formalmente, convivem lado a lado versos de sete e oito
sílabas e versos livres. |
Na década de 50, Cecília Meireles intensifica as viagens para o
exterior. Reconhecida,
vive a plenitude, num período caracterizado pela felicidade e satisfação
profissional.
Em 51, participa do I Congresso Nacional do Folclore, no Rio Grande do Sul.
Na infância, Cecília Meireles tomara contato com o folclore açoriano através da
avó.
A cultura popular fora-lhe transmitida através de uma pajem, que lhe contava
histórias,
contos, adivinhações e fábulas. O interesse pela cultura popular brasileira, que já
havia
levado a poeta e educadora para além das fronteiras nacionais, acaba por levá-la mais
longe nos anos 50. Ainda em 51, após o lançamento de AMOR EM LEONORETA,
viaja aos Açores, França, Bélgica e Holanda. No período, escreve DOZE
NOTURNOS DE HOLANDA. O termo "noturno" tem conotação com os
mistérios da noite, e também tem relação com a composição musical, melancólica e
terna. A obra, composta por 12 noturnos, traduz a busca de Cecília, sua angustiada
tentativa de penetrar a razão da existência humana. A crítica afirma que, em sentido
figurado, "a idéia da noite percorre os doze poemas, como um sinônimo de
questionamento do sentido da vida, da oportunidade de purificação ou da imagem da
morte". |
Canção
Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo! Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto! Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo... |

Óleo de Maria Helena Vieira da Silva
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| Os Doze Noturnos de Holanda foram publicados em 52, mesmo ano do
lançamento de O AERONAUTA, período em que a poeta encerra a pesquisa que
resultará no ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, uma narrativa rimada, na
definição da autora, que lhe consumiu dez anos de pesquisa. A temática, de caráter
histórico e nacionalista, remete o leitor
à Inconfidência Mineira. A poeta associa a verdade histórica com tradições e
lendas e, ao utilizar-se da técnica ibérica dos
romances populares, recria a atmosfera de Ouro Preto, Vila Rica dos Inconfidentes. Na
obra aparecem, alternados, os
"romances", os "cenários" e as "falas". |
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Os romances, reconstituindo a história, compõem o fio narrativo. Os
cenários, situando os ambientes marcam as mudanças de
atmosfera e localizam os acontecimentos. As falas, por sua vez,
representam uma intervenção do poeta-narrador, tecendo
comentários e levando o leitor à reflexão dos fatos referidos.
Nas páginas do ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA
encontram-se a mineração, as rivalidades e contendas, os
impostos cobrados pela coroa, a conscientização de alguns
intelectuais e os ideais de liberdade, além da defesa dos oprimidos. |
"Aprendi com a
primavera
a me deixar
cortar.
E a voltar sempre inteira." |
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Guitarra
"Punhal de prata já eras,
punhal de prata!
nem foste tu que fizeste
a minha mão insensata.
vi-te brilhar entre as pedras,
punhal de prata!
- no cabo flores abertas,
no gume, a medida exata,
exata, a medida certa,
punhal de prata,
para atravessar-me o peito
com uma letra e uma data.
A maior pena que eu tenho,
punhal de prata,
não é de me ver morrendo,
mas de saber quem me mata." |
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A paixão pelos livros e a leitura norteia o caminho da jovem Cecília.
Aos 16 anos, ela se diploma professora. A vontade e o fascínio pelo "saber" a
conduzem, então, para o estudo de outros idiomas e para o Conservatório Nacional de
Música, onde tem aulas de canto e violino. Ainda que "fizesse versos" e
compusesse cantigas para os seus brinquedos desde a escola primária, é na adolescência
que Cecília Meireles começa a "escrever poesias", segundo sua própria
definição. Em 1919, aos 18 anos, ela publica seu primeiro livro de poemas: ESPECTROS,
iniciando um período de grande produção.

Ilustração de
Correia Dias
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Três anos mais tarde, casa-se com o artista plástico português Fernando Correa
Dias. Ele seria o ilustrador de futuras obras da poeta e pai de suas três filhas, três
Marias: Elvira, Matilde e Fernanda. Um ano depois do casamento, Cecília Meireles publica NUNCA
MAIS...E POEMA DOS POEMAS, com ilustrações de Correa Dias. Em 25, o terceiro livro, BALADAS
PARA EL-REI. As três obras, apesar de excluídas de sua Obra Poética, publicada em
1958, apontam traços marcantes de toda a produção Ceciliana. Tematicamente, em
destaque, o misticismo: Em NUNCA MAIS...E POEMA DOS POEMAS, manifestado através do
desejo da união da alma humana com Deus. |

Ilustração de
Correia Dias
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A partir de 1925, a educadora Cecília Meireles se sobressai à poeta. Em 1927, ela
publica a prosa poética CRIANÇA, MEU AMOR, livro que posteriormente seria
indicado como leitura oficial nas escolas. Dois anos depois, ela se candidata à cátedra
de literatura da Escola Normal, mas o cargo, de acordo com as cabeças pensantes,
destinava-se a alguém reconhecidamente católico. Cecília concorre à vaga com a tese O ESPÍRITO
VITORIOSO, um trabalho liberal onde discorria sobre a liberdade individual na
sociedade. Perde para um técnico em educação sem qualquer pretensão literária, perfil
que agradava mais aos "eleitores"da vaga a que Cecília Meireles concorria.
A despeito de perseguições mais ou menos veladas, e de dificuldades financeiras,
Cecília Meireles luta ainda mais pela renovação educacional vigente. Entre junho de
1930 e janeiro de 33, dirige a Página da Educação no Diário de Notícias do Rio de
Janeiro. Em seus artigos sobre política, educação e cultura, defende uma política
menos casuísta e uma educação moderna. Cecília rompe tabus de uma sociedade, deixando
sua marca na História Brasileira como defensora da idéia universal de democracia, numa
década em que o mundo vive o período de transição das duas Grandes Guerras. No Brasil,
Vargas sai-se vitorioso na Revolução de 30.
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| Bandeira da Inconfidência Através de grossas portas sentem-se luzes acesas
e há indagações minuciosas dentro das casas fronteiras
olhos colados aos vidros, mulheres e homens à espreita
caras disformes de insônia vigiando as ações alheias(...)
atrás de portas fechadas à luz de velas acesas
uns sugerem, uns recusam, uns ouvem, uns aconselham
se a derrama for lançada há levante com certeza
corre-se por essas ruas, corta-se alguma cabeça
no simo de alguma escada profere-se alguma arenga
que bandeira se desdobra?
com que figura ou legenda?
Coisas da maçonaria, do paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade, um gênio a quebrar algemas? Atrás de portas fechadas à luz de
velas acesas
entre sigilo e espionagem acontece a Inconfidência
e diz o Vigário ao poeta "escreva-me aquela letra do versinho de Virgílio"
e dá-lhe o papel e a pena. E diz o poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
"Tenha meus dedos cortados antes que tal verso escrevam" Liberdade, ainda que
tarde, ouve-se em redor da mesa
e a bandeira já está viva e sobe na noite imensa
e seus tristes interventores já são réus, pois se atreveram a falar em liberdade,
que ninguém sabe o que seja através de grossas portas
sentem-se luzes acesas,
e há indagações minuciosas dentro das casas fronteiras...
Que estão fazendo tão tarde, que escrevem, conversam, pensam
mostram livros proibidos? lêem notícias nas gavetas?
terão recebido cartas de potências estrangeiras? Antigüidades de Minas, em Vila Rica
suspensas
Cavalo de Lafaiete saltando vastas fronteiras
Oh, vitória, sestas, flores das lutas da Independência
Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda
e a vizinhança não dorme, murmura, imagina, inventa,
não fica bandeira escrita, mas fica escrita a sentença...
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Ilustrações de
RENINA KATZ
para
Romanceiro da Inconfidência
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| No mesmo ano em que o Romanceiro é publicado, Cecília Meireles
recebe o título de Doutor honoris causa da Universidade de Délhi, na Índia. Ela havia
sido convidada pelo governo indiano a participar de um simpósio sobre a obra de Gandhi. O
trabalho lhe rendeu o título concedido. Cecília, que desde a adolescência vivia o
fascínio pela cultura oriental, extravasa a experiência vivida em sua poesia. Da viagem
nascem os POEMAS ESCRITOS NA ÍNDIA, parte das crônicas-evocação que irão
compor GIROFLÊ-GIROFLÁ, e a ELEGIA A GANDHI, hoje traduzida para inúmeras
línguas. Antes de voltar ao Brasil, uma passagem pela Itália. Surgem os POEMAS
ITALIANOS. Seguem-se, ainda, viagens a Porto Rico e Israel. |
Giroflê-Giroflá
Tempo do Giroflê A vida vai sendo levada para longe, como um livro, que tristes
querubins contemplam, resignados. (...) Ah, mas as pálidas imagens ainda resistem: saem
dos seus primitivos lugares, aparecem onde não as esperávamos, desdobram-se de outras
figuras que nos apresentam, acordam as primeiras experiências, as indeléveis
curiosidades do nosso amanhecer no mundo. (...) A bondade está ali - detrás daquela
porta que se abre em silêncio, na sala onde a mesa está sempre posta - Inutilmente o
relógio marca o dia e a noite, pois a vida é sem fim. Ninguém estremece. Ninguém pensa
nas horas muito a sério. Todos se sucedem, todos se lembram uns dos outros. Todos estão
ali à espera dos que chegam.(...) |
Giroflê, Giroflá foi publicado, em edição limitada, em 56 e reeditado
em 1981. O livro, composto por crônicas, em prosa poética, reúne as impressões de
Meireles recolhidas em suas viagens pela Índia e Itália. De volta ao Brasil, depois de
passar por Porto Rico e Israel, em 58, Cecília Meireles acompanha a publicação da sua OBRA
POÉTICA, que consistiu no reconhecimento do mercado editorial do seu valor e talento
literário e artístico. Até 64, a poeta lançaria, ainda, METAL ROSICLER e SOLOMBRA,
em 60 e 63.
Cecília Meireles morre no Rio, em 9 de novembro de 1964. Em plena atividade literária,
deixando incompleto um poema épico-lírico, escrito em comemoração ao quarto
centenário do Rio de Janeiro, sua cidade Natal. Além deste poema, deixa inúmeros textos
inéditos. No ano seguinte à sua morte, a Academia Brasileira de Letras concede-lhe o
Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra. Amada pelo público - até hoje, Cecília
Meireles é a poeta mais lida do Brasil, sendo ultrapassada apenas por Vinícius de Morais
e Carlos Drummond de Andrade -, Cecília Meireles permanece um desafio para a crítica
nacional. Ela partiu do pós-simbolismo e do lirismo português. À margem do modernismo,
construiu uma obra de dicção muito pessoal, que a faz admirada não apenas pelo
público, mas também por colegas, como Drummond, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo
Neto. E alcançou uma meta: |
| "acordar a criatura humana dessa
espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em
profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação
poética afetuosa e participante." |
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O crítico e ensaísta Davi Arrigucci Jr. afirma que ela era uma poeta altamente
técnica, uma grande artista do verso, que deixou expressa em sua obra a tensão entre o
sentimento do fugidio e rigor que ela própria se impunha para expressar esse sentimento.
Arrigucci prossegue: "extremamente musical, com metáforas fortemente
sensoriais e sua insistência no uso da primeira pessoa, Cecília Meireles parece ter
cantado sempre o mesmo tema:"a busca do eterno no transitório, do transcendente no
contingente, do milênio no minuto".
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| Reconhecida oficialmente, a partir do lançamento de VIAGEM, em
39, Cecília Meireles inicia um novo período de produção intelectual e de afetividade.
Casa-se, em 1940, com Heitor Grillo, passa a lecionar literatura e Cultura Brasileira na
Universidade do Texas, profere conferências no |
| México e visita a Argentina, Uruguai e diversos países europeus. Até o
final dos anos 40, produz intensamente. Em 42, publica VAGA MÚSICA, onde pergunta,
em um poema: |
Autoretrato |
COISA QUE PASSA, COMO É TEU NOME? Três anos depois, publica MAR
ABSOLUTO e, em 49, RETRATO NATURAL, transmitindo sua busca e perplexidade
diante do enigma da existência humana.
| Quando lançado, RETRATO NATURAL foi assim recebido pelo
poeta Carlos Drummond de Andrade, que assinava coluna no Jornal de Letras do Rio de
Janeiro: "Uma espécie de retrato natural da fisionomia da sra. Cecília Meireles,
e que a situa definitivamente na corrente tradicional dos poetas peninsulares... Com a
sra. Cecília Meireles, o verso português não sofre nenhuma distorção violenta. Apenas
ficou mais fluido, adquiriu uma diferente e surda musicalidade. Bem a qualificou outro
grande poeta, João Cabral de Melo Neto: libérrima e exata." |
Página de Educação, Diário de
Notícias, 6 de maio, 1931. Fragmento: "Mas, enquanto uma reforma do Ensino
Primário, como a que nos deixou o governo findo, nos promete - embora da sombra e da
frialdade a que a condenaram - uma era nova, e de real importância, para a nossa
nacionalidade, o regime atual, que tanto tem invocado a Liberdade como sua padroeira, nos
coloca nas velhas situações de rotina, de cativeiro e de atraso que aos olhos atônitos
do mundo proclamarão, só por si, o formidável fracasso da nossa revolução... Veio o
sr. Francisco Campos com o seu feixe de reformas na mão. E, em cada feixe, pontudos
espinhos de taxas... E esperávamos uma reforma de finalidades, de ideologia, de
democratização máxima do ensino, da escola única - todas essas coisas que a gente
precisa conhecer antes de ser ministro da educação...Depois veio o decretozinho do
ensino religioso. Um decretozinho provinciano, para agradar alguns curas, e atrair algumas
ovelhas...decreto em que fermentam os mais nocivos efeitos para a nossa pátria e para a
humanidade. Chama-se a isto ser liberal. Fala-se da religião como de um movimento de
liberdade. Liberdade! Oh! mas, afinal, sejamos coerentes. Façamos o déspota. Façamos o
vizir. Façamos, de certo modo, o César do século 20. Mas conservemos a significação
dos nomes!"
Cecília Meireles |
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