Outubro de 2005 - Médica de Clínica Geral (chamada de "Family Doctor" aqui nos EUA)

O problema dessa clínica em Heavencity (nome fictício) é que há poucos médicos  e então a proporção médico-paciente é de níveis alarmantes... muito paciente para pouco médico. Mas, mesmo assim, eles não se apressam como aqui. Mas a gente liga hoje marcando uma consulta e só consegue vaga para daqui a 3 meses, a não ser que seja um caso urgentíssimo. Então fiquei 3 meses nesse suspense, nessa angústia, nessa agonia toda novamente, contando os dias e as horas para chegar o dia da consulta. Quando ainda faltava quase um mês, percebi que o Rivotril não ia chegar até lá, a não ser que eu diminuísse as doses drasticamente... e mesmo assim, iria ficar completamente sem remédio por uns 5 dias. Comentei com Arthur que era então preciso ligar para o meu psiquiatra (ele mesmo podia ligar do trabalho, ainda mais que não assinamos serviço de interurbano aqui... e nos EUA mesmo dentro de um mesmo estado, se a cidade não é colada com a outra, é interurbano), explicar a situação (quer dizer, contar que nos mudamos para longe e que o novo médico só poderia me atender no outro mês mas que eu precisava do remédio). Sempre é problemático pedir ao Arthur para fazer essas coisas e às vezes eu até desconfio de que ele também sofra de Fobia Social, mesmo que mais leve. Ele inventa mil desculpas, fica sem saber o que fazer, quer escrever o que vai ter que falar num papel, ou seja, só contribui para aumentar minha ansiedade. Mas, coitado, mesmo a duras penas, acaba me ajudando. Conversamos e chegamos à conclusão de que dificilmente o médico se negaria a me dar a receita para mais um mês, pois até nos vidros dos remédios desse tipo advertem que não se pode parar de um dia para o outro. Se ele se negasse, aí era ligar para a clínica em Heavencity e explicar o problema, alguém teria que me receitar!! E nesse ponto aqui é bom, pois não se precisa ir ao médico para se pegar a receita, quando a gente já tem uma receita em uma determinada drogaria, fica tudo registrado no sistema e basta o médico telefonar para a drogaria (ou pode fazer isso até pela internet, se não me engano) com seu número de registro, etc, e liberar o medicamento para mais tempo.

Pelo menos tivemos um resultado favorável, para variar! A atendente, que sempre foi muito gentil, encarregou-se de falar com o médico e depois ligou para o Arthur dizendo que estava liberado o Rivotril para mais um mês. Isso já diminuiu um pouco o stress, pois já estava pensando no que iria fazer sem o remédio, não queria passar por aquele inferno todo de crise de abstinência, e hoje em dia, com criança de 3 anos e cachorro de 5 meses, nem posso me dar a esse "luxo" de ficar toda trêmula, ainda mais nervosa e sem dormir nem um segundo por dias e dias.

Na véspera de ir à clínica, fui dormir normalmente, li um pouco, mas aí bateu um pânico. Comecei a chorar, a gemer, a tremer, acordei Athur e disse, já aos prantos: "Acho melhor não ir!! Vamos desistir de tudo!!! É muito longe, a gente nem sabe se a médica vai aceitar receitar, quando eu me tratava lá não estava tomando pois estava para engravidar, eles só receitaram para uns dois meses enquanto eu deixava de tomar e nem tinha sido esta médica de agora. Ah, não quero contar a história novamente pela milionésima vez, e lá tem as enfermeiras que também querem saber de tudo!! Não vou, não quero ir!!! É melhor voltar ao psiquiatra, pedir perdão pelo incidente ao telefone, ajoelhar se for preciso... pelo menos ele estava receitando o Rivotril, mesmo tendo que ir lá de 3 em 3 meses. Quanto ao Aropax, se ele receitasse de novo, era eu dizer que estava tomando sem estar... só isso!!". Arthur, com a calma de sempre, murmurou, meio dormindo "Relaxa... a gente tem que tentar, não custa nada!" "Custa sim!!! Estou cansada!!! E é muito longe, não temos certeza, não aguento mais receber tanto "não" na minha cara nessa terra!!! Ai, me ajuda!!!". Mas ele foi firme "Temos que tentar. Os médicos de lá são mais compreensivos... lembra, você mesma disse que lá sim é que é "primeiro mundo". Tenta dormir um pouco, ou então lê mais um pouco ou liga a TV, você sabe que não me incomoda, que eu durmo mesmo com TV e com luz acesa". Tentei rezar, mas não conseguia me concentrar. Então, resolvi continuar lendo. O livro era interessante e me prendeu a atenção... e fiquei lendo até as 3 e meia da manhã, tendo que acordar às 7, pois a consulta era as 9:30, a uma hora e meia daqui.

Apesar do tempo cinzento, escuro e nublado, a viagem até que foi agradável e Joseph se comportou bem, até tirou um cochilo. O tempo passou depressa e logo pude ver, ao longe, a cidade tão linda e tão querida, com o prédio do hospital onde o Joseph nasceu se destacando, por ser um dos prédios mais altos da cidade. Vieram-me logo lágrimas aos olhos, como tenho saudades de lá, que cidade mais linda! A clínica parecia ainda mais organizada e bonita, talvez por ter me acostumado com as clínicas abagunçadas de Pineport e adjacências. Sempre pedem o cartão do plano de saúde e tiram uma fotocópia para anexar à ficha dos pacientes... mas esta clínica já está com sistema novo, uma maquininha que "lê" o cartão. Arthur murmurou no meu ouvido "lembra... primeiro mundo...". Não precisei esperar muito, a enfermeira veio logo me chamar e lá fui eu para a famosa "salinha". Mas a enfermeira era amável e comentei o mais breve possível sobre os problemas, que não estava conseguindo me entender bem com os médicos em Pineport, que estavam sempre com pressas, que não gostavam quando a gente queria conversar e discutir sobre o tratamento, e que vivia pulando de médico em médico. Ela comentou que isso não era nada bom mesmo! Como ia fazer também exames de rotina, ela pediu para colocar o roupão e esperar pela médica na mesa. Eu já havia me esquecido da fisionomia da doutora, só lembrava dela pelas fotos que ainda estão no website da clínica, assim que ela começou a clinicar lá e eu fui uma das primeiras pacientes. Quase não a reconheci, os cabelos mais claros e mais longos, mas veio logo com um largo sorriso, apertou a minha mão e fiquei espantada de ver que ela ainda se lembrava de mim! Perguntou como tinha sido minha gravidez e batemos um bom papo, no qual fui entremeando os meus problemas com os médicos no outro estado, daí voltar a esta clínica onde sempre fui bem atendida. Ela perguntou se a gente pensava em voltar a morar em Heavencity. "Quem me dera!!", respondi. Ela riu.

Contei a ela os problemas que tive com o Aropax, principalmente a falta de libido e ela concordou que não era uma boa eu continuar tomando se não me sentia bem assim, mas fez cara de surpresa quando disse que me dava também pensamentos suicidas. Engraçado, sempre vejo os médicos se espantarem com alguns efeitos colaterais, como se nunca tivessem ouvido falar de nenhum outro paciente que os tivesse tido... e eu vejo gente comentando sobre os mesmos efeitos a toda hora, acho isso estranho. Aqui nos EUA eles agora advertem muito que este tipo de medicamento pode causar pensamentos suicidas em crianças e adolescentes... mas não falam nada sobre adultos. Mas qual é a diferença? Por que só em crianças e adolescentes? O fato é que tive pensamentos suicidas, que foram embora assim que parei de tomar o remédio. Nem comentei sobre os problemas de formigamento e da vista, achei que era me alongar demais no assunto, queria o enfoque no Rivotril. Menti dizendo que tinha telefonado para minha médica no Brasil e que esta tinha me aconselhado a tomar 3mg por um tempo, enquanto parava de tomar o Aropax. Também não comentei sobre a história do cachorro, não queria complicar as coisas e "ramificar demais" o processo. Falei que era um remédio que me ajudava a dormir e também resolvia o problema da Síndrome das Pernas Inquietas. Nesse ponto ela comentou que existiam novos medicamentos para a Síndrome e perguntou se eu queria experimentar. Eu disse que tinha lido a respeito mas que eram remédios usados primeiramente para Doença de Parkinson e que minha mãe tinha tomado o L Dopa e os efeitos eram terríveis para o estômago, fígado, intestinos, etc. Ela disse que existiam outros que não eram ligados ao L Dopa. "Ah, doutora, mesmo assim preferiria não experimentar coisa nova não... enquando o Rivotril continuar fazendo efeito, prefiro continuar com ele, pelo menos não tem efeitos colaterais desagradáveis e já venho tomando há tantos anos...". Graças a Deus ela não insistiu. Perguntou se eu só tomava o Rivotril à noite e eu disse que sim. Ela então comentou que eu só estava tomando mesmo para dormir e para a síndrome, pois para a ansiedade não estava adiantando nada se eu tomava durante a noite, pois dormindo "não ficava ansiosa", que para ansiedade se toma durante o dia. Achei a lógica meia estranha, pois não me consta que o Rivotril tenha um efeito tão imediato assim, muito pelo contrário, sempre li e vi pela experiência própria que tem um efeito cumulativo, que não é do tipo "toma agora e sente o efeito daqui a dez minutos". Mas resolvi não contrariar não!!! Então ela disse: "Está bem, não tem problema nenhum continuar tomando o Rivotril se te faz bem, mas, sabe como é, é um remédio que causa dependência e vicia (nesse ponto comentei que viciada eu já estava!) e que pode em alguns casos levar a uso abusivo... que não era o meu caso, mas que era melhor eu tentar ficar com a dose de 2mg ao invés de 3. Mas disse que não era uma imposição, sugeriu que eu experimentasse 2mg e ligasse para ela se não estivesse me sentindo bem. Mas ela achava que agora eu iria relaxar por conta de ter me livrado dessa "saga médica" e nem iria precisar de dose mais alta, que eu tinha precisado por conta do stress com os médicos, e tive que concordar com ela pois era mesmo verdade! Receitou para 5 meses. Não perguntei se tenho que voltar lá a cada 5 meses para renovar a receita, mas creio que não, que só preciso telefonar para ela pedindo a "liberação". Bom, pelo menos é um prazo maior do que os 3 meses do psiquiatra. Eu e o Arthur estávamos pensando se era alguma lei que obrigava o médico a só receitar remédios desse tipo para no máximo 3 meses e aí ficar renovando, mas pelo visto não é (ou então é coisa que varia de estado para estado). Não sei se existe uma lei ou filosofia com relação a isso. O remédio que tomo para síndrome de intestino irritável o médico deu receita para um ano inteiro. Mas no papelzinho padronizado da receita da médica, vi que só havia espaço para, no máximo, cinco "refills" como eles costumam chamar os novos vidros do remédio. Saí de lá sentindo um imenso alívio!!! Mesmo que tenhamos que ir lá de 5 em 5 meses (o que eu acho improvável), Arthur comentou que era uma boa desculpa para tirar um dia de folga.

Realmente me senti bem mais tranquila e não senti nada ruim voltando a tomar 2mg por dia (por mais ou menos uma semana foi diminuindo aos poucos, meio miligrama de cada vez por uns dias). Tenho dormido bem e não tenho sentido "aflição nas pernas" (ultimamente vinha sentindo, mesmo como Rivotril, mas era por conta do nervoso mesmo!). O stress continua, mas ando menos descontrolada, não tenho gritado tanto como Joseph e não tive mais crises nervosas, o que já é uma melhora e tanto. Se um dia o Rivotril não fizer mais efeito, aí sim parto para novos medicamentos, mas por enquanto não quero passar por todo esse processo de experimentar medicamento novo sem saber que efeitos vai causar, ainda mais com criança pequena aos meus cuidados praticamente o dia inteiro. Para a Fobia Social não faz mais efeito, mas atualmente estou bem satisfeita com minha "vida de eremita", gosto de viver quieta no meu canto, sem incomodar ninguém e sem ser incomodada pelos outros, e a internet supre as necessidades de trocar idéias com outros seres humanos.


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