Outubro de 2003 - Psiquiatra nos EUA

Como sempre, estava no maior nervoso esperando o dia da consulta, mal conseguia dormir direito, tinha ataques de choro, tremores, etc, e achava que seria, mais uma vez, uma perda total de tempo. Mas, sem outra alternativa, fui ao consultório. A recepcionista gentilíssima, causou-me boa impressão e sua fisionomia me lembrava uma professora de francês muito legal que tive, o que me fez relaxar um pouco. O consultório parecia mais no "estilo brasileiro", uma sala de espera, e as salas dos médicos. Estava demorando e o médico, enquanto vinha buscar outro paciente na sala de espera, veio falar comigo, me cumprimentou, se apresentou, todo sorridente e simpático e se desculpou pelo atraso. Achei que já havia uma melhora incrível, comparada com o tratamento que recebi anteriormente. Chegou finalmente a minha vez e ele me levou até o amplo consultório, muito elegante (o médico também bastante elegante, de terno e gravata, posudo, parecendo saber o que estava fazendo). Ausentou-se por um tempo e pude dar "uma geral" na sala. Tinha o clássico divã, mas preferi sentar num sofázinho bastante confortável, daqueles bem macios. Havia uma mesa com computador e enfeites por todo lado, alguns estilo new age e também bonequinhos do Freud e canecas com o rosto dele. Enfim o médico apareceu, apertou minha mão mais uma vez e comecei a contar minha história. Ele não interrompeu muito e nem fez "perguntas cretinas" como a maioria dos outros psiquiatras ou psicólogos, o que me deixou bem mais à vontade. Tomava nota de tudo, tomou nota de todos os remédios que já tomei e, aos poucos, fui contando que não queria terapia, que já tinha tentado, que só queria mesmo o meu Rivotril mas que os médicos não queriam me receitar... fui até um pouco cara de pau, desculpei-me com ele dizendo que não gostava de psiquiatras, por isso tinha tentado tanto que um clínico me receitasse o Rivotril, mas que eles pareciam não saber lidar com o meu caso. Por fim, ele me tranquilizou e concordou que não havia nada errado com o Rivotril, até disse que não entendia o porquê dos outros médicos terem resistido tanto. Foi logo puxando a receita, mas disse que gostaria de me sugerir o Aropax (que aqui se chama Paxil) pois eu realmente me queixei de estar muito deprimida. Perguntei qual a diferença entre o Aropax e o Prozac, que já havia tomado antes, ele disse que, basicamente, não havia muita diferença. Comentei que o Prozac, depois de um ano, começou a me dar o efeito contário (insônia, agitação, etc) e ele fez ares de espanto, levantando as sobrancelhas. Enfim, como já estava sentindo um baita alívio por ele não se recusar a me receitar o Rivotril, resolvi topar a "experiência" e tentar o Aropax. Para isso, deveria tomar 15mg por um mês e voltar ao consultório para ver como estava me sentindo, aí, conforme o caso, aumentar para 30mg e aí "só" teria que voltar de 3 em 3 meses.

Realmente, no início, me senti bem mais relaxada e a depressão diminuiu. Mas não sei bem se foi por conta do Aropax ou por conta de, finalmente, ter acertado com o médico e ter o meu Rivotril  "garantido". Mas logo notei um efeito colateral bastante desagradável: a libido acabou por completo, sexo era algo que não fazia mais parte da minha mente e nem do meu corpo, não conseguia sentir prazer algum e nem mesmo vontade de fazer amor. Pensei que o efeito fosse passageiro. Depois de um mês, voltei no médico e disse que já me sentia bem melhor mas que havia esse problema da libido. Ele disse que eu precisava escolher e que esse era um preço a pagar. Resolvi continuar tomando o Aropax, mais para o médico me deixar em paz do que outra coisa qualquer. Mas a falta de libido fazia com que me sentisse diminuída, impotente, e me revoltava pensando que os médicos eram maxistas e não viam nada de errado no fato de uma mulher não ter mais vontade de fazer sexo... afinal, mulheres podem fazer sexo mesmo sem vontade. Se fosse com um homem, garanto que a conversa seria outra!!! E assim fui vivendo, pois a vida já era bem estressante e, de qualquer jeito, com uma criança de 2 anos de idade me azucrinando a paciência o dia inteiro ficava difícil querer ou pensar em sexo ou mesmo haver clima para isso. Esse é um grande problema de se ter filhos pequenos - sexo passa a ser algo praticamente com dia e hora marcado, e eu simplesmente detesto isso. Gosto de que as coisas fluam naturamente, que haja um clima, calma, tranquilidade, mas com criança, isso se torna impossível. Na consulta seguinte o médico aumentou para 30mg e, depois de um mês, quando disse que continuava tudo igual, ele disse para continuar com o Rivotril e o Aropax e voltar de 3 em três meses. Achei um saco essa história de voltar tão periodicamente, mas como era praticamente só para perguntar como eu estava e para receitar o remédio, não incomodava tanto. Ele perguntou se havia ainda alguma coisa que eu queria fazer e não conseguia. Comentei que gostaria de trabalhar fora ou ter uma carreira qualquer, e ele anotou no papel. Na época, meu marido estava tentando um emprego em outra cidade e estava quase certo de que ia conseguir... mas não conseguiu. Vou contar na parte da "Minha História" com mais detalhes. O fato é que comecei a frequentar o supermercado brasileiro e comentei que estava a disposição se eles precisassem de algo, pois eu era professora de inglês formada, etc. Mas pensava mais em traduções, não em dar aulas. A "notícia" se expalhou e no meu próprio prédio havia muita gente interessada em ter aulas e eu disse que ia começar umas turmas... mas lá no fundo, estava era doida para me mudar para bem longe, quando o meu marido fosse chamado para o novo emprego. Quando o emprego não rolou, quase que me senti obrigada a dar as tais aulas pois vinha aquela velha história de não saber dizer "não".

As aulas fizeram de minha vida um inferno novamente e, numa das consultas, disse ao médico que estava ultra nervosa, praticamente em pânico e querendo morrer, desaparecer, sei lá... Ele disse que não achava necessário mudar a medicação, mas foi puxando um papel para me enviar a uma psicóloga para terapia. Eu disse que não queria, que desde o começo tinha deixado isso bem claro, ele só sorriu meio amarelo e deixou o papel de lado. Perguntou: "Mas você não queria trabalhar?". Respondi: "Sabe, na verdade não queria, não quero, nunca vou querer... penso nisso pois a sociedade me cobra, mas comentei que queria trabalhar e acabei aceitando dar aulas justamente porque pensei ser algo improvável, já que iríamos nos mudar para uma área remota onde nem havia brasileiros para eu dar aulas... mas que isso acabou não acontecendo. Bom, de qualquer jeito, ele não me obrigou a ver a psicóloga e continuou no esquema de visitas de 3 em 3 meses. Depois de um tempo, em pânico total, encerrei minha carreira de professora mais uma vez e me senti mais aliviada. Por dois anos vivi nesse esquema de visitas de 3 em 3 meses, Rivotril e Aropax.

Passados já quase dois anos assim, comecei a me sentir "estranha": volta e meia, principalmente quando eu estava andando ou fazendo algum esforço, sentia todas as extremidades de meu corpo com um formigamento que durava só alguns segundos, mas afetava até a ponta da língua, os lábios e o couro cabeludo. Não atribuí logo a efeito colateral do Aropax, pensei que era um problema qualquer de circulação, coisas da idade chegando e também stress, etc. Outro problema: Quando virava meus olhos com rapidez para um lado ou para o outro, sentia quase que uma tonteira, como se meus olhos fossem "revirar". Mais uma vez, não atribuí esse efeito ao remédio, pensei que era uso demasiado do computador, a posição da mesa, com reflexos da janela no monitor ou coisa do gênero.

O stress voltou, a depressão também e agora com um agravante: pensava muito em me matar, embora não conseguisse ter coragem. Tinha crises nervosas muito feias, gritava muito, me arranhava, implorava a meu marido que fizesse alguma coisa, me sentia totalmente desamparada nesse mundo, sem saída para meus problemas (principalmente os financeiros), cheguei até a arranhar os pulsos com uma lâmina de barbear na frente do meu marido, mas acho que era mais para chamar a atenção do que propriamente me matar. Arrastava-me pelo chão aos gritos, aos prantos, implorando uma ajuda que não vinha.

Como vou contar na parte de História, vivi uma verdadeira saga por conta de querer ter um cachorro novamente, pois morria de saudades da minha cachorra querida que teve que ficar no Brasil, e justamente nessa época ela quase morrera com uma infecção uterina, teve que operar e todos achavam que ela ia morrer. Isso reavivou a vontade e até a necessidade de ter um cachorro. Como os senhorios não permitiam, fui pesquisar uma saída na internet, lendo as leis relativas a inquilinos, seus direitos, deveres, etc. Foi então que descobri que se fosse considerada inválida e se o médico escrevesse uma carta dizendo que ter um cachorro era terapêutico para mim e melhorava meu estado, como parte do tratamento, qualquer proprietário seria obrigado a aceitar que eu tivesse um cachorro, como se fosse um cachorro guia de cego, e que negar esse direito era até crime de discriminação contra deficientes... e despejar ou fazer algo contra o inquilino era pior ainda, outro crime: retaliação. Agarrando-me à essa "tábua de salvação", liguei para o médico. Falei com a recepcionista, ele ficou de ligar no fim do expediente, o que realmente fez. Expliquei o caso e disse que precisava desesperadamente de uma carta que certificasse que ter um cachorro melhoraria muito o meu estado, pois isso já havia acontecido no Brasil e várias pessoas podiam testemunhar a minha melhora, inclusive médicos brasileiros. Ele, muito secamente, disse que "não se sentia a vontade de fazer tal carta". Foi como um soco no meu estômago, por essa eu não esperava!!! Insisti, dizendo que a situação era muito ruim, que eu estava pensando até em me matar e que tinha até arranhado meus pulsos, ele comentou, muito friamente "espero que você não faça isso". Disse que não podia mais continuar ao telefone pois tinha outros afazeres mas que era preciso marcar uma consulta para "discutir alternativas". Disse a ele que não queria alternativa nenhuma, que era isso ou nada. Ele disse que eu bem podia me mudar para um lugar que aceitasse cachorro. Gritei que não, que queria meu direito assegurado, que estava satisfeita no lugar onde morava e que não queria me mudar, que ele tinha que me dar a carta, que eu era deficiente sim e precisava de atenção. Mais uma vez ele disse que ia ter que desligar, que estava com pressa, mas que a gente devia conversar sobre alternativas. Disse que a alternativa era me matar. Ele continuou dizendo que esperava que eu não fizesse isso. No final, comecei a gritar muito com ele e disse que médicos só arruinavam minha vida, que não me ajudavam em nada e ainda atrapalhavam, que eu já estava com mil problemas e muitos deles causados pelo remédio, que desejo sexual eu podia mais ter. Ele só se desculpou novamente e disse que tinha que desligar. Eu gritei "que se dane!!!" e desliguei, tremendo muito, com falta de ar e chorando convulsivamente.

Aí foi um verdadeiro caos. A atitude dele me deixou em desespero total, o que ocasionou uma crise tão feia e uma briga séria com os proprietários. Até polícia e paramédicos foram chamados. Estes foram gentis comigo, mas, como sempre por aqui, disseram que entendiam meu problema mas que não podiam fazer nada... Resolvemos então nos mudar para um lugar que aceitasse cachorro, e foi o que fizesmos.

Nesse intervalo de tempo, não quis ver médico nenhum. Estava com muita raiva do psiquiatra, pensei até que era caso de processá-lo (mas o problema era ter dinheiro para contratar um advogado!) pois, afinal de contas, eu tinha dito a ele que pensava em me matar e ele nem sequer havia telefonado para ver se eu tinha morrido ou como eu estava, eu era paciente dele, ele tinha obrigação de ver o meu caso. Mas nunca nos contactou e também não quis mais nem chegar perto do consultório dele.

Resolvi parar de tomar o maldito Aropax aos pouquinhos, guiando-me pelas experiências anteriores com remédios desse tipo e também lendo muitos sites na internet sobre esse tipo de medicamento. Foi nessas pesquisas que acabei descobrindo que aquela sensação estranha nas vistas e também o formigamento nas extremidades era efeito do remédio, o que me convenceu mais ainda a parar. Para contrabalançar, resolvi aumentar a dose do Rivotril para 3 miligramas para conseguir "aguentar essa barra toda" (problemas com os senhorios, mudança, parar de tomar um remédio, tentar adotar um cachorro sem sucesso, procurar um cachorro para comprar, comprar o cachorro, etc). O lado bom é que a libido voltou (eu estava com medo que a perda de libido fosse permanente) e, depois de mais ou menos um mês sem tomar o Aropax, passou o problema das vistas e o formigamento. Está provado que eram efeitos do remédio e, depois, conversando com outras pessoas que fazem uso desses remédios, descobri que o problema de falta de libido é comum a todos. Alguns homens tomam Viagra para contrabalançar.

Mas o estoque de Rivotril não iria durar para sempre, era necessário encontrar outro médico com certa urgência. Pensei em tentar uma clínica na nova cidade, mas estas se pareciam tanto com as anteriores (pequenas, meio "abagunçadas") e, além disso, tive uma dor de dente alucinante (que resultou em extração do dente em questão) e fui num hospital daqui, na emergência, e achei o atendimento a mesma porcaria... horas e horas de espera, mil perguntas (inclusive perguntaram se eu era canhota ou destra!!) e só receitaram um analgésico muito forte que me causou enjôo e um mal estar terrível. Pelo jeito era tudo a mesma porcaria. Meu marido então achou que a melhor solução era recorrer a clínica na qual me consultei nos primeiros anos aqui, antes de engravidar e depois mudarmos do estado. Ficava a uma hora e meia de onde moramos, mas achamos que valia a pena tentar pois, lá sim, tudo era de primeiro mundo, não de "segundo mundo", como eu chamava Massachusetts. Argumentei que na época eu não estava tomando Rivotril, a médica só tinha receitado nos primeiros meses, depois eu parei de tomar para engravidar e, portanto, não era garantido que elas iriam reagir de maneira diferente das médicas daqui no caso de tomar a longo prazo. Mas era uma tentativa e, de qualquer maneira, tinha que tentar, com o remédio acabando... eles não poderiam se recusar a me receitar pelo menos por algum tempo, pois não se pode parar de tomar um remédio desses de um dia para o outro, e assim eu ia ganhando tempo. Pensei até em guardar o dinheiro que devolveram do depósito de segurança do aluguel da outra casa para o caso de nada dar certo e eu ter que ir ao Brasil me consultar e trazer um estoque de Rivotril bom para uns 2 anos pelo menos. E um dos meus alunos me disse que, com uma receita médica, no Brasil, a gente pode ir no Ministério da Saúde e conseguir um papel que permite que o remédio seja enviado para cá de forma legal, ele mesmo recebia um remédio para a pressão (creio que exista o remédio aqui, mas tem também o problema do preço. No meu caso, o plano de saúde paga a maior parte, e mesmo assim o que a gente paga é um bocado caro, imagine sem plano!! Mais de 100 dolares pelo Aropax! O Rivotril é bem mais barato. Com o plano, só pagamos 5 dolares, não sei bem quanto ficaria sem plano.


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