Nos Estados Unidos, depois de ter casado com um americano e ter tido um filhinho. 2003 em diante...
Realmente há coisas aqui nos EUA com as quais nunca vou me acostumar. Uma delas - e acho que a principal - é o sistema médico
americano. A impressão que tenho é que a gente entrou num “universo paralelo” onde tudo é ao contário do que deve ser, onde nada faz sentido, onde tudo é de cabeça para baixo. Medicina de
primeiro mundo.... em termos de aparelhagem pode ser, realmente é show, limpeza também, mas em termos de atendimento... um verdadeiro pesadelo pois você cái num mar de burocracia sem fim e é
tratada sem a menor humanidade, como se fosse um objeto qualquer a ser observado e “consertado”.
Como aqui nos EUA tudo varia de um estado para o outro, tinha esperanças de que nesse ponto fosse melhor aqui do que no
outro estado, pois tive experiências terríveis por lá.
Uma vez, quando estava grávida de 7 meses, pequei uma gripe terrível e não parava de tossir a noite inteira e acordava quase
sufocando, deitada piorava muito. Como dois meses antes tinha sofrido do mesmo problema (duas gripes na gravidez! é que o sistema imunológico fica baixo, até para proteger o feto, pois de outra
maneira este seria “combatido como um corpo estranho” pelo corpo da mãe), liguei para a clínica de obstetrícia onde fazia o pré-natal para o médico receitar o xarope com codeína (pois foi a
única coisa que me fez melhorar, mas com codeína só vendem com receita médica - até no Brasil - dizem que tinha gente bebendo o vidro todo pra ficar doidão...). Aí começa a saga de sempre.
Atende aquela gravação dizendo que se for emergência deve-se teclar 0, se for marcar consulta 1, se for isso, 2, aquilo, 3,.... repetir tudo de novo, 7, e o pior é que falam muito rápido,
geralmente a gente tem que ouvir tudo de novo para saber que tecla é a certa. Aí atende uma telefonista:
- Qual é o seu problema?
- Oi, eu sou paciente do Doutor Rocks, estou grávida e peguei uma gripe forte, não páro de tossir, e como já passei
por isso há dois meses atrás e ele receitou xarope com codeína, gostaria de saber se é possível conseguir outra receita.
-Qual o seu nome?
- Maria, etc...
- Idade?
- 39 anos.
- Você está grávida de quantos meses?
- 7
- Há quanto tempo está tendo esta tosse?
- Uns dois dias
- É tosse seca ou com muco?
- Seca
- Já experimentou o xarope comum que se compra na farmácia?
- Sim, mas não resolve nada, da outra vez foi a mesma coisa, o Doutor receitou xarope com codeína...
- Ah, sim, então vou te passar para o outro departamento para cuidarem do seu caso...
Depois de uma espera, atende uma pessoa:
- Alô, qual é o seu problema:
- Oi, eu sou paciente do Doutor Rocks, estou grávida e peguei uma gripe forte, não páro de tossir, e como já passei
por isso há dois meses atrás ele receitou xarope com codeína e gostaria de saber se é possível conseguir outra receita.
- Qual o seu nome?......... e todo o diálogo se repete, com mais perguntas, etc,
etc.
- Ah, eu não posso fazer nada pois só marco consulta, vou te colocar em contato com a enfermeira de triagem (pitombas!
Por que não me colocaram em contato com ela logo de primeira?).
- Toca de novo outro ramal, atende uma secretária eletrônica:
“no momento não estou disponível, mas deixe seu nome e número e ligarei quando for possível”. Deixo o recado... a
enfermeira liga 2 horas depois:
- Alô, qual o seu problema?
- Oi, eu sou paciente do Doutor Rocks, estou grávida e peguei uma gripe forte, não páro de tossir, e como já passei
por isso há dois meses atrás ele receitou xarope com codeína e gostaria de saber se é possível conseguir outra receita....
... e começa a mesma ladainha....
- Ah, eu sou só enfermeira de triagem (aqui tem isso... enfermeira que avalia o seu caso e encaminha para esta ou aquela
enfermeira “especialista”), vou mandar o seu caso para a enfermeira do Doutor Rocks que vai te ligar depois.....
Fiquei esperando o dia inteiro. Como isso já tinha acontecido outras vezes, fiquei muito irritada e achei que era melhor
morrer de tosse do que ligar novamente e passar pelo mesmo inferno... e assim foi, fiquei com a tosse até a outra visita ao médico, na semana seguinte...
Aqui nos EUA você NUNCA consegue falar diretamente com um médico, é mais difícil do que falar com Presidente da República.
As enfermeiras dominam e tomam conta de tudo, e quando a gente vai no consultório, elas é que tiram a pressão, temperatura, pulsação, etc, fazem mil perguntas... e depois vem o médico só para
fazer as mil perguntas de novo e receitar o medicamento.
Explicação (segundo o meu marido, Arthur). A proporção médico/paciente é de níveis preocupantes nos EUA pois a faculdade de medicina é para
poucos (milionários, e não existem universidades públicas, ou melhor, existem sim, mas também são pagas)e também até andam desistindo
da carreira por conta do seguro "contra
processos" que
todos têm que pagar, caríssimo. Aí cada médico tem 500 pacientes e precisa das enfermeiras para dar conta do
recado. A segunda explicação é que os médicos têm pavor de processos por erro médico e por isso usam as enfermeiras “como escudo”. Outra explicação é que os planos de saúde exigem essa
burocracia (várias pessoas do “staff” preenchendo fichas com os mesmos dados da gente). Bom, seja o que for (e nenhuma das explicações me convence totalmente), é um verdadeiro inferno, ainda
mais para alguém que já treme de ter que contar o que sente uma vez, imagine contar mil vezes... e o pior é que quando chega a vez de contar tudo ao médico, a gente já cansou e esquece os
detalhes, as perguntas que queria fazer, etc, dá um branco no cérebro por exaustão e tortura mental... e no final só o que vale é o que falamos ao médico, não consigo entender pra quê ter que
contar tudo pra pelo menos 5 pessoas diferentes, desde recepção até enfermeiras, etc. Dá vontade de dizer “Não te digo nada, quem é você? Vai me receitar alguma coisa? Eu quero falar é com o
médico!” Um dia ainda “surto” e faço isso, mas não vai adiantar pois o meu marido e disse que “o esquema é esse” e americano no trabalho é que nem robô programado, se sái da rotina
programada eles não sabem o que fazer e ficam baratinados, só dizendo que “sentem muito, que não é possível fazer o que a gente quer, etc”.
Bom, mas seguindo o conselho dele, liguei para a clínica:
- Qual é o seu problema? (que bom, desta vez não teve que teclar números para isso ou aquilo!!!)
- Sou paciente da Doutora Donovan (aqui eles só chamam os médicos pelo sobrenome), tenho uma consulta marcada mas é só para
o fim de setembro e venho me sentindo muito mal com depressão, piorando a cada dia.
- Há quanto tempo está com depressão?
- Eu tenho depressão crônica, só que agora piorou e o remédio que tomo não faz mais efeito, só me ajuda a dormir,
por isso a doutora disse que iria me dar outro medicamento, e queria saber se era possível ela prescrever algo agora ou antecipar a visita.
Segue-se um “interrogatório” de todos os detalhes sobre como me sinto, que remédios tomei, quando começou a piorar, etc,
etc, etc. No final, ela pediu para aguardar..
- Qual é o seu problema?
- Ué? Eu não estava te contando?
- Não para mim, sou a enfermeira, você estava falando com a secretária.
!!!!!!!!!!!!
Segue-se o mesmo diálogo acima.
No final, ela disse que a agenda estava lotada e que seria impossível arranjar uma data antes daquela marcada, mas que eu
deveria ir na emergência do Hospital (onde eu já tinha ido há um mês atrás para uma mamografia de rotina) e explicar que era paciente da Doutora Donovan, que ela não podia me atender antes
do fim do outro mês e que eu estava com depressão, que com certeza eles iriam me medicar. Liguei para o meu marido e disse a ele que ia lá com o Joseph, meu filho, pois se fosse esperar ele chegar para ir, a
ficar muito tarde e eu desconfio muito de emergências à noite pois só tem residente nos hospitais... e não confio muito neles, ainda mais para doenças psiquiátricas. Ele me aconselhou a levar o
potinho de jantar para o Joseph e eu disse “poxa, são duas da tarde e o Joe só janta às 6:30, impossível que demore tanto”. Mas levei o potinho, e água, fraldas, todo o “arsenal”.
Até que cheguei na emergência “animada” pois tinha dirigido direitinho, sem me perder ou me enrolar, e tinha
estacionado em bom lugar (até porque tinha estacionamento reservado para pacientes de emergência). Era a primeira vez que eu dirigia sem a “acessoria do meu marido” em mais de um ano e meio, e
antes disso eu só tinha dirigido sozinha para ir à missa aos domingos, na outra cidade, e era praticamente uma reta, só sabia aquele caminho mesmo...
Chego no balcão, dou o meu nome para o recepcionista e ele manda aguardar chamada numa sala de espera... cheia de hispânicos
e brasileiros, como não podia deixar de ser, umas 20 pessoas. Depois de uma hora de espera, andando com o Joe de um lado para o outro pois ele não suporta ficar parado no carrinho e eu não queria
deixar ele andar pelo hospital, ainda mais que tinha gente com gripe na sala de espera e eu queria ficar longe (ih, estou virando minha mãe, com pavor de “micróbios”!!). chamaram para uma
“salinha de triagem” (por quê recepcionista não faz já essa “triagem” como é no Brasil? Era só a gente dizer... meu problema é ginecológico,
por exemplo, e eles encaminhavam para a ginecologia). Um rapaz muito simpático, sentado em frente a um computador, pergunta qual é o problema. Aí se conta a história pela primeira vez, a depressão,
quando começou (no meu caso, quando nasci, pois é crônica), que medicamentos uso, se tive pensamentos suicidas (realmente pensei em sumir, morrer, dormir por um mês inteiro, mas não em cometer suicídio pois tenho mais medo de morrer do que da depressão.. felizmente), quanto tempo uso o medicamento, quem me mandou ir a essa emergência. Expliquei que a
minha médica não poderia me ver antes do fim de setembro e eu estava muito mal, chorando o tempo todo, muito triste, nervosa, estourando por qualquer motivo, xingando meu filho e meu marido, aí me
mandaram ir lá para receitarem algo enquanto não vejo a médica, etc, etc, etc, etc. Ele anotando tudo no computador. Aí pensei “que bom, aí não vou ter que contar toda a história de novo como
acontecia em Miami, pois está tudo aí, as enfermeiras e o médico podem ler”. Aí me tirou pressão e temperatura. Tudo anotado e perguntado, saiu da sala e entrou uma senhora, que confirmou
todos os meus dados no computador (pois eu já tinha ficha nesse hospital por conta da mamografia que tinha feito no outro mês) e me colocou a “ pulseirinha” com meu nome, nome do médico, etc,
feito bebê recém-nascido, o que eles sempre fazem aqui quando uma pessoa vai a um hospital se consultar ou se tratar.
Depois disso, mais uma hora esperando no tal “quarto”, onde eu tinha que me sentar na beirada da cama, muito alta, e ficar
tentando distrair o Joseph, coisa quase que totalmente impossível a essas alturas.
Veio outra pessoa, não sei se enfermeira ou médica, ascultou minhas costas e coração, aquela coisa de inspira, expira,
tirou minha pressão novamente (terceira vez!), chegou pulsação e fez as mesmas perguntas que eu já havia respondido umas mil vezes. Saiu, mandando
aguardar...
Chega então um rapaz dizendo que veio tirar sangue para exame. Pensei cá comigo que os exames de urina e sangue eram
para ver se detectavam o meu problema de diarréia crônica, pois mencionei isso na conversa com a enfermeira. Mais tarde, o Arthur me disse que muito provavelmente era para detectar se eu estava
drogada ou alcoolizada. Se soubesse disso tinha me recusado a fazer esses exames, pois eles só podem fazer investigação com o consentimento da pessoa ou então com mandado judicial por suspeita
criminal.
Mais meia hora esperando e a enfermeira disse que um médico viria me ver. Mais uma hora andando com o Joe na cadeirinha
para um lado e para o outro. Nesse tempo de espera, falei com quase todos os outros pacientes dos outros quartos, pois as cortinas ficavam abertas e eu ia passando com o Joe, todos achavam ele uma
gracinha e mexiam com ele, perguntavam a idade, etc, etc. Eu tinha que ficar andando com ele pelo corredor pra cima e para baixo, senão era berreiro na certa, e agora ele deu para berrar mesmo, na
base de gritos agudos ensurdecedores.
Finalmente apareceu o “médico”, quer dizer, o cara foi logo dizendo que não era médico, que era “assistente de
psiquiatria”, ou coisa parecida (o meu marido disse que é provavelmente psicólogo phd). Ao que parece, o Joseph não foi com a cara do sujeito, pois começou a berrar sem parar e não ouve
meio de acalmá-lo. Tive que carregá-lo e aí não sabia se segurava o menino, a chupeta dele e a fralda (pois não queria que caíssem no chão do hospital) ou se falava com o cara. Bom, foi
basicamente a mesma coisa, há quanto tempo sofro de depressão, se tenho pensamentos suicidas, que medicamentos já tomei, se já tive hospitalizada por causa disso, se já fiz terapia (que eles
agora chamam de “aconselhamento”.... sabidos esses psicólogos..... (aí falei que fiz várias mas que detestei e não queria tentar outras pois tomei horror, só queria remédio mesmo), aí ele
ficou se concentrando no meu relacionamento com o Joe, se eu já tinha tido vontade de espancá-lo ou sacodi-lo, etc. Eu tinha dito ao Arthur que ir lá com o menino com aquele olho ainda meio roxo não
ia dar certo.... Eu disse que era justamente para não chegar a esse ponto que queria uma solução para o meu problema. Aí ele disse que tinha 3 sugestões a fazer, e que era tudo o que podia
fazer por mim no momento. A primeira era eu ir a “sessões de aconselhamento” (eu tinha dito a ele que não queria saber de
"aconselhamento", mas é a tal história... é uma pessoa
"programada" para
dizer as coisas que diz e fazer as perguntas que faz...), que eles oferecem no hospital 3 vezes por semana, mas que aí eles não tinham creche e eu tinha que arranjar
alguém para ficar com o meu filho. Disse a ele que era impossível pois não tínhamos dinheiro para pagar creche ou baby sitter. Aí ele disse que eu podia procurar um centro psiquiátrico na rua ao
lado de onde moro, marcar uma “avaliação”, e lá também eu podia ir a sessões duas vezes por semana para “aconselhamento”. A outra opção é um “serviço social voluntário”, uma
pessoa vai na sua casa uma ou duas vezes por semana “para checar se está tudo bem, dar conselhos e sugestões e ajudar em algo”. Eu falei a ele que meu marido não gostava desse tipo de coisa, de
gente indo na nossa casa (pois o Arthur já tinha me dito que eles têm essas coisas aqui mas é mais para “espionar” se a gente está maltratando o bebê, se a casa está limpa, etc, etc, e que
no final não ia me ajudar em nada, só atrapalhar (pois o que eu queria mesmo era alguém para cozinhar, lavar os pratos e ficar um pouquinho com o Joe para eu “respirar” durante uma meia hora
todos os dias... e eles não iam fazer essas coisas, é claro...). Bom, o “médico” perguntou se meu marido já estava em casa àquela hora, eu disse que sim pois já eram 6 horas da tarde (eu
estava lá desde às 2). Ele disse então que ia ligar para ele vir pois queria conversar com ele, ver se ele aceitava o “serviço social”, etc, etc.
Nessas alturas disseram que precisavam do “quarto” pois a emergência estava lotada e me colocaram com o Joseph numa salinha de espera, aguardando o meu marido chegar. Meia hora depois o médico me
diz que conseguiu falar com ele e que ele estava vindo a pé. Andar da nossa casa até o hospital? é um bocado longe!!! A essas
alturas eu já estava exausta, faminta, certa de que tinha passado aquela tarde de terror em vão, que não iam me dar remédio nenhum nem nada e que tudo ia ficar por isso mesmo. Começou a me dar
raiva, deu vontade de sair berrando e xingando aquela gente toda. Às 7 horas ele chega (foi mesmo a pé, disse que se fosse chamar um taxi ia demorar a mesma coisa, que foi só 20 minutos, que o
resto ele ficou esperando chamarem na sala de espera...). Mais uns 10 minutos e o “médico” veio falar conosco. Basicamente só leu o papel com as “sugestões” que já tinha me dado e nos
mandou esperar a enfermeira “para dar alta”. Mais 20 minutos veio a enfermeira com uma papelada. Perguntou qual remédio eu tomava (pela milésima vez), se tinha sido a minha médica daqui que
tinha receitado (aí já respondi com azedume, dizendo que tomo o remédio há 12 anos, receitado por uma neurologista no Brasil, e que só estava nessa nova cidade há 5 meses e só tinha visto a minha médica
uma vez). Aí ela perguntou se eu ia parar de tomar o remédio. Outra vez, ainda mais irritada, disse que não podia parar de uma vez pois esse tipo de remédio tem que parar de tomar aos pouquinhos,
senão a pessoa pode passar muito mal (ela não sabe disso? e se eu não soubesse e parasse de repente, o hospital ia se responsabilizar?). Bom, aí tive que assinar uma papelada e finalmente “me
deram alta”.
Como já dizia a minha avó, “fui como um burro e voltei como um cavalo”. Na volta, paramos numa farmácia e comprei
um vidro de “Erva de São João”, que várias pessoas já me disseram que é ótimo para depressão e não causa dependência ou efeitos colaterais, etc. Os médicos americanos têm horror a ervas
de qualquer espécie, só confiam em alopatia, no vidro do remédio tem mil alertas dizendo que ainda não foi analisado pelo órgão americano de controle
de medicamentos, etc, etc, etc. Realmente é assim, pois aqui nunca ninguém ouviu falar em dar chá de erva doce ou de camomila para tratar cólicas de bebês, e no Brasil todo mundo dá chá às
crianças.
Enfim, enquanto aguardo o fim de setembro pra falar com a médica, vou experimentar essa “Erva de São João” pra ver
“que bicho dá”. É aquela coisa, todo brasileiro tem um pouco de médico, de comediante e de técnico de futebol (embora no meu caso só se enquadre o de médico mesmo - risos)
Mas com isso entendi porque os americanos morrem tanto de doenças que são totalmente tratáveis ou preveníveis se a pessoa começar um tratamento cedo. Preferem morrer a ter que viver esse pesadelo.
Quando eu fiquei internada por ocasião do nascimento do Joseph, cesariana, etc, fui muito bem tratada, mas mesmo em trabalho de parto tive que responder às mesmas perguntas várias vezes (ainda mais que, como fiquei em trabalho de parto por 25 horas, de 6 em 6 horas mudava o turno de enfermeiras e médicos residentes e, os novos, perguntavam tudo de novo, inclusive perguntas só “a título de bater papo” tipo “de que país você é? Está gostando de viver aqui?”, etc. Mas depois de conversar sobre essas coisas umas duas vezes eu já estava de saco cheio. Mas pelo menos eram carinhosos e pacientes. O único problema é que, sempre naquele esquema de “fazer o que está programado para fazer”, as enfermeiras vinham (depois do parto) checar os meus “sinais vitais” (temperatura, pressão, pulso) de hora em hora DIA E NOITE, e foi assim nos 4 dias e noites que fiquei internada. Lógico que com isso não consegui nem tirar um cochilo pois cada vez que estava caindo no sono, já era hora para um novo “checkup”. E vinham todos os dias à meia noite levar o Joe para pesar... A troco de que fazer isso à meia-noite?
Bom, mas a experiência deste mês, serviu para uma coisa boa pois cheguei à conclusão de que não estou tão ruim assim, pois se tivessse, teria quebrado aquela sala de emergência todinha e tinha distribuído socos para todos os lados (risos).
Bom, chegou enfim o tão esperado dia de
consultar a minha médica. A consulta tinha sido marcada para o preventivo
anual, pois aqui
isso é tarefa dos clínicos gerais, que são chamados
"médicos de família", pois supostamente acompanham todos os membros da
família por muitos anos e sabem tudo sobre a saúde da
gente, uma coisa bem
pessoal.. Mas é só para "inglês ver" mesmo, tudo mentira. Aqui, são esses
médicos de família que nos indicam especialistas, se for necessário, mas
eles
cuidam de quase tudo, até de partos. Mas eu estava mais interessada
mesmo era em conversar com a médica sobre o meu remédio atual, o Rivotril,
que queria parar de tomar aos poucos e
substituir por um outro
antidepressivo que não causasse tanta dependência - e inclusive, o Rivotril
nem é antidepressivo, é um anticonvulsivante, originalmente usado em
tratamento de
epilepsia, que por acaso descobriram ser também de utilidade
para os casos de fobia e ansiedade. A médica tinha dito na visita anterior
que queria conversar comigo sobre essa troca de remédio
e que iria me
ajudar...
Sempre nas visitas médicas aqui, mesmo que não seja preventivo, mandam a
gente tirar a roupa, mesmo que seja só a parte de cima (neste caso foi a
roupa
toda, obviamente), e colocar aquele roupão
de papel dez vezes maior
do que a gente que fica caindo para todo lado. Isso tudo é com a enfermeira,
que também tira a pressão, temperatura e
pulsação, além de perguntar para
quê a gente está se consultando (isso deveria estar na ficha, pois era
consulta marcada pela própria médica justamente para o preventivo...). Aí a
gente
fica sentada naquela mesa-maca alta pra caramba, desconfortável, com
aquele roupão caindo pra todo lado e uma toalha de papel cobrindo as
pernas - e também escorregando pra todo lado. Depois
de um tempo
considerável, chega a doutora. Eu simplesmente não consigo conversar com uma
pessoa direito nessas condições, e como aqui eles estão sempre com pressa,
vão logo começando os
exames e imagine você ter que discutir problemas com a
médica te apalpando em lugares íntimos! Seria trágico se não fosse cômico!
No Brasil, a gente vai a uma clínica e cada médico
tem o seu consultório, e
é lá que a gente o encontra sentado na mesa. A gente senta numa cadeira,
conversa, e depois sim vem uma pessoa e nos orienta para colocar um roupão,
se for necessário,
fazer exames, etc. Aqui nos EUA os médicos não têm
consultório. Imaginem que o que estou passando é um filme, e a câmera está
me focalizando deitada naquela cama naquela salinha que tem,
além dessa
cama, uma pequena mesa, uma ou duas cadeiras, pia e lata de lixo. Imaginem
então que a câmera vai se distanciando para cima e não existe teto, e a
câmera vai subindo sempre
mais e mais até dar uma panorâmica da clínica. Aí
se veria muitas salinhas como essa, todas com algum paciente sentado
vestindo o roupão, e o médico só fica indo de uma sala para a outra
o tempo
todo, sempre cheias. Eu não sabia que era assim, o meu marido é que me
explicou...
A médica estava num dia bastante ocupado, ao que parece, pois não me deixava
completar
uma fase sequer, contei aos trancos e barrancos sobre a minha ida
ao hospital, que não resultou em nada. Ela abriu a ficha e ficou me
perguntando as coisas de sempre, se fumo, se bebo, se tomo
drogas, se uso
cinto de segurança quando dirijo, se faço exercícios regularmente... o Arthur
diz que são perguntas para o plano de saúde e para estatísticas... Comentei
com ela que
tinha mandado as minhas fichas virem da outra cidade, com todo o meu
histórico incluindo a gravidez, etc, ela disse que estavam ali mas que não
tinha tido tempo de ler. Aí perguntei sobre o
remédio, dizendo que o meu
Rivotril só daria para mais 3 meses. Ela me disse que infelizmente não podia
me receitar Rivotril ou nenhum antidepressivo pois só psiquiatras podem
receitar
esse tipo de remédio, que eu devia marcar uma consulta com um o
quanto antes e voltar a ela dois meses depois para ver o que estava sendo
feito. Nem é preciso dizer que fiquei totalmente
desnorteada e desapontada!
No mais, mandou fazer exame de sangue para ver se eu tinha problema de
tiróide, coisa que já fiz um milhão de vezes tanto no Brasil quanto aqui
(pois problema de
tiróide tem como sintoma ansiedade, e eles vêem os meus
olhos saltados, que é só uma característica genética herdada da família de
meu pai, e logo pensam que descobriram a pólvora e que
solucionaram meu
problema de ansiedade). Os exames deram normal, como sempre.
Saí de lá arrasada e sem saber o que fazer, pois já tive experiências
terríveis com psiquiatra e não
quero repetir tudo de novo (e nem tentem me
convencer pois tenho cabeça feita nesse ponto! risos), ainda mais que
eles nunca se limitam a receitar um remédio, iam querer que eu fosse lá pelo
menos
duas vezes por semana fazer "aconselhamento", que eu conheço muito bem
esses médicos, só que não acredito mais nessas terapias, não tenho saco nem
tempo, e nem teria com
quem deixar o meu filho de qualquer jeito. O meu marido diz
que é mentira da médica, que conhece muita gente que toma antidepressivo
receitado por médico de família, inclusive a mãe dele
tomava e nunca foi a
psiquiatra, então não sei de onde surgiu essa história de que só psiquiatra
pode receitar esses tipos de medicamento.
Sem outra saída e mais deprimida ainda com
a decepção, resolvi experimentar
a Herva de São João, que no Brasil já está sendo fabricada por laboratórios
com o nome de Fiotan (entre outros, sendo o genérico a Herva ou o nome
científico
desta, Hypericum Perforatum). É indicado para depressão leve ou
moderada, o que não é o meu caso, pois no meu caso é mais para depressão
crônica e galopante mesmo, mas sempre é uma
tentativa. E resolvi ir
diminuindo o Rivotril aos poucos, como já tinha feito quando estava tentando
engravidar. No começo realmente me senti mais calma e animada, mas acho que
era mais por
conta da mudança para um apartamento melhor e maior, se bem que
mais caro. E a trabalheira de mudar e cuidar do Joseph não deu muito espaço
para as tristezas e os ataques de nervos. De 2 mg,
passei a tomar 1 e meia e
depois 1mg, e ainda conseguia dormir, o que é a minha maior preocupaçno.
- Mais um capítulo da saga dos medicamentos:
A Herva de São João estava começando
a apresentar alguns efeitos colaterais
desagradáveis. Tinha que urinar à toda hora (aliás, a maioria dos remédios
me dá essa reação). Comecei a sentir também palpitações
e ondas de
calor,
que nem as pessoas que estão na menopausa dizem ter. Estava bem e de repente
começava a suar em bicas sem quê nem porquê, mesmo com a temperatura abaixo
dos 10 graus.
E a minha “saga médica” ! Tinha consulta marcada para o final de novembro e uma semana antes já estava me sentindo mal,
nervosíssima, tendo dores de cabeça e dificuldade para dormir pois teria que convencer a médica de que não queria ia a um psiquiatra e que ela tinha que me receitar o meu remédio pois o
“estoque” não vai durar pra sempre e na “atual conjuntura”, com tanto stress por conta de cuidar da casa e do Joseph, não é hora de mexer em “time que está ganhando” (quer dizer, o remédio
não faz mais efeito para a fobia, mas me acalma um pouco e me ajuda a dormir). Chegou o dia e quase desisti de ir, só fui por insistência do maridão, pois achava inútil, visto que a médica
parecia tão inflexível. Pois desta vez ela parecia mais bem humorada. Expliquei que não queria ir a um psiquiatra, que já tinha tentado outras vezes sem sucesso, que não tinha com quem deixar o
Joseph, que o seguro não cobria totalmente as consultas e que estes profissionais não se limitam só a receitar remédios e a acompanhar os resultados, querem é fazer terapia, com a pessoa indo várias
vezes por semana, etc. Ela disse que compreendia e não insistiu mais. Contei que estava tomando a Erva de São João e que tinha melhorado da depressão e das diarréias constantes, mas que tinha
tentado diminuir o Rivotril de 2mg para 1mg ao dia e a coisa tinha ficado feia, principalmente porque sofro de “síndrome das pernas inquietas” (o nome é engraçado, mas a doença existe mesmo!
Vou comentar mais sobre ela na página que estou fazendo sobre Fobia Social. A pessoa sente uma aflição estranha nas pernas, geralmente à noite, e tem que ficar movimentando-as sem parar. As causas
ainda são desconhecidas, mas já se sabe que muitos remédios, incluindo alguns antidepressivos, pioram muito o problema, e é uma das principais causas de insônia). Comentei sobre esse problema nas
pernas de propósito, pois já tinha pesquisado muito na internet e, ainda em fase de estudos, concluíram que é justamente o Rivotril um dos poucos remédios que alivia os sintomas. Aí a médica ia
ficar sem saída... Ela concordou em receitar o remédio, mas pediu para eu tentar reduzir para 1mg e meio e voltar lá em janeiro para ver qual seria a dosagem adequada. E avisou que era a sua última
consulta pois estava deixando a clínica e eu seria atendida por outro médico a partir da próxima consulta. Já vi este filme antes.... Nunca vi um médico mais de 2 vezes aqui nos EUA, sempre se
mudam, saem da clínica, somem, é sempre assim e isso é horrível pois aí a gente não consegue se familiarizar com o médico e vice-versa. O próprio Arthur fica espantado com isso e diz que
no passado não era assim. Achamos que o problema é ir em clínicas mesmo, pois aí é como uma empresa, o melhor seria procurar médicos com consultórios próprios (o problema é encontrar algum
que o plano de saúde cubra...). Eu que já tenho “trauma de separação” (pois já comentei que é sempre assim, amigos sempre se mudam, entro de sócia para um clube e entra em falência, etc)
sofro muito com isso. Já perdi a conta dos médicos que me atenderam nesses 4 anos aqui nos EUA. Quando tive o Joseph, o meu obstetra estava de férias, fui atendida por um substituto. A mesma coisa
com a primeira pediatra do Joseph, que entrou de férias quando ele completou 2 dias... Acho que é sina nossa mesmo!
Tentei reduzir para 1mg e meia, mas a aflição das pernas realmente piorou muito e não me deixava dormir, voltei para
2mg, tomara que o médico novo não faça objeções...
O problema é que está havendo muito abuso de medicamentos aqui nos EUA e muita gente se viciando em medicamentos para dor ou antidepressivos. E justamente este mês um radialista famoso e também o músico de rock Ozzy Orborne se queixaram de médicos, culpando-os por terem ficados viciados em medicamentos... E aí lá vai processo em cima do médico! Com isso, quem sofre sou eu e pessoas no meu caso, que têm doenças crônicas e que precisam do medicamento (e 2 mg nem é uma dose alta, a dose máxima desse remédio é de 20 mg por dia!) pois os médicos vão ficar cada vez mais “cheios de dedos” para receitar medicamentos que podem causar dependência.
- A Saga Médica continua....
E lá fui eu ver essa nova médica, que ficou de receitar o remédio. Expliquei que não consegui diminuir a dose para 1mg e meio (pois me deu muita aflição nas pernas) e que precisava continuar tomando as 2 mg de sempre. Como a outra, esta também insistiu com a história do psiquiatra e eu dizendo que não ia de jeito nenhum, que já tinha tentando outras vezes e não tinha gostado. Ela foi um pouco grossa, disse que eu estava com mil problemas (fobia, ansiedade, etc, etc) e que precisava de tratamento especializado, que tinha a filosofia da outra médica, que não se metia nesses assuntos pois tinha pouco conhecimento, etc. Eu disse a ela que em na outra cidade todos os "médicos de família" também tinham especialização em psicologia e psiquiatria e quem ninguém tinha criado caso assim para me receitar o remédio. Disse que não sabia nada de psicologia, mas estava me fazendo várias perguntas típicas de psicólogos. Perguntou o que eu achava que causava a Fobia Social. Sorri e respondi que ninguém sabe ainda, que ainda está em estudos e "acredita-se" que se deva a problemas na química do cérebro. Ela então perguntou o que EU achava que fosse a causa. Respondi que acreditava ser um problema no cérebro de origem genética, visto que meu pai e outros parentes também sofriam da doença. Com muita má vontade, me dei receita para um mês de Rivotril e me deu o nome de outra médica que atende noutra filial da clínica na cidade aqui ao lado, dizendo que esta médica pensa um pouco diferente e que tem mais experiência nesse ramo e que "pode ser" que queira me receitar o Rivotril a longo prazo. Marquei consulta para fevereiro, mas essa saga "de Herodes a Pilatos" está acabando comigo, fico tensa demais, nervosa, revoltada com os médicos e sem saber o que fazer. Vou ter que contar a história toda de novo para essa nova médica e sem garantia nenhuma de que a história vai ter um final, ou se ela vai me empurrar para outro médico também (mas aí vou dar um basta pois não vou ficar pulando de um médico para o outro todo mês). Esta semana mesmo li uma entrevista na internet com um médico que escreveu um livro sobre tratamento de fobias e distúrbios de pânico, e ele garante que é totalmente seguro tomar Rivotril por muitos anos, que não há problema nenhum nisso. E as médicas estão mentindo quando dizem que existem outros remédios mais modernos que não causam tanta dependência (pois falaram do Paxil (Aropax) e do Zoloft). Li casos de gente parando de tomar esses anti depressivos e descrevendo os mesmos sintomas de abstinência que tive quando tive que parar de tomar o Rivotril para engravidar. Enfim, só me resta aguardar essa nova visita a essa nova médica. A saga continua!!!!
Duas semanas antes de ir na nova médica já estava tendo ataques de choro, deprimida, uma pilha de nervos. Tinha a certeza de que seria mais uma tentativa em vão
e com todo o desgaste de ter que contar a história toda novamente, etc.
Chegou o dia, fomos na filial da mesma clínica, na cidade aqui ao lado. Como sempre, enfermeira checando pressão, temperatura, peso, pulsação. Ainda bem que aqui as
enfermeiras não "posam de médicas" como era na outra cidade e nos fazem mil perguntas, etc (a única vantagem. Mas o maridão acha que é porque a maioria aqui não é "enfermeira
diplomada", só mesmo assistente - a maioria de origem hispânica). E chega a médica (com um sotaque e, a julgar pelo nome, de origem árabe). Olhou para mim, séria e, quando eu ia abrir a
boca para explicar o problema, ela caiu de sola e reproduzo o diálogo que se seguiu:
Médica:
- Olha, antes que você diga qualquer coisa, quero deixar algumas coisas bem claras. A primeira médica que você consultou foi a doutora Andrea, minha colega. A segunda
não era médica, mas sim uma enfermeira diplomada (Obs: ninguém me disse nada com relação a isso e todos a chamavam de doutora Brown). Eu sou médica como a doutora Andrea. O que você
quer de mim?
- Doutora, o problema é que fui consultar a doutora Andrea e expliquei que tomo o mesmo remédio há 12 anos, receitado por uma neurologista no Brasil e parece ser o remédio
que funciona melhor (ou menos pior) no meu caso. Já tentei terapias, consultei vários médicos, tomei inúmeros remédios. A doutora insistiu para que eu fosse ver um psiquiatra, mas
não quero ir. Já fui a psiquiatras no passado e eles não se limitam a receitar medicamentos, querem sempre fazer terapias e eu não gosto e nem acredito em terapias. Já tentei várias e
não adiantou nada. Tomei até horror. Como a doutora Andrea ia sair da clínica, mandou-me ver no mês seguinte essa Doutora Brown, que a senhora me disse que é só uma enfermeira, e esta me
disse que a senhora tinha mais experiência com problemas psíquicos, enquanto que ela e a Doutora Andrea não tinham (pelo menos não em problemas crônicos, só mesmo casos de depressão temporária,
etc,. Não se sentiam seguras no meu caso, pois é crônico e o remédio tem que ser receitado a longo prazo.
- Não sei o que fez com que elas pensassem que tenho mais experiência nessa área. Eu e a doutora Andrea temos a mesma formação, a mesma filosofia, o mesmo modo de
pensar e a mesma experiência (ou, no caso, falta dela)
- Então por quê me mandaram ver a senhora?
- Sinceramente não sei o que se passou na cabeça delas. Penso do mesmo jeito e também acho que você tem que ver um psiquiatra.
- Mas eu não quero! Acho que ninguém pode me obrigar a ir a um psiquiatra, a não ser que eu saia por aí quebrando lojas, mate meu marido, jogue meu filho pela janela, etc.
Consultei vários sites médicos e todos eles dizem que é opção do paciente ser tratado por um "médico de família" ou por um psiquiatra e que tanto um quanto outro pode receitar os remédios
pertinentes. O que vou fazer então? Vou ter que ir ao Brasil uma vez por ano me consultar lá e trazer remédio?
- Olha, a gente não pode te obrigar a ir a um psiquiatra, mas você também não pode nos obrigar a receitar o remédio que você quer (aí tive que concordar, obviamente).
No seu caso, você sofre não só de fobia, mas também de depressão. O Rivotril só acalma e faz dormir bem, mas não cura depressão!
- Eu sei disso! Mas começar medicamento novo é um processo demorado. Tem que tentar um e outro, ajustar doses, a pessoa tem que ter acompanhamento, ir todo mês ao médico
para ver se está havendo efeitos colaterais indesejáveis, etc, etc. Eu não tenho tempo e nem paciência para isso no momento. Meu marido não pode ficar tirando folga a toda hora para ficar
com nosso filho, estou estressada e sobrecarregada cuidando de um bebê de um ano e meio e esse processo de adaptação a medicamentos novos, no início, causa mais stress ainda até que se encontre o
medicamento e a dose ideal. Quero tentar algo, mas no momento, queria que as coisas ficassem do jeito que estão até meu filho ficar maiorzinho e..
- E quando seria isso?
- Sei lá... quando ele tiver uns 4 anos ou for para a escola com 5..
- Que absurdo!!!!!
- Fazer o quê...
- Você ficou viciada no medicamento, nunca deveria ter tomado remédios para dormir.
- Eu sofro de insônia desde que nasci, era bebê e já tinha dificuldade para dormir. Quando era adolescente, comecei a procurar tratamentos e de lá para cá sempre tomei
remédios para dormir, nunca consegui dormir sem eles. Mas os antidepressivos que vocês querem me receitar, tais como Zoloft e Paxil, embora afirmem que não, também causam dependência que nem o
Rivotril pois participo de listas de discussões com pessoas que tomam esses medicamentos e quando elas param de tomar descrevem os mesmos sintomas de abstinência que tive quando parei de tomar o
Rivotril para engravidar.
- Não é verdade!!!!!!
- É sim!!! Além disso, esses remédios (Zoloft, Aropax, Effexor, etc), se tomados por um longo período, mais de um ano, começam a apresentar os sintomas contrários: a
pessoa fica hiperativa, agitada ao extremo, não consegue dormir. Eu mesma me senti assim depois de um ano tomando Prozac e a médica me aconselhou a parar e ficar só com o Rivotril que é um remédio
antigo e que pode ser tomado por muitos anos sem muitos efeitos colaterais.
- Não sei de onde você tira tais absurdos!!! Nada acontece do jeito que você diz!!
- Acontece sim pois já testemunhei isso e já li vários casos. A mãe do meu marido tomava Zoloft há vários anos e era totalmente hiperativa, a ponto de acordar às 6 da
manhã para consertar telhado de garagem, e era assim o dia inteiro. E ele disse que ela não era assim antes de começar a tomar o medicamento...
- Isso tudo é um absurdo!
- Eu pesquiso muito sobre o assunto. Estou até escrevendo um livro...
- Mas você, pelo menos, reconhece que está deprimida e que o Rivotril não adianta nesse caso?
- Sim, concordo com isso! Está bem, a senhora concorda em continuar receitando o Rivotril se eu aceitar tomar um desses antidepressivos?
- Hum.... talvez....
- Então podemos combinar assim. Pode me receitar o antidepressivo!
- Está bem. Vou receitar o Rivotril para 4 meses (pelo menos foi isso que entendi. O sotaque dela era meio carregado) e então você volta para receitar um
antidepressivo. Mas sob protestos e ainda acho que você deveria consultar um psiquiatra. Nem todos fazem terapia, muitos se limitam a receitar remédios. Aguarde que vou buscar a receita.
Depois de um tempo, ela chegou e nem entrou na sala: estendeu o braço para mim com a receita, disse "volte no mês que vem", virou as costas e se afastou sem nem se
despedir. Quando fui ver, a receita era só para um mês.
Cansei dessa saga. Já estão nessa brincadeira de me mandar voltar no mês seguinte há 9 meses! Fiquei muito irritada, ainda mais porque a doutora foi muito grossa e as
outras já tinham "feito a cabeça dela contra mim". O Arthur comentou que isso não parece nada ético, e além disso, eu nunca poderia ter sido atendida por uma enfermeira pensando que era
uma médica.. muito irregular. No mais, essa história de mandar voltar todo mês é para que o plano de saúde fique pagando as consultas...
Sem saber o que fazer, decidi consultar o plano de saúde, pois no catálogo deles (com a lista de médicos e hospitais credenciados, etc) eles tem um número de telefones
para orientação, problemas, etc, e podemos conversar com enfermeiras que nos orientam e indicam o médico ideal (pelo menos segundo o livro). Lá foi o Arthur comprar cartão e fichas para eu
ligar do "orelhão" e começou aquela maratona. Aperte 1 para isso, aperte 2 para aquilo, aguarde. Contei a história toda, respondi perguntas, etc. No final, a enfermeira perguntou
em que área eu estava. Quando disse que estava no estado tal e tal, ela se desculpou muito e disse que a gente não tinha atualizado o endereço, que na ficha deles ainda constava como morando em
Miami e esse número de telefone era só para lá. Deu-me o daqui e lá fui eu ligar de novo, contar toda a história, responder perguntas. No final, disseram que não podiam fazer nada, que se
as médicas me mandaram ir ao psiquiatra eu deveria ir. Voltei a dizer que ninguém pode me obrigar a ir a um psiquiatra, etc. "Sentimos muito, mas nada podemos fazer...". Resolvi então
ligar para um outro número que eles têm que é especificamente para pedir autorização no caso de consultas a psiquiatras, etc. Outra vez, contei a história toda (já achando que seria melhor
escrever tudo num papel e ler ao telefone, como faz o pessoal de telemarketing). Mais uma vez, a mesma coisa, ela me disse que só me restava ficar tentando, visitando médicos até achar um que
aceitasse me receitar o medicamento. Disse que não podia e nem tinha tempo de ficar visitando 200 médicos até achar um que me receitasse! Acabei fazendo um "discurso", dizendo que é por
isso que acontecem tantas coisas horrendas por aqui pois as pessoas procuram ajuda e todos dizem que não há nada a fazer, ninguém quer ajudar.
Resolvi então ligar para a minha médica em Miami, pois nunca tive esse tipo de problema por lá e ela me receitou o Rivotril. Só parei porque estava tentando engravidar.
Mais uma vez aperte 1 para isso, 2 para aquilo. 20 minutos de espera ouvindo musiquinhas (e com medo do meu cartão acabar). Atendeu uma enfermeira e contei a história toda. Disse que estava disposta
a ir periodicamente a Miami para ser examinada e obter a receita, se fosse o caso. Mas ela disse que era impossível pois eu não era mais paciente da doutora de lá e, por isso, ela não podia me
receitar medicamentos.
Fiquei uns dias muito irritada e deprimida. Resolvi então me render e ligar para um psiquiatra aqui perto e explicar o caso à enfermeira (ou secretária, etc). Lá vou
eu contar a mesma história novamente e dizendo que não aceito de forma alguma fazer psicoterapia (ou aconselhamento, ou seja lá como queiram chamar por aqui), que só quero mesmo que me receitem o
meu remédio. Enfim, deixei bem claro que só iria no médico com essa condição e que, se a política (ou a filosofia) fosse outra, era melhor deixar isso claro pois então eu procuraria outro médico.
Ela disse que não tinha problema, que eu só iria para uma "avaliação de medicamento". Concordei então em marcar uma consulta, o mais perto que tinham era para 9 de março.
Vamos ver que bicho vai dar. Não estou com muitas expectativas não, mas de uma coisa tenho certeza: será a última tentativa. Se continuar a mesma novela, mando todos os médicos para a PQP!
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