Centro de estudos sobre fobias da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1995, com 32 anos):
Depois de descobrir que sofria de uma doença chamada Fobia Social assistindo a uma entrevista de um médico no programa do Jô Soares, comecei a pesquisar sobre o assunto. Volta e meia saía algum artigo nos jornais, e um deles dizia existir um Centro de Pesquisas sobre Fobias e Ansiedade na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Como o atendimento era feito na prédio da Urca, resolvi dar uma espiada (pois se fosse no Fundão era muito mais complicado - muito longe e perigoso - e provavelmente nunca teria ido). Guiando-me pelas placas indicadoras, achei a pequena casinha dedicada aos estudos de Ansiedade e Fobias. Lá dentro, uma sala de aula sendo utilizada como sala de espera. Havia muitas carteiras e, quase todas, lotadas. Assinei o meu nome em uma lista em cima da "mesa do professor" e fiquei aguardando chamarem. Espera um bocado longa! Finalmente, levaram-me para uma pequena sala onde dois estudantes conversaram comigo. Contei a minha história, o mais brevemente possível, tentativas de tratamento, a melhora com o Rivotril, etc. Eles me entregaram uma apostilha cheia de perguntas (não me recordo, mas creio que eram umas 200), geralmente em estilo múltipla escolha, pois era o teste para diagnosticar a FS e também determinar o nível da doença em cada indivíduo. O teste tem um nome (do cientista que o criou), mas não me recordo qual é. Disseram para eu levar a apostila para casa e responder todas as perguntas com bastante atenção e da forma mais sincera possível e voltar com as respostas na semana seguinte, quando estão eles repassariam as respostas comigo. Confesso que aquele "calhamaço" me intimidou um pouco mas, como diz o ditado, "quem está na chuva é para se molhar" e, além de tudo, o tratamento era de graça e assim eu não perdia nada tentando. Levei horas e horas respondendo ao questionário. Algumas das perguntas eram bastante complexas e hesitava em escolher a resposta que mais se adequasse ao meu caso. Isso foi há quase 10, portanto, não me recordo das pertungas, mas, só para dar uma idéia, eram do tipo:
- Quando você se aproxima de um grupo de pessoas desconhecidas, você se sente:
a) perfeitamente à vontade
b) desconfortável
c) apavorada
d) retira-se da sala, evitando apresentar-se ao grupo
- Quando tem que apresentar um trabalho oral, você se sente:
a) muito bem
b) um pouco nervosa (o)
c) medianamente nervosa (o)
d) extremamente nervosa (o)
- Em termos de amizade, você tem:
a) muitos amigos
b) poucos amigos
c) não tenho amigos
Algumas não ofereciam respostas de múltipla escolha, mas pediam para você dar uma nota, numa escala de 1 a 5, de acordo com o grau de intensidade de algum sentimento ou reação sua a situações de exposição social (como por exemplo: sudorese, tremores, palpitações, falta de ar, diarréias, etc).
Geralmente, minhas respostas tendiam para o extremo, mas certas perguntas me deixavam sem saber o que responder e não conseguia me decidir quanto ao nível de nervosismo ou stress que certa situação me causava. Creio que deixei algumas em branco, para que me esclarecessem melhor na próxima visita (conforme tinham me aconselhado a fazer).
E lá fui eu novamente esperar por um bom tempo na sala de espera. Geralmente, levo um livro ou revista para ler em salas de espera de consultórios médicos e afins, pois muita gente adora puxar conversa (principalmente pessoas idosas) e sempre me sentia muito pouco à vontade sendo obrigada a manter aquele "papo furado" e, na maioria das vezes, ficar só abanando a cabeça, concordando com a pessoa. Para evitar tal tortura, enterro o rosto no livro para não ser incomodada (e mesmo assim algumas pessoas acabam puxando conversa!). Foi justamente o que aconteceu desta vez, uma senhora começou a conversar comigo, ignorando totalmente o meu livro (e ostensivo interesse pela leitura do mesmo). Contou que tinha filhas gêmeas que estava se tratando com o "chefe" da equipe há um bom tempo, pois era um caso interessante estudar um caso desses, e que estavam obtendo resultados maravilhosos. Contou ainda que receitavam Rivotril e iam elevando a dose aos poucos, até chegar a 4 mg, e depois, com o auxílio de terapia cognitiva-comportamental, iam diminuindo a dose novamente, conforme a pessoa obtinha progressos. Queria saber sobre a minha FS, etc, etc, enfim, não parava de tagarelar. No final, disse que eu precisava conhecer as filhas dela pois seria um bom incentivo, ainda mais que estávamos todos no mesmo barco, e pediu o número de meu telefone, pois queria me convidar para a festa de aniversário delas. Expliquei que, por conta da Fobia, raramente ia a festas. Ela disse que as filhas eram igualzinho, mas agora com o tratamento estavam praticamente curadas e que provavelmente o mesmo aconteceria comigo. Quando coisas desse tipo acontecem, geralmente dou um número de telefone inventado, mas nesse caso, poderia me deparar com ela outras vezes na sala e aí ficaria envergonhada de tê-la enganado. Dei o telefone certo (e ela realmente ligou algumas semanas depois, convidando para o tal aniversário. Mas arranjei uma desculpa qualquer e, felizmente, ela não insistiu e não mais nos vimos). Esses episódios sempre me deixavam extremamente irritada. A mesma coisa acontecia em ônibus, e sempre que podia, levava uma leitura qualquer... mas descobri que partituras musicais surtiam o efeito contrário. Algumas vezes comprava uma partitura nova para piano numa loja do centro da cidade, e ficava folheando no banco. Invariavelmente, a pessoa que estava ao meu lado perguntava "você toca piano?" e começava logo uma conversa interminável. Passei a não abrir mais partituras em público...
Finalmente me chamaram e 3 estudantes (provavelmente estagiários de psiquiatria) vieram conversar comigo. Começaram a repassar as perguntas comigo, uma por uma, confirmando a minha resposta, esclarecendo dúvidas, fazendo comentários sobre algumas delas, processo minucioso e, por isso mesmo, extremamente cansativo. Havia algumas perguntas sobre emprego e trabalho, e comentei que tinha pedido demissão de um curso de Inglês onde havia lecionado por um tempo e que não me sentia bem trabalhando. Um dos estagiários disse que, ao longo do tratamento, eu iria me sentir mais à vontade com essas coisas. Como comentei também sobre o fato de ter vontade de fazer um mestrado, mas que a perspectiva de ter que defender uma tese oralmente me fazia tremer - e desistir, ele comentou com a outra estagiária sobre um paciente que tinha conseguido, com o tratamento, defender tese com sucesso. Voltamos ao problema de trabalhar. Comentei, com toda a sinceridade, que nem sabia se era isso mesmo o que queria, pois me sentia muito bem em casa. O estagiário amarrou a cara e disse "a gente aqui pode ajudar você a se sair bem num processo de seleção, etc, mas se você não gosta de trabalhar, aí já é problema seu e ninguém vai poder te fazer mudar de idéia!". Fiquei chocada com a agressividade dele, e também muito sem graça. Lembrei-me logo da terapeuta que tinha dito que eu "fazia apologia da vagabundagem", só faltava o estagiário me dizer a mesma coisa. Engraçado como essa questão de ter ou não vontade de trabalhar fora enfurece e choca as pessoas, a ponto saírem do sério a ponto de quase perderem o controle. Pensei cá comigo que deveria ser inveja ou sei lá o quê. Uma pessoa que assume publicamente que não gosta de trabalhar fora incomoda muita gente...
O processo de repassar as perguntas e respostas demorou mais de 2 horas e meia (fora mais de 1 hora que esperei para ser atendida). Chamaram então uma médica formada para me elevar a dose do Rivotril de 1 mg para 1mg e meio e voltar daqui a um mês. Saí de lá com uma dor de cabeça terrível, pois já era noite, estava cansada, com fome e as perguntas eram complexas e exigiam muito esforço de minha parte para comentar todas as respostas daquele jeito, fora a tensão pois, afinal de contas, eu sofro de FS! Achei o tratamento muito desumano, por quê não discutir as perguntas aos poucos, ou mudar o esquema de alguma maneira? Senti-me como um rato sendo analisado num laboratório, sem dó nem piedade. Não estavam considerando os meus sentimentos e muito menos prestando atenção ao fato de que todo aquele interrogatório me deixava sob tensão constante e extrema (e deviam saber disso, se vinham estudando fóbicos sociais há alguns anos!). Além de tudo, o fato de ficar lidando com estagiários não me inspirava confiança. Tinha feito estágio nas faculdades que cursei e sei o quanto estamos ainda despreparados nessa fase... e nesse caso, lidando com seres humanos e, ainda por cima, gente que sofre de deficiências justamente na área de relacionamento, creio que todo cuidado é pouco e que é preciso muita experiência. É claro que os estudantes precisam particar mas... não gostava de ser a cobaia. Cheguei a conclusão que era só um objeto de estudos nas mãos deles, além de fornecer dados estatísticos para a futura literatura sobre a doença. Tem muita gente que não se importa em ser cobaia e até se sente bem sabendo que, mesmo que não usufrua de certa cura, terá ajudado gerações futuras... não cheguei ainda a este grau de altruísmo e creio que nunca chegarei. Quero é me sentir bem e confortável me relacionando com as pessoas, sejam amigo, médicos ou terapeutas. "Dar a minha contribuição à ciência" parece algo bonito e louvável, mas fóbicos sociais só pioram se são tratados como meros objetos. Creio que até ciência precisa ser feita com amor. Muita gente já me disse que eu sempre tive espectativas totalmente erradas quanto aos profissionais com os quais tentei me tratar - e que por isso mesmo não me adaptei e desisti dos tratamentos - que dos médicos e terapeutas deve-se esperar uma atitude técnica e profissional, nada mais do que isso. No final das contas, parece que eu estava procurando mais amigos do que médicos. Pode ser que seja assim, mas creio que não faria mal se os médicos tivessem um pouco mais de carinho e de delicadeza para com os pacientes e até penso que isso ajudaria muito na cura, pois criaria uma certa "cumplicidade" entre médico e paciente, e é inegável que moral elevada e confiança no tratamento (e no médico) ajudam muito no processo de cura de qualquer doença, seja física ou psíquica. Para mim, CIÊNCIA E AMOR devem andar de braços dados para que se chegue realmente a resultados satisfatórios. Mas nem todos concordam com isso...
E me senti frustrada por meu caso não ser "peculiar" como o das gêmeas, perdendo assim o privilégio de ser atendida pelo médico-chefe, o verdadeiro especialista e pesquisador. Até minha doença era medíocre como eu própria: nem tão especial que mereça "tratamento vip", nem tão desprezível que não mereça consideração. Simplesmente um "caso mediano"
Na próxima visita, me queixei com a outra estagiária que me atendeu (cada dia era um grupo diferente) sobre o tratamento rude que recebi de um colega dela, quando estávamos conversando sobre trabalho. Ela não disse nada. Comentou que, segundo os resultados do teste, eu realmente sofria de Fobia Social e então perguntou se estava me sentindo melhor com o aumento da dose do Rivotril. Respondi que me sentia melhor, mas que ainda ficava muito tensa em ocasiões de me expor, e um exemplo disso tinha sido a tremenda dor de cabeça ao discutir o calhamaço de questões na outra consulta, causada por cansaço mas também por extrema tensão. Ela então chamou a médica para aumentar a dose para 2 mg e me mandar voltar daqui a mais um mês.
Nessa ocasião deu-se então o "milagre" (embora eu não tivesse a mínima idéia, naquela época, de que seria algo temporário e não "para sempre").
Na próxima visita, contei aos estagiários os meus progressos espantosos e eles não se mostraram muito surpreendidos (provavelmente já esperavam que isso fosse acontecer). Disseram-me então que medicamento não bastava. Deram-me um papel, "recomendando-me" ao setor encarregado de terapias, a fim de que eu fosse lá (no prédio ao lado) marcar hora para ter sessões. Cheguei a ir lá, mas os horários eram horríveis e, naquele momento, não tinham vagas para atendimento particular, só para terapia em grupo (o que eu não queria de jeito nenhum, onde já se viu fóbico social fazer terapia em grupo!!!). Disse que voltaria outra hora para agendar a consulta (obviamente estava mentindo). Nesse ponto, a "prequiça" (ou "desculpa esfarrapada", conforme sei que muitos vão querer denominar) voltou: a Praia Vermelha era um bocado distante do bairro onde morava. Só havia um ônibus que servia para mim, e estava sempre lotado, principalmente em horas do rush. Toda vez que ia no Centro de Estudos, voltava espremida e levava horas em engarrafamentos monstruosos para chegar em casa. Uma vez por mês isso era suportável, mas terapia é coisa de 3 vezes por semana, ou até 3, e aí a coisa já mudava de figura: aquele processo de ir e vir se tornaria estressante, cansativo e, no final das contas, insuportável. E, se o remédio estava fazendo maravilhas, pra quê terapia?
Nos meses que se seguiram, minha vida deu uma guinada de 180 graus e tanta coisa nova estava acontecendo ao mesmo tempo, confesso que me esqueci quase que completamente do Centro de Estudos. Nunca mais voltei lá, embora continuasse vendo a neurologista periodicamente. Ela não se incomodou por eu ter procurado tratamento em outro lugar e concordou em continuar me receitando 2 mg do Rivotril, embora não concordasse com o diagnóstico. Segundo o ponto de vista dela, eu não sofria de Fobia Social, só de uma "timidez exagerada" e outras neuroses, pois quem tem fobia não se expõe ao objeto temido de maneira nenhuma e eu, bem ou mal, vivia me expondo a situações sociais. Realmente, muitos médicos pensam do mesmo jeito, e por isso mesmo o nome da doença foi mudado recentemente para "Ansiedade Social". Não concordo com essa opinião e exponho o meu ponto de vista na página sobre "Definição".