Neurologista (1991, mais ou menos):

 

Todas essas tentativas frustradas de tratamento só me deixavam mais nervosa - e com um sentimento de derrota terrível. Será que era mesmo um caso perdido? Minha mãe vivia contando maravilhas da neurologista que a estava tratando da suspeita de Doença de Parkinson e também do nervoso. Realmente os resultados eram visíveis e surpreendentes, conforme comento na página "Como Nossos Pais". Resolvi que não custava tentar, afinal, ela não fazia "psicoterapia" e, consequentemente, não ia me "chatear" tanto. Realmente uma pessoa muito simpática e divertida, "doidinha mas uma profissional das mais gabaritadas" como algumas enfermeiras e outros funcionários da clínica a definiam. Senti-me bastante a vontade conversando com ela, e era mais uma conversa informal, não sentia nela aquela "frieza" típica dos outros profissionais com quem já havia me tratado (ou tentado me tratar). Fez um exame bastante minucioso, testando, entre muitas outras coisas, os meus reflexos, equilíbrio e coordenação motora (fazendo com que eu, de pé, tocasse a ponta do nariz com o dedo indicador, repetidas vezes - não, eu não era "sorvete na testa"!). Mandou então fazer exames de sangue, incluindo nível de hormônios da tiróide (pois, conforme descobri mais tarde, problemas de hipotiroidismo ou de hipertiroidismo afetam o sistema nervoso, causando muitas vezes depressão, ansiedade, etc) e também um eletroencefalograma, ambos com resultado normal. Achei muito sensato e realmente passei a confiar muito na competência da neurologista, pois nenhum dos outros médicos, incluindo o psiquiatra, havia me mandado fazer um exame sequer.

 

Receitou "Eufor" (mesma substância do Prozac - que era a "grande descoberta da época contra a depressão, e até chamado de "remédio da felicidade") para a depressão e 0.5 mg de um remédio chamado "Rivotril" que, segundo ela, "fazia milagres" e não tinha tantos efeitos colaterais desagradáveis com os outros medicamentos do gênero. Até comentou o caso de um outro paciente que tinha agorafobia e que, com este remédio, estava praticamente curado. (É importante ressaltar que ela disse que eu sofria de fobia social, ou mesmo de outro tipo de fobia. E nessas alturas eu nem nunca tinha ouvido falar de FS). Mandou voltar depois de um mês, para ver como eu estava reagindo aos medicamentos (pois esses tipos de remédios não têm efeito imediato - os resultados só se fazem notar após umas 3 semanas de uso). Senti uma discreta melhora (pelo menos estava conseguindo dormir melhor) e na próxima visita ela mandou elevar a dose do Rivotril para 1mg ao dia. Pela primeira vez fiquei animada com os resultados, embora não fossem espetaculares. As crises nervosas estavam diminuindo, embora não sentisse grande diferença com relação à parte social: ainda me sentia  tensa, principalmente nos exames de piano e nas aulas de francês. Mas pelo menos consegui passar por alguns exames de piano sem aquela horrível sensação de dormência nos dedos e nas mãos, e mesmo tremendo um pouquinho, já conseguia tocar alguma coisa. Como a essas alturas já tinha pedido demissão do curso de Inglês e minha mãe estava passando muito bem, dois grandes motivos de tensão não existiam mais, e assim era um pouco difícil saber se a melhora da depressão se devia a isso ou aos remédios (ou às duas coisas juntas). Continuei indo uma vez por mês à médica, para acompanhamento, e depois espaçou as visitas para de dois em dois meses. Nesse ìnterim, comprei uma cachorrinha e isso levantou o astral ainda mais (os resultados foram tão bons que até a médica ficou espantada) e comecei a fazer parte de grupos de oração na minha Paróquia. Sentia-me muito mais auto confiante!

Ao final de um ano tomando Eufor (Prozac), comecei a sentir que o remédio estava fazendo o efeito contrário: sentia-me agitada demais e a insônia voltou. Meu cérebro (principalmente à noite), ficava trabalhando como uma máquina, milhares de pensamentos vindo à minha cabeça ao mesmo tempo. A insônia voltou e, com ela, impulsos estranhos de executar tarefas trabalhosas no meio da noite. Muitas vezes, às 3 horas da manhã, sentia uma vontade incontrolável de arrumar o meu armário. Tentando fazer o mínimo de barulho possível, tirava tudo de dentro e arrumava tudo, na parte dos livros, colocava em ordem de assunto, de autor e assim por diante. Arrumava papéis em pastas, também divididos por assuntos. Dias depois, fazia tudo de novo. Outras vezes, dava vontade de tocar piano. Impossível, pois acordaria todo o prédio, mas tinha teclado portátil e colocava headphones para ficar tocando. Já ouvi casos de outras pessoas que têm o mesmo tipo de reação depois de algum tempo tomando Prozac, Paxil, Zoloft e outros anti-depressivos da mesma família. Queixei-me disso com a médica e ela mandou suspender o anti-depressivo, reduzindo gradativamente a dose durante uns meses. Realmente deu resultado e o sentimento de agitação foi diminuindo sensivelmente.

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