Psiquiatra (alguns meses depois):
Realmente nesta época eu estava muito mal dos nervos, por conta da pressão no curso de Inglês (conforme conto na parte sobre a minha história), dramas familiares, mais uma decepção amorosa muito traumatizante e minha mãe bastante doente. Não queria desistir de procurar uma saída para o meu problema, que a essas alturas era mais um caso de ansiedade generalizada (e que aquele cardiologista, que de vez em quando ainda consultava, chamava de estafa mental). Não muito longe de onde morávamos, havia a clínica de neurologia. Passando de ônibus, vi que ofereciam tratamento psiquiátrico. Como a clínica fazia parte do nosso plano de saúde, e consequentemente não teríamos que pagar por fora, decidi que, literalmente, não custava nada tentar. Afinal de contas, os psiquiatras eram médicos formados, que trabalhavam com medicamentos e não só com "papo furado". Resolvi tentar. A primeira conversa com o médico não foi muito ruim, só mesmo um papo "normal" para saber o que eu sentia, que medicamentos já tomara, etc, etc. Estipulou que, a princípio, eu deveria vê-lo para uma consulta de quinze em quinze dias (isso já me deixou bastante animada, pois estava cansada daquela maratona estressante de três ou duas vezes por semana das psicólogas) e receitou Lexotan e Lexpiride (creio que dois comprimidos de cada por dia, não me recordo as dosagens). Depois de duas semanas, lá voltei e conversamos por quase uma hora. A conversa era mais "informal" e "descontraída" do que com as psicólogas, parecia mais um bate-papo "normal", se é que me entendem... Mas ele passava a maior parte do tempo me dando "conselhos", dizendo que eu devia tentar vencer a timidez, que devia "me forçar" a ir a festas, a sair com os amigos o mais que pudesse, que deveria até fazer aulas de dança (dança de salão estava na moda naquela época por conta do sucesso do filme Australiano "Vem Dançar Comigo", uma verdadeira febre de academias por todos os lados). Insistiu também para que eu procurasse academias de ginástica. Comentei que não tinha jeito para essas coisas, desajeitada desde pequena, e que nem gostava de dançar. Ele comentou que estava ali "justamente para me convencer a gostar dessas coisas, ao longo do tratamento... e me garantiu que, em certo momento, eu iria "passar a gostar de dança e de ginástica". Achei aquilo muito estranho, cheirava a "lavagem cerebral". Como é que o médico ia me convencer a apreciar coisas que detestava? Tentar me estimular a ir a festas e ver amigos era normal, mas me convencer a dançar? Comecei a achar que esse médico era "mais maluco do que eu"... Queixei-me de que os remédios não estavam ajudando em nada... a não ser com relação à insônia... e ele aumentou a dose dos dois e receitou ainda outro: Olcadil (não me recordo a dosagem). Outra vez, não senti nenhuma melhora, muito pelo contrário, cada vez me sentia mais estressada e nervosa... a ponto de me arranhar toda e a me contorcer na cama, gritando. O médico continuou sempre com aquela conversa de que eu devia sair mais, dançar, fazer ginástica, etc, e eu sempre argumentando que não queria, não sentia vontade, não podia e assim por diante. Comecei a me cansar daquele papo. Agora, além dos três remédios que já estava tomando, receitou mais um: Pamelor. Até hoje me supreende o fato de não me sentir grogue ou mesmo totalmente dopada tomando toda essa batelada de tranquilizantes de uma vez... muito pelo contário, cada vez me sentia mais agitada, inquieta e estressada. O Pamelor teve um efeito bastante incômodo: deixou-me com a boca totalmente seca, o que ainda complicava mais a minha situação, pois tinha que dar aulas quase todos os dias e falar por horas a fio com a boca seca era terrível... isso me deixou ainda mais nervosa. Queixei-me muito com o médico e ele suspendeu o Pamelor. E continuava o mesmo papo: conselhos e mais conselhos, sugestões, apologia da dança de salão, etc, etc. Depois de uns seis meses, me cansei de tudo isso pois já me via, a certa altura, tomando uns 20 tranquilizantes diferentes (e ficando quimicamente dependente deles) e me tornando um zumbi, ou seja, resolvendo um problema mas criando outro. Nem o papo nem os remédios mostravam nenhum resultado concreto, pelo contrário, creio que cada vez piorava mais pois somava a frustração de mais um tratamento fracassado a todos os problemas que estava vivendo no momento. Desta vez nem visita nem telefonema: simplesmente não fui mais à clínica. Ouvi falar de outras pessoas que se trataram com psiquiatras por anos a fio e é sempre a mesma história... um papo sem maiores consequências e dezenas de tranquilizantes em altas doses. Será que são todos assim?