Psicóloga de várias linhas combinadas (mas puxando para a Freudiana, penso eu):
Pouco tempo depois, visitando uma amiga, comentei com a irmã dela sobre a minha experiência desastrosa com a psicóloga gestaltiana. Ela me indicou a terapeuta com a qual vinha se tratando há um bom tempo, disse que não tinha "maluquices", só bate-papo mesmo, e que era uma profissional excelente e um amor de pessoa. Resolvi experimentar e marquei uma consulta.
O consultório, totalmente diferente do da outra terapeuta, me deixou pouco à vontade. Ambiente de penumbra, o "famoso divã" com um travesseiro (mas ela nunca me pediu para me deitar nele), a terapeuta sentada em um sofá, entre o divã e a janela, de forma que quase não conseguia ver seu rosto, o que me incomodava pois gosto de ver bem o rosto da pessoa com a qual estou falando. Mas gostei dela. Pelo menos não falava palavrão e parecia paciente, tranquila e amável. Contei sobre os meus problemas de relacionamento, de como evitava festas e reuniões sociais em geral, de como tinha muito poucos amigos e me sentia muito isolada e sozinha, etc, etc, etc. Ela disse algo que achei bastante sensato:
- Você não vai às festas porque NÃO PODE e não porque não quer! Este é o problema. Mas vamos trabalhar nele e, com o tempo, você vai conseguir!
Realmente, era isso que eu queria ouvir! Todos sempre me acusavam de não querer ir à festas, não querer fazer amizades, não querer trabalhar, não querer me curar... e enfim chegava alguém para me dizer que não era bem assim, que eu não era culpada pelo meu sofrimento, que eu, por alguma razão, NÃO PODIA fazer as coisas que as outras pessoas fazem tão naturalmente. Senti-me confiante, achando que, finalmente, estava falando com a pessoa certa. Insistiu que era melhor, no começo, fazer três sessões por semana. Reclamei da falta de grana (pois, realmente, os tratamentos são um bocado caros e nenhum plano de saúde cobre terapia), ela disse que facilitava o pagamento e fazia um desconto, pois era bem flexível com essas coisas e entendia que a situação estava difícil para todo mundo. Concordei, meio que relutantemente.
Tenho que confessar três coisas:
- Primeira: Esses tratamentos sempre me estressam muito, pois tudo o que a psicóloga diz, fica sendo remoído na minha cabeça dia e noite, e se ela faz alguma observação que penso ser falsa ou totalmente equivocada, fico sempre "ensaiando na minha cabeça" como vou argumentar, e no dia, se esqueço de falar alguma coisa que julgava importante, fico depois aflita e com aquilo na cabeça o tempo todo. Isso tudo gera muita tensão e estresse, e por conta disso, prefiro sempre ver a psicóloga o menos possível.
- Segunda: Engraçado... já ouvi falar de gente que venderia até a alma para conseguir uma cura para a FS, que venderia tudo o que tem, pagaria todo o dinheiro do mundo para comprar um remédio que resolvesse o problema. Pois eu nunca estive muito disposta a gastar meu dinheiro com essas coisas. Meu pai sempre me deu uma boa mesada, mas preferia gastar em livros e mais livros, CDs, fitas de vídeo, imagens de santos e outras quinquilharias. Sempre achei um desperdício gastar muito dinheiro com essas terapias, ainda mais que não tinha muito fé na eficácia das mesmas e já tinha conhecido muitas pessoas que passaram anos e anos fazendo análise e não notava grandes melhoras...
- Terceira: Sempre fui uma pessoa terrivelmente caseira e de certa forma bastante preguiçosa. Não sei bem o porquê de sofrer quase sempre de uma espécie de letargia que me deixa sem muito ânimo para grandes empreitadas, talvez o fato de não dormir bem à noite, talvez o problema de coluna, talvez a apatia resultante de depressão crônica, talvez issso tudo reunido. E tenho horror a rotinas. Gosto de sair, mas quando tenho vontade e não algo com um dia e horário marcado. Isso sempre me deixa muito tensa, ainda mais se está chovendo, ventando, fazendo frio... sinceramente, prefiro ficar no aconchego do meu lar lendo meus livros e ouvindo os meus CDs.
Mas voltemos à psicóloga. Ela explicou que não usava um método determinado, mas sim procurava aplicar o melhor de cada um dos métodos e me garantiu que não ia me mandar ficar nua ou algo parecido (pois eu contei sobre a experiência com a outra psicóloga). Disse que eu só faria o que quisesse, e se quisesse só ficar ali sentada olhando para ela, ou para outro lugar qualquer da sala, sem falar nada durante os 50 minutos da sessão, estava tudo bem (pensei cá comigo... "vê lá se vou pagar essa fortuna para ficar aqui 50 minutos olhando para o teto sem falar nada!). Nas primeiras sessões, gostei do bate-papo, de certa forma agradável. Lá pela terceira sessão, comecei a achar que a psicóloga era um pouquinho antipática... ou talvez nem isso... o fato é que carecia de expressão... parecia mais um boneco, um robô que estava ali conversando comigo e isso começou a me incomodar pois muitas vezes chegava lá muito deprimida e até chorava... e ela só ficava lá, com aquela mesma expressão "neutra". Para dizer a verdade, acho que eu não estava na realidade procurando terapeutas, o que realmente queria era amigos, alguém para ouvir minhas histórias, meus "pensamentos doidos", enfim, só para conversar. Mas quem estava ali era uma profissional me avaliando e tentando me ajudar, baseando-se nos métodos de tratamento estudados em livros e mais livros de psicanálise. E, na realidade, ela não me deixava falar e falar, sempre interrompia tudo que eu dizia e notei que os comentários estavam ficando cada vez mais agressivos e sarcásticos. Uma vez estava comentando sobre essa minha "preguiça" e de como era agradável ficar em casa lendo e fazendo o que bem entendesse... ou então passeando sem compromisso num shopping center, assistindo a um filme e lanchando uma pizza. Ela comentou que eu gostava muito de "fazer apologia da vagabundagem". O comentário me irritou bastante e retruquei que não era bem assim, que realmente não gostava de trabalhar, mas que não ficava apregoando isso aos quatro ventos e não queria que ninguém pensasse do mesmo jeito e nem desejava fazer a cabeça de ninguém quanto a isso. Ainda mais que o normal da vida é trabalhar para ganhar o "pão-de-cada-dia", só que eu não gostava e sinceramente não sabia o que fazer para que "meu cérebro mudasse e passasse a gostar de trabalho".
E esta não falava palavrões a torto e a direito como a outra, mas, sempre que o assunto era namoro ou sexo, ela sempre usava o termo "trepar". Não sei bem porque, mas acho este termo o mais chulo de todos, parece a pessoa está se referindo a animais! Sentia-me muito pouco à vontade quando ela mencionava o termo. Por quê não usar outros termos, tais como: transar, fazer sexo, etc. Até "copular" e "f...." soam melhor aos meus ouvidos do que "trepar". Tempos depois, conversando com outras pessoas que faziam psicoterapia, notei que a maioria delas usava esse mesmo termo quando se referia a sexo. E não creio que seja um termo muito usado no dia-a-dia. Fico pensando que os psicoterapeutas preferem esse termo, e fico curiosa em saber o porquê disso... Será que eles são instruídos nas universidades que frequentam a usar esse termo? Muito estranho isso. Creio que a maioria das pessoas com problemas psíquicos e/ou psiquiátrico tem algum problema com relação a sexo. No meu caso posso dizer que era sexualmente reprimida (pois o assunto sempre foi um tabu terrível lá em casa) e cheia de sentimentos de culpa com relação a desejos sexuais (por conta do meu "fanatismo religioso"). Se eles querem fazer com que os pacientes encarem o sexo como algo natural, parte da vida, por quê então usar termos tão chulos e animalescos? Querem, de certa forma, "dessensibilizar" a pessoa achando que ela vai encarar o sexo com mais naturalidade se for submetida a um "tratamento de choque"? Confesso que o termo me chocava e tinha ímpetos de dizer à psicóloga para usar termos "mais leves", mas me controlei, pois sabia que se fizesse isso, iriam chover perguntas, começando pelo clássico "por quê?". Ela iria, com certeza, passar a sessão inteira querendo saber o porquê do termo me incomodar tanto... e dar a isso uma importância desmedida. Aliás, em matéria de sexo, realmente eu escondia muita coisa das psicólogas, não me abria totalmente. Nessa época de minha vida, era muito obcecada por sexo e pensava nisso praticamente dia e noite. Tinha a total convicção de que era ninfomaníaca e isso me incomodava muito, tinha muita vergonha e tinha medo de que as psicólogas me apontassem o dedo sempre acusador e dissessem: "Ah!!! Você é uma ninfomaníaca!!!" Não sei porquê, achava isso ainda pior do que ser tida como lésbica sem ser. Na minha cabeça, ninfomaníaca era a mesma coisa que ser tarada, maníaca sexual, pior do que prostitutas (que faziam do sexo uma profissão sem que, necessariamente, existisse nelas um verdadeiro furor sexual). Hoje em dia acho graça desses meus pensamentos, frutos de inexperiência no assunto e de não ter com quem conversar, tirar dúvidas e trocar idéias. Na total ignorância sobre o assunto, exagerava tudo e acabava interpretando instintos naturais, muitos deles provocados pelos hormônios no início da fase adulta, como desvios e perversões.
Comentava com ela que me achava "misantropa"... outras vezes dizia que o que me incomodava era estar em "grupo grande", que se estivesse com 2 ou 3 amigos, geralmente me sentia à vontade. Disse também que talvez me sentisse melhor se tivesse um namorado para ir comigo nas festas e reuniões de grupos. Aí ela comentou: "Ah, então você não quer ter um namorado, você quer ter uma "muleta social". Mesmo que fosse verdade, era melhor "andar de muletas" do que não andar de jeito nenhum, creio eu.
Ainda no assunto namoro, ela me perguntou, em tom meio irônico, como eu podia me soltar tanto com um namorado a ponto de "dar beijos escandalosos na frente de todo mundo" e tudo o mais quando era tão acanhada com relação a todo o resto. Disse a ela que o meu problema era GRUPO, que geralmente me sentia bem quando estava interagindo com uma só pessoa e, no caso de namorado, estava apaixonada e, tirando esses incidentes "escandalosos" onde realmente queria me exibir, estávamos sempre praticamente à sós no nosso jardinzinho, na penumbra. A paixão superava as inibições nesse caso pois eu não estava me expondo ao julgamente de um público. O namorado com certeza julgava meu desempenho, se beijava bem ou não, etc, mas isso não me incomodava, ou melhor, me deixava nervosa nos primeiros encontros mas depois me soltava e não me sentia nervosa ou pouco à vontade.
Enfim, eu estava dando o diagnóstico "de bandeja", tudo na minha fala parecia gritar "esta paciente sofre de Fobia Social". Mas nunca me disseram nada. Creio que naquela época os profissionais da área já deviam ter algumas noções sobre este tipo de Fobia, embora não fosse um assunto comentado pelos leigos. Até hoje não sei se elas sabiam que eu sofria de FS e não queriam me dizer ou se realmente não sabia e, desconhecendo o problema, não sabiam bem lidar com ele.
Aos poucos, comecei a detestar a psicóloga, só olhar para aquele vulto me dava náuseas. Achava-a desagradável, feia, antipática, burra, estúpida, irritante. Muitas das vezes eu chegava e comentava algum assunto sem importância, só para iniciar uma conversa (pois os fóbicos sociais sempre acham que têm que buscar assuntos para conversar e ficam muito pouco à vontade se fica aquele "silêncio" de falta de assunto). Uma vez comentei que estava cansada do meu vídeo game e pensava em vendê-lo. Foi só um pensamento sem importância, mas ela começou a insistir, perguntando se eu já tinha planos de como iria vender, para quem, se ia anunciar no jornal, qual o preço que estava pensando em estipular, etc. Irritei-me e disse que provavelmente nem ia vender coisa alguma, era só um pensamento, nada mais (e, realmente, não tinha intenções de vender o vídeo game, ainda mais que não tenho jeito para vender coisa alguma). Outra vez, quando dei um corte no cabelo, ela ficou a sessão inteira querendo saber "o que estava por trás daquele corte", pois, ao que parece, a psicologia sempre interpreta mudanças de visual como um reflexo de mudanças interiores. Realmente, em algumas fases de minha vida isso foi verdade, como por exemplo aquele corte "Lady Di" logo após terminar o Segundo Grau, mas nem sempre era assim. Comentei que era só um corte de cabelo, que era rotina eu fazer isso a cada seis meses mais ou menos e era chegado o tempo, só isso. Mas ela insistiu e insistiu no assunto, queria a qualquer custo encontrar um significado oculto para o meu corte de cabelo. Achei aquilo muito irritante e até cheguei a comentar, meio que brincando, que o próprio Freud uma vez disse que "um charuto às vezes é só um charuto". E não perdoava um ato falho de minha parte, detectava imediatamente e logo me "jogava na cara" que eu tinha dito uma coisa ao invés de outra (muitas das vezes cometo esses atos falhos até pela tensão que sinto ao conversar com alguém, assim como guagueira e hesitação). Nessas ocasiões, sentia-me como uma criança que foi pega fazendo uma arte. Ficava humilhada e envergonhada e isso tornava a nossa conversa ainda mais tensa, pois ficava sempre com medo de cometer outros atos falhos, que seriam categoricamente apontados e expostos com agressividade.
Fazia também comentários meio cruéis com relação a alguns episódios que eu contava sobre minha família... Nunca me disse que meus pais eram culpados pelos meus problemas, mas, pensando e pensando e contando a ela episódios passados, acabei me convencendo disso mesmo. As brigas em casa eram constantes e tive uma discussão muito séria com meu pai, creio que a mais feia que já tive, cheguei a pegar um cabo de vassoura e a bater no chão e nos móveis (provavelmente para não bater no meu pai), quebrei um cinzeiro de cristal, um verdadeiro escândalo. Comecei a pensar cá comigo: Todo mundo diz que essas terapias, no início, "fazem uma bagunça na nossa cabeça" para depois "arrumar tudo", que no início a gente se desestrutura toda e começa a se revoltar contra as pessoas mais próximas. Achei que não valia a pena... minha vida já era muito complicada, os conflitos em casa já eram constantes e piorar isso não era nada bom. Minha vida, que já era um inferno, ia ficar totalmente insuportável. O melhor era, mais uma vez, desistir.
Tentei primeiro me queixar com a terapeuta de que ela estava sendo muito agressiva comigo e me tratando mal de certa maneira... e que seria melhor diminuir o número de sessões para duas por semana pois assim estava sendo muito estressante, ainda mais tendo que ouvir tanto insulto e comentários sarcásticos sobre tudo o que dizia. Ela disse que ia fazer uma proposta: Eu continuava a ir três vezes por semana e ela "não mais me perturbaria tanto". Ri da proposta, pois achei ridícula. Parecia que ela estava mais interessada é no dinheiro e por isso não queria diminuir o número de sessões. Comentei que não tinha dinheiro para pagar três sessões por semana... ela voltou a repetir que "isso era negociável" (pensei cá comigo... ela sabe que eu não sei negociar... e, no final das contas, vai aceitar fazer as sessões quase que de graça?).
Mas a gota d´água foi quando comentei sobre o problema de sempre me apaixonar por gays... ela insinuou que eu os procurava porque tinha medo de homens, ou melhor, porque não gostava deles. E reagiu de forma bastante agressiva quando eu disse que realmente amava um rapaz gay, dizendo que não, que o rapaz era uma "amiga" para mim mas que o que eu sentia não era amor nem paixão de maneira nenhuma. De certa forma, insinuou que eu era lésbica. Não teria nada de mais, pois não tenho preconceito com relação a essas coisas, tendo lidado com tantos homossexuais em minha vida, mas não era verdade!!! Nunca tinha me apaixonada por nenhuma mulher e nem sempre me apaixonei por gays. Tive um namorado e só não tinha outro porque parecia que ninguém me queria... O caso com os gays parecia mais um golpe do destino, ou da má sorte, nada mais. Achei a conclusão dela precipitada, além de totalmente falsa. Resolvi que iria mais uma vez, para completar o mês e pagar, e ia encerrar a terapia. Só que já tinha um trauma danado por conta daquela última sessão com a outra terapeuta, ela me arrazando, fazendo com que me sentisse uma derrotada, perdedora, riscando meu nome na agenda milhares de vezes.... Adotei uma tática mais agressiva (mas ela merecia, pois estava sempre sendo tão agressiva comigo!). Sem dever nada, o mês pago, resolvi ligar para ela e dizer que não ia continuar a terapia. Lógico que veio a já tradicional pergunta "Por quê?" (dita sem nenhuma entonação de surpresa, irritação ou o que fosse). Respondi que não estava gostando, que achava que ela estava me julgando e tirando conclusões erradas sobre mim baseadas só em poucas conversas e comentários aqui e ali, que pensava que terapias deveriam ser diferentes, que a terapeuta só deveria tirar conclusões sobre o paciente depois de o conhecer muito bem... e ninguém conhece muito bem uma pessoa baseada umas 10 conversas de 50 minutos de duração cada. Ela disse que não costumava encerrar uma terapia por telefone, que eu deveria ir lá pelo menos uma última vez pois ela sempre fazia uma "avaliação" final dos pontos positivos e negativos, os resultados da terapia (ou a falta deles), etc. Menti dizendo que ia pensar e depois ligaria para marcar um dia para a tal avaliação. Desnecessário dizer que nunca mais a vi, ainda mais que tinha pronunciado uma das palavras que eu mais tinha horror: AVALIAÇÃO. E, no final das contas, pensei, essa avaliação era só para me "dar um atestado de incompetência", como aconteceu com a outra terapeuta.
A outra terapia durou um mês. Esta uns 4 meses. Tomei horror a terapias. Como sempre, tinha idealizado. Baseada no que via em filmes e séries de TV, pensei que na terapia a gente só ficava falando e falando sem parar e o terapeuta só lá sentado fazendo anotações e, de vez em quando, dizendo "muito interessante...". Creio que seja este o estereótipo do psicanalista. Pensei que levasse muito tempo para que eles, enfim, nos dessem um "diagnóstico". Cheguei a comentar isso com esta última psicóloga e ela disse que isso só acontece mesmo na TV pois o psicólogo tem que interagir com a pessoa o tempo todo, não fica só ouvindo. Realmente, eu queria mais um ouvinte do que uma terapeuta!