Livros de Auto-Ajuda, pensamento positivo, técnicas de relaxamento, onda "New Age", etc:
Nos anos 70, quando era adolescente, não me consta que esse termo fosse usado. Ainda não era "moda" esse tipo de livro... estavam começando a aparecer, mas só foram "batizados" assim muitos anos mais tarde, se não me falha a terrível memória.
Meu pai, que sempre teve pavor a médicos (só ia mesmo ao cardiologista por ser totalmente necessário), sempre procurou encontrar métodos alternativos para melhorar o nervosismo e a FS (sem saber que sofria dessa doença, obviamente). Certo dia, apareceu em casa com um livro chamado "O Poder do Subconsciente" do Doutor Joseph Murphy, o "Best Seller" do momento. Tanto eu quanto ele "devoramos" o livro e ficamos impressionados! Minha mãe achou tudo uma "besteira muito grande" pois só confiava em remédios - receitados pelos médicos ou auto-receitados. Joseph Murphy tinha uma teoria muito interessante: Deus nos criou perfeitos, as doenças não existem, o mal não existe. Tudo que não está em harmonia com esse conceito é fruto do nosso subconciente: é ele que "cria" as doenças. Assim como a mente humana, de uma complexidade ainda não totalmente compreendida, consegue mover objetos, assim também consegue também criar no corpo físico doenças (somatização). Tudo é fruto de "pensamento negativo". Se foi dito que "a fé remove montanhas", basta acreditar - mas acreditar MESMO - para que consigamos tudo que queremos e que nos curemos de todos os nossos males. E dava uma importância enorme ao que dizemos ou até mesmo pensamos. Ilustrava com algums exemplos, recordo-me de um: A pessoa deseja muito um objeto mas não tem dinheiro suficiente para comprá-lo. Aí fica pensando à toda hora "puxa, daria um braço para ter aquele objeto". Um dia sofre um acidente, perde um braço e consegue comprar o "objeto do desejo" com o dinheiro da indenização. E qual era o segredo então para se ter sucesso na vida? PENSAMENTO POSITIVO. Se a pessoa era nervosa, devia ficar repetindo mentalmente o tempo todo frases como "não sou nervosa, nervoso não existe, é só fruto da minha imaginação, não sou nervosa, sou um ser perfeito criado por Deus". A repetição incessante iria fazer com que o subconsciente aceitasse aquelas afirmações como verdadeiras e, assim, o padrão do cérebro seria alterado... e a alteração se irradiaria pelo corpo todo e até pelo ambiente à nossa volta, eliminando toda a desarmonia, todo o caos.
Para exemplificar, escolho um pensamento muito interessante do Doutor Murphy para reflexão: "Os males se alimentam de nosso medo e da atenção que lhe dedicamos". Difícil discordar, não é? Realmente, o doutor Murphy sabe o que diz (aparentemente...). Pena que seja tão difícil colocar na prática todos esses pensamentos pois não basta concordar, achar bonito, inspirador, encorajador, etc. É preciso realmente colocar viver esse tipo de ensinamento, ou seja, acreditar piamente e fazer desse e outros pensamentos do gênero verdadeira "filosofia de vida", VIVER na prática do dia-a-dia, colocando tudo em prática. Incorporá-los de tal maneira que se tornem parte do nosso pensar cotidiano de forma natural (pois, sendo forçado, não é possível haver resultados significativos, creio eu).
Por enquanto, estou apenas expondo a teoria (e outras nessa página) de maneira neutra, pois cada um tem o livre arbítrio para escolher seu próprio caminho. Com o tempo, minha religiosidade católica aflorou (ou, melhor dizendo, retornou) com mais intensidade e me aprofundei mais nos estudos de filosofia e teologia católica. Por conseguinte, tive que descartar muitas dessas filosofias, pois se opõe inteiramente à filosofia católica, embora a maioria das pessoas não perceba isso. As filosofias "new age" ou "neo pagãs", acreditam que somo parte de Deus, ou seja, somos nós também divinos, não havendo distinção entre Criador e ser criado. Não é esse o pensamento católico. Embora, realmente, tudo que existe, só pode existir em Deus, há uma clara distinção entre Criador e coisas criadas, o erro de Adão e Eva foi justamente tentar "serem como deuses" (por sugestão da serpente). Segundo a filosofia católica, não cabe a nós decidir o que é bom e o que é mal. Isso já está decidido desde toda a eternidade, ou melhor dizendo, o mal é a ausência do bem, então, não só há uma escolha certa pois a outra é negativa. É um assunto longo, que vou explorar em outra parte dessas páginas. Só abri esse "parêntese" para dizer que não concordo mais com essas teorias de Murphy, Paulo Coelho, etc, e nem sigo mais suas filosofias. Partem sempre do princípio espírita, primeiramente do karma (se exite karma, não existe livre-arbítrio pois tudo já "está escrito" e decidido, não somos responsáveis por nossos atos e por nosso destino), em segundo lugar, há o problema de que essas filosofias pregam que podemos "salvar a nós mesmos por meio do auto conhecimento, etc". Não é isso que a filosofia católica prega. Para o cristão, Jesus é o salvador, foi para isso que morreu e ressuscitou. Então, tentar salvar a nós mesmos é como negar a importância ou a utilidade de Cristo. Mas isso "dá muito pano pra manga", como já dizia minha avó.
A filosofia do Doutor Murphy é muito parecida com a do tratamento cognitivo, não é?
Na mesma "onda" vieram os livros do Professor de Yoga Hermógenes, com técnicas de relaxamento, pensamentos positivos, mensagens inspiradas. Realmente uma agradável e relaxante leitura, que recomendo entusiasticamente a todos. As técnicas de relaxamento, respiração, etc, também são usadas pelos terapeutas no tratamento da Fobia Social... Mas, como sempre, fico aqui a filosofar.... Creio que essas práticas esbarram num problema sério: diferença cultural entre oriente e ocidente. Os orientais já nascem nesse ambiente e são condicionados e treinados de acordo com essas práticas de relaxamento e meditação praticamente desde o nascimento. Para eles, relaxar e meditar são coisas perfeitamente naturais e que fazem parte de seu dia-a-dia, de seu modo de ser e do de todos que os cercam, pois é a essência de sua cultura. E para todo o modo de viver deles propicia esse modo de ser e de viver. Li em alguns livros que os orientais têm até uma noção de tempo diferente da nossa, por exemplo, podem dizer que vão fazer algo brevemente, mas esse "brevemente" pode significar daqui a duas horas ou daqui a 10 anos. Eles não têm pressa. O mundo ocidental é quase que o oposto de tudo isso, muita pressa, tensão, estresse, e vivemos com isso desde que nascemos. Não aprendemos a respirar de forma adequada, tampouco aprendemos a meditar e a relaxar desde a mais tenra idade. Creio que, depois de anos e anos "respirando de forma errada", é meio complicado mudar esse padrão, ainda mais sendo a respiração algo de que não nos damos conta (a não ser quando alguém chama a atenção para isso). E nada em nossa cultura e sociedade propicia esse modo de viver, é muito mais difícil relaxar e meditar, mesmo aprendendo e praticando as técnicas orientais com dedicação e persistência. Sou pessimista nesse ponto, creio que é muito tarde para nós ocidentais, pois não crescemos nesse ambiente e não aprendemos a respirar corretamente desde bebês (com técnicas de massagem, etc). Conheço muita gente que pratica Yoga, Tai chi Chuan, frequenta massagistas e tantas outras coisas, mas sinceramente, nunca vi resultados significativos.
Quando esses livros apareceram no Brasil, estávamos em pleno período pós-hippie, anunciando o nascimento da "Era de Aquário", onde tudo seria paz, harmonia, amor, o Caos dando lugar ao Cosmos. Com o despertar da Nova Era, novas esperanças renasceram e de todo lado começaram a pipocar mensagens semelhantes. Muito incenso indiano, músicas para relaxamento, pedras energizantes, medicina alternativa: homeopatia, cromoterapia, Florais de Bach, cristais, aromaterapia, acupuntura... as pessoas estavam dialogando com anjos e espíritos e em harmonia com o Ser Supremo pois descobrimos que éramos parte de Deus, o panteísmo (pensamento neo pagão totalmente oposto ao cristianismo).
E vieram os livros de Richard Bach, espetaculares. Vou falar sobre o "Fernão Capelo Gaivota" em outra parte da página. Este e "Ilusões" tornaram-se meus livros de cabeceira. A mesma linha de pensamento: Deus é parte de nós e nos criou para sermos felizes e perfeitos. Ao contrário do que a religião católica pregou por dois mil anos, não é através do sofrimento que a alma se purifica pois o sofrimento e a dor são ilusões criadas pelo subconsciente para nos levar ao caos. As respostas: todas dentro de nós mesmos. Quem tem fé remove montanhas... literalmente. Hoje em dia sei que há muita coisa errada com esse pensamento e que, pensar assim, pode até se tornar muito perigoso, mas na época, embarquei na onta, como se diz.
Confesso que me entusiasmei bastante com essas novidades, que realmente pareciam fazer muito sentido. O mundo é real ou só uma ilusão de óptica, um filme criado pela nossa mente? Será que sou o único ser vivente, flutuando em algum lugar do cosmos e criando em sua cabeça essa "realidade virtual", à la Matrix? (e isso foi muitos e muitos anos antes dos computadores fazerem parte da nossa história...).
Naquela época, adolescente, estava mais interessada em namorar e fazer com que um rapaz pelo qual nutria uma paixão platônica das mais intensas se apaixonar por mim. Então, ao invés de ficar repetindo o dia inteiro, como um mantra, frases do tipo "não sou nervosa, nervosismo não existe, sou um ser perfeito e estou em harmonia com o universo. Tudo é calma e paz em mim. Não vou tremer e nem ficar nervosa ao apresentar este ou aquele trabalho, não sou tímida, timidez não existe". Preferia dizer "ELE me ama, vai me telefonar, corresponde à minha paixão, nosso amor é uma realidade, vamos nos casar, ter muitos filhos". E como os livros diziam que a gente devia se comportar como se a coisa desejasse já estivesse acontecendo (pois é assim que a verdadeira fé funciona, a gente agradece a Deus pela cura ou o que for antes que aconteça pois temos que acreditar piamente que o que desejamos vai se realizar... só que os livros esquecem que a fé é um dom de Deus e que é preciso pedir a Deus para que nos dê fé ou que a fortaleça), já me sentia casada com o meu amado, já experimentava na margem dos cadernos escolares como seria meu nome com o sobrenome dele, em minha mente já criava as imagens do nosso namoro, todas as cenas, com os mínimos detalhes, certa de que assim, criando-as em minha mente, se tornariam realidade. Repetia frases sem cessar dia e noite, até dormir repetindo (conforme os livros nos instruíam a fazer).
Na véspera de provas e apresentação de trabalhos, usava a "técnica" também com esse fim, mas creio que me empenhava menos. Como eu nunca teria coragem de me aproximar do rapaz que amava, tinha que concentrar todas as forças nesses pensamentos positivos pois a única saída seria ELE me procurar... assim sem mais nem menos, só de me ver passando na rua e me achar atraente (este também era outro problema pois sempre me achei feia e desajeitada... só a magia e a fé poderiam fazer ele me ver "com olhos diferentes).
Mas o rapaz não se apaixonava por mim... e eu continuava a ficar nervosa nas apresentações orais, etc. E comecei a me cansar disso tudo. Continuei lendo os livros, mas sem o mesmo entusiasmo inicial. Passei a achar que palavras não tinham tanta força assim.... pois se existiam milhares de livros religiosos, sem falar na Bíblia, e o mundo continuava no caos de sempre e a maldade imperava, de que serviam as palavras bonitas e os pensamentos inspirados? Havia pensamentos lindíssimos por todos os lados e o ser humano continuava o mesmo, nada mudava para melhor ou para pior por causa de livros...
Muitos anos depois, num período "negro" da minha vida, onde passei por uma das piores depressões que já tive, os livros do Paulo Coelho ("Diário de um Mago", "Brida", "O Alquimista", "Nas Margens do Rio Piedra sentei e chorei") me deram muita força. Foram como um sopro de vida nova, de esperanças renovadas, verdadeiras "injeções de ânimo". Como era bom pensar que se podia viver à procura de um sonho, e se lutar com todas as forças do corpo e da alma para realizar a nossa "lenda pessoal", ou seja, escrever a nossa história, correr atrás dos nossos projetos mais queridos, seguir nosso coração e nossos instintos. Pois não era essa a bússola da minha vida, seguir meus sonhos, deixar falar o coração, muitas vezes até em detrimento da razão? Mas, com o tempo, isso tudo só me levou ainda mais para o fundo do poço...
Mais recentemente, li alguns livros da série "Canja de Galinha para a Alma" (coletânea de textos de diversos autores) e gostei muito. Realmente emocionantes e cheio de pensamentos encorajadores. Muitas dos capítulos me fizeram chorar de emoção... mas... fica por aí! A gente lê, fica pensando "que lindo!", "é isso mesmo", e depois de uns meses nem se lembra mais do que leu.
De tudo que tentei e tento para aliviar os sintomas da Fobia Social e da Ansiedade Generalizada, diria que a leitura desses e de muitos outros livros no gênero foram de grande valia (de certa forma). Mas, creio eu, há um grande problema com os livros de auto-ajuda: podem ser maravilhosos....A CURTO PRAZO. Por um curto período de tempo aliviam um bocado, nos dão ânimo e força mas... com o tempo, parece que o efeito se vai... a gente não persevera tanto quanto deveria para que a coisa realmente funcione. Acho que precisa uma força de vontade quase que sobre humana, uma fé inquebrantável, um otimismo às raias da loucura, para que obtenhamos resultados duradouros. Com o tempo a gente acaba desanimando, relaxando, é como a ginástica (se a pessoa não gosta muito...). A princípio se faz, pontual e religiosamente, depois vai espaçando, espaçando, até não fazer mais. A mesma coisa com as dietas que a gente promete começar sempre "na semana que vem". Creio os livros de auto-ajuda devem ser eficazes para alguém com muita persistência e força de vontade, mas tenho que confessar que não sou uma delas e logo me canso das "palavras bonitinhas" e dos "pensamentos positivos".
Enfim, são um alívio bastante temporário, não garantem uma cura total e permanente. Alguns poderiam dizer: então o jeito é ficar lendo sempre novos livros, ou relendo os antigos, para renovar aquele ânimo inicial. Já tentei também... não posso negar que funciona por um tempinho. No mais, nunca vi resultados "espantosos" e, na hora do "aperto" (um jantar formal, apresentação de um trabalho oral, etc) o pânico sempre veio e técnicas de relaxamento, pensamentos positivos e tudo o mais foi engolido pelo "buraco negro" que se forma em minha mente nessas horas.