Visita a uma neurologista (mais ou menos aos 11 anos):
Depois daquele fiasco do curso de declamação, eu e meus pais percebemos que havia algo estranho comigo. Era nervosa demais, sensível demais, tímida demais. A tal ponto que um curso para "me desinibir" só piorava meu estado. Meu pai me resolveu comentou o problema com uma neurologista que trabalhava com ele no PAM e esta se ofereceu para avaliar meu caso. Na verdade, não sei se era mesmo uma neurologista. Pelo tipo da conversa, deu-me a impressão de que era psiquiatra. Talvez meu pai não quisesse me "assustar" e por isso disse que era neurologista, mas nunca tive oportunidade de perguntar e agora, depois de tantos e tantos anos e memória fraquinha de idoso, com mais de 80 anos, não se lembra mais. De qualquer jeito, não tem tanta importância e fui lá conversar com ela. Gostava de ir no posto pois as colegas de papai geralmente me tratavam como uma rainha, era sempre o centro das atenções (pelo menos naquela época...). Meu pai me deixou a sós com a neurologista e esta começou a me fazer perguntas:
- Qual é o seu problema?
- Não sei... fico nervosa quando tenho que apresentar trabalho oral na escola e em outras situações assim.
- Mas por quê você se sente nervosa?
- Ah... não sei! Começo a tremer, muitas vezes me dá um branco.
- Mas por quê isto acontece?
A essas alturas já estava me sentindo nervosa e confusa. A mulher tinha mania de perguntar "por quê!" o tempo todo!!! E no final das contas, eu estava lá justamente para ELA me dizer o porquê do meu nervoso. Se eu soubesse, não precisava ir falar com ela, né? Ela prosseguiu:
- Como é o seu relacionamento com as coleguinhas na escola?
- Tenho só umas três amigas... acho que a maioria das outras colegas têm inveja de mim e por isso me despreza...
- Mas por quê elas teriam inveja de você?
- Creio que seja porque eu tiro notas altas. Uma vez, a Madre me deu um livro sobre a vida de uma santa, a Madre Fundadora da Congregação, prêmio por causa das minhas boas notas.
- Ah! Quer dizer que a madre quer que você seja santa?
- ??? Não! Ela dá esse livro como prêmio.
A essas alturas ela deu a conversa em particular por encerrada e chamou meu pai. Disse para ele que queria me ver no consultório dela, que não era muito longe de onde morávamos, uma vez por semana para conversarmos. Mas que eu tinha que ir SOZINHA, nada de mamãe ou papai me levando, eu já estava muito crescida para isso, hora de ser mais independente... Meu pai, sabendo como minha mãe era superprotetora, foi logo dizendo:
- Ih... isso é que vai ser MUITO difícil... duvido que a mãe dela deixe...
- Ah, é por isso que DETESTO mães!!!!!
Desnecessário dizer que minha mãe não consentiu... e disse que a neurologista deveria ser maluca pois essa coisa de destestar mães não era coisa de gente normal e não se fala mais nisso!
Papai conversou com a neurologista... e esta disse que o meu problema era que eu queria ser santa e era isso que estava me causando neuroses...
Acho que o Vaticano ainda não foi informado desta descoberta médica: os santos são todos neuróticos, querer ser santo é maluquice... Eu que sempre pensei que ser santo era algo especial... adorava ler a vida dos santos, colecionava imagens e mais imagens, estampas, posters... Realmente eu queria ser santa, mas isso era errado? E será que era isso que estava causando esse meu nervoso? Ah, não me convenceu! Desta aceitei a decisão de mamãe sem reclamar, não queria voltar a conversar com "aquela maluca que só sabia perguntar "por quê isso? por quê aquilo? e nunca me deixava completar uma frase sequer e explicar direito as coisas.