Estudar pra quê?
Por mais que pensasse, nada parecia me satisfazer. Tudo me dava medo e a essas alturas já tinha descoberto que nada era como imaginava. Sempre se pensava numa "turma ideal", com alunos quietinhos, prestanto atenção, aprendendo tudo, do jeito que a gente simulava no treinamento de professores. Mas, a realidade sempre vinha me atropelar e me fazer em pedaços. A mesma coisa com as empresas: não era só um lugar onde todos trabalhavam e fazia sua parte da melhor maneira possível: havia competição, fofocas, paqueras, intrigas, toda sorte de coisas com as quais não conseguiria lidar. Com medo de enlouquecer de vez a procura de uma solução, decidi que iria "tirar umas férias" e realizar alguns sonhos. Em outras palavras, "relaxar e aproveitar" e deixar para pensar no futuro depois. Durante o tempo que estava lecionando na Zona Sul, sempre passava pela porta de um outro curso que oferecia aulas de Inglês, Francês e Alemão. Já tinha terminado o curso de Alemão na faculdade e fiquei pensando se seria uma boa fazer um exame e ver se entrava num nível adiantado para complementar os estudos (pois sempre havia muito mais a aprender). Mas acabei optando pelo Francês. O curso era relativamente barato e ficava no caminho. Arranjei um horário logo depois das minhas turmas e assim era bem conveniente e, além de tudo, servia como uma distração - algo para eu esquecer por uma hora e meia aquela tortura toda a qual vinha me submetendo. O Francês era um desafio e tanto pois, até então, não sei bem porquê, tinha certa antipatia pela língua: achava que era um tanto esnobe... sei lá. O curso não era dos melhores, quer dizer, os professores eram excelentes, mas pretendia ensinar tudo que leva pelo menos 8 anos num curso normal em apenas 3, e com praticamente a mesma carga horária. Tarefa impossível. No final das contas, era uma colcha de retalhos e ficava bem difícil de se acompanhar. Mas, serviu para eu "ter uma amostra" e me apaixonar completamente pela língua - e também pela literatura e o país em si. Passei a colecionar livros com fotos de Paris, estudar mapas da frança e ler muita literatura francesa (mesmo que em traduções para o Português). Descobri que os livros que mais tinha gostado de ler na infância eram de franceses (como, por exemplo, "O Germinal" de Zola e "Jean Christophe" de Romain Roland). Gostava daquela literatura mais "descritiva", menos "psicológica" (pois a Inglesa e americana tinha ia mais nessa direção, principalmente do século 17 para cá). E estudávamos muitas canções francesas no curso, e foi outra grande descoberta: Edit Piaf, Mireille Mathieu, Charles Aznavour, Joe Dassin e tantos outros. As canções falavam de paixões intensas! Ficava com as músicas na cabeça por horas a fio, o que servia como boa distração para "esquecer as mágoas", creio que foi este curso que manteve minha sanidade enquanto dava aulas. Ao contrário da grande maioria dos cursos de Inglês, que se concentrava mais na gramática e vocabulário, o de Francês enfatizava a arte francesa, em música, verso, prosa, escultura, arquitetura, pintura. Era fascinante! E a língua em si soava sensual e poética, de uma beleza que me comovia e me apaixonava. Eu mesma me surpreendi, pois nunca pensei que iria gostar tanto. Depois de pedir demissão, este decidi também desistir deste pois ficava muito longe para ir duas vezes por semana assistir só a essa aula, uma viagem e tanto e, além disso, o curso não estava me agradando em termos de método, muito corrido. Resolvi então começar tudo de novo na Aliança Francesa, que também era meio contramão mas bem mais perto e, além disso, tinha aulas de 3 horas aos sábados de manhã, o que era mais prático. E sabia que o curso era mais longo, mas por isso mesmo, mais "mastigado" pois vivia ouvindo falar na Aliança, pois tanto Marcia quanto Julia tinham terminado o curso já a um tempo e Marcia vivia falando nele. Realmente, valeu a pena a troca de curso e agora sim estava aprendendo tudo de forma mais detalhada. A turminha era boa, alunos amigáveis (embora nunca me empenhasse muito para ter amizades que fossem além das horas do curso), professores pacientes e amáveis. Assistíamos vídeos, ouvíamos músicas, analisávamos quadros, uma delícia! Um verdadeiro oásis de prazer no meio de todo o conflito interno e das angústias que me assaltavam com relação a carreira e futuro. Era bonito ouvir e falar Francês!
Depois dos conselhos de Paula e de tanto ouvir falar e mestrado e doutorado, resolvi fazer pelo menos um curso de pós-graduação. Sentia saudades da faculdade, do prédio, dos jardins, dos corredores cheios de alunos, das aulas. Era uma boa preparação e uma espécie de prévia para um mestrado, com a vantagem de não ter defesa de tese, só monografias. Quem sabe no futuro eu encontrasse uma cura para o "meu nervoso", quem sabe mudasse e tivesse coragem de fazer um mestrado? Enquanto isso, seria bom voltar à faculdade tão querida e àquele ambiente escolar que eu gostava tanto. Como o curso de pós-graduação em Literatura Inglesa e Americana ainda estava em fase de estruturação, resolvi prestar exame para o de Teoria da Literatura, assim podia "expandir meus horizontes" e estudar literatura do mundo inteiro. Passei nos exames (tinha até uma pequena entrevista com uma professora e coordenadora do curso, mas era bastante amável e no final não fiquei muito nervosa. Já tinha tido aulas de literatura com ela na faculdade e comentei sobre isso. Ela ficou logo toda alegre porque eu era "cria da casa" e a conversa foi bem informal). O curso, de um ano de duração, era realmente fascinante, uma verdadeira viagem pelo melhor em termos de literatura. A ênfase em mitologia e sua influência na literatura. Fiz com muito prazer uma monografia discorrendo sobre o Mito do Eterno Retorno em obras como a tão querida peça de Beckett "Esperando Godot" e muitas outras utilizando as obras que mais gostava pois havia bastante flexibilidade. Estudamos também sobre psicanálise nos Contos de Fadas e o imaginário dos livros infantis (e como analisá-los em sala de aula). Como era bom aprender tanto! A mitologia me fascinava acima de tudo e, além dos livros que teríamos que discutir em sala, acabava me empolgando e lendo toda a bibliografia recomendada pelas professoras sobres os assuntos. Devorava livros e mais livros, saboreáva-os como alguém que se banqueteia com um manjar dos deuses. Assim como no curso de Francês, não me empenhei muito para "me enturmar", só conversas relativas ao curso, contatos ocasionais. A turma não era muito coesa pois havia gente de outras faculdades, algumas delas de qualidade um pouco duvidosa. Algumas alunas eram meio vulgares e faziam observações no mínimo bizarras, demonstrando um nível intelectual dos mais medíocres (nem sei como conseguiram ser aprovadas!). Mas havia também gente boa e de um nível cultural acima da média, como um senhor já de certa idade que acabou sendo o meu colega mais próximo e com quem tive mais contato. Em termos de paqueras (coisa que, embora não fosse o motivo de fazer cursos, sempre vinha à mente), nada de nada. Tinha que continuar com as minhas paixões platônicas por enquanto...
Felizmente não havia trabalhos em grupo ou com apresentação oral, só alguns pequenos debates na sala. No mais, era tudo preparação para as monografias, umas 5 no total. Embora devessem discorrer sobre certos aspectos da literatura que estávamos estudando, podíamos escolher as obras que quisessem e isso dava bastante flexibilidade. Claro que me sentia totalmente tensa pensando na hora que teria realmente que começar a escrever. Meu sistema de trabalho era sempre o mesmo: ler os livros pertinentes ao assunto, sublinhar as partes importantes e anotar num papel os tópicos e idéias que queria depois desenvolver, com base nos livros. Aí ficava meses só "ruminando" na cabeça o que escrever, anotando alguma idéia nova. Um belo dia (sempre bem antes prazo estipulado para entrega), começava a escrever e não parava mais, em um dia estava tudo pronto. Mas, até chegar o dia de realmente colocar as idéias no papel, era uma agonia só pois nunca sabia se as idéias iriam fluir, se teria inspiração, etc. No final, sempre acabava escrevendo muito e tirando boas notas, mas nunca me livrei dessa tensão. Li que muitos artistas também sentem isso antes de começaram uma nova obra.... Engraçado, eu tinha todo o comportamento artístico sem ser artista, o que sempre me deixou muito frustrada. Escrevia bem e gostava do meu trabalho, mas... muitas outras pessoas escreviam igual ou muito melhor. A mesma coisa com a pintura, com o piano, enfim, com tudo. Sempre me senti numa espécie de "limbo" entre a genialidade e a mediocridade e lembrava da frase Bíblica "se não és frio nem quente te vomito de minha boca". Parece que Deus não gosta de pessoas "mornas". Não sei se sou "morna" e acho que não me definiria assim. Mas, também não sou tão especial quanto muita gente pode pensar (principalmente na família), embora também não seja uma nulidade. Queria ser genial mas... isso é um dom, ou se nasce com ele ou não, impossível fabricar um gênio....
Embora estivesse gostando do curso, já não sentia aquele entusiasmo de antes pela faculdade. Lá pelo meio, as aulas já estavam me cansando um bocado, sentia que já estava ficando "muito velha" para ficar sentada em carteiras de salas de aula. Os assuntos abordados me faziam "viajar", mas mesmo assim me sentia meio desestimulada e, acho que um dos grandes responsáveis por isso é que era a primeira vez que estava estudando "só por estudar" e sem nenhuma "paixão" ou "queda" por algum colega de classe ou na perspectiva de alguma paquera. Os cursos ligados a didática e literatura tinham fama de "espera-marido", só um passa-tempo enquanto as mocinhas não se casavam. Creio que no meu tempo isso já não era uma realidade pois as mulheres estavam todas no mercado de trabalho, até superando os homens em certas áreas antes consideradas totalmente masculinas (muitas mulheres ocupando cargos de chefia, sendo juízas, etc). Mas, no meu caso, confesso que a definição caía bem. Como não me canso de dizer, sou uma pessoa movida a paixão e, no caso, mesmo que os assuntos fossem apaixonantes, sentia falta de algo mais...
E, como sempre, tinha que ouvir os comentários de mamãe e de outros membros da família. Quando anunciava que estava fazendo um novo curso (Alemão, Francês, Pós-Graduação, etc), logo vinha a pergunta: "Para quê serve esse curso?". Essa pergunta me irritava muito. Respondia logo, já emburrada: "serve para a pessoa adquirir conhecimento, e isso é o bem mais valioso na vida, é o que a gente leva "para o outro lado", o resto fica por aqui". Mas, obviamente, ninguém ficava convencido e choviam comentários do tipo "você tem que estudar coisas que dêem dinheiro. Você pode ganhar dinheiro depois de se formar nesse curso? Professores de Alemão são bem pagos? Qual é o mercado para tradutores de Alemão e Francês? Deve ser dos mais promissores!". No final, chegavam a conclusão de que o curso "não servia pra nada" e que eu só estava gastando dinheiro de papai. E, invariavalmente, vinha o comentário "o melhor mesmo era fazer um concurso público"! Isso me deixava fora do sério, realmente furiosa. Se estava gastando dinheiro de papai com "bobagens", cabia a ele reclamar - o que nunca fez. Papai sempre me deixou decidir o que fazer da minha vida, nunca deu conselhos não solicitados e sempre acatou minhas decisões, mesmo que não concordasse com elas. Já mamãe não se conformava... andava arrasada por eu ter pedido demissão do curso audio-visual e dizia que papai também estava muito decepcionado. Creio que realmente estava triste, mas nunca me disse nada. Isso sempre me fazia "filosofar" sobre a sociedade. Embora ainda achasse que a capitalista fosse a opção "menos pior" e não pudesse reclamar de uma "sociedade consumista" (se eu própria adorava comprar toda sorte de badulaques e sempre embarcava nas "orgias consumistas" provocadas por filmes ou artistas, comprando toda sorte de posters, revistas, álbuns de figurinhas, cadernos, etc, etc, etc.), tinha que reconhecer que havia muitas falhas no sistema. Numa sociedade voltada para o consumo e para o capital, tudo tinha que se transformar em ganho, lucro, enfim, dar dinheiro. Os cursos não eram avaliados pela qualidade e pela quantidade de ensinamentos e pelo grau de cultura que nos proporcionava, mas sim pelo que poderiam nos fazer lucrar no futuro, com uma carreira no ramo. Que tristeza ter que conviver com uma cultura assim, toda voltada para o ganho! Não fazia os cursos com intensão de ficar rica utilizando os conhecimentos, mas sim para obter mais cultura, pelo amor do saber. Sei que é algo até egoísta pois visa somente à satisfação própria, quase como uma "masturbação mental" e levando para o lado religioso poderia-se até dizer que era um pecado eu somente "acumular talentos" sem compartilhá-los com meus semelhantes. Mas, o que se pode esperar de uma fóbica social tem sempre dentro de si o pensamento que "o inferno são os outros", que a sociedade é sua maior antagonista? Os fóbicos sociais são egoístas por natureza (pelo menos eu acho que sou!) pois não sabem e não conseguem compartilhar, as implicações sociais são muito complexas, a pressão muito grande, as cobranças.. infinitas e enervantes! Mas sempre tinha que ouvir a pergunta "pra quê serve?" toda vez que fazia um curso, ouvia uma palestra ou algo no gênero.
A pós-graduação acabou sem muitos sustos a não ser por dois episódios que, embora pareçam totalmente insignificantes para o resto do mundo, me marcaram muito. Um dos professores, embora muito inteligente e competente, era um tanto "excêntrico", temperamental e, para piorar, tinha um nome bastante incomum. Nas monografias, tínhamos que colocar o nome completo do professor, além de muitas outras informações do gênero, tudo dentro de um esquema determinado. Quando fui datilografar a monografia do curso dele, não conseguia atinar se o nome começava com "s" ou "c" e fiquei com vergonha de perguntar a alguém. Comparando a outros sons e palavras semelhantes, optei pelo "c". Quando o professor estava com a pilha de monografias corrigidas para nos devolver, disse que alguns trabalhos tinham sido muito ruins e que houve até gente que escreveu o nome dele com "c"! Ouvi os murmúrios de "que absurdo!" "que burrice!!" até da parte daquele meu amigo. Para disfarçar, também fiz cara de quem estava indignada com a falta imperdoável. O professor não disse o nome da aluna (no caso, eu!) mas fiquei me sentindo como uma condenada. A nota foi boa e ele nem sublinhou ou corrigiu o erro em seu nome, mas o episódio me magoou um bocado. Creio que pela primeira vez na vida, dava um "atestado de burrice", embora creio que ninguém tivesse percebido quem era o autor de tal erro imperdoável pois tratei logo de guardar a monografia na mochila sem maiores comentários. Foi um grande trauma em minha vida, fiquei muito tempo remoendo a mágoa de ter dado essa mancada. O outro episódio "traumatizante" foi ligado a uma professora que faltava muito e nunca definia o tipo de monografia que devíamos preparar. No final, depois de desaparecer por mais de um mês, apareceu para dizer que queria que fizéssemos uma espécie de plano de aula baseado na literatura infantil que estávamos estudando (quer dizer, que ela havia dado uma lista para nós lermos, pois pouco tivemos aulas e discussões sobre o tema). O tema era vago e ela não orientava bem. Por conta disso, não sabíamos bem o que ela queria. E ela propôs o tema quase em cima da hora, já no finalzinho do semestre. Usei de toda a minha criatividade e capacidade de "enrolar" mas sempre achando que estava fazendo tudo errado e que iria levar um zero. Felizmente, tirei boa nota e a média final do curso foi excelente: tirei nota máxima em quase todas as monografias.
Este episódio da professora que nunca aparecia e no final nos "jogou" o assunto na última hora para a monografia contribuiu, creio eu, para um medo que sempre tive: de não cumprir com meus compromissos no prazo esperado e chegar ao final sem saber o que fazer e sem entregar o trabalho. Creio que já tinha um pesadelo recorrente sobre isso antes da pós, mas o incidente só fez isso piorar. Até hoje vivo tendo esse pesadelo de vez em quando. Sempre estou na sala de aula sem ter preparado a matéria, com uma prova na mão e sem saber o que fazer pois o professor não tinha aparecido, não tinha explicado a matéria. Mas, no sonho, todos os outros colegas sabiam e completavam a prova, menos eu. Ficava lá olhando para a prova em branco e me sentindo desesperada pois ia chegando a hora de entregar e não tinha escrito nada. Engraçado que isso nunca aconteceu em minha vida, nunca entreguei uma prova em branco. Tive professores faltosos e descuidados (como esta da pós e outros no tempo de colégio) mas sempre aprontei trabalhos e estudei a matéria, mesmo que com prazo curto e pouca orientação. Mas o pesadelo me persegue sempre, e quando acordo, sinto uma imensa sensação de alívio por não estar mais naquele ambiente escolar, ligada a milhares de compromissos com relação a provas e trabalhos. Creio que o pesadelo só reflita o "medo de falhar" que persegue os fóbicos sociais, mas acho interessante que ainda sonhe com isso depois de anos sem frequentar nenhum curso... mistérios da mente humana!