"Aqueles que aqui entram, percam as esperanças" (frase escrita na porta do inferno na "Divina Comédia", de Dante Alighieri)

 

No final de cada semeste, preenchíamos uma ficha dizendo quais eram nossas preferências com relação a filiais, turmas, etc. Sempre colocava que a primeira opção era a filial pertinho lá de casa e coloquei também que não queria turmas de crianças nem de "juniors" (pois assim me livrava daquela turma que só sabia me chamar de cachorro e também do stress de cuidar das crianças). Mas creio que essas fichas nem eram lidas pelos diretores ou pessoal do Dep de ensino. Fiquei muito triste porque não consegui nenhuma turma para o próximo semestre na filial do Centro, era uma filial pequena, sem muitas turmas. Também perdi minha turma de adultos, que fechou por não ter uma quantidade mínima de alunos (o curso estava desistindo dessas turmas para se concentrar mais em crianças e adolescentes e por isso não incentivava muito essas turmas). Deram-me uma turma de crianças numa filial um pouco mais perto, mas assim mesmo contra-mão e tinha que pegar ônibus e depois andar um bocado para não ter que pegar dois (e era na parte da manhã!). Deram-me também uma turma na Zona Sul (ou duas) mas minha memória fica nublada nesse ponto. Creio que eram de nível básico, mas não me recordo. Creio que não foi tão ruim, senão, creio que me lembraria...

 

Logo nos primeiros dias de aula os professores ficaram todos alvoroçados por conta de um cartaz na nossa sala, gabando-se de terem tirado notas altas e comparando com as dos colegas. Fui ver do que se tratava o tal cartaz. Continha uma relação de todos os professores com a respectiva "nota de desempenho". Para calcular o "desempenho" do professora, elaboravam um cálculo (não me recordo os detalhes) no qual consideravam o número de desistências no semestre, em cada turma e a média das notas de todos os alunos. Minha nota era uma das mais baixas, e, provavelmente, alguns professores deveriam estar cochichando a respeito disso. Achei o método de avaliação totalmente absurdo e injusto, longe de espelhar a realidade. Eu tinha poucas turmas e uma era de adultos. Adultos sempre desistem muito ao longo do curso, as crianças e adolescentes quase nunca desistem pois estão lá, muitas das vezes, obrigadas pelos pais, estes é que decidem. Além disso, o desempenho da turma de adultos é sempre mais fraco pois criança aprende mais rápido, principalmente em se tratando de línguas estrangeiras. E também tinha aquela turma "junior" com alunos que não prestavam atenção, não faziam exercícios, não estudavam e alguns bem sonsos. Por conta disso, minha "nota" foi bem ruim. Fiquei muito embaraçada e também revoltada com a injustiça da coisa e resolvi fazer um comentário de desdém: "ah, eu nem olho para essas notas, acho isso tudo uma tremenda bobagem, parece até aquela coisa de retratinho com "funcionário do mês", só falta jogarem o osso para o cachorrinho de circo". Ninguém falou nada, mas acho que a administração do curso acabou percebendo que a coisa era realmente surrealista pois aboliu essas "notas" um pouco depois. Além do cartaz com as notas, havia outro de "convocação" (e já comecei a tremer só de pensar que podia ser outra "reciclagem"). Felizmente, não era. Todos os professores do curso (que ainda não tinham feito), deveriam fazer os exames de Inglês como Língua Estrangeira, chamado TOEFL em outubro. Diziam que a nota tirada nesse teste tinha muito peso na hora de escolherem quem iria ficar com qual turma, etc... Comprei apostilas para me preparar (principalmente para a parte de compreensão oral, pois era um tanto complicada), relembrei a gramática mas não me preocupei muito pois, afinal de contas, já tinha meu diploma universitário e todos os outros colegas da faculdade haviam passado sem problemas.

 

Não gostei muito do ambiente na nova filial, que era muito grande. Muitas turmas, salas de espera apinhadas de alunos fazendo a maior algazarra. A diretora, embora se mostrasse amável comigo, me intimidava um bocado. Diziam que já tinha sido chefe do departamento de ensino por muitos anos e tinha uma pose bem altiva, eu diria até um pouco esnobe. Não consegui me sentir a vontade, todos os funcionários e até os professores pareciam mais frios, distantes, achando-se superiores. E os alunos eram tidos como os mais terríveis de todas as filiais, todos filhos de famílias muito ricas e se achando melhores do que os professores, meros "escravos" e servidores, "pagos para aturá-los". De vez em quando ficava com pena de alguns alunos. Realmente, eram um bocado mimados, mas, em compensação, a maioria era um bocado carente de atenção e amor. Os pais, trabalhando o dia todo e com outros afazeres, matriculavam as crianças em inúmeros cursos para depois das aulas na escola, um atrás do outro: judô, natação, dança, música, Inglês, Francês e por aí afora. Cabia aos avós ou alguma empregada ficar levando de um curso para o outro. Tínhamos a impressão de que as famílias queriam era se livrar dos "pestinhas" o mais que pudessem e eles, embora não reclamassem, se ressentiam desse "abandono". Muitas vezes vi alunos na sala dos professores, ardendo de febre, chorando, sem ter ninguém disponível para os buscar. Podia-se ver a desolação e o sentimento de rejeição e abandono estampado nas faces. A turma de crianças (na mesma faixa de 7 e 8 anos) era bem grande, mas tirando uns 3 alunos "bagunceiros", até que não me dava muita dor de cabeça. Quando um aluno causava muito problema, a gente colocava uma nota na ficha e as secretárias ligavam para os pais, para colocá-los a par. Nas outras filiais eles só ligavam (se é que ligavam...) mas nesta, para minha surpresa, um pai veio falar comigo pois reclamei do menino que não prestava atenção e só queria fazer bagunça o tempo todo. O pai foi bastante gentil comigo, felizmente, e disse que ia ter uma conversa séria com o garoto. Realmente, ele se acalmou um pouco. Mas sempre continuava a tensão de ficar dando broncas e chamando atenção o tempo todo, é muito difícil manter crianças dessa idade atentas por muito tempo assistindo slides ou mesmo colorindo figuras no livro. Continuava pegando um resfriado atrás do outro, o que me deixava ainda mais exausta, sempre tinha uma criança ou outra com nariz escorrendo e tossindo... Todos os dias, quando chegava na filial, sentia um frio na barriga pensando que seria a vez da diretora "me assistir". Finalmente, chegou o dia e procurei manter a calma e, graças a Deus, os alunos estavam mais quietos naquele dia (provavelmente intimidados com a figura da diretora na sala, cheia de pose). No final, disse que minha aula tinha sido muito boa e que eu mostrava bastante domínio da turma, mas apontou umas pequenas falhas aqui e ali (ao contrário dos outros diretores que só assistiam mesmo "para constar" e só reclamavam se o professor fizesse algo totalmente errado ou absurdo). No outro dia, na sala de professores, algumas colegas comentavam que a diretora estava toda entusiasmada com uma aula que havia assistido numa turma de crianças, que a professora era excelente, uma das melhores aulas que ela já assistiu, e por aí afora. Meio sem graça e quase sem acreditar confessei que se tratava de mim. Todas me parabenizaram (não sei se houve despeito ou inveja por parte de alguém, mas sempre há, creio que é parte da vida). Foi muito bom ouvir esse comentário pois me achava a pior das piores, indigna mesmo de ser chamada professora, sempre achava que as aulas eram caóticas e que, por conta das bagunças, nunca conseguia explicar nada direito e fazer tudo "conforme o figurino" (sempre aquela baixa auto-estima dos fóbicos sociais, misturada com a mania de perfeição). Muitas vezes, ia para a sala tão desencorajada que decidia "ligar o piloto automático", dar minha aula sem me preocupar se os alunos prestavam atenção ou não, simplesmente fazer tudo como se eles nem estivessem ali pensando que, afinal de contas, de um jeito ou de outro recebia meu salário. Mas nunca conseguia, sempre tinha que levar tudo que fazia muito a sério. A partir de então, a diretora era "toda sorrisos" para mim e achei que era bom sinal - quem sabe conseguia turmas mais adiantadas para o próximo semestre.

 

Mas a tensão era grande demais. Ficava cada vez mais nervosa: palpitações, insônia, resfriados, diarréias, depressão. Não conseguia me ver dando aulas por muito tempo, achava aquilo tudo insuportável, principalmente por conta da tensão de estar sempre sendo avaliada pela diretoria, sendo chamada para substituir professores faltosos, lidar com alunos problemáticos e ter que conversar com os respectivos pais, a perspectiva de muitos outros "cursos de reciclagem" durante as férias, tudo isso rodando na minha cabeça. Junte-se a isso as tentativas desastrosas de tratamento com psicólogas e psiquiatras, que só me faziam sentir mais derrotada e revoltada com a vida. O psiquiatra receitou um bando de remédios que, além de não fazerem com que me sentisse mais calma, ainda me faziam ficar com a boca totalmente seca, o que é bastante ruim no caso de uma professora que tem que ficar horas e horas falando (juntando-se as dores de garganta quase que constrantes e a tosse). Fui caindo num estado de prostração muito grande, pegava o ônibus para o trabalho como sentindo-me como um boi indo para o matadouro. Para ver se me estimulava um pouco, comecei a me utilizar de um recurso do qual geralmente lançava mão quando tinha que passar por uma situação de tortura ou sofrimento intenso - a religião. Ficava rezando e oferencendo o "sacrifício intenso" em favor das Almas do Purgatório ou para a conversão dos pecadores, ou para saúde de algum membro da família, ou para o perdão dos meus pecados, etc. Talvez, se eu estivesse "lutando por uma boa causa", conseguisse juntar mais coragem para ir em frente pois só sabia fazer as coisas por amor a uma causa qualquer. No caso do estágio no banco federal, a "boa causa" era ganhar o suficiente para comprar meu tão sonhado piano. Mas, nessa época das aulas, eu já ganhava um boa mesada de meu pai e supria bem as minhas necessidades (geralmente compra de livros, vídeos e CDs). Trabalhar só para "ser independente" é coisa que nunca me passou pela cabeça, o próprio conceito soa vazio na minha mente. Vou me deter mais nesse aspecto no capítulo "Malandrinha". Mas, nada adiantava muito. Para mim, estava vivendo um verdadeiro pesadelo, tudo parecia um massacre, uma tortura física e mental quase além das minhas forças. Para piorar ainda mais as coisas, depois de uma "calmaria" durante os 8 anos que cursei faculdade, minha mãe ficou muito doente. Começou com uma depressão: não tinha mais vontade de fazer nada, não fazia mais piadas, não sorria. Nem as novelas conseguiam empolgá-la mais. Consultou um médico clínico geral que que tinha consultório no prédio ao lado do nosso e que já tinha cuidado de minha avó, mamãe confiava muito nele porque "era espírita", embora sempre achei que era um grande charlatão e que os "passes" eram só de fingimento - e ficou milionário com isso pois todos os espíritas iam se consultar com ele. O pessoal gostava dos "passes", mas, no final, ele sempre receitava remédios fortes e inventava uma desculpa para a pessoa ir ao consultório uma vez por mês, obviamente para garantir o ganho mensal. Fui algumas vezes me consultar com ele e não gostei nem um pouco. O médico receitou um tranquilizante fortíssimo. Pouco tempo depois, mamãe começou a se comportar de maneira estranhíssima. Além de piorar a depressão e o rosto perder todos os traços de expressão - como se fosse uma máscara - tinha crises nas quais "sentia um nervoso" pelo corpo todo e tinha que ficar se movimentando sem parar. Andava pela sala em círculos por horas a fio, mesmo no meio da madrugada e, quando ficava parada, ficava como que "marchando" com os pés. Sentada, cruzava e descruzava as pernas sem parar e ficava torcendo as mãos. Isso a deixava nervosa (obviamente) e, por conta disso, também chorava e vomitava quando tinha as crises. Foi um período realmente negro de minha vida. Por um coincidência infeliz, as crises noturnas de mamãe quase sempre aconteciam na véspera de um dia no qual eu tinha que dar aulas de manhã e, com isso, não pregava olho a noite inteira e ia trabalhar morrendo de preocupação. O médico não sabia o que fazer, receito remédios ainda mais fortes e ela só piorava. E se recusava a ver outros médicos. Ficou tão mal que alguns parentes pensaram que ia morrer e alguém comentou com um dos irmãos dela "vai visitar a sua irmã e vê-la pela última vez".

 

A toda tortura de dar aulas, ainda se juntava a tensão e o cansaço por conta da doença de mamãe e a incerteza com relação ao futuro. Era demais! Fui ficando cada vez mais nervosa, sentia que estava chegando ao fundo do poço. Tinha vontade de desaparecer, pegar um ônibus qualquer e viajar sem destino, chorar e gritar. Mas "o show tinha que continuar" e lá ia eu dar minhas aulas me sentindo uma condenada a todos os sofrimentos do mundo. Só depois de muito tempo, com a ajuda de meu irmão (para o qual liguei desesperada e chorando pedindo apoio), conseguimos convencer mamãe a ver uma neurologista (pois meu irmão conversou com um médico amigo dele e disse que era provavelmente algo neurológico). Depois de muitos exames, foi diagnosticado Mal de Parkinson e começou o tratamento: só existe um remédio, bastante forte, que causa muitos efeitos colaterais no início (náusea, tontura, prisão de ventre, etc) mas que foi fazendo com que ela melhorasse a olhos vistos. A médica receito também Anafranil e mamãe, com o tempo, se transformou noutra pessoa a ponto de eu estranhar e até comentar que tinha uma nova mãe. Ela, que só vivia em casa e mal saía para o aniversário dos netos, passou a não perder um evento social na família, com o maior dos entusiasmos. Não recusava um convite para um passeio, visita ou festa. Mas isso não foi de um dia para o outro, durante este período de aulas no curso, ela esteve mal todo o tempo e eu ia para o trabalho sempre pensando se ia encontrá-la viva ao chegar em casa...

 

Pelo menos uma coisa boa: consegui passar no TOEFL com nota bastante alta. Quando comentei com outros professores, quase ninguém tinha nota maior do que a minha. Isso, teoricamente, me daria prioridades na distribuição de turmas mas... teoria na prática é sempre outra coisa, creio que o que valia mesmo era o "puxa-saquismo" como, aliás, acho que acontece em todo lugar do mundo. Consegui umas turmas de nível 1, tanto na filial mais ou menos perto de casa quanto na da Zona Sul, mas isso não é um grande feito pois colegas que fizeram comigo o treino de professores, sem nível universitário, sem nota tão alta no TOEFL nem nada, já tinham turmas do nível adiantado (e era bem mais tranquilo... é muito mais difícil ensinar aos principiantes que não sabem nada. Os níveis adiantados já "filtraram", por assim dizer, quem não tem talento ou disposição de estudar). Talvez, pensando de maneira positiva, reservassem os melhores professores para essas turmas de iniciantes posto que é mais difícil lidar com eles mas... não sei não. Foi um período tão conturbado em minha vida que nem me lembro de muita coisa. Só lembro de um incidente que aconteceu já no final do semestre, quando estava aplicando as provas em turmas de outros professores. Era uma prova escrita, numa turma de nível intermediário. Havia uma aluna deficiente física, numa cadeira de rodas. Ninguém me deu recomendações especiais com relação a ela e, aparte o fato de não poder andar, não percebi que tivesses dificuldades de aprendizado ou algum problema com os braços ou mãos para escrever. Sempre fico sem saber como lidar com pessoas deficientes: não sei se querem ser tratadas como qualquer outra pessoa, mostrando que a deficiência não as faz inferiores aos outros ou se vão ficar ofendidas se a tratarmos como "especiais" ou incapazes. É sempre pisar em ovos. Todos os alunos entregaram as provas e ela ficou. Os alunos tínham 1 hora e meia para completar a prova, o tempo de uma aula. Já havia passado o tempo e avisei a ela, o mais delicadamente possível, que já era hora de terminar a prova. Mas ela disse que ainda faltava um bocado e fui esperando pacientemente, por mais meia hora. Mas achei que não era justo com os outros alunos dar todo esse desconto a ela e, além disso, havia outra turma me esperando. Se deixasse ela ficar o tempo que quisesse, teria que chamar outra pessoa para ficar com ela na sala. Resolvi então avisar de novo e acabei recolhendo a prova. Ela ficou lá parada e mais uma vez não sabia se devia empurrar a cadeira de rodas até a saída ou deixá-la manobrar as rodas com as mãos, pois sei que alguns se ofendem quando a gente oferece ajuda. Mas, como ela lutava com as rodas, acabei levando-a até a entrada do curso, onde alguém a esperava. Dias depois, a diretora me chamou em sua sala perguntando o que tinha acontecido enquanto aplicava a prova na turma da garota deficiente. Expliquei o que aconteceu. Ela disse que a mãe da garota tinha feito um escândalo no curso e que tinha vindo falar com ela, furiosa, dizendo que a filha tinha sido destratada por uma professora estúpida e cruel que tinha praticamente arrancado a prova das mãos dela. Expliquei à diretora que não tinha sido assim e que já tinha dado um desconto de mais de meia hora para ela terminar a prova. Ela comentou algo como "ah, você sabe como são esses pais!". Na hora não percebi que esse episódio ia ser a minha ruína naquela filial. No final do semestre, a diretora, fingindo tristeza, disse que lamentava muito mas que não tinha nenhuma turma para mim naquela filial no próximo semestre. Sei que havia turmas de sobra, na hora não cheguei a atinar com o motivo pois, afinal de contas, ela havia me elogiado e comentado sobre minha aula com outros professores e tudo. Só depois de muito tempo me toquei que só pode ter sido por causa desse incidente infeliz e da minha falta de tato.

 

Só me restou a filial da Zona Sul, a que eu mais detestava. A essas alturas, a diretoria mudou, o que me fez ficar inda mais insegura pois gostava muito do diretor. Agora era uma diretora nova e não sabia o que esperar dela. Parecia gentil mas... nunca se sabe! Durante esse tempo todo, contei com a força e o apoio de Angelica, embora não trabalhassemos mais na mesma filial (ela continuava na do centro) e fiz amizade com uma professora que lecionava na filial Zona Sul, Paula. Muitos a consideravam excêntrica pois tinha uma inteligência muito acima da média, a nível de gênio. Mestrado e doutorado em literatura, traduzia livros para editoras de certo renome, escrevia seus próprios livros e trabalhava de pesquisadora para o Ministério da Educação. Tinha um senso de humor também genial, vivia rolando de rir por conta de suas piadas e histórias hilárias por conta dos foras e gafes que costumava dar. Era um alívio e tanto conversar com ela no meio daquela tensão toda que me rodeava. No outro semestre, foi despedida, e olha que era uma das mais capazes (não só dominava o Inglês, mas também várias outras línguas). Mas, não se abalou. Gostava de lecionar e começou a dar aulas para pequenas turmas numa salinha no próprio prédio onde morava e foi muito bem-sucedida com o seu "mini-cursinho". Passamos a sair juntas e frequentei sua casa por um bom tempo, os irmãos e a mãe também geniais e muito amáveis, passávamos horas e horas conversando sobre história e cultura em geral, uma maravilha! E, com um dos irmãos, sobre música pois era regente de um coral. Pelo menos a minha vida social não estava morta de vez e me sentia à vontade com eles. Mas o fato de terem despedido Paula me fez perder ainda mais a fé naquele curso! Depois dois anos nesse sofrimento, deram-me só uma turma de primeiro ano básico na filial Zona Sul. Tomei uma resolução: a filial era longe, eu perdia um bocado de tempo espremida em ônibus lotados, presa em engarrafamentos, perdia praticamente a tarde inteira. Fazer isso só por uma aula de 1 hora e meia, só se a turma fosse boa e não me desse muita dor de cabeça. Se a turma fosse ruim, arranjaria uma desculpa e pediria demissão. Quando começaram as aulas, notei que alguns rostos me pareciam "familiar".... era aquela turma de "junior" que me detestava e ficava latindo o tempo todo para me humilhar. Havia muitos alunos novos e muitos dos antigos haviam saído (talvez reprovados) mas alguns dos mais terríveis (incluindo um menino que eu levei uma vez escada abaixo para falar com o diretor) estavam lá. Estava decidido, não iria aguentar aquilo e cheguei mesmo a conclusão de que só me davam mesmo as piores turmas, aquelas que todos os outros professores haviam rejeitado - por isso essa turma acabava sempre na minha mão.

 

Outras professoras teriam reclamado logo no início. Provavelmente pediriam para que o "nome de guerra" fosse trocado (embora eu nunca tenha tido problemas com relação a isso em outras turmas). Vi muitas professoras batendo o pé, rejeitando certas turmas e chegando num acordo com a diretoria ou até mesmo com o Dep de Ensino. Mas, não tinha coragem... Até para pedir demissão era uma tortura pois precisava arranjar uma boa desculpa. Se dissesse que era porque não estava satisfeita com as turmas, etc, eles sempre iriam querer conversar, tentar me convencer a ficar. Nessas alturas, Gabriel também tinha sido "dispensado" do curso por falta de turmas. De qualquer jeito, ele também já estava farto e, por isso mesmo, só aceitava turmas em certos horários limitados e exigia nível adiantado. Estava dando aula num curso que mantém convênio com empresas de grande porte e os professores dão aulas na própria empresa, às vezes particular, outras para um pequeno grupo. Estava gostando mais desse sistema, embora eu achasse que também não iria me sentir bem, ainda com "trauma de empresa" por conta do curso de Adm. Mas, de qualquer jeito, isso me deu uma idéia. Ele estava dando aulas numa grande multinacional para alguns gerentes. Inventei então a minha história: como era também formada em Adm, tinha feito entrevistas e sido contratada para ser secretária nessa multinacional e tinha que começar em um mês. Com o coração aos pulos, conversei com a diretora, que não se mostrou aborrecida (pois teria que arranjar outra professora para me substituir) e até me parabenizou pelo novo emprego. Realmente, ninguém em sã consciência rejeitaria um emprego desses, cheio de possibilidades de ascensão no futuro, numa das mais conceituadas e bem-sucedidas das multinacionais para ficar dando aulas num cursinho. Não tinha como debater ou tentar me fazer desistir. Pediu um prazo de duas semanas para arranjar outra professora e cuidar da papelada relativa à demissão, o que aceitei prontamente. Na sala dos professores, dei a notícia aos colegas que se mostraram bastante alvoroçados. Uma colega com a qual eu conversava muito, nossos horários sempre coincidindo no curso, soltou a bomba: "Ah, você vai trabalhar nessa empresa? Eu trabalhei lá por 3 anos! Vai trabalhar com quem, em qual departamento?". Senti um nó na garganta e devo ter ficado vermelha feito um pimentão. Por dentro, xingava a minha má sorte pois todo mundo podia mentir de vez em quando, menos eu, era sempre pega! Obviamente me atrapalhei toda para dar a resposta, mas fui contando com o pouco que Gabriel me contava. Disse que ia trabalhar no terceiro andar, no Departamento de Pessoal, mas que ainda não sabia com quem, ainda tinha que ir lá outras vezes para conhecer a equipe (a desculpa soou muito falsa e, provavelmente, ela a todos notaram que eu não sabia nada sobre a empresa e era impossível que tivesse sido contratada sem nem saber para quem iria trabalhar. Ela ainda insistiu um pouco: "Ah, foi justamente nesse andar que trabalhei! Conhece o fulano? O Sicrano?". Eu tentando inventar desculpas e mudar de assunto. Fui salva pelo "gongo", soou a campainha para o início das aulas e precisávamos trabalhar. No dia seguinte, liguei desesperada para Gabriel pedindo mais detalhes sobre os alunos dele na empresa, alguns nomes, etc, em caso da colega continuar insistindo. Felizmente, não tocou mais no assunto (provavelmente percebeu que era só uma desculpa para sair do curso). Mas fiquei um bocado envergonhada por conta desse episódio. Que falta de sorte! Milhares de empresas e a menina tinha que ter trabalhado logo nessa!

 

Quando avisei à turma, alguns poucos alunos lamentaram, outros ficaram neutros e não tiveram nenhuma reação. Ainda bem! Se fosse a turma completa conforme peguei naquele primeiro semestre, com certeza teriam dado gritos de alegria e feito uma festa para comemorar minha saída. Toda a burocracia terminada, senti-me livre, leve como uma pluma, como se tivesse tirado um enorme peso de minhas costas. Não teria mais que me submeter àquela tortura, podia viver em paz. Viver em paz? Ao mesmo tempo, senti uma enorme tristeza. Era mais uma derrota, mais uma tentativa fracassada e, após o alívio, veio a sensação de vazio. O que fazer da minha vida? Começar tudo de novo? Creio que não tinha mais paciência para isso. Mas era preciso ter uma carreira, garantir meu futuro, afinal de contas, meus pais não iam viver para sempre. Mas, por mais que pensasse, não encontrava nada que gostasse de fazer - a não ser ler e estudar. Paula me aconselhava: "se eu fosse você, fazia um curso de mestrado e depois doutorado!". Naquela época, o Governo pagava uma bolsa para quem cursava, e até que era um bom salário. Depois, podia ser pesquisadora como Paula. Mas, Paula era um "gênio" de verdade, não uma farsa, um "mito" de gênio como eu. Além disso, teria que preparar e defender teses e só de pensar nisso já tremia toda. Nunca poderia me imaginar em frente a uma banca examinadora explicando minha dissertação, respondendo a perguntas desafiadoras, isso me apavorava demais.

Hosted by www.Geocities.ws

1