O pesadelo continua...
Não sei se era fruto do stress, fazendo minhas defesas se enfraquecerem, culpa do ar refrigerado sempre geladíssimo (vivia reclamando com os operadores e até algumas mães de alunos comentaram comigo numa festinha que os filhos sempre reclamavam da sala estar gelada. Mas, ao que parece, todos os outros professores gostavam assim, e alguns até já deixavam ligados quando saíam no turno da manhã. Por mais que pedisse, sempre encontrava o dito cujo ligado no máximo e a sala parecendo geladeira), ou então por conta do contato tão próximo com um bando de crianças - e sempre havia uma ou duas com nariz escorrendo, tossindo, etc. Ou tudo isso junto. O fato é que pegava um resfriado atrás do outro, sem tréguas. E resfriados dos mais fortes, com faringite, tosse, às vezes até febre. Claro que isso ainda fazia com que me sentisse pior dando as aulas. Tinha que fazer um esforço enorme para sair ao menos um fio de voz, a garganta doendo terrivelmente. Sentia-me fraca, exausta, com a cabeça a ponto de estourar. Durante TODO o tempo em que trabalhei no curso, quando começava a me recuperar de um tremendo resfriado, pegava outro. Sentia-me deprimida, doente, não conseguia dormir (principalmente nas vésperas de dias de aula). Estava no meu limite, não podia continuar assim. Mas, desistir de tudo e partir para outra novamente? Havia algo muito errado comigo, por quê eu não conseguia me adaptar a nada, por quê sempre me sentia inadequada e derrotada? Não podia continuar assim, ia acabar enlouquecendo. Só vislumbrava uma saída. Era preciso buscar ajuda de psicólogos, psiquiatras, o que fosse. Meu cérebro não funcionava bem, eles precisavam "me endireitar". Precisavam fazer com que eu gostasse do meu trabalho, com que eu me divertisse com as crianças, com que não me importasse com os deboches, que não tremesse toda vez que estava sendo avaliada. Foi então que comentei com uma parenta que "estava a ponto de pirar" e ela me indicou uma psicóloga. A partir de então, vivi uma verdadeira maratona de tratamentos psíquicos, psiquiátricos, neurológicos, mas conto a história com todos os detalhes no capítulo sobre tratamentos.
Havia outro motivo para que vivesse em tensão quase que permanente: os diretores de cada filial onde lecionávamos eram obrigados a assistir uma aula nossa a cada semestre, preenchendo um relatório para ser enviado ao Dep de Ensino. Como não havia dia marcado para isso, eu vivia em constante tensão e, sempre que chegava nas filiais e pegava minha pasta, ficava imaginando se a diretora ou o diretor iam aparecer na sala dos professores e dizer que era o "meu dia". Toda vez que entravam na sala (e muitas das vezes era só mesmo para bater um papo conosco ou dar algum aviso), meu coração batia feito um tambor e sentia um frio no estômago. Conforme já comentei, a teoria na prática é outra e, em meio àquela balbúrdia toda, era muito difícil seguir o método a risca, ainda mais com tantos pequenos detalhes e procedimentos (quase como um cerimonial). Mas os diretores também davam aulas e, provavelmente, sabiam disso... Os dois eram gentis e tinha com eles um bom relacionamento. Mas a idéia de que iriam ficar ali assistindo a minha aula e anotando tudo o que eu fazia me dava calafrios. Começou a virar obcessão. Um dia a diretora da filial centro disse que precisava assistir minha aula. Assistiu um pouquinho, disse que estava tudo bem, piscou para mim como se dissesse "é só mesmo uma formalidade!" e nem ficou até o fim. Senti um alívio imenso. Depois foi a vez do diretor da outra filial. Sabia que ele era um "doce" e que era no mesmo esquema da outra diretora, só mesmo para constar. No final, disse que estava tudo bem. Houve uma vantagem: no dia que ele assistiu, os alunos se comportaram muito melhor. Talvez fosse uma boa idéia ele assistir a todas as aulas! Mas, de um jeito ou de outro, durante todo o tempo que lecionei no curso, sempre ficava com esse terror esperando o dia de ser "assistida".
Havia ainda outro motivo para tensão constante e muita chateação. O curso tinha como política nunca mandar os alunos de volta para casa sem aula. Se um professor professor faltava, tinha sempre que haver outro para substituir. A diretoria sempre nos aconselhava a avisar com certa antecedência, na medida do possível (mesmo ligando para a casa dos diretores), quando precisaríamos faltar para que estes pudessem encontrar outro professor disponível para nos substituir. Isso deixava os diretores um bocado estressados e, muitas das vezes, aborrecidos (e não os culpo por isso, acho que me sentiria péssima se estivesse no lugar deles). Se não encontrassem ninguém, eles mesmos teriam que dar a aula (e alguns tinham turma e, se fosse no mesmo horário, a coisa ficava mais complicada ainda e, como último recurso, tinham que se revesar entre as duas turmas, um pouquinho aqui, um pouquinho ali, passando exercícios para manter os alunos ocupados, etc). O problema é que os professores faltavam um bocado, principalmente em semanas que tinham algum feriado. Algumas vezes estavam doentes mesmo, mas vi muitos professores arranjando todo tipo de desculpa esfarrapada e notava que a "incidência de doenças" aumentava sensivelmente nessas épocas pré ou pós feriadão, indo quase a níveis estratosféricos. E "sobrava" para os professores que estavam, por um milagre qualquer, gozando de boa saúde apesar dos feriados... Está certo que nos pagavam pela aula extra, mas não valia o sacrifício. Como a maioria dos professores trabalhava em várias filiais, havia sempre um que "dava uma mãozinha" ao diretor indicando alguma vítima, quero dizer, professora, que provavelmente poderia substituir o faltoso. Como eu tinha poucas turmas, era uma das principais "vítimas". Choviam telefonemas de diretores desesperados perguntando se eu podia dar uma aula em Ipanema às 8 da noite, ou em Bangú às 8 da manhã e assim por diante. Quase sempre nos lugares mais longínquos e nas horas mais impróprias (pois era perigoso para pegar o ônibus e voltar tão tarde). Sempre que podia, arranjava uma descupa. O melhor mesmo seria não atender ao telefone, mas era sempre mamãe que atendia e, invariavelmente, mesmo que eu dissesse que "não estava para ninguém", me chamava "pois podia ser algo do meu interesse". Uma vez "dei sorte". O telefone tocou quando estava passando por perto e atendi. "-Alô, eu gostaria de falar com a Ana Lucia". Respondi logo que não havia nenhuma Ana Lucia, que era número errado. A pessoa se desculpou, desligamos. Dois minutos depois, toca o telefone de novo, a mesma pessoa procurando a tal de Ana Lucia. Algo me dizia que havia algo errado mas, realmente, não havia nenhuma Ana Lucia! A pessoa então desistiu. No dia seguinte, Silvia me disse que tinham tentado ligar para mim mas parecia que o meu número de telefone estava errado pois diziam que não havia nenhuma Ana Lucia. Como já há um tempo meu "nome de guerra" era o sobrenome que lembrava raça de cachorro, tanto Silvia quando a diretora acabaram se confundindo e pensando que este era meu nome. Dei graças a Deus de ter atendido ao telefone pois se minha mãe tivesse atendido, teria invariavalmente perguntado à pessoa: "Não seria Maria Lucia? Aqui tem uma Maria Lucia!" e eu teria que substituir uma professora em Copacabana não sei a que hora da noite. Livrei-me por pouco! Mas uma vez não consegui me livrar pois quem ligou foi a diretora do Centro, realmente desesperada procurando alguém. Não podia negar pois trabalhava lá e gostava dela, não queria fazer uma desfeita. Mas, como era a noite, pedi a meu pai para me buscar na porta da filial e me acompanhar no ônibus pois era num bairro meio perigoso à noite. Mas a coisa me irritava, ainda mais porque sabia que a maioria dos professores só fingia estar doente para tirar uns dias de folga e emendar os feriadões. E a gente é que tinha que trabalhar dobrado enquanto eles curtiam uma praia, iam a um cinema, ou simplesmente dormiam um pouco. Uma vez não aguentei: depois de uma dessas semanas de feriados, quando uma boa parte do corpo docente havia faltado, comentei na sala de professores (que estava cheia), fingindo ingenuidade e burrice: "Que coisa estranha! Ando percebendo que muitos professores ficam doentes nas proximidades dos feriados, será que é contagioso?". Silêncio embaraçoso. Uma das professoras que estava por trás da maioria dos outros, olhou para mim e mexeu com os lábios dizendo "é isso mesmo....". Quer dizer que eu não era a única a me incomodar com esse problema... só que fui a única com coragem, a despeito da minha "timidez", de soltar uma "indireta" como aquela, ainda por cima cheia de sarcasmo. Não me lembro de ter dado muitas aulas substituindo professores. A partir do segundo semestre, sempre dizia que meu horário estava todo tomado com turmas em outras filiais e outras atividades. Era desconfortável lecionar assim para uma turma que a gente não conhecia e, como eu não conhecia todas as lições e muitas vezes era designada para substituir professores de turmas mais adiantadas, tinha que chegar na filial mais cedo e estudar a lição às pressas para ver se compreendia bem a história, o nomes dos personagens envolvidos no diálogo, o vocabulário e a gramática. Felizmente, nunca tive grandes problemas com essas turmas (pois geralmente era de alunos já em fase de pré-vestibular e mais maduros e interessados nas aulas. E mais educados e respeitosos com o professor também.
Um dia, vi uma lista de nomes num papel pregado no quadro da sala de professores. Relacionava os que haviam sido selecionados para fazer o "curso de reciclagem" durante o mês de julho, as férias escolares. Carga horária de 15 horas. Pensei logo cá comigo, sentindo-me aliviada: "isso deve ser para os professores que já dão aula aqui há muitos anos e aí precisam relembrar os métodos, aprender técnicas novas, etc, eu acabei de me formar no curso de treinamento e estou com tudo fresquinho na cabeça". Quase caí para trás quando vi meu nome relacionado. Era justamente o contrário, o curso era para os professores iniciantes, uma espécie de "complemento" do treinamento que tivemos durante um ano inteiro. Quase morri de raiva! Será que esse pessoal do Departamento de Ensino nunca ia deixar a gente em paz? Será que nunca iriam confiar na nossa capacidade? Será que teriam que ficar sempre nos ensinando e avaliando? Além disso, ia perder minhas férias com essa bobagem ao invés de ficar em casa me distraindo e tentando esquecer aquele pesadelo todo. Perguntei a Angelica se era obrigatório. Ela disse que não mas.... que os professores deviam fazer, senão... sabe como é... Li perfeitamente as entrelinhas. E ela ainda me disse que havia muitos cursos de reciclagem pela frente.... Era o fim da picada, mais essa para me deixar mais desencorajada ainda!
O semestre se arrastou feito uma cobra preguiçosa, mas, felizmente, chegamos na reta final: a maratona de provas. Os diretores organizavam um "troca-troca" para que não aplicássemos os exames em nossa própria turma. Era um pouco desconfortável chegar assim numa turma estranha, sem conhecer os alunos que, a essas alturas, sempre pensavam que éramos os "carrascos", tão nervosos ficavam, principalmente nas provas orais. Aplicar as provas escritas era moleza: só distribuir e ficar lá vigiando para que ninguém colasse (e em turmas grandes ainda designavam um inspetor para nos ajudar na tarefa), depois recolher. As provas orais eram mais complicadas: os alunos estavam sempre muito nervosos. Tentava tranquilizá-los, dizendo que era só uma conversa (e pensando em mim mesma no lugar deles), falando devagar e pausadamente. Mas era difícil conseguir que respondessem alguma coisa. E como dar alguma nota se erravam praticamente tudo? Acabávamos nos baseando numa nota de avaliação que os professores da turma davam a cada aluno e, em casos mais complicados, consultávamos o professor depois da prova para saber se era só nervoso ou se o aluno, realmente, merecia ser reprovado. Para não dizer que não aconteceu nada pitoresco, quando fui aplicar prova na filial do centro, para uma turmas de crianças, preenchi as fichas com os nomes e as notas e, quando entreguei à diretora, esta olhou espantada e perguntou: "Você deixou os alunos preencherem as fichas eles mesmos? Não podia!". Muito sem graça, tive que dizer que aquela era minha letra mesmo, que sempre tive letra ruim... Que vergonha para uma professora, ter sua letra confundida com a de alunos recém alfabetizados!!! A diretora também ficou um bocado sem graça e mudou de assunto. A partir de então, tentei caprichar mais na letra, mas era difícil pois tínhamos que preencher tudo às pressas, para terminarmos de aplicar as provas no horário determinado, pois então era a vez das próximas turmas. Senti um alívio imenso quando tudo terminou, era maravilhoso me livrar daquele pesadelo, mesmo que por um mês apenas e mesmo tendo que fazer aquele curso abominável...
O "curso de reciclagem" nada mais era do que uma versão compacta do curso de didática... que tínhamos terminado há menos de 6 meses! As mesmas explicações sobre o método, os mesmos comentários, os mesmos conselhos, dicas e toca de praticar! Para meu suplício total, lá íamos nós fazer aquela pequena demonstração de aula novamente: slide, gravador, a mesma pantomima. A professora do curso era uma das supervisoras do departamento de ensino tida como das mais rigorosas e, eu diria, um tanto esnobe e antipática. Com isso, sentia-me ainda mais intimidada. Ter que me apresentar para ela e aquela platéia de "colegas", cada um querendo provar ser mais capaz e perfeito do que o outro! Durante as "demonstrações", a diretora ou demais colegas "brincavam de ser alunos", fazendo perguntas em Portugês (para ver a nossa reação que, devia ser, obviamente, de chamar a atenção e dizer que só era permitido falar Inglês), dizendo que não entendeu uma explicação, pronunciando algo errado. Mas era algo tão irreal, tão idealizado... todos ali já eram professores e os diretores tinham prática de anos e anos, impossível que pensassem que aquilo refletia uma aula de verdade! Os "alunos de mentirinha", após cometerem um erro, quando perguntados novamente (depois de ouvir outros alunos respondendo da maneira certa), dava-se conta do seu erro e, como mágica, pronunciava perfeitamente. Coisa que quase nunca acontecia numa aula real. Os alunos nunca precebiam que erravam e alguns, mesmo que perguntássemos um milhão de vezes e apontássemos o erro, continuavam errando. Tinha ímpetos de "incarnar um aluno de verdade" quando um outro colega qualquer estava dando uma demonstração e sair pela sala derrubando cadernos dos colegas, deitando embaixo da mesa do professor, fazendo uma pergunta sobre o resultado do jogo de futebol da véspera em alta voz para algum outro "aluno" no outro lado da sala e ficar cometendo os mesmos erros sem nunca ter aquele comportamento fingido de quem diz "ah, agora percebi meu erro!" e prontamente o corrige. Nada funciona desse jeito no mundo real, aqueles professores estavam sonhando ou o quê? Ou será que só eu pegava turmas de alunos endiabrados ou com grandes dificuldades de aprendizado? A julgar pelos exames que apliquei em turmas de outros professores, era tudo igual ou até pior do que meus alunos. Por quê então todos jogavam aquele jogo sem coragem de dizer que "O rei estava nú?". Medo de perder o emprego? puxa-saquismo? espírito de competição? ou talvez tudo isso junto? Meu estômago dava voltas e mais voltas toda vez que era chamada para uma demonstração, mas pelo menos não me lembro de ter tido aqueles ataques de dormência, talvez por já estar um pouco mais familiarizada com o método, mas fiquei sob tensão constante.