Vida de cão

 

A primeira aula era para uma turma de crianças na faixa dos 7 - 8 anos na filial perto do centro da cidade. Angelica também trabalhava nesta filial há alguns anos e já tinha me tranquilizado bastante dizendo que a diretora era um doce de pessoa - e realmente era. Muito gentil, tranquila e não ficava "na marcação cerrada" dos professores. Tratava-os mais como colegas do que como subordinados e "necessitando de vigilância constante". Isso me deixou bastante a vontade e era sempre bom já conhecer alguém por lá e poder me enturmar melhor com os outros professsores. Silvia também estava trabalhando nesta filial mas, não só nessa. Tinha conseguido muitas turmas e, a maioria delas de nível adiantado (o que é incomum pois, na maioria dos casos, os professores novos começam com as turmas do nível básico). Conseguiu até turmas na filial que ficava a dois blocos lá de casa e que era uma das mais disputadas (por ser um lugar de fácil acesso e famosa por ter alunos razoavelmente "calmos"). Pensei cá com meus botões que era uma imprudência designa-la para turmas adiantadas, pois cometia alguns erros bem básicos em termos de gramática e pronúncia. Mas, no final, vale mais o pistolão, a dedicação que mostrou no curso de professores... Não duvido que, depois de todos esses anos, já esteja ocupando algum cargo na diretoria. As turmas são sempre pequenas nos primeiros dias de aulas: muitos alunos e pais ainda entrando no ritmo de começo de semestre... alguns ainda no processo de matrícula, alguns ainda muito apegados às férias. Entraram comigo na sala, guiados pelo operador, 5 crianças. Pareciam muito engraçadinhas e sentaram-se quietinhas nas carteiras, sorrindo para mim. Parecia um bom começo! O curso de treinamento de professores (e posteriores "reciclagens") tinha uma falha muito séria e, diria, paradoxal. Num curso que, a cada semestre, se voltava mais para crianças, pré-adolescentes e adolescentes, a gente só treinada os procedimentos do curso básico. O método é bastante modificado no caso de crianças (algumas nessa fase ainda nem estão alfabetizadas completamente) e pré-adolescentes (mais dinâmico, com joguinhos, etc). E ninguém nos prepara para isso. O método para crianças também era baseado em slides e fitas cassettes, mas grande parte do tempo era tomado por atividades num caderno: as crianças coloriam, desenhavam, etc. Havia também músicas e joguinhos. As cinco crianças se mostraram receptivas e pareciam ter gostado de mim (sempre tive muito medo de lidar com crianças e adolescentes... geralmente têm um senso crítico aguçado e, porque não dizer, cruel. Pareciam detectar meu nervoso a quilômetros de distância. Adolescentes sempre me detestavam, nunca entendi direito por quê razão. Nem no tempo que eu era uma deles, fui aceita (pois já me consideravam uma "velha" por causa do meu comportamento, modo de falar, de vestir, de pensar, etc). Nesse primeiro contato, resolvi conversar com as crianças de maneira descontraída e conhecer um pouquinho cada uma delas. Em certo momento, começou a fazer calor na sala (as salas tinham as janelas trancadas ou então nem tinham janelas) e liguei o ar condicionado (não sem certo medo, pois nunca lidei com estes aparelhos). Quando estava mostrando um dos slides para as crianças, ouvi uns estalidos e vi que saíam faíscas do ar condicionado. Depois de um pequeno estouro, algumas pequenas chamas! Meu Deus!!! O que fazer!!! A porta de saída era bem ao lado do aparelho, estávamos praticamente encurralados ali, e se a sala toda pegasse fogo (ou mesmo o prédio todo! já ouvira muitas histórias de incêndios causados por esses aparelhos). Felizmente mantive o sangue frio (para não assustar as crianças) e, pelo interfone, chamei o operador que, imediatamente desligou a chave geral e correu para ver o que estava acontecendo. Graças a Deus as pequenas chamas se extinguiram quando a energia foi cortada e, com calma e devagar, fui guiando os aluninhos para outra sala, pensando cá comigo que não era uma boa estréia como professora quase morrer queimada junto com os alunos! Felizmente os alunos não se mostraram muito assustados (procurei distraí-los de todas as formas). O instinto materno, inerente de toda mulher, salvou a situação. Saí de lá satisfeita e entusiasmada, achando que até seria divertido ser professora desse curso.

 

No dia seguinte, começavam as aulas na filial da Zona Sul, crianças na mesma faixa etária. O diretor também gentilíssimo e sempre pronto a ajudar. Como a filial era grande, havia uma sub-diretora. Não gostei muito dela... um pouco convencida e mais do estilo "controladora dos professores". Dava ares de maior importância do que o diretor e mandava mais do que este. Mas, nunca chegou a me incomodar muito ou pegar no meu pé (no nível daquela supervisora no curso de Inglês lá da faculdade). Embora não simpatizasse totalmente com ela, não alimentava em minhas fantasias desejos de trucidá-la! Quando entrei na sala, o ar condicionado já estava ligado e estava um frio digno do Polo Norte. Tratei de desligá-lo correndo pois já tremia de frio. E entraram as crianças... umas 10 mais ou menos.... Levei um choque. Nada a ver com aqueles anjinhos sentadinhos sorrindo para mim na outra filial. 10 pestinhas que corriam pela sala toda, gritavam, não paravam quietas um segundo, totalmente hiperativas, com raras e louváveis exceções. Minha cabeça parecia rodar e me sentia totalmente perdida no meio daquela algazarra, sem saber o que fazer. Aos poucos, fui tentando conversar com as crianças e fazê-las sentarem um pouquinho. Havia um garoto que rivalizava com o Pimentinha. Não havia o que fizesse ele ficar sentado por mais de 2 minutos. Saía dando cambalhotas pela sala, correndo, mexendo embaixo da mesa do professor, tentando brincar com o gravador e o projetor (e me levando ao desespero). Havia também uma menininha que, ao que parece, era bastante mimada pois queria atenção total e exclusiva. Mas era muito esperta e de inteligência acima da média. Também não parava quieta e dava ataques toda vez que eu não prestava atenção ao que ela dizia. Mas não era justo com os outros aluninhos que estavam ali esperando minha atenção e, de certa forma, interessados na aula. Para acalmar um pouco os ânimos, resolvi que o melhor a fazer era pedir para eles colorirem uma das páginas iniciais do livro (e enquanto isso, teria alguns minutos de sossego para recuperar o fôlego). O "Pimentinha" gritou que detestava colorir e desenhar e que não queria saber disso. Mas quase todos os exercícios envolviam desenhos e colorir, o que fazer? E é um tanto raro criança que não gosta dessas atividades, penso eu... A "menina mimada" ainda não tinha o livro e se jogou no chão gritando histericamente. Tentei acalmá-la dizendo que ia arranjar um papel para ela desenhar e alguma colega podia emprestar lápis de cores mas ainda foi pior, creio que ela se sentiu humilhada e enciumada, pois correu pela sala jogando os livros dos colegas no chão, depois abriu a porta e saíu, e ficou do lado de fora, sentada no corredor, chorando. Algazarra novamente e eu sem saber se controlava a turma ou se ia buscar a menina. Com certo custo, consegui convencê-la a voltar para a turma e resolvi então que era melhor esquecer os livros por enquanto e mostrar uns slides. Mais uma vez o Pimentinha rolando por baixo da minha mesa tentando puxar os fios da aparelhagem! A aula das crianças era só de 1 hora (o curso básico e adiantado sendo 1 hora e meia). Estava contando os minutos e os segundos para me ver livre daquele caos e 1 hora parecia durar 10! Mas, finalmente, tocou o sinal e as crianças correram escada abaixo para encontrar os pais ou responsáveis (na maioria das vezes eram as avós) na sala de espera. Fiquei um tempo lá parada na sala vazia, quase em estado de choque. Minha cabeça rodava. Parecia que tinha enfrentado uma arena cheia de leões prontos a me devorar, meu cérebro parecia vazio, minhas corpo doía, acho que correr uma maratona seria menos cansativo. Quando contei, horrorizada, a algumas amigas, disseram logo "vai se acostumando, é assim mesmo!". Assim mesmo? Acostumar-se? Não sei...

 

No dia seguinte, o diretor desta filial me ligou perguntando se eu queria uma turma de pré-adolescentes que estava sem professor e era muito grande. Provavelmente teria que ser dividida. Como estava ainda empolgada de ser assim escalada para tantas turmas (quando pensei que nem seria aprovada), aceitei sem hesitar, com a maior das boas vontades, ainda mais que era logo em seguida à "turma dos pestinhas" e nem teria que ficar esperando sem fazer nada (e nem podia voltar para casa pois a viagem era longa de demorada devido ao trânsito intenso - e também porque só uma linha de ônibus me deixava perto de lá). Essas aulas eram as terças e quintas na parte da tarde. Na próxima quinta, fui enfrentar de novo a turma de crianças. Pelo menos a "mimadinha" já tinha o seu livro e estava mais calma. Mas, mesmo assim, foi um verdadeiro pandemônio. E o diretor me levou então para a sala onde já estavam reunidos os pré-adolescentes (na faixa dos 12, 13 anos). Ao que parece, tinham tido a primeira aula com outra professora - que, penso eu, adoraram, pois quando o diretor avisou que viria uma nova professora - a definitiva (no caso, eu), ouve uma orquestra de muxoxos e caras feias. E assim fui "recebida" pela turma. Percebi que foi "ódio a primeira vista". Não sei se por conta de terem gostado da outra professora (que nem sei quem era), não sei se pelo fato de eu ser tão desajeitada (as crianças não detectavam isso, aparentemente, mas os adolescentes sempre viam logo que eu era "diferente", uma "figura" - triste figura, diria eu). Lá estava eu naquela sala apinhada, com mais de 20 alunos olhando para mim e só distinguia expressões de ódio, raiva, frustração, má-vontade ou, na melhor das hipóteses, indiferença e desânimo). Tentei ser o mais simpática possível e, segundo as intruções do curso de professores, a primeira coisa que fiz foi me apresentar - e escrever meu sobrenome no quadro de giz. O curso tinha uma política de chamar cada professor por um nome e não aceitava repetições, a fim de simplificar a identificação. Como já existiam muitas Marias, Lucias e Marias Lucias, decidiram que seria conhecida no curso pelo meu sobrenome. Os alunos caíram na gargalhada e alguns até se jogaram no chão de tanto rir. A princípio, não sabia o motivo para tanta graça, até que me explicaram que o sobrenome lembrava muito o nome de uma raça de cachorro (eu nem tinha me tocado disso!). Depois das gargalhadas, a turma inteira começou a latir e a uivar em coro, como se tivessem ensaiado. Tive vontade de morrer ali mesmo, naquele momento. Achei que a melhor política era "levar na esportiva" e entrar no jogo deles, pois se me mostrasse indignada e ofendida eles não me deixariam mais em paz. Se mostrasse indiferença, eles iriam acabar se cansando da brincadeira. Ao que parece, estava totalmente enganada. Eles nunca se cansaram. Resolvi então começar a aula, pois não havia muito tempo a perder. Se o curso de crianças era mais flexível, os demais seguiam um roteiro bem determinado e tínhamos que terminar cada lição em 3 aulas mais ou menos. Mas, a não ser por uns 4 alunos, ninguém sequer prestava atenção ao que dizia e, demonstrando falta de respeito total, enquanto eu estava dando alguma explicação, um dos alunos (o pior deles) simplesmente gritava para um outro do outro lado da sala "e aí, como foi o jogo de ontem? Quem venceu?" e coisas no gênero. E o outro aluno respondia, também aos berros, como se eu simplesmente não existisse. Tentei aplicar a técnica tão louvada pelo departamento de ensino: tentar chamar a atenção do aluno fazendo perguntas sobre a matéria, etc. Além de não responderem, ainda debochavam de mim e continuavam o seu "papo". Resolvi que era então melhor aplicar o bom e velho método: dei-lhes uma bronca. Também não adiantou nada. A turma começou então a fazer um zumbido, outra vez como se tivessem ensaiado. Pedi para pararem com aquilo. "Parar o quê, professora? Ninguém está fazendo nada!". Pensei que ia enlouquecer. A aula terminou e saí do curso arrazada e sem saber o que fazer. Como iria aguentar aquela turma um semestre inteiro se, numa única aula de 1 hora e 15 minutos tinha tido vontade de morrer umas 10 vezes? Chorei durante toda o longo trajeto de volta para casa, com vontade de sumir. Liguei correndo para Gabriel, a fim de "chorar as mágoas" e pedir alguns conselhos. Este não se mostrou muito surpreso e disse que, infelizmente, não havia muito o que fazer... O curso tinha uma política bastante comercial - era um dos mais conceituados na época e por todos os lados pipocavam outdoors e anúncios na TV, era o curso da moda! Em consequencia, era um dos mais caros. Os alunos pagavam caro e, com isso, a diretoria e o departamento de ensino via os professores meramente como funcionários pretadores de serviço. Os alunos eram os "clientes" e, por isso, ditavam as regras. Os pais pagavam muito caro para manterem os filhos o mais longe de casa possível e não queriam ser incomodados com problemas escolares. Em suma, éramos meros escravos. Não havia mais os velhos conceitos de respeito ao professor, aquela idéia de que este é quase como um complemento dos pais, educando e ensinando. Comentou também que a coisa corria ao inverso do nível de poder aquisitivo. Nas filiais de bairros humildes, os alunos, de famílias sem muitas posses, eram muito mais obedientes e respeitosos. Quanto mais se aproximava da Zona Sul, os "filhinhos de papai", mimados até os fios de cabelos, não tinham nenhum respeito nem mesmo pelos pais, quanto mais por professores. E esta filial para a qual fui escalada tinha fama de ter os alunos mais desrespeitosos e agitados. Agora eu começava a entender o porquê de terem me dado aquelas turmas! Eram refugos, turmas que nenhum outro professor queria pegar... Comecei a me sentir uma lata de lixo.

 

No sábado, a primeira aula para os adultos, na mesma filial da Zona Sul. Já tinha experiência com adultos por conta do outro curso e me sentia mais segura e à vontade. A turma era pequena e a grande maioria dos alunos era de origem bastante humilde, muitos trabalhavam em casas de família daquela área e queriam estudar Inglês para ter uma vida melhor. Muito louvável e dignos de respeito e admiração. Mas... o nível intelectual era dos mais baixos e a maioria deles nem conseguia escrever seus próprios nomes corretamente, quanto mais escrever algo em Inglês! Quando escrevi no quadro palavras com Y e/ou W, a maioria nunca tinha nem ouvido falar ou visto tais letras em suas vidas (posto que foram eliminadas do nosso alfabeto em uma das reformas ortográficas mais recentes). Pareciam estar olhando para símbolos cabalísticos. Não conseguiam escrever as letras nos exercícios. Alguns alunos eram esforçados e, com algum esforço, iam aprendendo alguma coisa. Outros pareciam não entender uma palavra do que eu dizia e, por mais que explicasse e mesmo traduzisse, simplesmente nada parecia fazer sentido. Pelo menos a aula corria num clima calmo e civilizado e era sempre um oasis depois daquela loucura toda com as crianças e adolescentes mas sentia como se estivesse enganando os alunos e "ganhando dinheiro fácil". A maioria deles nunca iria aprender, isso era bem evidente. Mas não se pode chegar para uma pessoa e dizer "olha, desista, você nunca vai conseguir aprender isso. Está acima de sua capacidade intelectual". Impensável, ainda mais para uma professora dizer algo assim. Engraçado, a maioria das pessoas se sente bastante ofendida com tal observação, o que é compreensível, mas não creio que todos tenham capacidade para tudo nesta vida. Tudo depende de talento e predisposição, até o estudo de línguas. Nem todos nascem com o dom de pintar quadros, nem todos têm facilidade em matemática (e me incluo no grupo que têm muita dificuldade), nem todos têm talento para aprender línguas estrangeiras. Eu reconheço minhas limitações: nunca fui boa em química e matemática. Sou um desastre em esportes. Tenho talento para muita coisa, mas também muitas limitações em outras áreas - como todo mundo. Mas acredito que todos pensem que podem aprender língua estrangeira... E nem depende de nível intelectual, depende talento mesmo! E os alunos sempre me perguntando quando iriam realmente começar a falar Inglês (pois os cursos sempre anunciam: fale Inglês logo na primeira aula! ou então "fale Inglês em 3 semanas). Acho isso uma fraude e sempre fui sincera com os alunos nesse ponto. Aprendizado de língua estrangeira é coisa para a vida inteira, ninguém aprende a falar fluentemente uma língua em dois dias ou duas semanas, a não ser que seja um gênio. Fiz cursos, faculdade de Inglês, lecionei, agora moro nos EUA há 4 anos e não me considero uma "expert". Não há um dia em que não aprenda algo novo. Enfim, tinha a impressão que todos os meus esforços com esta turma de alunos eram em vão. Muitos professores não ligam para o fato dos alunos estarem aprendendo ou não: "a gente ganha o mesmo salário, independente disso", mas não pensava assim. Parecia que todo o meu trabalho era inútil e jogado fora. Muitos alunos iam desistindo ao longo do curso, a turma ficava cada vez menor (e é sempre assim em turmas de adultos). Tinha pena deles. Alguns eram muito esforçados, mas nem tinham tempo de estudar e era outra das coisas que sempre dizia ao alunos: Ninguém aprende só assistindo aulas. 80% do aprendizado é em casa decorando vocabulário, estudando as lições, fazendo os exercícios. O professor só aponta o caminho, cabe aos alunos caminharem. 

 

Além de tudo, não conseguia ser uma professora organizada. Tinha uma dificuldade terrível de guardar o nome dos alunos, sempre confundia todo mundo. Como muitos alunos chegavam atrasados, deixava para fazer a chamada lá pelo meio da aula, depois da apresentação do diálogo ou algo parecido e, no meio de tanta balbúrdia e totalmente atordoada, na maioria das vezes acabava esquecendo. No final, ia no "achômetro" pois, com memória ruim daquele jeito, lembrar nomes e quem estava ou não era complicado. E tinha muitos detalhes a preencher nas fichas, incluindo as notas dos exercícios de casa e os passos da lição que haviam sido dados em cada dia. Algumas vezes simplesmente esqueci-me totalmente da existência das fichas de chamada e as deixei em branco por vários dias, coisa que me deixaria em maus lençóis se algum diretor descobrisse pois era preciso, principalmente, anotar o que tinha sido ensinado para o caso de termos que faltar e o professor substituto saber onde paramos.

 

Tirando a aula na filial perto do Centro, o resto era uma tortura só, principalmente nas terças e quintas com aquelas pestinhas e os adolescentes mal educados. Pegava o ônibus e me sentia indo para um campo de concentração ou animal indo para o matadouro. A viagem também era penosa, principalmente na volta. Já quase na hora do rush, o ônibus ia lotado e, na maioria das vezes, tinha que ir em pé, esmagada, empurrada, espremida. E depois de certo trecho, começava o engarrafamento e levava horas para percorrer um pequeno trecho. E ia assim até o meu bairro. Além disso, um dia, quando entrei no ônibus, um grupo grande entrou junto comigo e começou a me empurrar e espremer. Senti minha bolsa ficando para trás, esmagada na multidão e ficava puxando. Quando fui passar na roleta, o rapaz na minha frente me deu dois pisões no pé, obviamente propositais para me deixar desorientada. Com o pé doendo muito, percebi que, no meio daquela confusão, abriram minha bolsa e roubaram minha carteira, com talão de cheques, carteira de identidade e outros documentos. Foi uma trabalheira para bloquear cheques (e pagar altas taxas no banco por cada cheque bloqueado), tirar segunda via de documentos, e, principalmente, me recuperar do trauma. Passei a pegar o metrô até certa parte do caminho e então pegar um ônibus menos cheio para o resto do percurso.

 

Depois de umas 3 aulas (quer dizer, de tentativas de falar alguma coisa pois, na maioria das vezes, nem conseguia ouvir minha própria voz no meio do falatório dos alunos ou dos "latidos" - pois os alunos não desistiam), o diretor apareceu dizendo que a turma era muito grande e seria dividida. Perguntou quem queria ir para a outra turma. Quase todos levantaram o dedo. O diretor então decidiu que seria pela sorte, e foi dizendo números a esmo enquanto eu dizia a quem correspondia na ficha de chamada. Os alunos selecionados para a outra turma davam pulos e comemoravam alegremente - e eu me sentindo um lixo desprezado. Os alunos que ficaram, com algumas exceções, resmungavam e lamentavam a "falta de sorte". Felizmente muitos dos mau educados foram para a outra turma, mas ainda ficaram uns dois ou três da pior espécie no meu grupo (incluindo aqueles dois que gostavam de conversar sem dar nenhuma pelota para o fato de que eu estava no meio de uma explicação). Sofri toda a sorte de humilhação com esse grupo. Um dia, deixei a turma sozinha por alguns instantes para buscar algum material didático e, quando voltei, tinha rabiscado todo o quadro de giz com nomes de cachorros e escondido o apagador. Outra vez, tive que pegar um aluno e praticamente arrastá-lo escada abaixo segurando pela camisa até a sala do diretor - o que não adiantou nada. Algumas alunas eram aplicadas e resolveram pedir para mudar para outra turma mais civilizada - e não as culpei e nem guardei rancor por isso - tinha até inveja delas de poderem fazer essa opção... a minha vontade era de fazer o mesmo. Certa feita, dois dos alunos, no final da aula, começaram a brigar de brincadeira, dando chutes para todos os lados e se atracando. Acabaram derrubando minha mochila no chão (espalhando o conteúdo por todos os lados) e caindo por cima de mim - que fiquei imprensada entre a mesa do professor e o quadro de giz, fiquei toda dolorida. Achei que era demais e resolvi me queixar com o diretor. Este foi amável como sempre e disse que ia ter uma conversa séria com a turma. Realmente foi lá e falou com eles... mas não adiantou nada de nada, o diretor era muito tolerante, paciente demais, a bronca acabava se esvaziando e eu, fazendo papel de palhaça mais uma vez e perdendo ainda mais minha autoridade. Quando passava pelo corredor, os alunos começavam a latir e a uivar (e fizeram isso durante os dois anos que lecionei naquela filial, mesmo não sendo mais meus alunos), eu sempre fingia não ouvir - ou não dar nenhuma importância, mas me sentia muito humilhada e também com muita raiva. Havia umas duas meninas meio sonsas que, embora não fizessem muita bagunça, tampouco prestavam atenção à aula. Um dia dei uma bronca geral e incluí as duas. Estas acharam-se injustiçadas e foram se queixar com a sub-diretora sem que eu soubesse. Um dia esta apareceu dizendo que sabia que a turma era terrível e queria assistir um pouco da minha aula para ver se podia dar algum conselho. Não achei nada demais, mas me senti pouco a vontade, mesmo sabendo que não era a "avaliação formal" com relatório, etc. No final, ela concordou que alguns dos alunos eram insuportáveis e que era praticamente impossível dar aula, mas não havia muito o que fazer. Só mais tarde soube, por meio da mãe de uma aluna que me estimava, que havia sido um "complô" das duas sonsas contra mim. Esta mãe estava indignada e disse que estava solidária comigo, pois a filha tinha comentado com ela as humilhações que eu sofria com aquela turma. Agradeci a atenção, comovida. Pelo menos alguém se importava e tinha pena de mim!

 

Ouvi falar de professores que, quando tinham problemas assim com uma turma, simplesmente batiam o pé, iam falar com o diretor, choravam e ficavam firmes na decisão de não querer continuar com a turma. Depois de muita negociação, acabavam encontrando uma saída. Mas não tinha coragem de me abrir com o diretor. Pensei até em apelar para Sandra, quem sabe ela podia me livrar desse apuro, mas também não me animei. Afinal, mesmo se havia casos de professores que "batiam o pé", a maioria parecia não se incomodar nem um pouco com a indisciplina ou com insultos de alunos. Muitos até gostavam. A professora que dava aula na sala ao lado da minha provacava ela mesma tal algazarra por conta de joguinhos e brincadeiras que os alunos gritavam e pulavam a ponto de incomodar... alguns outros professores até reclamavam. Vai ver foi ela que deu aquela primeira aula para a turma "junior" e fez com que eles, sentindo o contraste, me detestassem.... Dar aula para turmas de crianças tinha também outro "inconveniente". Em épocas de festas tipo Páscoa, Halloween, Dia das Crianças, Natal, etc, os professores tinham que fazer enfeites para decorar a sala e brindes para os alunos, com material fornecido pelo curso. O nosso trabalho extra colorindo, colando, montando, era pago, mas, creio eu, não compensava... Eu, que sempre gostei tanto de trabalhos manuais, fazia tudo com a maior má vontade, só por obrigação mesmo. Alguns professores simplesmente adoravam e se superavam. Enchiam as cestinhas com papéis franjados cheios balas e doces (e aí já era por conta do bolso delas mesmo), faziam altas festas. Eu me limitava ao mínimo obrigatório. Uma vez, na filial do Centro, insistiram para que eu fosse o "Coelhinho da Páscoa". Tinha  que colocar uma fantasia, pintar o rosto com os bigodes e visitar outras turmas de crianças daquele horário. Em contrapartida, uma outra professora se fantasiaria para visitar a minha. Sem saber dizer não, acabei aceitando, mas acho que fui o Coelhinho da Páscoa mais sem graça que as crianças já viram. Outras professoras adoravam essas coisas. Mais uma vez tive certeza de que estava na profissão errada e que não tinha nascido para ser professora. Afinal, para que eu tinha nascido então?

 

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